13/02/14

uma nova inquisição

http://mikiaboom.wordpress.com/
Por Fernando Dacosta
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Muitas das condições que, no passado, levaram ao surgimento da inquisição estão a observar-se hoje - noutra escala, porém.

Os avanços civilizacionais (na solidariedade, na cultura, na ciência, na técnica, no conhecimento, nos costumes) conseguidos nesse passado pelos países da então pujante Ibéria, Portugal e Espanha, devido aos Descobrimentos, fizeram os poderes da época, bussolados pelo Vaticano, reagir - incendiando o mundo através de tochas demencialmente empunhadas pelo Santo Ofício.

Nas últimas décadas a Europa registou (tal como a Ibéria no passado), progressos assinaláveis na cultura, na educação, na ciência, nos costumes, na saúde pública, na segurança social, que a adiantaram sobre os outros continentes fazendo tremer (tal como na Ibéria do passado, repita-se) os poderes instituídos que, de novo, reagiram.

Reagiram não pela religião, mas pela economia, através de estratégias de austeridade congeminadas não no Vaticano mas em clubes de "illuminati", contra milhões (sobretudo do Sul da Europa) imolados em fogueiras de miséria e infâmia.

Pervertidas, a mundialização, a democracia, a liberdade, viraram cavalos de Tróia engendrados por bárbaros travestidos de tecnocratas, insaciáveis de ambição e cinismo, desumanidade e amoralidade.

Há um século, o grande Raul Brandão dizia que "por cada indivíduo que enriquece há mil que empobrecem"; hoje, revela Viriato Soromenho Marques numa das suas notabilíssimas crónicas no DL, cada novo "super-rico custa a miséria de 41 milhões e 170 mil pessoas", sacrificadas sem notícia nem estremecimento.

Enquanto isso, o socialismo, a social-democracia, a democracia- -cristã, etc., assobiam para o lado - só não lavando as mãos porque não têm toalhas (esgotaram-nas) para as secar.

a vida é doce e furta-cores

http://www.fanpop.com/
"Estamos agora a viver mais de acordo com as nossas possibilidades", disse ontem, sem se rir, o primeiro-ministro de Portugal e de meia-dúzia de portugueses, Pedro Manuel Mamede Passos Coelho de seu nome completo, natural de Coimbra, por pouco de Santa Comba.

É a receita de Salazar, revista, actualizada e melhorada. Quando pensávamos que Portugal iria finalmente dar "o grande salto em frente" e recuperar o atraso de décadas, eis que nos surge pelo caminho dos abrolhos eleitorais a doutoral criatura, adepta dos "pobrezinhos mas honrados", dos "pobretes mas alegretes", do "para pouca saúde, mais vale nenhuma", do "não é desgraça ser pobre", do "numa casa portuguesa fica bem pão e vinho sobre a mesa", da caridade, do bodo aos pobres, das sopas do Sidónio, da esmola a fazer escola, a corroer o País como gangrena.

Portugal recua a olhos vistos e aproxima-se, cada vez mais, dos países do terceiro-mundo, na política salarial, no emprego ou na falta dele, no bem-estar social e na Educação, que se quer transformar numa fábrica de meninos ricos doutorados, a exemplo da proverbial figura, e de uma mole imensa de proletários, carne bastarda para o canhão desta guerra económica em que os maus estão a ganhar, porque a vida não é um filme nem o mundo é Hollywood.

Leio na web que Coelho faz anos a 24 de Julho. Proponho que se decrete feriado a 24 de Julho. Melhor: que a Avenida 24 de Julho se passe a chamar Alameda Mamede e que o Natal se celebre, a partir de agora, nesta data memorável. À beira da piscina, para quem tem piscina, do precipício para os demais. Dia de Mamede-em-Festa, do Senhor dos Passos, do São Pedro que nos escancara as portas do inferno.

Se tal não acontecer, a culpa é do Sócrates.

12/02/14

a clemência não vem da sé

O CARDEAL CLEMENTE
Por Baptista-Bastos
http://www.dn.pt

Li, há dias, no Público, uma entrevista a D. Januário Torgal Ferreira, antigo bispo das Forças Armadas. Um refrigério, se a compararmos com a dicção monótona, precaucionista, desagradável e espalmada de, por exemplo, D. Manuel Clemente.

O patriarca de Lisboa é uma sombra melancólica do que foi. E foi um homem desenvolto quando reitor do Seminário dos Olivais.

Conheci-o num debate promovido pela SIC e moderado por Margarida Marante. Um regalo para os olhos e para o espírito. Dois homens cultos, que se respeitavam e desejavam expor, sem gritaria, as suas visões de mundo e as características das respectivas singularidades.

