14/09/13

negrumes

Vejo um horizonte de incertezas, tristezas sem fim nem rumo. Negros são os dias. Frias são as esperanças. Fomos engatados, enganados, esganados, esmagados. Fomos abandonados à nossa sorte. De morte, pobreza, desespero, solidão, desmesurada infelicidade. Sinto as dores do mundo. Oiço os gritos dos homens. E dói-me. E corrói-me. Custa tanto respirar, custa ver, viver. 

o carrinho de compras

Autor: Jeff Treves
http://www.cartoonmovement.com

"o colégio militar ajudou-me a ser homem mais cedo!", diz seara ao "sol"

E assim chegam os temas fracturantes à campanha eleitoral.

Texto de Pedro Vieira
http://irmaolucia.blogs.sapo.pt

o candidato bandido, perdão, band-aid

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que tropece, é o meu voto


o vale dos prazeres é a mata da rainha ou a mata da rainha é o vale dos prazeres?

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vozes do além

a alternativa que os portugueses esperavam há muito

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qual rotunda, qual centro cultural, qual piscina: o cemitério é que está a dar!

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há eleições em gizé?

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a roulotte do amor

Em Águeda, com as autárquicas no coração.



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para que serve esta merda?

Por David Crisóstomo

Para que serve um Governo? Para que serve o Programa de Governo? Para que serve a Demissão do Governo? Para que servem os tribunais? Para que serve a sua independência? Para que serve o Supremo Tribunal de Justiça? E os tribunais administrativos e fiscais? Para que serve o Tribunal de Contas? E o Tribunal Constitucional? O Ministério Público? A Procuradoria-Geral da República? Qual a utilidade das Regiões Autónomas? Dos Governo Regionais e das Assembleias Legislativas Regionais? Para que servem as autarquias? As freguesias? Os municípios? As assembleias autárquicas? De que nos servem as Forças Armadas? E a Assembleia da República, serve para quê? Os deputados? Para que serve a sua eleição? A iniciativa da lei e do Referendo? O direito de petição? E o Presidente da República, de que nos serve? Melhor, para que servem os Órgãos de Soberania? Para que serve o Principio da Separação e da Independência? Os partidos políticos servem para quê? Para que serve o Orçamento de Estado? E o Banco de Portugal? Para que serve a liberdade de iniciativa e de organização empresarial? E o direito à propriedade privada? Para que servem os sindicatos? E o direito à greve, já agora? Para que raio serve o direito ao Ensino? O direito à Cultura? A proibição do trabalho de menores em idade escolar? O direito ao Ambiente? O direito à protecção da Saúde? A garantia de acesso a todos os cidadãos independentemente da sua condição económica, aos cuidados de medicina? E o direito à Segurança Social, para que serve? Qual a utilidade da proibição dos despedimentos sem justa causa ou por motivos políticos ou ideológicos? Para que serve o direito de todos os cidadãos maiores de 18 anos ao sufrágio? Para que serve a liberdade de associação? O direito de reunião ou de manifestação? Para que serve a liberdade de criação intelectual, artística e cientifica? Para que servem as garantias de que o Estado não pode programar a educação e a cultura segundo quaisquer directrizes filosóficas, estéticas, politicas, ideológicas ou religiosas? A garantia da não confessionalidade do ensino? De que nos serve o direito à liberdade de consciência, de religião e de culto? Para que serve a separação do Estado e das comunidades religiosas? Qual é a utilidade da liberdade de imprensa? Para que raio serve a liberdade de expressão? E o direito à constituição de família? Para que servem as garantias do processo criminal, como a garantia de defesa ou a presunção de inocência? A garantia de que ninguém pode ser sentenciado criminalmente senão em virtude de lei anterior que declare punível a acção ou omissão? Mas para que serve o direito à liberdade? E o direito à segurança? O direito à integridade moral e física serve para quê mesmo? A garantia de que ninguém pode ser submetido à tortura, nem a tratos ou penas cruéis, degradantes ou desumanos tem alguma utilidade? Para que serve proibição da pena de morte? Para que serve o direito à vida? De que nos serve o principio da universalidade? A garantia de que todos os cidadãos são iguais perante a lei? A garantia de que ninguém pode ser privilegiado, beneficiado, prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão da sua ascendência, sexo, raça, língua, território de origem, religião, convicções politicas ou ideológicas, instrução, situação económica, condição social ou orientação sexual? Para que serve a definição de que a República Portuguesa é um Estado de direito democrático, baseado na soberania popular, no pluralismo de expressão e organização política democráticas, no respeito e na garantia de efectivação dos direitos e liberdades fundamentais e na separação e interdependência de poderes, visando a realização da democracia económica, social e cultural e o aprofundamento da democracia participativa?

