16/03/13

mas, mas, mas ninguém cala este idiota?


Venho aqui, de chofre, falar do chefe do PS que acabo de ver a discursar na televisão. Indigente, curto de ideias, pouco credível no tom que usa, demagogo e polítiqueiro, não admira que o PS não suba nas sondagens. Pobre palhaço triste. Pobre país.

golpada final

É a estocada final na confiança que nos deveriam merecer tanto o Estado como as instituições bancárias. No Chipre, os cidadãos foram surpreendidos com uma decisão do governo, tomada por pressão das instâncias europeias, impondo uma taxa entre 6,7 e 9,9% sobre todos os depósitos (quem tiver no banco 100.000 euros perderá 9.900, quem tiver 10.000 ser-lhe-ão roubados 670 euros). Gerou-se o pânico entre os cipriotas que acorreram em massa aos bancos, esta manhã, para levantar as suas poupanças. O governo antecipou-se: o dinheiro relativo a esse imposto extraordinário já tinha sido bloqueado. A favor do Estado. 

Que a Europa tenha forçado o Chipre a tomar esta decisão parece-me, a mim que sou leigo na matéria, de supimpa estupidez. A partir de agora, nos países sob intervenção externa, mas não só, intensificar-se-á a fuga de capitais.

Com Durão, Merkel e outros estarolas, coadjuvados pelos servos locais, a Europa vai de mal a pior.


a troika unida em defesa de el-rei calado

O PS, cujo chefe, feito homem, diz agora ter cortado de vez com o governo, juntou-se ao PSD e ao CDS de Torres de Moncorvo, apelando à população que recebesse bem o Senhor Presidente da República. Como se sabe, parte do povo, lúcido e indignado, não correspondeu ao apelo e vaiou Sua Excelência.

já que é o homem da massa, troca-me isto por miúdos?


"A revisão dos limites foi calibrada de forma a garantir uma constância na persistência do esforço de consolidação orçamental ao longo de tempo, de forma a conciliar os efeitos do ajustamento com a necessidade de ancorar a dívida pública e do financiamento dessa dívida."

Vítor Gaspar, ontem, em conferência de imprensa.

no cemitério dos homens bons


Morreu Mário Murteira. Foi economista, ministro mas, sobretudo, um homem bom.

pobre eça!


Na entrada relativa a Carlos da Maia, da obra de Eça de Queirós, pode-se aferir a superior qualidade - e fiabilidade - da informação contida na Wikipédia. Ora leia:

Carlos da Maia é um dos personagens principais do romance Os Maias, de Eça de Queirós. Amante da ciência e das mulheres. Diletante, visto que exerce sua profissão pelo prazer e não por obrigação.

É filho de Fodencio e Fernando, mas nunca teve contacto com os pais (ambos homens), excepto quando era ainda muito criança. É a personagem principal da obra. Muitos consideram até Os Maias um romance de personagem, centrado precisamente em Carlos da Maia. Depois da fuga de Fodencio, F, foi fornicar com outro homem, e o suicídio do pai, fez com que ele ficasse cagueta,Fernando (o dedeta) ficou entregue ao cuidados do avô, que era pedofilo, e devido a isto Fidencio sentiu-se mal durante uns dias, pois ficou com disfunçao erectil. Afonso da Maia dar-lhe-á a educação que não pôde dar ao filho Pedro - educado segundo cânones tradicionais portugueses, por insistência de uma mãe ultra-católica -, já na quinta do Douro, Santa Olávia, onde se refugiou com o neto, deixando ao abandono o Ramalhete. Assim, educado à maneira inglesa, com normas rígidas, intensa actividade física, sem os tradicionalismos da "cartilha" católica (que atormentara seu pai e o pobre Eusebiozinho, representantes da educação portuguesa), Carlos vai-se tornar num belo homem, física e intelectualmente. Forma-se em Medicina, em Coimbra, onde conhece João da Ega, seu grande amigo. A casa que o avô lhe alugara em Celas, torna-se centro da vida boémia estudantil, onde se discute arte, política, filosofia, o que faz de Carlos muito popular entre os colegas. Depois de formado, viaja pela Europa e conhece o que de melhor há no velho Continente. Torna-se um diletante. Volta a Lisboa e arrasta consigo Afonso da Maia para o Ramalhete. Trabalha por prazer, abre um consultório, monta um laboratório e enche-se de projectos que nunca chega a cumprir, disperso na vida boémia da capital, entre mulheres, amigos e aventuras. Mantém uma relação adúltera com a Condessa de Gouvarinho, até que conhece Maria Eduarda - que na verdade é sua irmã - por quem se apaixona. Desconhecedores do laço de sangue que os une, tornam-se amantes e decidem fugir, até que Carlos toma conhecimento do terrível desfecho da sua história, ao receber uma carta do Sr. Guimarães. Descoberto o segredo, Carlos Eduardo vê-se ensombrado com a morte do avô e torna-se um fracassado da vida. Assim, jovem, bonito, inteligente, cobiçado e culto, com tudo para se tornar um vencedor, Carlos Eduardo da Maia é destinado, tal como o seu pai, Pedro, a fracassar.

