08/05/13

o paulinho das rábulas

Por Daniel Oliveira

Paulo Portas é um artista. Como todos os bons artistas, não tem problemas em desempenhar vários papéis. Já foi rebelde, já foi estadista, já foi amigo dos lavradores, do "espoliados do Ultramar", dos ex-combatentes, dos reformados, das empresas, dos feirantes, dos trabalhadores. Já foi liberal e democrata-cristão. Já foi radical e desancou nos imigrantes e no RSI. Já foi moderado e cheio de preocupações sociais. Servem-lhe todos os bonés que a cada momento lhe convenham. O seu talento é inversamente proporcional à firmeza das suas convicções.

Paulo Portas tem muitas vidas. E como nunca morre, vai cada vez mais longe no risco. Disse que deixaria de falar a um amigo se este fosse para o poder. Nenhum amigo sobreviveu à sua sede de poder. Já teve, quando foi candidato à Câmara Municipal de Lisboa, um cartaz em que jurava: "Eu fico!" Foi eleito vereador, não ficou e ninguém lhe pediu contas. Foi-se embora da liderança do CDS porque um "partido trotsquista" estava demasiado próximo. Fez a vida negra a quem o substituiu e, à primeira oportunidade, voltou, como se nada fosse. Deixou cair todos os que lhe pudessem fazer sombra. Fez a sua corte, sem nunca deixar que alguém pudesse ser visto como candidato ao seu lugar. Prometeu mundos e fundos a todos os seus eleitores. Nunca cumpriu uma promessa.

Agora Paulo Portas faz o papel da consciência social deste governo. Podia ser outro qualquer, mas este é o que agora lhe convém. Como sempre, comentadores e jornalistas fingem que não sabem quem é Portas. Ele dá bons espetáculos e osmedia não querem estragar bons momentos televisivos, bons diretos, bons dramas cuidadosamente encenados.

Soubemos, no entanto, pelos jornais, que a sua brilhante homilia de domingo foi combinada com Passos Coelho. E ontem ela chegou ao fim: a Contribuição Extraordinária de Sustentabilidade, que representa uma pequeníssima parte do pacote de austeridade, caiu. Gaspar já tinha deixado uma margem razoável para ela cair. Porque ela apenas foi criada para isso mesmo: para que Portas aceitasse tudo menos uma coisa que já se sabia que não era para avançar. Para Portas fingir que fazia voz grossa e Gaspar e Passos fingirem que o respeitavam. E assim, aceitando tudo, Portas consegue passar a ideia de que a sua presença neste governo muda alguma coisa. E o governo repete a rábula do costume: avança com o impensável para depois recuar para o inaceitável.

Durante o fim de semana, o exército de comentadores-ex-líderes do PSD, alinhados com os ministros que usam Portas e as fugas para a imprensa para não ficarem mal na fotografia, ajudaram nesta encenação: que Portas está mais forte, que Gaspar já cede às suas exigências, que tudo está diferente. Está tudo na mesma. Até os malabarismos do CDS não mudam. Só há um problema: o espetáculo pode ser bom, mas não sei se vale o suficiente para estar em cartaz tanto tempo, sem um momento de improvisação, sem uma surpresa, sem qualquer espaço para a espontaneidade. Sempre o mesmo enredo, sempre a mesma cantiga.

a rainha da sucata


Por Tiago Mesquita

Nesta espécie de corte de sucata em que se transformou o governo, Paulo Portas continua igual a si mesmo. Por entre os pingos da chuva, munido das expressões "sentido de Estado" e "solidariedade institucional", vai, com ar pesaroso e preocupado, tocando, ocasional e estrategicamente, o fadinho que o parolo e o incauto gostam de ouvir. Os mais esclarecidos e atentos sorriem: "Lá está outra vez o Paulinho a fugir com o rabo à seringa, como se não fosse nada com ele".

Para salvaguardar o futuro político, o brilho inexistente no seio do executivo aparece convenientemente, volta e meia, estampado no sorriso de Portas, como uma luz ao fundo do túnel. Um visionário. A verdadeira e única consciência social do governo. Adora o protagonismo, as luzes e a própria voz. Gere as ambiguidades e o suspense.

Afasta-se das medidas antissociais, encenando teatrinhos patéticos na suposta defesa dos fracos e oprimidos. A drama queen das conferências de imprensa. Portas não está mais preocupado com os reformados e pensionistas do que os outros. Paulo não está mais preocupado com os jovens do que os outros. Não está mais preocupado com o futuro do país do que os outros. Está, sim, muitíssimo mais preocupado com a sua imagem do que com os outros. Sempre esteve. E, se isso implica afastar-se pontualmente de quem lhe permitiu subir ao trono, assim o fará. Outro infante que venha a precisar, vindo de que condado jotinha vier, fará de Portas novamente rainha da sucata. E este, se for chamado à corte, aceitará, com a "atitude patriótica" que adora ostentar, a única forma de exercer poder que conhece: a partilhada.