O senhor Primeiro-ministro não sabe bem. Ignora ou quer ignorar. Acha que, para uma parte dos cidadãos portugueses, isto que aqui disponho não serve para nada. Que todos estes direitos, definições e garantias são inúteis. Que são desprezáveis. E tudo isto, senhores, é, de forma sucinta, a Constituição da República Portuguesa.

é preciso matá-lo, antes que nos mate a nós


Desenganem-se aqueles que acreditam que as nossas agruras de agora se devem à dívida acumulada pelos sucessivos governos, socialistas, sociais-democratas, democratas-cristãos. É mentira. Os nossos males agravaram-se com a queda do muro de Berlim (que deixou à rédea solta os mais vorazes agentes do capitalismo selvagem) a que a crise americana de 2008, provocada por essa mesma gente, serviu de pretexto para consumar a estocada final. Não só havia que recuperar o dinheiro perdido (e esses senhores não gostam de perder nem a feijões) como também era mais do que tempo de concretizar os seus sonhos, há tanto acalentados: exterminar de vez o Estado Social, embaratecer o trabalho, fragilizar o trabalho, precarizar o trabalho, subjugar os povos, escravizá-los de uma forma mais subtil, mas não menos terrível, do que noutras eras.

Tenho confiança no ser humano. Ainda. A História é pródiga em exemplos de que, mais tarde ou mais cedo, as populações se revoltarão e rechaçarão os senhores do mundo que, por mais umas décadas, fingirão submeter-se. Até nova investida, quando lhes parecer oportuno, porque a ocasião faz o ladrão e matreirice não lhes falta.

Os liberalóides, os fascistóides, os capitalóides, os energúmenos, os homúnculos, as fezes a quem os deuses ou a Natureza deram vísceras e olhos e cérebro, têm os dias contados. Mas levará tempo. E custará sangue, e custará vidas e custará sofrimentos indizíveis.

Portugal não é a única vítima nas garras, mortíferas, destes senhores. É todo o mundo. São milhões e milhões de seres. Em África, na Ásia, na América Latina. É a própria Terra, cada vez mais frágil, qualquer dia moribunda.

Lutar contra tudo isto é nosso dever. É a nossa sobrevivência que periga cada vez mais. Não podemos deixar os amansados, os narcotizados, os aparvalhados, os serventuários, os servos, os vendilhões e os vendidos, os lambe-botas, os lambe-cus, os Paulos e os Portas, continuar a cavar a sua sepultura. A deles também é a nossa.

13/09/13

as premonições de natália


"A nossa entrada (na CEE) vai provocar gravíssimos retrocessos no país, a Europa não é solidária com ninguém, explorar-nos-á miseravelmente como grande agiota que nunca deixou de ser. A sua vocação é ser colonialista".

"A sua influência (dos retornados) na sociedade portuguesa não vai sentir-se apenas agora, embora seja imensa. Vai dar-se sobretudo quando os seus filhos, hoje crianças, crescerem e tomarem o poder. Essa será uma geração bem preparada e determinada, sobretudo muito realista devido ao trauma da descolonização, que não compreendeu nem aceitou, nem esqueceu. Os genes de África estão nela para sempre, dando-lhe visões do país diferentes das nossas. Mais largas mas menos profundas. Isso levará os que desempenharem cargos de responsabilidade a cair na tentação de querer modificar-nos, por pulsões inconscientes de, sei lá, talvez vingança!"

"Portugal vai entrar num tempo de subcultura, de retrocesso cultural, como toda a Europa, todo o Ocidente".