Carlos da Maia, fisicamente era um belo e magnífico rapaz, alto, bem constituído, de ombros largos, olhos negros, pele branca, cabelos negros e ondulados e uma barba fina, castanha escura, pequena e aguçada no queixo. O bigode era arqueado aos cantos da boca; psicologicamente era culto, bem-educado, de gostos requintados. É corajoso e frontal, amigo do seu amigo e generoso. Destaca-se na sua personalidade o cosmopolitismo, a sensualidade, o gosto pelo luxo, e diletantismo (incapacidade de se fixar num projecto sério e de o concretizar). Contudo apesar da sua educação, Carlos fracassou, não foi devido a esta mas falhou, em parte, por causa do meio onde se instalou – uma sociedade parasita, ociosa, fútil e sem estímulos e também devido a aspectos hereditários – a fraqueza e a cobardia do pai, o egoísmo, a futilidade e o espírito boémio da mãe. Eça quis personificar em Carlos a idade da sua juventude, a que fez a Questão Coimbrã e as Conferências do Casino e que acabou no grupo dos Vencidos da Vida, de que Carlos é um bom exemplo.

o frasquilho, o casquilho, o matraquilho ou lá o que é


Sim, é esse deputado do PSD com uma cara entre o queque da linha e o Maquiável de Alfama. Dá por um nome que lá deverá ter os seus pergaminhos, não sei nem quero saber, mas que provou, ontem, ser da mais baixa estirpe, da pior ralé que emporcalha esta pátria azucrinada.

Pois não é que o deputado casquilho, ou matraquilho, ou frasquilho, filho d'algo será, veio dizer, com a lata do mais descarado dos trampolineiros, que o programa de ajustamento foi mal desenhado e que é por isso que Gaspar, coitado, não consegue acertar uma única vírgula, quanto mais um número? Dando a entender, claro, que a culpa foi do Sócrates, que terá assinado de cruz um memorando prejudicial ao País e aos portugueses. E descobriu tudo isso, milagre a exigir peregrinação a Fátima, ao fim de dois anos de entusiástica aplicação do dito programa.

O matraquilho ter-se-á esquecido, ou então sofre de alguma doença degenerativa que lhe está a apagar a memória com alarmante celeridade, que o PSD assinou também, e absolutamente nada contrariado que estes dois que a terra há-de comer foram disso testemunhas, o memorando de entendimento. E que o seu duce, o Coelho da nossa indigestão fatal, disse por essas alturas que "se sentiria muito confortável a governar com a troika". E que, depois de usurpar o poder, porque foi de uma usurpação que se tratou e a História comprová-lo-á, se andou por aí a gabar de querer ir mais longe do que a troika nos sacrifícios impostos aos portugueses.

Portanto, deputado casquilho, cale a matraca e não diga asneiras. Nem petas. Nem tretas. Interne-se ou, no mínimo, tome umas dessas mezinhas para a memória. E reze, reze muito para que os pecados lhe sejam perdoados. Duvido.

finito



Por Constança Cunha e Sá
http://www.ionline.pt

Num tom de jubilosa serenidade, o dr. Vítor Gaspar decidiu informar os portugueses que o esplêndido programa congeminado, com desvelo, com a troika ruiu com estrondo, arruinando, pelo caminho, milhares e milhares de portugueses. Ao fim de dois anos, o aluno disciplinado, determinado a ir além do que lhe era exigido, falhou todas as previsões e não conseguiu atingir um único dos seus objectivos. O défice não foi cumprido, o desemprego disparou, as receitas fiscais diminuíram, o consumo interno encolheu drasticamente e as previsões sobre recessão, essa cereja em cima do bolo, sobem sempre que o ministro das Finanças abre a boca sobre tão escaldante matéria. No Orçamento do Estado surgiu o auspicioso número de um por cento. Dois meses depois, o Orçamento foi à vida e o ministro, sem qualquer sobressalto, duplicou o valor da recessão. Agora, já vamos em 2,3 por cento e o dr. Vítor Gaspar, respaldado no seu imenso prestígio externo, diz-nos apenas que vamos no bom caminho e que o governo não pediu mais tempo nem mais dinheiro. Naturalmente, não se dignou explicar o que tinha corrido mal, nomeadamente nos últimos dois meses, que o levou a esta pirueta macroeconómica. O mundo mudou, como acontecia, com frequência, nos velhos tempos do eng.º Sócrates? Talvez.

A incompetência atinge proporções drásticas no que toca ao desemprego. Se há pouco mais de dois meses, o governo anunciava que o seu valor em 2013 iria ser de 16,4, agora o esfíngico ministro das Finanças informa--nos que este poderá chegar aos 19 por cento. O quadro adensa-se para 2014, ficando por explicar como é que com um crescimento anémico nos próximos anos (se tal acontecer, claro), é possível diminuir estes valores. Pormenores!

Como seria de esperar, face a estes números catastróficos, o governo não desarma: o ajustamento é para continuar, com mais doses de austeridade, com os famigerados cortes de 4 mil milhões de euros e o mais que for necessário para tapar os inúmeros desvios das contas do ministério das Finanças. Como, aliás, sempre disse, os cortes provisórios passam a permanentes e a queda dos impostos que se seguiria aos cortes no Estado não vai acontecer. O adiamento do défice para mais um ano não é, como alguns entusiastas se apressaram a proclamar, uma vitória do governo, mas sim a perfeita confirmação do seu absoluto falhanço. Perante isto, e como seria natural, o primeiro-ministro não parece disposto a retirar qualquer consequência dos estrondosos erros da sua política. Nem a nível económico. Nem sequer a nível político: num país normal, o dr. Vítor Gaspar seria expeditamente corrido por triste e má figura, depois de ter falhado gloriosamente em tudo o que se propôs.

Como nota de rodapé, o PSD descobriu agora que o programa de ajustamento foi “mal desenhado”, com projecções e efeitos que não tinham qualquer adesão à realidade. Depois de ter andado, durante dois anos, a tecer loas ao programa, considerando mesmo que era necessário ir mais longe nas tais projecções e efeitos. Curioso, para dizer o mínimo.

Fotografia de Rodrigo Cabrita (http://www.ionline.pt)

quem avalia os avaliadores?

