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um dia fui um ser humano

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"Trabalhei em muitas profissões diferentes, duma ponta à outra do país. Da construção civil a call centers. Vivi sozinho em cidades estranhas. Nunca poderá ser dito que os sítios onde trabalhei se adaptaram a mim. Eu é que me adaptei ao trabalho. Começou a guerra aberta aos trabalhadores, à qual alguns, descaradamente, se atrevem a chamar 'crise'. Vieram os gafanhotos dos bancos e vieram os credores. Veio um milhão e meio de desempregados, uma massa humana de famintos e desesperados, como os patrões gostam, para lhes poderem dar trabalhos de 300? e ainda rir-se com soberba na cara deles; rir-se bêbados com o prazer mesquinho de quem põe e dispõe da vida alheia. Descobri que estava a ser despromovido. É que não me querem como ser humano, nem a mim nem a vocês: querem-nos como animais de carga. Eu nem para animal sirvo. Enviei milhares de currículos, mas... sou velho de mais, doente de mais. Foi assim que saltei directamente de ser humano para dano colateral. Um ...

os inimputáveis

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Por Nuno Ramos de Almeida http://www.ionline.pt No dia das eleições autárquicas, o Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, sossegou o governo dizendo que a sua permanência não estava dependente da votação do povo. Para dizer a verdade, mesmo que o primeiro-ministro fosse apanhado em flagrante a cometer um crime de delito comum (entenda-se com um enquadramento jurídico diferente dos desmandos que pratica habitualmente contra a população portuguesa), só haveria uma certeza: o Presidente Aníbal ia fechar os olhos e garantir-lhe a sua total cumplicidade. Este clima de impunidade contagiou todo o governo. A ministra de Estado e das Finanças garante nunca ter visto um swap, semanas depois prova- -se que participou em pareceres sobre os ditos na sua prévia actividade profissional. O ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, Rui Machete, que pede desculpa ao governo de Angola por investigações da justiça portuguesa e garante que estas não vão dar em nada. Quando a...

não há becos sem saída

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Por Nuno Ramos de Almeida http://www.ionline.pt Àqueles que dizem que este inferno é inevitável respondemos que não nos resignamos. Este país é nosso. Não seremos expulsos pela troika. Impensável é viver assim No dia 22 de Setembro mais de 150 activistas de vários movimentos sociais reuniram-se em Lisboa para iniciarem o processo conjunto de uma manifestação em "construção". As pessoas presentes são diversas e com opiniões plurais, mas concordam que toda a gente tem o direito de decidir o seu futuro. Para elas a democracia é uma prática permanente de dar poder aos cidadãos. Como disse alguém na sala da reunião: "Queremos recuperar o direito a pensar no futuro." Como se verificou ao longo da história são os povos e as sua manifestações que traçam o destino; aos tiranos de turno costuma estar reservado, nessas páginas, o pequeno lugar no armário em que costuma aterrar gente da estirpe de Miguel de Vasconcelos. Cada um tem as suas razões para...

a liberdade, essa força de bloqueio

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Por Nuno Ramos de Almeida http://www.ionline.pt O Tribunal Constitucional considerou ilegal o projectado despedimento sem justa causa de trabalhadores da função pública. Como assinalaram os juízes e foi sublinhado neste jornal pelo director, Eduardo Oliveira e Silva, tal despedimento punha em causa a independência da administração pública. No dia em que os sucessivos governos puderem despedir trabalhadores sem nenhuma razão válida, vão substituí- -los por boys da cor partidária. Em vez de termos uma função pública para produzir serviço público para todos, vamos ter um gigantesco aparelho partidário para garantir a eleição do chefe de turno. A medida tornaria todos os funcionários contratados a prazo, com o emprego dependente do agrado de um qualquer comissário político governamental. O ministro Poiares Maduro veio recentemente apelar a uma interpretação da Constituição adequada aos tempos de crise em que vivemos. O que contaria não seria a lei que lá está escrita, mas a ne...