Passos assumiu o risco. Qualquer um sabe que coliderar com Portas é como ir a um baile da aldeia acompanhado de alguém coberto de purpurinas da cabeça aos pés e tentar passar despercebido. Quando dá para o torto, Portas afasta-se, estratégica e deliberadamente, de tomadas de decisão polémicas e medidas nefastas que poderão manchar a sua folha de serviços. Como um submarino, Portas imerge quando lhe convém. A responsabilidade pela austeridade exercida pelo governo é tanto de Passos e Gaspar como de Portas, mas quem ouve este último a discursar pensa que Deus e o Diabo convivem bem num T0 ali na Ajuda, tal é a disparidade entre a dura realidade e os desejos convenientemente manifestados pelo líder do CDS.

Paulo Portas bem pode tentar demarcar-se de uma das piores, mais lesivas e mais antissociais governações de que a história da democracia portuguesa tem memória, com danos irreparáveis para o Estado Social como o conhecemos. Mas o certo é que a história nunca fará dele aquilo que ele não é, por mais purpurinas que use.

o estado dos ratos

Por Luís Rainha

Os ratos são os primeiros a abandonar o navio que afunda. Toda a gente imagina saber isto. Mas que pode fazer uma pobre ratazana, veterana de anos de luta pela prosperidade, quando se vê impelida a saltar borda fora de um barco condenado... mas a mil milhas da costa? Não adianta atirar--se às ondas; no meio da aflição, ninguém se lembrará de socorrer um mero roedor. Aguardar a chegada a bom porto parece-lhe apenas uma modalidade diferida de suicídio – a discórdia cada vez mais ululada da tripulação, as correrias em círculo do capitão e do imediato... tudo naquela nave de loucos grita ruína certa.

O nosso rato teve uma longa carreira dedicada à gulodice. Devorou tudo o que lhe apareceu ante o focinho: proteínas, adversários, influência, segredos alheios, poder suculento. A condição de embarcadiço nestes navios comandados por principiantes é condição de acesso a cargas apetecíveis. Sem porões mal guardados ao alcance do seu fino faro, seria apenas mais um roedor tinhoso. Sem poder distribuir camarotes pela rataria menor, lá se iria o seu prestígio.

Solução milagreira? Manter duas patas dentro do barco de má reputação e outras duas de fora, acenando a potenciais salvadores. Com estas, agita freneticamente bandeiras a sinalizar boas intenções, vontade de ajudar os fracos, desistências de vícios antigos. Entretanto, vai usando as patas restantes para acenar ao capitão obedientes continências, garantindo-lhe que só faz ondas para entreter os mirones. E que nunca o abandonará, claro.

o poder como manigância


Por Baptista-Bastos

Graves e concentrados comentadores do óbvio precipitaram-se, entusiasmadíssimos, no discurso proferido pelo dr. Paulo Portas, domingo, acentuando o carácter "contundente" (disse um) do texto e a "notória divergência" (acentuou outro) com afirmações do dr. Passos Coelho, proferidas na sexta-feira anterior. A confusão, o despautério e o vazio de ideias grassam, infrenes, na Imprensa e nas televisões. Nem um anotador do facto revelou que o dr. Portas ocupara meia hora das televisões e do nosso pasmo para dizer rigorosamente nada. Melhor: para reafirmar a sua fé e a sua esperança, por igual intactas, no primeiro-ministro e nas suas sábias decisões. A fim de salvar as aparências, anunciou que defendera, com denodo e compaixão, os pobres pensionistas, aos quais, mercê dessa sua obstinação cristã, já não seria extorquida nem um cêntimo da reforma. E que, por sua intervenção, a idade limite para o trabalho não seria fixada em 67 anos, mas sim 65 e meio.

A encenação, organizada logo a seguir à fatal sexta-feira, com atabales e tubas, atingia o clímax. Até ontem, a algazarra não parou, atribuindo às declarações do dr. Portas uma distintiva aura de coragem e de espírito cristão-democrata. Quanto ao discurso, que ele leu, circunspecto e apoiado em gesticulação adequada, é um monumento de hipocrisia, com as preposições no lugar certo e a retórica que desconhece a ética e oculta um significante vazio. O engenho dele para o excesso, divertido, mas apenas convincente para otários e simpatizantes de jornalismo, é bem superior ao de Passos, desprovido de qualquer resquício de talento, tanto nesta como em outras matérias.

Portas percebe muito bem que o Governo está nas vascas da agonia. Mas não quer, por investimento político, dar-lhe o abanão final; como não deseja parecer o espeque que sustenta o edifício em ruínas. Diz umas coisas que agradam a tolos e confundem qualquer princípio de explicação racional das coisas. Espera, espera, com a certeza de que o tempo causará o que ele, agora, recusa praticar. Sempre soube regular as paixões e os interesses, combinando ambos com uma intuição que não admite regras, e que o torna no grande sobrevivente da política portuguesa.

Recorde-se a traquinada ao Marcelo Rebelo de Sousa, ou a urdidura que o fez trepar a presidente do CDS-PP, armadilhando o desventurado Manuel Monteiro, sua criação pessoal. Portas e Marcelo equivalem-se, na negligência moral e no tripúdio das mais elementares normas sociais de convivência. Como é um manipulador quase imparável e um sedutor sempre insatisfeito, os malabarismos deste género de política regalam-no e empolgam os que de ele se aproximam. Porém, compreende que o seu tempo está a chegar ao fim. Esta ambiguidade de carácter faz parte das suas autodefesas.