Por Viriato Soromenho-Marques
http://www.dn.pt

Vítor Gaspar nem se esqueceu das piadas antikeynesianas, que são habituais nas aulas de um professor de orientação monetarista. O problema é que Gaspar não falou como professor, mas como ministro. Nessa condição deveria ter pedido desculpa aos portugueses pela falta de rigor e ausência de credibilidade dos seus cálculos. Em outubro, a previsão para a queda do PIB, contida no OE 2013, era de -1%. No início de março, no Parlamento, Gaspar esclareceu que se tinha enganado. Afinal a queda será de -2%. Um académico honesto teria dito que o seu engano era de 100% (a previsão passava de -1% para o dobro, -2%), mas, Gaspar resolveu fazer-se de ingénuo, dizendo que o engano era de 1%. Afinal, a recessão vai ser de -2,3%, se ficar por aqui... Gaspar está bem acompanhado, na incompetência, pelos técnicos da troika. Em agosto de 2011, a troika efetuou uma série de previsões para 2013 que se mostraram totalmente erradas: um crescimento de 1,2% (!); a taxa de desemprego abaixo de 14% (agora a previsão é de quase 19%); a dívida pública perto dos 114% (na verdade, em final de 2012 já estava em 122,5%). Os políticos são punidos pelas eleições e pela história (o nome do primeiro-ministro ficará na sinistra galeria dos anti-heróis da História de Portugal). Os académicos, quando erram, perdem reputação e emprego. Gaspar e os seus colegas da troika pertencem a uma casta híbrida de inimputáveis. Quando lhes são pedidas responsabilidades políticas, dizem: "somos apenas técnicos". Quando lhes são apontados os erros científicos, respondem: "O nosso trabalho está condicionado pela política." Até quando poderá uma democracia suportar ser aterrorizada por incompetentes e irresponsáveis?

15/03/13

que se há-de dar mais a quem tudo tem?

Para comemorar o seu 50º aniversário, a Lamborghini produziu três unidades do modelo Veneno. Foram todas vendidas, pela módica quantia de três milhões de euros cada uma. Fora os impostos. Parecendo que não, esta notícia e as fotografias que se seguem estão relacionadas.





chávez: alguns factos

Por Viriato Teles
http://jornal.viriatoteles.com


“Fez algu­mas coisas boas, mas destruiu a econo­mia”. É este o tom de alguns comen­tários que podem ler-se um pouco por toda a parte a propósito do falec­i­mento de Hugo Chávez. Como não gosto de falar de cór e guardo comigo algu­mas manias de velho repórter rel­a­ti­va­mente ao rigor infor­ma­tivo, sirvo-me da edição online do Expresso de hoje ape­nas para dar conta de alguns fac­tos con­cre­tos sobre o que foram os 15 anos de “chav­ismo”. Vejamos:

O PIB per capita aumen­tou de 5.095 para 13.405 euros.
A dívida pública era de 56,4%, agora é 29%.
As expor­tações de petróleo subi­ram de 14 para 60 mil mil­hões de euros.
A taxa de desem­prego caiu de 14,5 para 8,6 por cento.
A mor­tal­i­dade infan­til decresceu de 20 para 13 por mil nados vivos.
O índice de pobreza pas­sou de 23,4 para 8,5 por cento e a taxa de anal­fa­betismo desceu de 20 para 4 por cento.

Mesmo a ser ver­dade que a inflação tenha pas­sado de 23,6 para 31,6% e a crim­i­nal­i­dade tenha aumen­tado (segundo esta fonte, os homicí­dios pas­saram de 25 para 45 por 100 mil habi­tantes), só o mais obtuso e pre­con­ceitu­oso sec­tarismo pode negar que a vida dos venezue­lanos é, hoje, glob­al­mente bas­tante mel­hor do que era antes de Chávez. De outro modo teria sido difí­cil alcançar o cresci­mento pop­u­la­cional ver­i­fi­cado nestes 15anos (de 23.870.000 para 29.287.000 habi­tantes) a que os pro­gres­sos soci­ais que o novo sis­tema de saúde per­mi­tiu não são com certeza alheios.

lisboa da boa esperança








Fotografias recolhidas em: https://www.facebook.com/daniel.costa.lourenco/photos_stream

chora, mariquinhas, chora

Coelho queixou-se, em Bruxelas, da "penosidade social" que as medidas de ajustamento estão a provocar em Portugal.

Piegas. É um piegas. Mas a lamúria chega-lhe tarde e a más horas, quando Portugal padece e empobrece numa espiral de tragédias, do desemprego aos suicídios. Toda a gente sabe, e se não sabe é porque não quer saber ou partilha da paixão de Pedro pelo capital selvagem, que a "penosidade social" foi ele que a provocou. Custe o que custar, lembram-se? É preciso empobrecer, estão recordados?

Não seja piegas. Demita-se. Antes que seja corrido por um povo em fúria. Olhe que já faltou mais, muito mais. Tenha cuidado. Vá pela sombra, para que não o vejam. Esconda-se. Emigre. Há-de haver muita instituição financeira a querer os seus préstimos, já deu provas sobejas da sua arte predadora. Já deu provas de que não presta.

Enquanto isso, soube-o há pouco, Cavaco, de visita a Trás-os-Montes, fez um desvio no seu percurso para evitar alguns manifestantes. Outro choninhas. Portugal está bem entregue.

o povo soberano em directo e sem representação

Por José Vítor Malheiros
http://versaletes.blogspot.pt

1. Gravidade. Antes de mais a gravidade, a seriedade, a tristeza. Depois a raiva surda e o desespero que espreita nos cartazes e nos olhares. Houve na manifestação de 2 Março - pelo menos na de Lisboa, onde estive - momentos de alegria e grupos animados, com slogans certeiros e divertidos (“Quando tu falas, Gaspar, és o orgulho de Salazar!”), mas o grande mar de gente não está para festas. Há centenas de cartazes artesanais, muitos com notas de humor, mas o humor é amargo (“Tenho cara de algarismo?” pergunta uma mulher numa folha A4).