a vida é perigosa

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Por Nuno Ramos de Almeida http://www.ionline.pt O real primeiro-ministro para além de Massamá, o doutor Paulo Portas, produziu alguns considerandos sobre o papel pernicioso da utopia na história. Nada que assuste muito a dita cuja, que certamente fará, como qualquer ideia séria, orelhas moucas a sound bites parlamentares, mas não deixa de ser matéria-prima para um diário, que, como notava Manuel António Pina, estará amanhã, como todos os jornais, a embrulhar o peixe. Portas defendeu que as utopias eram perigosas e que em política a falta de adesão à realidade sai cara. Em geral, os dignitários da direita embirram com o desejo dos povos de não aceitarem aquilo que lhes é dado como inevitável, isto apesar de o nosso actual Presidente ter feito encomiásticos elogios a Thomas Mann pela escrita da "Utopia" de Thomas Moore. Um perigoso subversivo, com a característica simpática de viver com duas gémeas, defendia que a prova do pudim está no pudim. De alguma for...

depois do 2 de março

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Por Nuno Ramos de Almeida http://www.ionline.pt Em 15 de Fevereiro de 2003, mais de 18 milhões de pessoas saíram à rua em todo o planeta contra uma guerra anunciada. No dia seguinte o insuspeito “New York Times” escreveu que tinha nascido uma nova superpotência. Não falava de um país, mas das pessoas que com vontade e determinação ocuparam as ruas do planeta. No dia 2 de Março de 2013 as ruas de Portugal foram pequenas para as muitas centenas de milhares de pessoas que expressaram a sua vontade de ser actores da sua própria história. Nada será igual. Como anteriormente, surgiram comentadores solícitos a tentar desvalorizar o país que saiu à rua. Garantem-nos que tudo continua igual. Temos Cavaco Silva em Belém, Passos Coelho em São Bento e a troika, que vela por nós no céu. Afiançam-nos que mesmo que o país seja arrasado por uma catástrofe natural existirá sempre o Memorando para nos guiar para o além dos de- sempregados. Os comentadores podem continuar a ladrar ma...

a liberdade está a passar por aqui

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Por Nuno Ramos de Almeida http://www.ionline.pt O maior filósofo de origem portuguesa viveu em Amesterdão. Bento Espinosa e a família fugiram aos archotes da inquisição numa época em que a liberdade não existia em Portugal. Na sua obra defendeu que a soberania não tinha origem nas instituições, que a origem dessa estranha potência residia no povo em movimento. O povo não aprisionado em instituições era o excesso que estava na base do poder constituinte da liberdade. Diríamos hoje que a democracia tem de ser o regime em que o sujeito é o povo. Algo que é muito diferente da ditadura dos governantes. Os poderosos e os seus acólitos esqueceram convenientemente que a democracia não é apenas o acto de eleger um parlamento: só há democracia a sério se as pessoas tiverem a liberdade de se opor a políticas e governos injustos. A democracia mede-se pela possibilidade de dizer “não”. O actual governo foi a eleições defender que baixava os impostos, não cortava nos subsídios e nos sal...

and now for something completely different

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Por Nuno Ramos de Almeida http://www.ionline.pt Quem assiste à telenovela mexicana que sucede no PS, pode ficar interessado no desempenho dos actores, nas suas palavras assertivas, nos actos grandiloquentes, no foguetório e no barulho das luzes, dificilmente perceberá o que divide os putativos concorrentes. “Unir o partido”, “motivar os portugueses”, “ser o melhor candidato” são tudo fórmulas de oratória ao nível da discussão em programa televisivo dominical sobre futebol. São uma espécie de arrufos de sentimento falso numa política que perdeu conteúdo e sentido. A transformação da política em mera administração das coisas, tal como a troika as quer, esvaziou a democracia e tornou o Partido Socialista uma espécie de co-gestor fofinho dos interesses que mandam. PSD e PS governam por turno, com a mesma pauta governamental, sendo que os socialistas portugueses alimentam os negócios dos banqueiros deitando uma lágrima pelos pobrezinhos, e os governos de direita acham que o...

