30/11/13

hoje venho-vos com coisas chiques

Cascais é, desde os tempos do senhor D. Luís, sítio de gente fina que até inventou um sotaque só para ela. Mas as damas e cavalheiros não são avistados na estação, no supermercado, nos correios, muito menos nas praias, um horror de gentinha empilhada. A Quinta da Marinha, as mansões, os hotéis e restaurantes de luxo continuam a ser o seu habitat natural. Estas fotografias foram obtidas, durante os anos 20, no Hipódromo da Quinta da Marinha e no Sporting Club de Cascais, criado pelo então ainda príncipe D. Carlos. Começavam a desabrochar as Tatões e  Dadinhas e Pipitas. Os Champalimaud e os Espírito Santo e os Mello e os Sommer, os donos de Portugal, progrediam e procriavam. Estava-se a um passo da longa ditadura.

Pouco mudou, em Cascais, de então para cá. Constituem ainda hoje um grupo à parte, que vive afastado da plebe, a não ser a presença tolerada, que remédio!, dos serviçais. Uma elite elegante, rica, bem nutrida, indiferente às tragédias e misérias de Portugal.

Pouco mudou. Ou nada?







Fotografias recolhidas em:
http://restosdecoleccao.blogspot.pt

em tempos de escravatura

Hipócritas como sempre, enredados em mentiras, muitos governantes têm sido férteis em declarações a jurar que não apostam, para Portugal, numa política de salários baixos.

Ai apostam, apostam.

Só assim se explica que um organismo do governo, o IEFP, permita que se publique no seu site a oferta de emprego para um cargo de Director-Geral com o salário de 485 euros. Brutos.

Ocorrem-me vários epítetos. Vou calar-me, para não atentar contra o "bom nome" de quem nos manda emigrar, empobrecer, envilecer.

Visto em:
http://www.netemprego.gov.pt/IEFP/pesquisas/detalheOfertas.do?idOferta=588229003&name=ofertas&posAbs=1&numTotRows=1

ó sua descaradona tire a roupa da janela, que a roupa sem dona lembra-me a dona sem ela



a indignação do professor doutor presidente ex-primeiro ministro e pobre reformado Cavaco Silva

Quem não sente não é filho de boa gente. Cavaco Silva reagiu com desusada fúria à comparação que o New York Times fez entre o português e o burro mirandês. Oiçamo-lo com o silêncio que a ocasião merece.

um poço de sapiência

filhos de uma pátria "menor"

Israel prende e tortura, todos os anos, centenas de jovens palestinianos, muitos ainda meninos. Dir-se-á que são potenciais terroristas. Para mim, são apenas crianças, filhos de um povo mártir. Como já o foi o judeu.











o adeus de um morto em vida


Sempre irrevogável, sempre escorregadio, sempre falso, sempre demagogo, sempre armado em educador do povo, um Arnaldo Matos de sinal contrário, lá veio Portas, o dos mercados e das peixeiras, dos velhos e dos agricultores, atirar mais uma vez cá para a fora, para as nossas fuças, que contorcemos num esgar de nojo, uma das suas frases de apuradíssimo sentido literário: "uns exportam, outros manifestam-se". (Como deve ter ficado ufano com mais esta amostra da sua vasta genialidade!)

O douto Portas, contudo, esqueceu-se daquele imenso magote que não exporta nem se manifesta, a grande maioria silenciosa de penitentes que levam e calam, tantos por medo, outros por desalento, outros por intoxicações de décadas, desinformação, deseducação, caciquismo, pequenos egoísmos, injustificados receios, mentiras e golpes de marketing.

Peça ao seu deus, se é que o tem, celeste ou terreno, que essas massas nunca acordem e se agigantem, que vivam para sempre amodorradas na sua apagada tristeza, amarradas a crendices e patranhas.

Porque, se um dia despertarem do marasmo em que as enterraram vivas, Portas será, a grande velocidade, exportado em contentor, para contento de todos nós despachado desta para melhor, para casa do diabo mais velho, para o diabo que o carregue, para os cemitérios do dinheiro, do poder, do pior da raça, da alma humanas.

Vá ele e os outros senhores com ele. Vivos ou mortos ou mortos-vivos, que venha o diabo e escolha.

os velhos: não é possível exterminá-los?

Por José Pacheco Pereira

Eu gostaria muito de escrever artigos racionais, ponderados, que merecessem uma aura académica e sensata, que unissem em vez de dividir, que me permitissem ter a minha quota de lugares, prémios e prebendas, mas estou condenado, nestes tempos, a escrever cada vez mais panfletos. Acontece. Isto do imperativo categórico, como Kant sabia, é uma maçada.

Isso deve-se ao facto de não querer ter nenhuma falinha mansa, daquelas que enchem o balofo da nossa política de mútuos cumprimentos e salamaleques, com gente que se mostra impiedosa por indiferença, hostil com os fracos que estão do lado errado da “economia”, subserviente com os fortes, capaz de usar todos os argumentos para dividir, se daí vier alguma pequena folga para as suas costas.