A maré que se espalha pela avenida é formada maioritariamente por gente cujo presente é feito de sacrifícios e que não consegue imaginar um futuro nem para si, nem para os seus filhos, nem para o país. Uma maré de gente farta e cansada, triste e zangada, mas determinada. Há muitos velhos, muitos reformados, muitos desempregados, muitos estudantes, muitos intelectuais. Há gente de todas as classes. Há slogans e alguma música, mas a esmagadora maioria da manifestação é uma manifestação silenciosa, que não adere a gritos nem palmas. Muitos vieram sozinhos e é difícil gritar sozinho. Não vieram no grupo do sindicato, nem da empresa, nem sequer com os amigos. Vieram porque acharam que não podiam deixar de vir. Vieram gritar que os seus direitos estão a ser espezinhados, mas que não deixarão que lhes roubem a dignidade. Vieram dizer que não querem este governo, que nunca aprovaram esta política, que não acreditam nestes políticos, que não respeitam este Governo, que se sabem ludibriados, roubados e injustiçados, receiam que seja destruída a democracia que ajudaram a construir e vieram dizer “Basta!” e “Rua!” com a sua simples presença, sem conseguirem abrir a boca. Querem outra coisa e sabem que é possível outra coisa.

2. Desprezo. Um dos sinais da fronteira que a indignação já ultrapassou é o uso de palavrões, que já ninguém acha excessivos. "Se quizesse trabalhar para chulos tinha ido para puta”, diz um cartaz que uma mulher traz ao pescoço. “Coelho, quando abrir a caça vais para o c.” diz outro. Um grupo grita uma variação de uma palavra de ordem famosa: “O povo, unido, está farto de ser fodido!” Há na transgressão um sentido claro: os ocupantes do Governo não merecem uma gota de respeito, são aldrabões que foram eleitos mentindo e que governam mentindo, são ladrões que roubam o povo dos seus direitos e dos seus bens e que ameaçam a democracia. Gatunos é o mais doce dos epítetos que merecem e o desprezo e a repulsa os sentimentos unânimes.

3. Apelos. Não há apelos. Ou só há apelos ao próprio povo (“Acordai!”). Estes cidadãos não se dirigem a um interlocutor. São o povo soberano a exprimir a sua vontade. Exigem a demissão do Governo mas ninguém pede a intervenção do Presidente da República. Pelo contrário, o PR é outro alvo dos ataques. Todos sentem que S. Bento é sede vacante.

Ninguém exorta o Governo a arrepiar caminho. Mas também não há cartazes a exortar a oposição a fazer seja o que for. Estes milhares exigem respeito pelos seus direitos mas não nomeiam nem reconhecem campeões. De quem esperam algo? Aqui e ali pede-se um novo 25 de Abril, mas quem o fará?

4. Partidos. Não se trata apenas do facto de os partidos estarem prudente e correctamente ausentes da manifestação. A questão é que é a sua ausência que explica a multidão. Nenhum partido, nenhuma coligação de partidos conseguiria reunir esta maré e, se houvesse partidos, eles desmobilizariam as pessoas. Estas pessoas empenharam-se num gesto político que sentem como vital e urgente, mas a maior parte delas sente que só o pode fazer à margem dos partidos. Não é apenas o Governo que deve reflectir sobre as suas responsabilidades. Nenhum partido está a salvo do risco de extinção.

5. Esquerda. Perante uma grande manifestação unitária contra o Governo e a austeridade, haverá uma plataforma mínima de entendimento que possa emergir entre os partidos que se reclamam da esquerda, em nome da emergência nacional? Não, porque o PS é pró-troika. Bom, e só entre o PCP e o BE? Também não, porque...

6. Consequências. E agora o que vai mudar? O que mudou? Mudou o estado de espírito dos cidadãos. As pessoas vieram assumir a sua cidadania, vieram dizer que foram atingidos os limites e que não aceitam ser escravos. Vieram mostrar que estão mobilizados e que lutarão pelos seus direitos. Vieram dizer que o Governo será legal mas não tem legitimidade democrática nem moral. Vieram dizer que não aceitam a democracia diminuída em que vivem, que não aceitam ser governados por colaboracionistas em nome de interesses alheios ao povo. Vieram também dizer que estão descontentes com os partidos e com as instituições democráticas. Vieram dizer que o combate à austeridade exige a união de todos e vieram dar exemplo dessa união. Vieram dizer que não se sentem representados e que por isso vieram em tão grande número. Vieram dizer que muita coisa tem de mudar, com este Governo e com o próximo.

Será que o Governo e a troika podem fazer orelhas moucas, repetir que a indignação não significa nada e seguir em frente? Podem. Mas fariam bem em temer a fúria de um povo paciente.






esta tarde, em lisboa e no porto



black friday


Ouvi distraidamente, como convém a quem quer manter a sanidade mental, o sinistro ministro (longe vão os tempos em que muitos portugueses achavam graça ao seu sentido de humor, à voz pausada e à falsa cordialidade). Todos os números estão piores do que há escassas semanas, do desemprego aos outros indicadores económicos, e não faltará muito para que sejam revistos em baixa, cada vez mais em baixa, a roçar as águas turvas das cloacas neoliberais. Mas Gaspar está contente, embora o semblante de tolo da aldeia não o deixe transparecer: estamos bem e vamos melhorar ainda mais, os portugueses o que têm que ter é paciência, muita paciência, porque quando os seus salários baixarem até níveis miseráveis então sim, então é que o processo de ajustamento terá um happy end. Como num filme de terror.

Dizem os jornais desde há vários dias, o PSD está a subir nas intenções de voto. O prémio mais do que merecido para o bando de revolucionários extremistas, de direita, que está a destruir Portugal e os portugueses. Receio que sejamos masoquistas. Ou parvos. Ou, pior, abstencionistas. Não votar é votar na camarilha que nos tem arrastado para a indigência, é deixá-los à rédea solta, é dar-lhes o poder de mão beijada. Votar em qualquer outro partido, seja ele qual for, será enfraquecer os do "arco de governação" e contribuir para que, das duas uma, ou se regenerem ou desapareçam da cena política. Não lhes sentiremos a falta.