Carteámo-nos por e-mail e, mais tarde, com ele participei, no Porto, em uma controvérsia sobre exclusão social, sob o patrocínio do Montepio Geral.

Ouço-lhe as homilias, os comentários, leio-lhe as entrevistas e as enunciações. Tentava descobrir, no homem de hoje, o padre aberto, dialogante e claro de outrora. Nem sequer a mais ligeira recomendação sobre o Papa Francisco.

A homilia há dias proferida na Capela de Santa Maria constituiu um fluxo de banalidades, mais comuns a pároco de aldeia e não ao fino intelectual interventivo e solidário que foi e deixou de ser.

Parece, inclusive, nas evasivas, nas sinédoques e metáforas com que ornamenta a oração, não estar disposto, como devia e seria imperioso, a arguir, a denunciar, a verberar a situação portuguesa, em todas as vertentes da sua desgraçada miséria.

O mutismo do patriarca Clemente chega ser inquietante, e nada tem a ver com o vendaval moral e cultural que varre o Vaticano. Aliás, ele não está só nesta incongruência desacreditante.

O Episcopado rege-se pela mesma pauta e pratica o silêncio como forma de passar ao lado. O Papa quer punir os padres pedófilos, através das leis civis. Quanto a esse assunto, oclusão absoluta, de que é paradigma o caso de D. Carlos Azevedo.

A Igreja regressou ao breviário mais reaccionário e mais infame. Nos momentos em que mais precisamos da sua voz e do exemplo dos seus melhores homens, desvia-se e entoa outros cantares.

Habitualmente, segue a música do suserano. Cabe-nos, também, modificar essa obediência, que possui algo de servidão e de medo.

REFERENDEM-NOS A TODOS!
Por Luís Rainha
http://www.ionline.pt

Admitamos que o patriarca de Lisboa, Manuel Clemente, se atrapalhou quando lhe perguntaram se os direitos das minorias devem ser referendados. Acolhamos com misericórdia a resposta: "Com certeza!" Sempre evitamos a canseira de enumerar os países onde hoje há maiorias prontas a retirar aos cristãos o direito à vida, da Nigéria ao Egipto. Poupando evocações penosas dos dias em que a Igreja referendou pelo fio da espada os direitos de outras crenças, como as dos cátaros, ao som da palavra de ordem gritada no massacre de Béziers: "Matai-os a todos. O Senhor reconhecerá os Seus".

Certo é que, para este líder espiritual, dois homossexuais nunca constituirão uma família. "Devemos tratar de forma diferente o que é diferente", merecendo esses pares "outras designações e também outro direito", pois ignoram a sacrossanta "conjugação masculino-feminino".

Os cristãos deviam lembrar-se desta tirania da maioria. Muitos foram atirados às feras pelos romanos porque, segundo Edward Gibbon, "dissolviam os sagrados laços dos costumes e da educação", "desprezando o que os seus pais tinham acreditado ser verdadeiro". Eram flagrantemente diferentes, logo foram sujeitos a leis diferentes. Noutros tempos, os homossexuais tiveram também direito a algumas "distinções", como triângulos cor- -de-rosa ao peito.

Resumindo: o patriarca ganhou o Prémio Pessoa por ser "uma referência ética para a sociedade portuguesa no seu todo". Hoje a sua compaixão parece apenas sectária e paroquial.

11/02/14

putos à solta


Eis que, a pensar nas eleições europeias mas, sobretudo, nas legislativas de 2015, as sanfonas começaram já a soar gaiteiras ali para os lados das Laranjeiras, de São Bento, de São Caetano, de todos os santinhos que desceram à Terra para nos salvar. Paulo Portas, tonitruante e altivo como convém à sua altaneira estatura de altíssimo estadista, o Altíssimo feito homem, veio anunciar a provável redução da taxa de IRS lá para 2015. A propaganda vai agitar-se e a agitação propagar-se. Vêm aí milagres ao virar da esquina, enriquecimentos súbitos, súbitas descidas de impostos, emprego para todos, amanhãs que cantam, tardes de sorna, noites de deboche. Regabofe, rebaldaria, estúrdia, bacanal permanente. Os feriados roubados serão repostos, os roubos devolvidos, os ofendidos ressarcidos, os suicidados renascidos. Portugal jardim à beira-mar plantado. Fascismo implantado, pouca-vergonha instituída, mentira institucionalizada, fraude legalizada, extorsão perpetrada por hábil manápula de larápio menor. Chamem-se O MãozinhasO Bexigoso, O Pé-de-CabraO Pé-de-SalsaO Trinca-EspinhasO Ranhoso, O Petas, O Merdas ou A Badalhoca, são um bando de putos à solta, amigos do gamanço, amantes da trapalhada, adeptos da ditadura travestida de democracia, carpideiras num enterro de Carnaval, foliões da Quaresma perpetuada, do jejum forçado, seguidores do livre empreendedorismo, fiéis da riqueza contra a pobreza, apóstolos dos fortes contra os fracos. Sejam eles O Tenor, O Africano, O ManequimO Flauzino, O Flautas, O Sacristas ou O Tanas, aí estão para nos acudir, nos sacudir nas horas más. 

