não esquecerei
Por mais anos que viva, nunca esquecerei estes tempos, esta tragédia que se abateu sobre mim, a minha família, muitos dos meus amigos, a maior parte dos portugueses.
Não vou esquecer uns governantes em cima de quem já foram gastos todos os adjectivos, todas as pejorações, mentirosos, desumanos, reles, ladrões, pulhas, corja, patifes, bandidos, salafrários, traidores à pátria, apostados em empobrecer todo um país em prol dos seus amos, sejam lá eles quais forem porque o grande capital não tem rosto nem nacionalidade.
Não vou esquecer um presidente titubeante, enfraquecido por rumores e escândalos que afectam a sua reputação, e que não soube agir e não expulsou as criaturas que abocanharam o poder para melhor nos abocanhar, que não defendeu o povo que tinha jurado proteger.
Não vou esquecer o maior partido de oposição, com um líder de faz-de-conta, uma marioneta de papelão, um erro de casting colossal, o menino da lágrima em complexada maturidade, uma inutilidade sem influência, sem voz, sem credibilidade.
Não vou esquecer os outros partidos mais à esquerda que, por facciosismos inoportunos, por pergaminhos ultrapassados, por ideologias estagnadas, não se souberam unir e atrair as gentes para a sua causa, uma causa que é de todos, que atinge a nossa própria sobrevivência.
E não vou esquecer que foi o povo, sozinho, sem organização, sem caudilhos,que foi para as ruas e deu o primeiro passo, ele sim e não o presidente ou as oposições, para reverter a situação e nos libertar do jugo neoliberal-fascista, nos livrar da condenação à escravatura. Povo de quem eu tinha já perdido a fé e que foi, afinal, quem me renovou a esperança. Não. Esta história não vai acabar aqui. E muito menos assim.


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