Tenho dito e vou repetir: a herança que estes dois anos de “Governo” Passos Coelho-Portas-troika vai deixar ultrapassará muito o seu tempo de vida como governantes. Se não for antes, em 2015, passarão à história como um epifenómeno dos tempos da crise e sobreviverão incrustados nos partidos de onde lhes vem o poder, como um fungo que não se consegue limpar. Vão continuar a estragar muita coisa, mas a própria lógica de onde vieram os substituirá por outros mais ou menos maus. A maldição portuguesa é esta. Aquilo que mais precisamos, não temos.

obrigado dr. soares

Por Nuno Saraiva

A 9 de março de 2011, em pleno estertor do socratismo, Cavaco Silva apelava no seu discurso de tomada de posse como Presidente da República a um "sobressalto cívico" e à emergência de uma sociedade civil forte que afirmasse os seus direitos e fizesse chegar a sua voz aos decisores políticos.

Estávamos em vésperas daquela que viria a ser uma das maiores manifestações contra o anterior Governo, fora das baias seguras de partidos ou sindicatos. Nessa altura, naturalmente, ninguém rasgou as vestes, fez insinuações sobre a idade ou o estado de saúde ou sequer acusou Cavaco Silva de estar a apelar, incentivar ou a caucionar a violência.

Passados dois anos, e num contexto económico e social muito mais grave, em que nos permitimos ouvir impávidos um eurocrata responsável insistir na tese de que os salários ainda têm de baixar mais em nome da competitividade e do investimento, eis que cai o Carmo e a Trindade quando Mário Soares, na Aula Magna, constata o óbvio: "A violência está à porta". Podemos gostar mais ou menos do estilo, considerar a forma mais ou menos feliz, mas ninguém de boa fé pode vislumbrar nas palavras do ex-presidente um apelo à revolta armada ou à violência, mesmo que, noutras ocasiões, até tenha havido maior evidência de que era esse o sentido das suas opiniões.

Aquilo de que fala Mário Soares é das consequências de uma política da inevitabilidade, de pensamento único em nome do empobrecimento, da indiferença de um governo acólito das doutrinas da chamada "destruição criativa" de Schumpeter, do capitalismo selvagem e sem regras que deixa um rasto de desemprego e devastação económica, do desespero de quem já não consegue pagar as contas ou pôr comida na mesa para dar aos filhos porque quem governa se ajoelha, obediente e submisso, perante os credores, indiferente à angústia de um povo inteiro. Em síntese, do que se trata é de afirmar que há limites para os sacrifícios que se podem exigir ao comum dos cidadãos.

É às desigualdades e assimetrias, injustiças e sofrimentos vários que aqueles que são vítimas de uma crise que não provocaram estão a sofrer que Soares se refere. Diz o povo, na sua imensa sabedoria, que não há pior cego do que aquele que não quer ver. E só por autismo ou crença fundamentalista na narrativa ideológica que nos está a ser imposta se consegue não vislumbrar o barril de pólvora em que estamos sentados.

Como é óbvio, em democracia não há lugar a revoluções ou a tomadas do poder pela força. Creio, firmemente, que é esta a convicção de todos aqueles que compareceram na Aula Magna, respondendo ao apelo de Soares, em defesa da Constituição e do Estado social. Como acredito que é também este o sentido da exortação apostólica, "A Alegria do Evangelho", do Papa Francisco.

A denúncia do Sumo Pontífice contra a "nova tirania" do capitalismo sem limites, que conduz à desigualdade e exclusão social, geradoras de "violência" e causa de "uma explosão" inevitável, não foi feita, que se saiba, num encontro de esquerdas. O apelo aos políticos para que garantam a todos "trabalho digno, educação e cuidados de saúde" e aos ricos para que partilhem a sua fortuna" não foi desferido, que conste, em nenhuma assembleia de revolucionários. A convocação de valores humanistas do género "tal como o mandamento "Não matarás" impõe um limite claro para defender o valor da vida humana, hoje também temos de dizer "Tu não" a uma economia de exclusão e desigualdade. Esta economia mata", não foi produzida com qualquer intuito violento.

Foi, isso sim, a expressão plena dos mais elementares princípios da doutrina social da Igreja, abandonados, ao que parece, por uma pseudodemocracia cristã portuguesa que se limita a encher a boca com tais postulados e a exibir a caridadezinha quando, ao domingo, vai à missa bater com a mão no peito.