Imagem: http://wehavekaosinthegarden.blogspot.pt/

14/03/13

alice e a tentação da rosa


Vamos lá falar da Alice. Andam por aí umas alminhas, caridosas é bom de ver, agastadas com o facto do PCP ameaçar expulsar a dama. Lá estão eles, os eternos ditadores, estalinistas e tal e coisa e coisa e tal. Bom, vamos lá ver as coisas como elas são: a senhora é militante do PCP e aceita candidatar-se por outro partido? Mal comparado, é assim a modos como um padre católico ir em peregrinação a Meca para rezar a Alá. Espero é que, depois de expulsa, se for expulsa, Alice se comporte melhor do que a Zita. Tenho-a em melhor conta.

escândalo no vaticano: o papa francisco acaba de resignar


Pope Francis Resigns

não se distraiam com o chico papa que os papas de cá não dormem ao serviço do deus dinheiro


Vá lá, malta, toca a regressar à base. Deixem lá o Chico mais a santa madre Igreja, deixá-los com as suas vidinhas dedicadas a Deus, ao dinheiro, ao poder, ao sexo oculto e demais mazelas indignas de seres humanos, e as deles não são poucas, Ele que me perdoe e castigue se falto à verdade. Depois deste interim, onde aproveitámos para respirar fundo, relaxar, esquecer os pecadilhos cá da casa, voltemos ao burgo e aos apóstolos da austeridade que tudo papam e mamam enquanto, decerto que sim, se benzerão e pedirão perdão ao Senhor pelas suas malvadezas. Que conspiraram Passos e Gaspar com os senhores da troika? Onde nos vão roubar desta vez? (Ah, esqueci-me que Passos não gosta nada que lhe chamem ladrão, tal como um louco não gosta que o tratem por louco e um bêbado detesta que lhe apontem as sucessivas bebedeiras). Que se terá passado nos bastidores? Que pragas mais nos vão atingir? Que misérias a anunciar? Que cortes, que dores, que penúrias, que safadezas terão sido perpetradas no quentinho dos gabinetes? Porque queremos, porque ainda nada fizemos de substancial para os afastar, estamos nas mãos de pequenos seres que se julgam deuses, imbuídos de uma missão divina, a de empobrecer Portugal e de liquidar portugueses em nome da "selecção natural" que Hitler não desdenharia. Por esta estrada seguimos, a caminho do calvário. Sem direito a sábados de aleluia. Entre cilícios e penitências. Teremos o céu por consolação.

Imagem: http://wehavekaosinthegarden.blogspot.pt

jorge mario bergoglio, o el cura que daba la comunión a videla

Por Luís Sepúlveda
https://www.facebook.com/luis.sepulveda.5245

Me había prometido que no dedicaría ni un minuto a la elección del nuevo papa. No soy católico, soy orgullosamente ateo, y a lo largo de mi vida he conocido y conozco a algunos curas que muy poco tienen que ver con El Vaticano & Company. Uno de ellos se llamó Gaspar García Laviana, un cura asturiano que tomó las armas en Nicaragua, dio su vida por los pobres y cayo combatiendo, con el grado de Comandante Guerrillero. Gaspar -Comandante Martín en la historia de los oprimidos- fue de los curas consecuentes con el cristianismo, pero con un cristianismo que no está, que nunca ha estado en el Vaticano.

Me había prometido no dedicar ni un minuto al asunto fuamata nera o fumata bianca, el único humo que me gusta e interesa es el de los Cohibas que fumo, pero ante la avalancha de histeria desatada es imposible permanecer indiferente. Para muchos, el sólo hecho de que el nuevo papa sea latinoamericano es ya una garantía del regreso inminente a los evangelios en su expresión más pura. No es así. La historia siniestra de la iglesia católica, sobre todo la reciente, no la limpia una nacionalidad determinada. Y si se trataba de elegir a un latinoamericano, ¿por qué no a Leo Messi, que es lo más cercano a la perfección divina?

Para otros, el hecho de que nuevo papa "Pancho I" sea hispanohablante es casi una señal de que nuestra lengua es la lengua de los ángeles, que basta con que hable español para que el olvidado mensaje justiciero que, teoricamente pronunció El Nazareno, se imponga en todas las bocas de la Tierra. ¡Por favor! ¿Dirían lo mismo si el nuevo papa fuera Rouco Varela o cualquier otro talibán nacional católico y fascista de la conferencia episcopal española?

Y para otros, el hecho de que "Pancho I" sea jesuita es casi un sinónimo del desplazamiento de los legionarios de cristo, del opus dei, de los inquisidores de la escuela de Rantzinger. Al parecer, con "Pancho I" la iglesia recupera la inteligencia y sensibilidad de algunos, no de todos, los jesuitas.

No se debe olvidar que hay jesuitas y jesuitas. Admiro y respeto la memoria de un jesuita como Ignacio Ellacuría, asesinado en El Salvador, un cura que se jugó, que tal como lo hiciera Gaspar García Laviana en Nicaragua, dio su vida por los pobres, por los campesinos, por los indios, por los oprimidos, pero me temo que Jorge Mario Bergoglio -"Pancho I" de ahora en adelante- no está hecho de la misma pasta.

Es público que jamás condenó a los dictadores argentinos, pese a saber que en la Argentina de Videla y sus secuaces se torturaba, asesinaba, hacían desapacer a miles de personas, robaban los recién nacidos de las prisioneras embarazadas, se violaban todos los derechos y todos los mandamientos que, supuestamente, rigen la moral y la conducta de los católicos. Videla era católico y de los fanáticos, igual que Massera y todos los criminales que usurparon el poder en Argentina. Y sabiéndolo, Jorge Mario Bergoglio -"Pancho I" de ahora en adelante-no abrió la boca. No puede alegar que no lo sabía, porque era el confesor y el que daba la comunión a Videla. ¿Qué le confesaba el jefe de los torturadores?