"Mais de oitenta por cento do que fazemos não serve para nada. E ainda querem que trabalhemos mais. Para quê? Além disso, a produtividade hoje não depende já do esforço humano, mas da sofisticação tecnológica".

"Os neoliberais vão tentar destruir os sistemas sociais existentes, sobretudo os dirigidos aos idosos. Só me espanta que perante esta realidade ainda haja pessoas a pôr gente neste desgraçado mundo e votos neste reaccionário centrão".

"Há a cultura, a fé, o amor, a solidariedade. Que será, porém, de Portugal quando deixar de ter dirigentes que acreditem nestes valores?"

"As primeiras décadas do próximo milénio serão terríveis. Miséria, fome, corrupção, desemprego, violência, abater-se-ão aqui por muito tempo. A Comunidade Europeia vai ser um logro. O Serviço Nacional de Saúde, a maior conquista do 25 de Abril, e Estado Social e a independência nacional sofrerão gravíssimas rupturas. Abandonados, os idosos vão definhar, morrer, por falta de assistência e de comida. Espoliada, a classe média declinará, só haverá muito ricos e muito pobres. A indiferença que se observa ante, por exemplo, o desmoronar das cidades e o incêndio das florestas é uma antecipação disso, de outras derrocadas a vir".

Natália Correia
Fajã de Baixo, São Miguel, 13 de Setembro de 1923 — Lisboa, 16 de Março de 1993

Todas as citações foram retiradas do livro "O Botequim da Liberdade", de Fernando Dacosta.

resistir revoltar revolver


todos os dias são sexta 13


Atiraram-nos para o desemprego. Azar. Não foi numa sexta 13. Reduziram-nos os salários, as pensões, as prestações sociais. Azar. Não tem sido às sextas 13. Subiram-nos o IVA, o IRS, o IMI e o demais por inventar. Azar. Não foi nem será só numa sexta 13. Estão a dar cabo dos serviços de Saúde e de Educação. Azar. Não está a ser às sextas 13. Fizeram substituir o Estado e a Justiça Social pela caridadezinha, o amparozinho, a lágrima de crocodilo. Azar. Mota e Jonet e produtos similares não nasceram numa sexta 13. Fazem dos professores e outros funcionários públicos carne para canhão, gente descartável, utilizável a qualquer hora e em qualquer lugar por qualquer preço. Azar. Nem Crato, nem Coelho, nem Rosalino nem a pata que os pôs ou a pata que nos põem em cima dão um ar de sua graça só à sexta 13. Vendem a Pátria por três vinténs, aos chineses, aos angolanos, aos americanos, à Merkel. Azar. Todos os dias são bons para um bom negócio menos à sexta 13, que dá azar.

Não tenham medo da sexta-feira 13. Tenham medo do Coelho, do Portas, do Rosalino, do Crato, do Branco, da Albuquerque, dos Macedos, de Cavaco. Tenham medo desses monstros - sem alma de jeito nem coração capaz - que, há mais de dois anos, nos azucrinam os dias, todos os dias, toda a hora. Tenham medo dos lobos que desceram à cidade uivando promessas e mentiras. Tenham medo do saque. Tenham medo do soco. Tenham medo do sufoco. Tenham medo do desprezo que nutrem por nós. Tenham medo da morte lenta a que nos condenaram. 


Só se pode deixar de ter medo não tendo medo de enxotar os lobos.

portugal, um gigantesco bairro social

Por Raquel Varela

Digo-o agora com a mesma certeza que disse que os salários iam cair abaixo do mínimo: sem uma revolta social, sem um conflito corajoso, isto é o princípio de uma vida que se resumirá a comer frango de aviário, ficar preso às terras ou ao bairro, sem dinheiro para transportes ou férias, beber zurrapa. Com o tempo ficaremos mais atrasados, por isso mais desinteressantes, de vistas curtas da terra ou bairro onde estamos presos, até menos inteligentes, porque a inteligência é um talento que precisa de ser regado todos os dias. Com alguns anos, estaremos mesmo mais baixos, com olhos encovados como quem tem pouca proteína e falta de ferro. Mais feios por isso. Mais incultos, mais infelizes e claro, mais brutos… Este país era pobre, e por isso feio, baixo, atarracado, com bócio endémico, atraso mental e outras maleitas. E triste, muito triste, antes do 25 de abril. Por mais duro que seja ler estas palavras a verdade é que sair da pobreza com dignidade é um conto de fadas, que só existe na mesma escala em que se fica rico vindo de uma origem pobre. Quase zero portanto.