O que é trágico é que estejamos confrontados com um vazio e torpor tais - de Belém não se conhece hoje qualquer apelo - que seja necessário recorrer a figuras como Soares e outros que se inquietam, que, na pena de alguns idiotas, "podem ter tido um grande passado mas vivem o drama de não ter futuro", para defender aquilo que é fundamental em qualquer democracia: os valores da dignidade humana.

papa pop

Daryl Cagle/http://www.cagle.com

Marian Kamensky/http://www.cagle.com
Pierre Ballouhey/http://www.cagle.com
Joe Heller/http://www.cagle.com
Rainer Hachfeld/http://www.cagle.com
Henry Payne/http://www.henrypayne.com
Animatik/http://www.toonpool.com
Fabiola Garza/http://fabiolagarza.deviantart.com

29/11/13

a beast of burden

Pedro Vieira/http://arrastao.org/

onde se arenga sobre o burro mirandês, o son of a bitch e o figlio di puttana


O New York Times compara o povo português com o burro mirandês. Segundo o jornal, ambas as espécies já foram necessárias mas, agora, estão em vias de extinção por falta de procriação (de utilidade, terão querido eles dizer).

Num artigo com o título "Em Portugal, uma Besta de Carga Vive de Subsídios" vai mais longe o autor, Raphael Minder de sua graça e son of a bitch por natureza, afirmando que também os portugueses, a exemplo dos burros, só sobrevivem à custa de ajudas europeias.

Por outro lado, um vice-presidente da Comissão Europeia, italiano e figlio di puttana, está em Portugal e, à saída de uma audiência com Sua Excelência o doutor Cavaco, veio-nos dizer, cagando de alto e de repuxo, que a melhor estratégia para Portugal é a de seguir uma política de salários baixos para atrair investimento, uma espécie de China na Europa, em ponto pequenino mas ainda assim bastante rentável para as caritativas criaturas que nos "subsidiam".

Hão-de dizer, os que me lêem, que o linguajar deste blogue está a ficar desbragado. Eu explico porquê: porque é preciso tratar os filhos da puta com o nível que eles merecem.

Vão-se foder!

vida esculpida

Renan Rosa/http://renanrosa.viewbook.com/

afrontas não há só cá

Há a Comporta para que as Cristinas, Pilitas e Xaxões, Mello ou Espírito Santo ou Ricciardi ou qualquer outro apelido de encher ouvido, possam ir brincar aos pobrezinhos.

E há, na estranja, nos confins da África do Sul, um hotel que imita um bairro da lata para que alguns abonados possam apreciar os doces prazeres da pobreza.

Porque não, já agora, um hotel onde se faça regressar o apartheid ou se simulem espancamentos de escravos?

É mau de mais. Mas é verdade e diz muito dos tempos que atravessamos:
http://www.emoya.co.za/p23/accommodation/shanty-town-for-a-unique-accommodation-experience-in-bloemfontein.html

nesta batalha naval, quem não se safa é portugal

http://henricartoon.blogs.sapo.pt/

corno, cabra, safado, ladrão


Toma lá 30 milhões, dá cá sete e não se fala mais nisto.

A negociar assim até eu, que de trafulhices e ladroeiras não percebo nem a ponta de um corno, me podia tornar empreendedor, para gáudio d'El-Rei Coelho, O Benfazejo.

Os Estaleiros de Viana foram subconcessionados, dizem-nos os estadistas da praça, anunciando sem corar o "renascimento" da empreitada numa espécie de páscoa antecipada, de aurora dourada. O que não disseram, mas a gente sabe, é que o Estado vai arrecadar 7 milhões, aos soluços e ao longo de muitos anos, e em troca vai gastar - já - entre 25 e 30 milhões para indemnizar os mais de 600 trabalhadores despedidos.

Se o meu primo Bonifácio, que tem uma tasca a Alfama, gerisse o botequim assim, a oferecer pipis e moelas a quem lhe encomenda um copo de três, há muito que o Bonifácio tinha dado com os burros na água e com os costados na mitra.

Mas o Bonifácio é finório e, essa é que é essa, sabe que não tem papalvos a ampararem-lhe os golpes e a pagarem-lhe os calotes. 

Por um prato de lentilhas, vão-nos pondo as jóias no prego. E os agiotas, ufanos, pedem-nos sacrifícios de vida e morte. Mais de morte.

ANA, mulher de vida fácil


Os pais, Vítor e Maria Luís, venderam-na ao desbarato, a estrangeiros. Todo o dinheiro lhes é escasso para as suas negociatas, jóias, hábitos perdulários, carros de estadão. Fizeram prometer, aos compradores, que a tratariam bem, a ela e aos clientes dela.

Mal se viram na posse da ANA, os seus donos porém fizeram-na aumentar já por duas vezes as tarifas. Quem a quiser ocupar tem que pagar, e pagar cada vez mais.

E assim se vai transformando, este país, num imenso alcoice para gozo de uns quantos, poucos mas possantes, estrangeiros e estrangeirados. Aos outros, à imensa maioria, sem dinheiro para entrar no bacanal, resta-lhes assistir à pornografia entre golfadas de nojo. 

Num túnel sem luz ao fundo.

portugal pitoresco





pedaços de lua e mar

Sintra enfeitiçada.