um gesto que abalou o mundo

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Por Nuno Ramos de Almeida http://www.ionline.pt Parecia um dia como outro qualquer, 1 de Dezembro de 1955. Uma costureira de 42 anos sentou-se no autocarro nos lugares disponíveis para “gente de cor”. Na cidade de Montgomery, no estado do Alabama, a lei dizia explicitamente que quando os brancos não tivessem lugares sentados podiam obrigar os negros a levantar-se, e se o veículo estivesse muito cheio os negros podiam ser despejados para a rua. Nesse dia vários brancos entraram no autocarro e muitos negros levantaram--se dos seus lugares. Mas não todos. Rosa Parks recusou fazê-lo. “Estou cansada de ser tratada como uma pessoa de segunda classe”, disse ao condutor. O funcionário chamou a polícia. A mulher foi presa por não aceitar ser tratada como escrava. Nesse mesmo dia, os habitantes negros da cidade de Montgomery deixaram de andar de autocarro. São os pobres que viajam nos transportes públicos. São os pobres que trabalham por salários de miséria. São eles que cri...

o ano de todos os perigos

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Uma certa alergia à legalidade constitucional Por Nuno Ramos de Almeida http://www.ionline.pt Se um dia os portugueses, sentindo que não tinham nada a perder, pura e simplesmente deixassem de obedecer: não pagassem impostos crescentemente injustos, recusassem ser despejados de suas casas, se negassem a desembolsar exorbitantes aumentos de transportes e ocupassem as empresas fechadas e os milhares de casas devolutas, como poderia qualquer governo sobreviver apenas pela repressão quando milhões o ignoravam activamente? Quem está no poder tem de perceber que manda porque as pessoas aceitam obedecer e que esse facto é garantido pelo facto de as populações acharem que a democracia é um regime legítimo em que os governantes não estão acima da lei. E que as leis da República são justas e iguais para todos. A troika e os governos que executam as suas ordens acham que a lei, a democracia e a liberdade são descartáveis e que tudo se deve subordinar aos seus planos de austerida...

o ovo da serpente

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Por Nuno Ramos de Almeida A activista Paula Montez foi constituída arguida na sequência dos acontecimentos na manifestação da greve geral de 14 de Novembro. O seu processo é um requisitório de ilegalidades e más práticas. Foi notificada inicialmente por telemóvel. A forma de contacto tem ainda a curiosidade de o aparelho não estar registado em seu nome e no entanto o Ministério Público ter conhecimento dele. É acusada com base em imagens e fotografias cuja recolha não foi autorizada previamente, nem por um juiz, nem pela Comissão de Protecção de Dados. Nessas imagens de péssima qualidade é visível que tem um objecto na mão. É relatado por “testemunhas” (vulgo agentes infiltrados) de ter atirado não 19, nem 21 pedras à polícia, mas 20 calhaus da calçada às autoridades. Paula Montez responde no seu mural do Facebook: “Todos os que me conhecem sabem que não sou pessoa para andar a atirar pedras à polícia, que sempre defendi a estratégia da não violência, da desobediência civil ...

o pin do chinês

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Por Nuno Ramos de Almeida http://5dias.net/ Sempre que vejo o primeiro-ministro Passos Coelho e o seu grupo de alegres ministros com um pin da bandeira nacional na lapela lembro-me da série britânica “Yes Prime Minister”. Num conhecido episódio, um assessor de comunicação explicava ao governante Jim Hacker que se ele queria apresentar na televisão uma medida revolucionária convinha que viesse vestido de fato e gravata e que o cenário fosse um fundo clássico com tons de madeira conservadores, usando o genérico da dita comunicação um curto intróito da música clássica em passo de ganso. Pelo contrário, caso a mudança proposta fosse para deixar tudo como estava, convinha que o ministro fosse vestido informalmente, com um traje jovem, que o fundo fosse uma obra de arte moderna berrante e que a música escolhida para a função, fosse pelo menos tão moderna como a difícil “Sagração da Primavera”, de Stravinsky, mas de preferência uma obra de electrónica contemporânea. Cada vez que observo um ...