Espera-nos a coragem ou estaremos todos num gueto daqui a uma meia dúzia de anos, Portugal será um gigante bairro social. O nome dado aos lugares onde a sociedade abdicou de ser social e onde tantos lutam diariamente, desesperadamente, para se manterem humanizados, contra a barbárie da pobreza.

Se isto for para a frente a direita fez o que lhe estava na alma, a culpa será por isso também da esquerda, e de quem alimentou a ideia de que isto ia lá sem conflitos radicais. E claro, a culpa será também individual. De quem tem tanto medo de viver que acabará com medo na mesma, só que despojado de tudo, da vida, da dignidade, da felicidade, da possibilidade de ser melhor, de ver os filhos serem melhores. Sobrar-lhes-á o medo, nada mais.

Para ler o artigo completo:

há sangue


A Oxfam alerta: as medidas de austeridade estão a cavar ainda mais o fosso entre ricos e pobres um pouco por toda a Europa mas em nenhum país a situação é tão grave como em Portugal.

Assim o querem Coelho e o seu clube de piranhas a que ainda dão o nome de governo: empobrecer quem menos tem e enriquecer os mais ricos é o lema, é o fito, é a luta. Puta madre, como diriam nuestros hermanos, quando é que as piranhas são, de vez, atiradas para a cloaca?

faria amanhã 90 anos

“Tenho perdido o meu tempo com seres que execram o que os liberta e exaltam o que os enche de imundície”.

Natália Correia

com eles no sítio, nem que seja no rio

Alguns portugueses, poucos mas tão bons, apuparam Miguel Relvas no Rio de Janeiro. Tinha visto uma versão "editada" no telejornal da TVI mas este vídeo é bastante mais esclarecedor.

12/09/13

sob o manto de salazar

Mas que raio de gente é esta que decidiu vender Portugal a pataco, incluindo os seus habitantes? Vendem-se empresas do Estado por tuta-e-meia (por muitos milhões que nos pareçam), alienam-se serviços, liberalizam-se os despedimentos para forçar a baixa de salários, tudo vendem menos a alma, que nunca a tiveram, ou a mãezinha, que se calhar amam à maneira deles.

Vendem-nos sem pejo. Vendem-nos porque sabem que ganharão o ódio do povo mas a incomensurável admiração da anafada Kaiserin. Vendem-nos porque gordos cheques lhes sorrirão, chorudos contratos lhes chegarão, assombrosos convites lhes dirigirão a JP Morgan, a Goldman Sachs, o Citi Group, a Merryll Lynch, qualquer uma das associações de gangsters financeiros que, nos dias que correm funestos, governam o mundo.

Eles mandam. Esta gente executa. E nós, no fim da linha, obedecemos.

Por muito menos houve revoltas e atentados em Portugal. Salazar, definitivamente, domesticou-nos.


11/09/13

em cada terra, uma canção

Eis uma pequeníssima amostra da profusão de hinos que grassam pelo país, um por candidato. É um festival de música, de luz, de cor, de pimbalhada à farta e desafinanços à compita. É o Portugal profundo. É o país que temos. Que merecemos?

Nós, que nunca conseguimos ganhar um pindérico Festival da Eurovisão, metemo-nos em cavalarias altas. O resultado não podia ser melhor. Ou pior. 















a mama de bustos azedou-lhes o dia

Coelho e Crato lá estiveram em Bustos esta manhã, para inaugurar uma escola já inaugurada nos idos de Fevereiro. Foram recebidos a preceito. É bem feito.


