16/05/13

fátima e vaselina e que deus me perdoe






São imagens de Fátima em tempos que já lá vão. Vão mas voltam. Ontem jogou o Benfica e, só para dar um exemplo, o Terreiro do Paço meteu mais gente do que em muitas manifestações onde se grita pela vida, pela dignidade, pela justiça social. Isto vai meus amigos, isto vai. O Cavaco lembra Tomás. Olhamos para Coelho e evocamos Salazar. A pobreza alastra. A era da sardinha para quatro ou cinco não tarda aí. É só nós querermos. E queremos. Bebamos vinho e alimentemos um milhão de portugueses. Celebremos o império. Festejemos as vitórias do Benfica, do Sporting, do Porto, da Académica, do Belenenses, sobretudo do Belenenses, clube do Tomás que já não ia lá desde a última vez que lá foi, e reparem como a História se repete, há mouros na costa e balhelhas em Belém. Isto vai meus amigos, isto vai. Se não vai a bem vai a mal. Custe o que custar. Sem pieguices. Vai nascer um novo Homem, a bem da Nação, atento, venerador e obrigado, vergado a poderes e foderes. Isto vai. Olá se vai. A vaselina é barata.

Imagens: http://restosdecoleccao.blogspot.pt

tijolo a tijolo

Por Fernando Dacosta

Os portugueses sabem hoje que os contratos feitos ontem não são garantia de nada, que a corrupção, o surripianço, a vigarice, a impunidade se tornaram morais, que viver dentro das suas possibilidades significa a miséria na comida, na saúde, no agasalho, na assistência, na educação, na cultura, no conforto, significa não ter aquecimento no Inverno, recorrer às meias-solas nos sapatos, aos fatos virados, à carne duas vezes por ano, à autocensura; significa descrer dos que combateram pela democracia, pela liberdade, pela justiça, pelo desenvolvimento.

Como mobilizar as pessoas se elas apenas vêem ser premiados os carreiristas, promovidos os subservientes, festejados os oportunistas, retribuídos os videirinhos, protegidos os corruptos?

A distância entre nós e a Europa (somos o país dela onde menos se ganha e mais se retribui) aumentou, afinal, com a integração comunitária, com a moeda única, com a (ludibriante) ajuda dos seus fundos. Não passamos afinal de servos entrados nas cozinhas dos senhores, pensando que éramos da sua família.

Tijolo a tijolo o edifício da dignidade vai ruindo. Tudo aquilo que conseguimos juntar, casa, carro, poupanças, conforto, está a ser penalizado, esbulhado.

O número dos destruídos pelo ultraliberalismo suplanta já o dos destruídos pelo fascismo. O fosso entre os integrados no regime e os excluídos dele não pára de crescer. O país fractura-se. Uma “guerra civil” lavra subterraneamente – com outro nome, outras armas, outros afrontamentos, outras retóricas. O prometido na revolução não passava afinal de miragem. Os que escolhemos, pagamos para nos defender, paralisaram e traíram-nos – vivendo (já) bem no mal e mal no bem.

15/05/13

a perfídia anda por aí


Por Baptista-Bastos

Na história da democracia portuguesa nunca tão poucos fizeram tão mal a tantos. Ao mesmo tempo que a cègada política transforma as nossas monumentais perplexidades numa exasperada interrogação: que mais nos irá acontecer? O rol de indignidades é extenso e não deixa de aumentar: mentiras, omissões, faltas à palavra e aos compromissos, desprezo por todos nós, ocultação de factos e de decisões, por aí fora. Este fim-de-semana, Paulo Portas continuou a não contradizer a natureza do seu carácter, que se distingue pelo ambíguo e pela duplicidade. Denegou o que, uma semana antes, grave e sumptuoso, afirmara: não toleraria a aplicação de uma taxa às pensões e às reformas.

Ele sempre foi assim: pensa a política como um jogo de pertenças múltiplas, e os políticos não devem ser julgados através de padrões morais. As circunstâncias é que determinam, explicam e justificam os seus actos e as suas condutas. Segundo Paulo Portas, a democracia não se esgota na forma jurídico-política, e enriquece-se com a criatividade e a inventiva dos seus actores. O sentido da honra possui um valor supérfluo.

Estas confusões parecem ter adquirido carta de alforria, tendo em conta a naturalidade com que são encaradas. Há qualquer coisa de errado e de contagioso que excede o funcionamento processual da democracia. Quando um Governo, este, opera decisões que, de antemão, sabe serem anticonstitucionais, inscreve-se numa erosão endémica, que devia combater como norma fundamental da sua própria estrutura. As coisas, porém, não são assim. E se Paulo Portas intruja e desdiz-se, Passos Coelho não faz melhor do que seguir a banalidade que já pertence aos novos campos de intervenção política. Este Governo não é uma nódoa; é uma chaga pestilenta.

Quando, pressurosamente, o dr. Cavaco, coitado, fala em pós-troika, devia, sim, preocupar-se com as mazelas morais deixadas por esta gente equívoca, incompetente, grosseira e indecorosa, cujas relações com a democracia e os seus exigentes mecanismos são nulas e perigosas. Mas ele, infelizmente, não vê, na democracia outra coisa senão um objecto de ódio, de despeito e de sobranceria.

Vai reunir-se, segunda-feira, o Conselho de Estado; e a crer no que numerosos dos seus componentes têm dito e escrito deste Executivo, não se vê razões para que a reunião seja pacífica, e o seu presidente contrarie os impugnadores desta política celerada, continuando a sustentar o nosso infortúnio. É verdade que a arrogância de Belém atinge os limites do insuportável; porém, não há "interesse nacional" (expressão que oculta todas as vilanias) que justifique o conjunto de infâmias que nos têm atingido nos últimos dois anos.

A coligação deixou de o ser há muito tempo. É um conjunto mal remendado de interesses, e um concentrado de servilismo a conveniências estrangeiras. A palavra perfídia anda perto.

revelado o terceiro segredo de cavaco

Por Ferreira Fernandes

Andavam Aníbal e Maria a passear o rebanho, não na Cova de Iria, mas no Poço de Boliqueime, quando viram dois clarões como se fossem relâmpagos. Nesse momento, viram em cima de uma azinheira uma Senhora vestida de branco e mais brilhante do que o Sol. Que disse: "Não tenhais medo." E Maria: "Donde é Vossemecê?" O rebanho não se surpreendeu, já se habituara a ver Maria muito afoita de conversa. O Aníbal é que não percebia nada, porque enquanto a prima via, ouvia e falava com a Senhora, ele só via mas não ouvia. A primita segredou-lhe ao ouvido e então ele virou-se para o rebanho [leitor, por favor, leia os telexes da Lusa para ver que não é o cronista que endoidou] e disse: "Penso que a sétima avaliação foi uma inspiração da Nossa Senhora de Fátima. É o que a minha mulher diz." O rebanho ficou espantado: 1) porque não sabia que os primos se tinham casado; 2) porque aquilo era a primeira aparição e não a sétima avaliação; 3) não entendia como a Angela Merkel (os rebanhos são muito prosaicos e o que veem, veem) se aguentava em cima da pequena azinheira. Havia um quarto espanto: como é que o Aníbal para confirmar que pensa, diz o que a Maria lhe diz? Mas o rebanho estava era preocupado com os cortes - em tempos de troika, até os três pastorinhos passam a dois - e com aquele "não tenhais medo" da gorda da azinheira que lhes cheirava a ameaça. Ruminava, o rebanho: isto nem com o Milagre do Sol em Outubro vai lá...