23/05/14

pescadores de águas turvas


Há dias, foi a barcarola de Passos, barcaça de faz de conta para um governante que nem contas faz. Agora, não sei se ontem se hoje, navegantes da treta houve que se passearam na barca do inferno, Doroteia Verónica de seu nome, à proa como convém aos heróis do mar, nobre povo, nação valente e mortal. Segundo rezam as crónicas e profecias, nem que inventadas por mim, Lopes e Bandarra faço questão de ser, a embarcação irá ao fundo no próximo Domingo. 

Que não se salve o timoneiro. Muito menos o timoneiro.

parece que são bruxos

A adesão à CEE vista pelo PCP num tempo de antena que remonta a 1985. Nunca digam que não fomos avisados.

eleja os piores, abstenha-se!

DIREITA TEME HECATOMBE
Manchete do jornal SOL, 23/5/2014

OFERECE-SE: lobby boy em fim de carreira

retrato de um artista quando jovem




a culpa é da conchita!


Líderes religiosos dos Balcãs afirmam que Conchita Wurst, por ter ganho o Festival da Eurovisão, é responsável pelas recentes inundações naquela região. Castigo divino, dizem eles.

Agora já sei. A culpa da bancarrota portuguesa, ao contrário do que afirmam os senhores da santa Aliança, com Passos à cabeça e Rangel aos pés, não é de Sócrates. É de Conchita.

Agora já sei. A culpa pelo triste desmantelamento da Europa não é de Merkel, não é de Barroso, nem sequer da ganância financeira de um pequeno grupo de bilionários. É de Conchita.

Agora já sei. A fome em África, os genocídios no Médio Oriente, os cartéis de droga na América Latina, o aquecimento global, os milhões de escravos em pleno século XXI, a prepotência das grandes potências, a rapacidade humana, a desumanidade de quem mais ordena, é tudo, tudo culpa da Conchita.

Prenda-se a Conchita, puna-se a Conchita, acabe-se com a Conchita. E a vida será um mar de rosas.

21/05/14

votar ou não votar?

As opiniões dividem-se. Eu acho que estou certo. Vou votar.

democracia, uma ova!

Há não sei quantos candidatos à cadeira que Barroso, em boa hora, vai deixar vaga. Todos andam num afã, em campanha eleitoral, a vender o peixe, chaputa e rodovalho ao preço da uva-mijona.

Mas a frau Merkel, de dedinho rubicundo em riste, já avisou: ela já escolheu o sucessor de Durão, com a conivência do PS lá do burgo. 

Eleições? Democracia? Que é lá isso?!? Os mercados não gostam. Nem a Ângela.

isto é que é subir na vida!


Jean-Claude Juncker esquentou-se. O candidato da direita das saídas limpas por meios emporcalhados escreveu no twitter que, para ele, as pessoas são tão importantes como as mercadorias e o capital. E diz isto no tom ufano próprio da campanha eleitoral em que anda metido, para substituir Durão no cargo que, este último, tão honrosamente desempenhou nos últimos longos anos da noite barrosista. Disse-o como se fosse uma concessão, uma dádiva, um privilégio que nos concede do alto da sua arrebatada generosidade.


Que bom! Ficamos a saber que nada nos separa - oh alegria!, oh felicidade! - de umas arrobas de batatas, uns quilitos de carne, uns litros de creolina, um Audi alemão.

Grandes maganões que somos, sempre, sempre a subir na vida!