Imagens: Ricardo Castelo/NFactos - http://www.publico.pt

um ar bento por um partido sebento

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pacatos e trabalhadores, poupados e prudentes

Por Daniel Oliveira

A falta de contraditório promove preguiça de quem argumenta. E esta crise é também uma crise de debate. A simplicidade dos argumentos dos advogados da austeridade não resulta da sua evidência. Resulta de um populismo moralista que transforma a economia numa espécie de catecismo sobre as virtudes e pecados nacionais. Como a fórmula resultou os seus praticantes começam a desleixar-se. E pessoas inteligentes, que pelo menos na sua área científica teriam alguns créditos a defender (mesmo que noutras sempre tenham andado próximo do delírio), são capazes de uma surpreendente indigência intelectual.

É o caso deste texto de João César das Neves. E que, apesar da sua infantilidade (ou até por causa dela), resume bem a forma como uma certa elite e um certo espectro político veem a história de Portugal no último meio século. Para César das Neves Portugal era, nos anos 60, "um país pacato e trabalhador, poupado e prudente". Tudo, como se percebe no texto, excelentes qualidades. Que se mantêm. Ainda hoje, enquanto "os dirigentes bramam contra a ditadura do dinheiro e exigem direitos", "Portugal não quer ouvir". "Labuta, amealha, emigra e procura vida melhor noutras terras". Felizmente povo ordeiro não dá ouvidos aos dirigentes agitadores. Segue a sua vidinha. Como os "os seus pais e avós, pacatos e trabalhadores, poupados e prudentes". A ressonância salazarenta deste retrato dos portugueses, tão comum na propaganda de um regime que promovia e elogiava a pobreza e a resignação, só passa despercebida a quem tenha pouca memória.

Para o economista, a nossa história resume-se a ciclos em que gastámos como se não houvesse amanhã e outros em que fomos chamados à realidade e regressámos aos bons costumes. Voltando a ser pacatos e trabalhadores, poupados e prudentes.

Nos anos 60, Portugal não era pacato. Era obediente. Como são obedientes todos os povos que vivem em ditadura. E quem não o era, fugindo à norma nacional, era vigiado, perseguido, preso, torturado e até morto.

Portugal não era apenas trabalhador. Era escravo. O trabalho infantil era uma banalidade, os horários, as férias e os fins de semana um luxo inalcançável. E, no entanto, apesar de se trabalhar para lá da decência humana, em 1961 a nossa produtividade era, como recorda Raquel Varela , muitíssimo inferior à de hoje.

Portugal não era poupado. Era miserável. Morria-se cedo, comia-se mal, não se tinha nem saúde nem educação. Era analfabeto, doente, subdesenvolvido. Quem sabe como era a vida da esmagadora maioria dos portugueses, sobretudo fora das grandes cidades, sabe que é um tempo que não pode deixar saudades. As despesas sociais correspondiam a 4,4% do total do PIB, enquanto no resto da Europa estavam acima dos 10%. O indicadores de saúde eram de um País do terceiro mundo. O número de analfabetos era muitas vezes superior ao dos licenciados.

Portugal não era prudente. Era obstinado no seu conservadorismo. Ao ponto de julgar que poderia continuar a viver como se o mundo estivesse na mesma. O que o levou, entre tantas outras asneiras que nos deixaram para trás, a desperdiçar e destruir milhares vidas e a gastar, em média, metade do orçamento de Estado numa guerra que inevitavelmente acabaria como acabaram todos as lutas pela independência em África: com uma derrota militar ou política do colonizador.

Depois veio o 25 de Abril. O País "criou autarquias e dinamização cultural, comprou frigoríficos e televisões, fez planeamento económico, exigiu escolas e hospitais". Enfim, resume César das Neves, "Portugal gastou". Sim, de 1973 a 1999 as despesas sociais passaram de 8,7 por cento para 26,1 por cento e os impostos de 18,6 por cento do PIB para 34 por cento. E numa e noutra coisa apenas nos aproximámos do resto da Europa. Porque, sem isso, cinco milhões de portugueses continuariam a não ter cobertura médica, a mortalidade infantil continuaria na estratosfera e o analfabetismo continuaria a condenar o País ao atraso. Sim, compraram-se frigoríficos e televisões, coisas banais em qualquer país europeu. Sim, exigiram-se e construíram-se escolas e hospitais. Não foi falta de ponderação. Foi o que fez Portugal dar um dos mais rápidos e extraordinários saltos sociais e económicos na Europa, que qualquer estrangeiro que tenha cá vindo antes e depois notava com espanto e admiração. Foi o que nos permitiu consolidar a democracia e entrar na CEE. Foi das coisas mais ponderadas e inteligentes que fizemos.

