o elogio da loucura


Por Ricardo Araújo Pereira

Quando, como acontece agora, o mundo está todo ao contrário, a voz da razão é a dos idiotas. Como é evidente, estes são tempos gloriosos para mim. Que o mundo está de pernas para o ar, julgo que ninguém contesta: despedir em massa é coragem, roubar salários e pensões passa por sensatez, insistir em medidas que comprovadamente não resultam é determinação, falhar todas as previsões revela competência. O Governo tenta legislar, violando a lei. Um comentador convoca o Conselho de Estado e o Presidente confirma. Parte do Governo propõe uma coisa à sexta-feira e outra parte propõe o contrário ao domingo. Um ministro aceita uma medida que tinha considerado absolutamente inaceitável. O Governo apresenta a medida mas, em princípio, não quer aplicá-la.

Tendo em conta que, por defeito profissional, prefiro o caos à ordem, a loucura à sensatez e o absurdo à lógica, vejo-me obrigado a apoiar o Governo - muito contra a minha vontade. O cuidado que Paulo Portas tem posto em delimitar limites que não devem ser ultrapassados para depois os ultrapassar é, para mim, admirável. As suas palavras exactas foram: "Num país em que grande parte da pobreza está nos mais velhos e em que há avós a ajudar os filhos e a cuidar dos netos, (...) creio que é a fronteira que não posso deixar passar." Poucos dias depois, passava a fronteira. Mais ou menos clandestinamente, porque se recusava a admitir que tinha passado a fronteira, mas passava. Passava a fronteira a salto, como antigamente. E acaba por ser estranho que um homem que é ministro dos Negócios Estrangeiros tenha tantas dificuldades em guardar as fronteiras. Julgo que se criou um espaço Schengen nas fronteiras que Paulo Portas impôs à austeridade grotesca: as medidas passam todas. Há liberdade de circulação de medidas recessivas nas fronteiras de Portas.

Por outro lado, as fronteiras de Paulo Portas eram tão ideológicas quanto morais. Era a consciência do democrata-cristão que não podia deixar passar os cortes nas reformas. Ou seja, nem o facto de ter deixado passar uma medida que, se alguém descobrir, não se sabe bem como, um modo de gerar poupança idêntica, não será aplicada, o redime. Porque um cristão não peca apenas por actos. Também peca por palavras e pensamentos. Esta medida pode nunca chegar a ser um acto, mas já é composta de palavras, e exprime um pensamento - embora enjeitado. O CDS já pecou, quer queira quer não. A expiação, em princípio, faz-se no confessionário e nas urnas. E o número de votos é capaz de ser inversamente proporcional ao número de padres nossos que Paulo Portas vai ter de rezar.

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