Según un extraordinario reportaje del periodista argentino Horacio Verbitsky, publicado en "Página12" en 1999, el cardenal Jorge Mario Bergoglio -"Pancho i" de ahora en adelante - es culpable, por acción u omisión, de la detención y desaparición de dos curas de su misma orden.

Nunca aclaró estos hechos, pero, curiosamente, cuando el presidente Néstor Kirchner terminó con las odiosas leyes de "obediencia debida", con las amnistías a los criminales y reabrió los juicios contra los peores criminales de la historia argentina, Jorge Mario Bergoglio -"Pancho I" de ahora en adelante- descubrió la pobreza y se convirtió en el paladín del anti kirchnerismo.

En el reportaje publicado por "Página12", Horacio Verbintsky muestra dos documentos: uno, que implica directamente a Jorge Mario Bergoglio -"Pancho I" de ahora en adelante- en la desaparición de esos dos curas, y otro, adulterado, modificado, amañado, tal vez por la mano del espíritu santo.

No hay nada de qué alegrarse. El consejo general de accionistas de El Vaticano & Company ha dejado todo tal como estaba.

a igreja está com o chico


João Paulo II foi eleito com o nítido propósito de influenciar a queda do comunismo. E o Papa Chico? Terá sido eleito com o fito de ajudar a derrubar os perigosos governos progressistas que grassam pela América Latina? Não sou adepto, juro-o por todos os santinhos, de teorias da conspiração e tão pouco acredito em bruxos. Pero que los hay, los hay.

a igreja tem emenda?





A festa acabou. Os dias de espectáculo na praça de São Pedro chegaram ao fim. Os repórteres, recordistas da banalidade, regressam a casa com o sentimento, cristão pois está claro, de dever cumprido. Confesso - eu pecador me confesso - que achei este Papa, de longe, mais cativante do que o pastor alemão que o precedeu. Escassos minutos depois da sua apresentação em grande estilo aos devotos e mirones amontoados na praça, vim, curioso, para a net. Queria saber quem era, o que podemos esperar dele. A informação não podia ser mais contraditória. Grande defensor dos pobres, dizem alguns. Um homem que cozinha as suas próprias refeições, de hábitos espartanos, simples. Mas o grosso das notícias é sobre o seu alegado envolvimento, e cumplicidade, com a ditadura argentina (daí as fotografias, que começaram a surgir como cogumelos, em que aparece ao lado do ditador Videla) e o seu conservadorismo religioso (outro que se vai bater contra o pecado do preservativo, não importando os que morrem por não o usar, ou contra o pecado do casamento de iguais em género). 

A festa acabou. Agora, é esperar para ver. A Igreja precisa de renovação. Melhor: de moralização. Parece que ainda não é desta. Mas um passo de Francisco nesse sentido, por mais pequeno que seja, será um grande passo para a Humanidade. Digo eu, que às vezes sou um optimista.

13/03/13

vinte páginas inúteis

Por Baptista-Bastos
http://www.dn.pt

Um alvoroço de artigos, crónicas, comentários, depoimentos acolheu o prefácio que o dr. Cavaco apôs ao sétimo volume de Roteiros, singular colecção de trivialidades pretendidamente políticas, e não, como o título sugere, itinerário turístico. Quase todos os preopinantes manifestaram perplexidade porque o autor nada dizia de novo. Estranha conclusão. O homem é o que é: um medíocre brunido, formal e liso. Com penosa disposição li o texto, porque o alarido a tal me impelia. Os habituais tropeços nas preposições, o confuso desalinho com as adversativas, e a ausência total de qualquer ideia. O costume da banalidade, elevado à nobre condição de "tema." Apenas me surpreendeu que tanta gente se sobressaltasse com o chorrilho de bagatelas, e que alguma dessa gente lobrigasse uma grave advertência ao Governo e uma crítica furtiva a Passos Coelho. As vinte páginas do extraordinário texto são o retrato (haja Freud e a nossa paciência!) da insólita personagem que nos coube na vida. Custa-me dizer isto: mas o dr. Cavaco, o que diz e o que não diz, e não faz, estão longe de poder ser levados a sério. Ele, os seus silêncios e as suas evasivas são cúmplices do que nos acontece, desde que foi primeiro-ministro. E a impunidade de que goza é paralela à imensa vaidade que não consegue dissimular com a exposta modéstia grotescamente teatral.

O homem é ressentido e rancoroso. O assento que fez com Sócrates e, antes disso, a cilada que montou a Fernando Nogueira, para não aludir, entre outras mais, muitas mais, ao desprezo disfarçado a Santana Lopes, mas suficientemente perceptível para que o próprio percebesse e os outros pressentissem, são características de uma índole embotada. Mesmo Pedro Passos Coelho, com quem teve algumas embirrações, era este um convulsivo dirigente da "jota", mesmo esse tem de se acautelar. E os esgares, feitos sorrisos, com que o dr. Cavaco, o recebe e conversa são máscaras da mais vil duplicidade. Lembro aos distraídos a afabilidade, quase doçura com que recebe Paulo Portas, o qual, quando director de O Independente, conduziu sangrenta campanha jornalística contra o cavaquismo, que levou ao descrédito da doutrina e à queda do seu mentor.

A pátria está de pantanas, os jovens abandonam o país onde nasceram; os desempregados fazem multidão; os velhos morrem sós, de fome e de miséria; os suicídios aumentam; todos os ofícios e corporações são atravessados pelo despautério de uma política assassina; e a figura que está em Belém demonstra-se incapaz de admitir qualquer conteúdo dos assuntos correntes.