Note-se que aqui não discuto o que até é mais do que discutível: se esta crise resulta deste suposto despesismo. Ou se, tese que revolucionará o trabalho de muitos historiadores, entrámos na CEE como prémio por bom comportamento financeiro. Fico-me apenas pelo pacato. Pelo trabalhador. Pelo poupado. Pelo prudente. Fico-me por esta narrativa (a palavra ainda se pode usar?), que corresponde a uma reescrita da história. Que a César das Neves dê jeito, não espanta. Não fosse ele a caricatura risível de uma direita que já não se espera encontrar por aí. Apenas incomoda que haja tantos portugueses que achem mesmo que fomos imprudentes. Que não atribuam a essa suposta imprudência os anos de vida que vivem, o tempo de descanso que têm na velhice, os filhos na escola, os bebés nas maternidades, a reforma, as férias. E essas coisas pouco pacatas que são a liberdade e a democracia.

A "imprudência" de construir um País que não seja um buraco de miseráveis é a única coisa que nos permite falar da pequenez das reformas de quem nunca descontou, porque era suposto trabalhar até morrer. Que nos permite falar dos problemas da escola pública, porque ela já não se fica, para a maioria, pela quarta classe. Que permite que, para muitas portuguesas, parir um filho não seja um jogo de sorte e azar. Que nos permite ver um neto de um analfabeto com curso superior. E estarmos preocupados porque emigra. Desta vez não é a salto, não é para viver num bidonville, não é para ser porteira e trolha. Não é porque "os patrões, franceses ou alemães, suíços ou americanos, gostam dele por ser pacato e trabalhador, poupado e prudente". É porque tem formação. É porque cresceu num País que mudou e que passou, como tantas outras coisas, ao lado de César das Neves. 

Se é imprudente tudo o que, como povo, exigimos e fizemos nos últimos 39 anos, talvez seja disso mesmo que estamos a precisar. Talvez a ideia de que o que conquistámos nunca estaria em risco nos tenha tornado demasiado pacatos. Ao ponto de aceitarmos, sem uma pinga de indignação, que nos digam que devíamos ser como "os nossos avós": resignados, obedientes e pobres.

ração tão pouca para tanta boca

Há fotografias que, volta não volta, devem voltar à superfície, ser recordadas, esfregadas nas nossas fronhas para nos fazer lembrar tudo o que toleramos, amodorrados, acomodados nas nossas pequenas vidinhas. Por enquanto comemos. Por enquanto temos tecto. É quanto nos basta.

Há fotografias, dizia, que vale a pena trazer à tona.

Noutro país, as ligações aqui retratadas (de amizade, dirão vocês, de terna e fraternal comunhão de sentimentos social e democraticamente irrepreensíveis, repetirão os mais tolos ou os mais cínicos), estas ligações teriam que ser muito bem explicadas. Por cá ou, melhor dizendo, de Cabo Verde a Belém, no pasa nada, nem um beliscão na reputação, no erário, na função de cada um, por mais elevada e alegadamente nobre que seja. Reputados patifes, alegadamente (atente-se bem na repetição da palavra, não vá o diabo tecê-las) criminosos, continuam à solta, quanto muito distinguidos com uma mui afável prisão domiciliária, milionariamente vivendo a vida com a consciência leve e folgazã dos bem-aventurados. Nós, os calhordas, os borra-botas, os lorpas, a arraia-miúda, a ralé, pagamos-lhes as falcatruas, as dívidas, os luxos, os broches das damas e os charutos dos cavalheiros. 

Crimes sem castigo, é o que vos digo.








a melhor praia do mundo


Custa a crer mas quem o diz é a revista Traveller, do grupo Condé Nast: a melhor praia do mundo é a praia de D. Ana, em Lagos.

A mesma revista que elegeu Lisboa como a melhor cidade para "escapadinhas", dá-nos outra vez publicidade e à borla.