o gageiro da nossa história

Eduardo Gageiro
Por Baptista-Bastos
http://www.dn.pt/

Um programador insensível e néscio fez projectar, para domingo último, às 22 e 20, no segundo canal da RTP, um admirável documentário de António-Pedro Vasconcelos sobre Eduardo Gageiro. Nesse mesmo tempo, a SIC exibia os Globos de Ouro, e comentadores preocupados discreteavam, filosoficamente, sobre a Taça de Portugal. Para quem ignora, para quem não quer saber, para os ressentidos e despeitados, Eduardo Gageiro é um dos maiores repórteres-fotográficos do mundo, cuja sensibilidade vive a par de um carácter amiúde combativo porque decente e asseado. António-Pedro viu muito bem a natureza rara deste grande artista, e conseguiu pô-lo a falar com límpida transparência, fornecendo-nos, e outros deponentes, a grandeza de um homem que, através da fotografia, tem revelado, como nenhum outro, a História de Portugal das seis últimas décadas. E que História! Eis a dor, o sofrimento, a fome e a miséria, a morte sem remorso nem remissa de um povo amado, comovidamente amado, por uma câmara que escolhe, selecciona, toma partido nítido e sem reserva pelos pés-descalços. É o Portugal que há, a pátria que temos e que Gageiro, com muitos mais, quis transformar. Tristemente, no final do documentário, diz: e chegámos a isto! O encontro de Vasconcelos com Gageiro é um momento extraordinário da nossa vida moral e cultural. O cineasta, não o esqueçamos!, é um intelectual extremamente culto (stendhaliano de mão diurna e mão nocturna), e as relações que estabelece entre a obra de Gageiro e a literatura e o cinema não são inócuas. Por exemplo: na parte final, quando o fotógrafo fala da doença que o assaltou e das imagens palustres que fixou, como se dissesse adeus à vida, as semelhanças entre o Tarkovsi de "Nostalghia" não são referências fortuitas. Essa correspondência faz parte de toda a obra de António-Pedro, e recordou-me o belíssimo documento que filmou, há muitos anos, sobre Lopes-Graça, ou o "Jaime", o melhor filme português de infância já realizado em Portugal; ou o "Aqui d"El Rei!", cuja discreta ironia passou, lamentavelmente, despercebida.

"Eduardo Gageiro: Um Século Ilustrado" era para ser exibido em 25 de Abril, e condizia com um projecto de documentários sobre portugueses ilustres, que António-Pedro se propusera realizar. Ficou no cesto. Os donos dos nossos destinos preferem a aldeia endomingada, com Nossa Senhora a protegê-la da insídia dos que pensam, do que os sobressaltos da imaginação dos que opõem a razão e o talento à treva.

Mas o que importa é que continua a haver pessoas como o Gageiro e o António-Pedro, mais alguns outros, que enfrentam os adamastores de todos os medos. A memória faz parte desse combate. E este documentário faz parte dessa memória. Ao falar de Gageiro, António-Pedro fala de Portugal.

20/05/14

cavaco e coelho no exame da quarta classe

quanto mais não seja por vingança

Você, que diz cobras e lagartos de Coelho e de outros seres de mais do que duvidosa racionalidade, já para não falar de humanidade, você que acha, e com razão, que esta democracia anda muito mal amanhada, vai continuar na sua, que não vale a pena votar, que são todos iguais?

Se acha isso, que nenhum partido merece o seu voto, ao menos vote em branco, vote nulo, mas vote.

Não votar é dar um voto ao governo. Porque ele se vai escudar na forte abstenção para menorizar a pesada derrota que vai sofrer no Domingo.

Vote por vingança. Vote por vontade de mudança. Vote por campanhas eleitorais que sejam mais do que isso, mero exercício de propaganda rasca e desfile de embusteiros e gabarolas num tempo em que todos os exageros publicitários são permitidos, todas as mentiras perdoadas, todas as promessas esquecidas.

Vote naquele que achar mais genuíno do que os outros, mais próximo do seu sentir, do seu pensar. Vote azul, vermelho, amarelo, castanho às riscas ou verde às pintinhas. Vote no mal menor. Mas vote.

Vote contra os roubos, a exploração, o descalabro em que transformaram este País, tão pouco nosso agora. Vote contra o desemprego, o desmantelamento do Estado Social, o empobrecimento, a trapaça, a sordidez, a rapacidade de alguns para sofrimento de tantos. Vote.

Isto só muda se você mudar também. Se votar também.