Disse, após mais de um mês de reclusão, que vai ensinar os portugueses a conviver com a crise, e que tem mais experiência política do que a maioria dos seus antecedentes. Perante isto, creio que temos de redefinir a natureza das nossas decepções e os modos de tornar eficazes o que nos indigna.

12/03/13

testosteronas vida inteira recalcadas

desculpem não saber do novo Papa 
(sinto mais raiva na reforma do Jardim...)
e desse mundo feito de honras e prebendas
que ainda respira ouro especiarias e marfim
Armani de 6ª idade, arminhos, influências
velhos senhores de escarlate e carmim
de saias longas rodadas sorridentes
pregoeiros da virtude mais peregrina
são apóstolos de Pedro ocupam sua sede
mas ele que se saiba era pescador a rede
e não tinha guardas Pamplinas de fachina
por trás das longas saias escondidas
vivem testosteronas vida inteira recalcadas
alguns pedem desculpa, outros disfarçam
mas é difícil convencer-me que o pecado
lhes passou assim a vida toda ao lado
e que deus o verdadeiro, da bayer
more ali no meio de tantas arrecadas...
fumo branco fumo novo fumo velho
flagelem-se de falsa novidade
um nasceu nas palhas em Belém
estes sao senhores maiores pela cidade
mandarão entre si no mundo todo
e tudo continuará velado e ambrosiano
no mundo aveludado do Vaticano
eles são reis embaixadores do céu
e eu, raios me partam, sou só povo


Pedro Barroso

Fotografia: http://life.nationalpost.com

there's no business like show business

Ainda há pouco, há poucochinho, estavam as nossas televisões - todas - a transmitir em directo, de Roma, o início do conclave para a eleição do novo Papa. Mas será que todo aquele luxo, aquela pompa, não fazem reflectir os mais pios creus? E não bastaria um só canal ligado ao Vaticano? Afinal de contas, não havia nada a dizer, nem a ver, e os repórteres e entrevistados empatavam o tempo entre trivialidades, evidências e palavras gastas. Depois de Abril, só o fado é que se safou. De futebol e de rezas, estamos conversados.

ensaiem as fanfarras para o dia em que passos for demitido

mãos sujas



Por Sérgio Lavos
http://arrastao.org/

Sim, as coisas podem sempre piorar. Sempre. Hoje, passando os olhos por um jornal nas bancas, vi a notícia: "pai atira-se a um poço com filho de dois anos por causa de dívidas". Nos últimos meses, as notícias, apesar de passarem despercebidas, têm saído a um ritmo regular. Quem é do Porto sabe que os casos de suicidas na ponte da Arrábida têm aumentado. Por todo o país, multiplicam-se as histórias. Nos jornais, são recorrentes as denúncias de especialistas: aumentaram as depressões, o desespero, o suicídio. Neste momento, deverão ser poucos os portugueses que não conhecem de perto casos dramáticos. Patrões que não conseguem pagar aos seus empregados e, não sendo desprovidos de consciência, de humanidade, sofrem mensalmente com o acumular de dívidas e com a impossibilidade de assumirem os seus compromissos; desempregados de longa duração que perderam o subsídio, imersos numa angústia sem fim, sem verem qualquer saída - a maioria dos desempregados com mais de quarenta anos dificilmente poderá emigrar; famílias que viram o seu rendimento reduzido a uma pequena parte do que era há dois anos e que não conseguem pagar prestações da casa, do carro, das creches dos filhos. Pessoas que nunca viveram acima das suas possibilidades, nunca pediram dinheiro para irem de férias, nunca comeram bife todos os dias, nunca tiveram mais do que aquilo que os avanços da democracia portuguesa, o agora cinicamente execrado Estado Social, conseguiram trazer: mais bem-estar, mais igualdade, uma muito mais viva dinâmica social, que permitia que mesmo quem tivesse menos recursos tivesse acesso à saúde, à educação, a férias gozadas longe de casa.

De cada vez que volto à minha faculdade - a FCSH da Universidade Nova de Lisboa - vejo à hora de almoço uma fila de estudantes, de marmita na mão, estudantes à espera de poderem utilizar os micro-ondas. Quando me tornei aluno universitário, há vinte anos, vindo de uma aldeia, só o pude fazer devido ao sacrifício dos meus pais e porque tinha a ajuda de uma bolsa. Mas conseguia pagar a senha diária de refeição, que tinha (e continua a ter) um preço simbólico. Agora, constato que nem para isso muitos estudantes têm. E há cada vez mais alunos a abandonar as faculdades. Comprometemos assim o futuro do país mas sobretudo retrocedemos dezenas de anos, até um tempo em que apenas quem era mais rico podia tirar um curso universitário. O que a geração dos meus pais, a geração de Abril, conquistou, está a ser desbaratado sem dó nem piedade.