Um país assim, digam lá à gente, não merecia melhores governantes?

o mentiroso

Por Baptista-Bastos

Pouco há a fazer senão demonstrarmos a nossa indignada repulsa. O homem é um mentiroso compulsivo. Há dois anos ameaçou-nos com o empobrecimento, "única alternativa", dizia, à soberba que de nós se apossara para vivermos "acima das nossas possibilidades." Íamos, pois ficar mais pobres do que temos sido. Depois, como a Fénix que renasce das cinzas, gozaríamos de um cintilante futuro. O rol de miséria que se seguiu causou-nos infortúnios e desditas sem nome. Agora, o mesmo homem, possuído de amnésia contumaz, veio afirmar que nenhum político seria capaz de afirmar tal destino. A SIC, pressurosa e cheia de zelo informativo, foi aos arquivos e retransmitiu a primeira e a segunda mensagens. Acaso para avivar a lembrança do desmemoriado ou, simplesmente, para reforçar o que dele sabemos: transformou a mentira numa banalidade.

O pior de tudo é que não nos podemos esconder nem fugir deste homem. Ele está em todo o lado, com rostos diversos e múltiplos, a mesma voz enfática, a mesma mentira travestida, as mesmas maneiras afáveis e frias. Mentir a nós, que temos cama, mesa e roupa lavada asseguradas, é o menos. Mentir aos desempregados, aos velhos, aos miúdos famintos nas escolas, aos moços e moças que não sabem o que fazer porque lhes foi tirada a mais ínfima parcela de sonho - essa, sim, é uma mentira monstruosa, a merecer todas as maldições, os maiores dos desprezos, a mais vil de todas as execrações.

Como é possível que haja gente, presuntivamente de bem, a apoiar este mentiroso que não só nos empobreceu materialmente como nos enfraqueceu a alma, nos amolgou o espírito com perseverança infame, e continua a impelir-nos para uma perdição tão maldosa que, ela própria, nos escapa; como é possível?

A mentira multiplicada quebrou a coesão e colocou portugueses contra portugueses, numa endemia moral que irá prolongar-se. Com extrema dificuldade, os governos que se seguirão conseguirão repor o que nos indicava como o povo mais lógico, por mais unido, da Europa. O mentiroso conseguiu o que mais ninguém obteve, com repressão ou com o montante. Levou-nos até ao desgosto da palavra, porque houve quem acreditasse na voz de tenor, falsamente casta, e na insistência maviosa dos temas.

Redignificar a função, reabilitar a grandeza do falar verdade, é tarefa de resgate incomum; e não vejo quem disponha da elevação necessária e urgente para tal empreitada. Os políticos entenderam a facilidade como norma de uma vitória sobre o tempo, e abandonaram, por incúria e ignorância, as convicções e a consciência de missão. O seu combate é outro. E no caso português muito mais evidente, pelas debilidades culturais dos intervenientes. O mentiroso comum é desprezível; o mentiroso político, abominável: pertence a uma época estimulada pela incerteza, e incapaz de se opor às estruturas ideológicas que tomaram conta da Europa.

aqui é que os ministros haviam d'ir



Alguém me sabe dizer os nomes dos candidatos a cargos autárquicos nas seguintes localidades? E, já agora, alguém me pode informar se o primeiro-ministro, ou o ministro da educação, ou o da administração interna, ou a da justiça, ou a da agricultura e coisa e tal, se qualquer deles vai-se a elas inaugurar um chafariz, descerrar uma lápide, lançar a primeira pedra de uma rotunda, um quiosque, uma chafarica?

Ficava muito agradecido!

A-da-Gorda, Mafra
A-dos-Loucos, Vila Franca de Xira
Aliviada, Marco de Canaveses
Amor, Leiria
Angústias, Paredes de Coura
Às Dez, Angra do Heroísmo
Bagaceira, Calheta
Bexiga, Tomar
Bicha, Gondomar
Bicho, Santo Tirso
Cabeçudos, Marvão
Cabrão, Ponte de Lima
Cabrões, Santo Tirso
Cama Porca, Alhandra
Campa do Preto, Maia
Carne Assada, Sintra
Casal de Água de Todo o Ano, Abrantes
Catraia do Buraco, Belmonte
Cemitério, Paços de Ferreira, Lamego
Chiqueiro, Lousã
Coito, (Várias)
Colo do Pito, Castro d’Aire
Conseguinte, Loulé
Coxo, Vila da Praia da Vitória, Oliveira de Azeméis e Felgueiras
Crucifixo, Tramagal
Deserto, Alcoutim, Coruche e Estremoz
Desgraça, Coruche
Endiabrada. Aljezur e Odemira
Esgaravatadouro, Monchique
Febres, Cantanhede
Focinho de Cão, Aljustrel
Foros de Pouca Farinha, Sines
Garanhão, Ponte da Barca
Hospícios, Azeitão
Imaginário, Caldas da Rainha
Jerusalém do Romeu, Mirandela
Mal Lavado, Odemira
Máquina, Cabeceiras de Basto
Mata Cabrões, Marco de Canavezes
Mata Mouros, Vila do Bispo
Mata Porcas, Lagos e Monchique
Monte Coito, Santiago do Cacém
Monte dos Tesos, Avis
Monte Teso, Oliveira de Frades
Namoradas, Castro Verde e Mértola
Orelhudo, Coimbra
Paitorto, Mirandela
Paixão, Celorico de Basto e Vieira do Minho
Paraíso, (Vários)
Passado, Vila Verde
Pé de Cão, Torres Novas
Pedaço Mau, Vila Nova de Ourém
Pés Escaldados, Arganil
Picha, Pedrógão Grande
Pobreza, Caminha
Ponta, Lajes das Flores e Porto Santo
Porca. Ponte de Lima
Presa dos Mouros, Lagoa
Punhete, Valongo
Purgatório, Albufeira
Quartos, Vila Verde e Loulé
Quinta de Comichão, Guarda
Quinta do Himalaia, Barreiro
Rabo de Porco, Penela
Rato, Barcelos e Vila Nova de Famalicão
Ratoeira, Vila Nova de Cerveira
Rego do Azar, Ponte de Lima
Rio Cabrão, Arcos de Valdevez
Rio Seco dos Marmelos, Ferreira do Alentejo
Senhora do Alívio, Baião
Sítio das Solteiras, Tavira
Terra da Gaja, Lousã
Traseiros, Oliveira de Azeméis
Vacalouras, Castanheira de Pêra
Vaginha, Vagos
Vale da Rata, Almodôvar, Viana do Castelo
Vale de Mortos, Beja
Venda da Gaita, Pedrógão Grande
Venda da Porca, Estremoz
Venda das Pulgas, Mafra
Venda das Raparigas, Alcobaça
Venda dos Pretos, Leiria
Vergas, Vagos
Vila Azeda, Beja
Vila Nova do Coito, Santarém
Vilar dos Prazeres, Ourém
Vinha da Desgraça, Coruche
Violência, Paredes de Coura

por bustos ... à mama!

Passos e Crato vão a Bustos, ali como quem vai para Mamarossa, sabe onde fica? 

Vão inaugurar uma escola já inaugurada a 18 de Março e em funcionamento desde então. Vão à mama de votos, é o que é. Os fins justificam todos os meios, da mentira à demagogia e à inauguração e, já faltou mais, à votação aldrabada.. Vale tudo por mais um voto devoto.

Mas, não contentes com a trapaça, e ainda pelo concelho onde se ergue Bustos, vão a Troviscal na senda da mesma mama. Vão inaugurar outra escola. Esta em funcionamento desde 23 de Fevereiro.

Por mim, sugiro que se inaugurem os Jerónimos, a torre de Belém, os Clérigos. Sempre são mais chiques do que umas reles escolas onde vão estudar os filhos do povo. Nojo.

Vem tudo escarrapachado aqui, num órgão acima de qualquer suspeita:

cordeiro, o candidato mais sexy

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oh rosa oh que linda rosa

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com alírio é um delírio


bustos e mamarrosa no seio da luta!



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ai azevedo, que medo!

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graças a deus, há flamiano!



vote no fava enquanto a ervilha não enche!


um candidato bem parcídio

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para ficar contente, contente a presidente


tchim tchim marvila!



bulhão já não é no porto?

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shame on you, dr. marco!



o engatatão do funchal

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