Podemos culpar a troika, a UE, a Alemanha - os cínicos defensores do Governo já adoptaram essa linha de defesa, como se em tempos Pedro Passos Coelho não tivesse dito que se identificava plenamente com o programa da troika e que queria mesmo ir além do tinha subscrito (e foi: em 2011 era necessário fazer um ajuste de 4000 milhões de euros e o Governo fez 9000 milhões, começando aí o descalabro). Mas quem está a decidir o futuro do país, quem não se opõe às politicas de destruição da pátria tal como a conhecemos, não é a troika, não é Merkel: é o Governo. É o Governo que decide manter metas irrealistas para o défice - 5% em Portugal comparando com os 7,5% previstos para a Irlanda; é o Governo que mantém intocadas despesas como as das PPP's, cortando em apoios sociais quando as pessoas mais precisam deles; é o Governo que aumenta os impostos sobre os rendimentos singulares mantendo intocadas as mais valias financeiras e o património; é o Governo que corta pensões, corta reformas, corta na Saúde, corta na Educação, acaba com o complementto de solidariedade para as pensões mais baixas ao mesmo tempo que continua a injectar dinheiro no BPN e a recapitalizar a banca. O Governo fez escolhas. Essas escolhas levaram-nos a uma espiral recessiva, a um desemprego galopante, ao crescimento brutal da pobreza. O Governo faz escolhas. Essas escolhas estão a levar a um tal estado de devastação que serão precisas décadas para a economia voltar a recuperar. O Governo escolhe o mais forte em detrimento do mais fraco, escolhe a banca e os especuladores da nossa dívida em vez das pessoas que é suposto servir. Pedro Passos Coelho, ao afirmar que está a ser feita a "selecção natural" das empresas nacionais, admite que a política implementada pelo Governo que dirige visava o que está a acontecer, a destruição regeneradora. Esquece-se que essa destruição afecta as pessoas. Afecta os estudantes que abandonam os estudos, afecta os jovens que têm de emigrar, os velhos que deixam de poder ajudar filhos e netos porque vêem as suas pensões drasticamente reduzidas, afecta os pais e as mães de família que deixam de poder pão na mesa para os seus filhos. Pedro Passos Coelho, ao ter feito as escolhas que fez, tornou-se responsável pela vida dos milhões de portugueses que neste momento estão a sofrer. Tem as mãos sujas. De sangue. E dessa culpa ele nunca se poderá livrar.

abençoada pátria alemã


A Alemanha domina de novo a Europa e até criou os seus novos judeus, os povos dos países do Sul, gente sem préstimo, indolente, calaceira, devedora e má pagadora, que o que quer é espanejar-se na praia, gozar o Sol, amante de putas e vinho verde. E, tal como nos anos 30 do século passado, governos e governantes agacham-se, acagaçam-se, lambem as botas cardadas da besta germânica, agora disfarçada com saias, cabeleira loura, casacos de múltiplas cores e um bigodinho desmaiado a água oxigenada. Os pequenos Chamberlain são como coelhos, estão por todo o lado, correm atrás das cenouras que Merkel lhes atira da tribuna imperial, copulam conspiratas, expelem bravatas.

Enquanto isso, os gregos vivem num autêntico cenário de guerra. Os portugueses, os italianos e os espanhóis para lá caminham. A fome grassa como uma praga mortal. O desemprego, a indigência, a pobreza extrema são o pão nosso de cada dia, ou a falta dele. Só ainda não vieram as bombas, os tanques, os campos de concentração, mas, por este andar, cá chegarão. E muitos aplaudem os nazis travestidos de democratas. Na Grécia, a Aurora Dourada resplandece no parlamento. Um pouco por toda a Europa, a extrema-direita propaga-se, agride, mata. Na Áustria, mais de metade dos autóctones acha que o partido nazi, se fosse outra vez legalizado, seria o mais votado em eleições; 42% consideram que "a vida não era assim tão má no tempo de Hitler"; 39% julgam possível uma nova onda de anti-semitismo na Europa. 

Só que, desta vez, os judeus serão outros. Nós.

moita-carrasco

Oh Moita Flores, pela sua rica saúde, para a próxima vez, quando promover um jantareco a 5 euros por cabeça, convide-me. Por 5 euros, vou lá. É que, sabe?, a vidinha anda má desde que os do seu partido abocanharam o poder com patranhas, crime, você saberá melhor do que eu, a exigir exemplar punição. 

Votar em si é que não voto que nem de Oeiras sou, mas conte com a minha presença no repasto. Espero que a janta seja bem servida, os morfes abundantes e a vinhaça a preceito. Segundo o site do próprio restaurante, que dá pelo nome de Touro Ibérico e me faz lembrar aqueles placards com negras feras taurinas que se vêem pelas estradas de toda a Espanha, cada refeição custa entre os 30 e os 40 euros. Acho que, por este andar, para recuperar o dinheiro perdido, o Moita vai ter que escrever muito enredo de telenovela, vai ter que publicar muito romance e vai ter muito que perorar pelas televisões sobre o estado da justiça, os crimes de faca e alguidar, os assassínios e assaltos (mas não os perpetrados aí pelos seus, que o meu amigo é devoto dessa irmandade de fiéis ao tacho). Ou, também se pode dar o caso, é o PSD que está a entrar com o pilim para que o Moita possa fazer as suas flores. Atrás do Moita estará um Coelho. E, estando um Coelho com o Moita, estará todo um galinheiro a cacarejar palavras de ordem em jeito de jogos florais.

Vá lá, convide-me. Não seja unhas-de-fome. Prometo que só abro a boca para entrar um bom naco de carne. Mas não de Coelho. Não gosto.


11/03/13

à sombra de salazar


Os dados foram divulgados hoje, mas a gente já os adivinhava há muito: Portugal está a sofrer a maior recessão de décadas. Vítor Gaspar, o homem que não consegue acertar um número, é tido como um crânio das finanças, um gajo que, quando deixar de nos apertar o pescoço e assaltar os bolsos, terá um cargo garantido em qualquer instituição da alta finança internacional. O homem que, em sentido figurado e, acho eu, apenas isso, baixa as calças para os senhores da troika, será votado, daqui a uns 80 ou 90 anos, como o grande português do século. Terá a mesma sorte de Salazar. Fala arrastada. Versados em finanças. Tendência para o autoritarismo. Salazar quis-nos pobres. Gaspar também. É muita coincidência junta.

Imagem: http://wehavekaosinthegarden.blogspot.pt/

terra e liberdade

Uma longa metragem sobre a guerra civil espanhola.

que se passa na grécia?



De repente, não se ouve falar da Grécia. Será porque os gregos nos dariam maus exemplos?

porto de portugal












Fotografias de Nuno Trindade
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