São putos.

Não lhes insultem as mãezinhas. Também elas tiveram uma má hora.

o aprendiz de maquiavel em dez lições

Por Rui Zink
http://www.publico.pt/

1. Inculca culpa na tua vítima. Convence-a de que é responsável pelo que lhe está a acontecer. Se o fizeres, a tua tarefa estará facilitada. Lembra-te: se aqui vítima há, és tu, cujas intenções são “incompreendidas” pelos “ingratos e invejosos”.

2. Usa palavras mágicas: pátria, empreendedorismo, sacrifício, futuro, reformas, construir, acreditar, inovação. Baralha-as numa Bimby e faz bimbices. Se conseguires dizer sem te rires algo como “Pensar e preparar o futuro do nosso país é proporcionar às gerações que nos irão suceder as ferramentas adequadas para construir um Portugal diferente, num quadro de qualidade, responsabilidade e inovação”, tens um lugar assegurado.

3. Diz que compreendes a insatisfação dos prejudicados e concordas que, sim, têm razão, mas agora não pode ser nada. Justifica-te com a burocracia, a qual és o primeiro a combater. Pede para adiarem o seu protesto, que tu próprio reconheces como justo, “houve de facto erros, a corrigir no futuro”, mas que em breve tudo se resolverá, se as pessoas tiverem “calma e paciência” e souberem “aguardar discretamente”.

4. Desvia as atenções. A forma mais prática de aliviar uma afta é martelar um dedo. Estudo de caso: há anos, um governo estava em crise com uma sucessão de demissões. Um ministro de génio (para estas coisas) marcou uma conferência de imprensa a anunciar a construção da terceira ponte lisboeta sobre o Tejo. Todos os jornalistas caíram no engodo – por malícia, naiveté ou pura cumplicidade. Aplica estes e os outros preceitos e terás a vida facilitada.

5. Usa factos. Não importa quais. E números. Muitos números. Mostra gráficos. Sê firme, mesmo que não saibas o que estás a dizer. Não te preocupes, com sorte o teu interlocutor não terá informação ou coragem para te confrontar, e o risco de seres apanhado é inferior a 1,6% (número que acabo de inventar, aliás). Quando te apresentarem factos contrários, responde que “são casos isolados”. Simplifica ao absurdo mas, se necessário, foge na direcção contrária, e diz que “a questão é demasiado complexa” para ser tratada “daquela maneira” na praça pública.

6. Chora lágrimas de crocodilo. Se não tiveres de crocodilo, chora lágrimas de raposa, de hiena, de lobo com pele de cordeiro, de rato de sacristia, de coelho à caçadora, de abutre, ou, na pior das hipóteses, de “intensa e enorme emoção”, porque tu, “pessoa razoável e pragmática”, raramente “cedes à emoção”, mas quando cedes ela é sempre intensa e enorme, porque tu és assim e “assumes” com plenitude a plenitude da plenitude.

7. Sabes que a crise tem unicamente por função baixar “o custo do trabalho”. Corrijo: também servirá para vender alguns anéis públicos, e os dedos que a eles vierem colados. Só que baixar o custo do trabalho é a prioridade. Infelizmente, não o podemos dizer desta maneira. Então mostra compaixão, geme, condói-te, solidariza-te, “compreende”. Etc. Faz como te digo e vais ver que tudo corre bem.

8. Defende e respeita a tradição. Porque a tradição é “a alma dum povo”. Lembra que, em contrapartida, para progredir é preciso “proceder a reformas necessárias”. E são sempre necessárias, essas reformas, ainda que “dolorosas”. Tu compreendes que são dolorosas, só que necessárias. Em simultâneo, tenta respeitar “as bonitas tradições do nosso povo e de nossos pais”. E nenhuma é tão bonita como o futebol.

9. Escolhe bem os funerais a que vais. Lembra-te: o morto é o menos importante, a pedra na sopa da pedra. Se te candidatas a herdeiro do trono, sê “discreto e humilde”, mas vai para a frente na fotografia. Lembra-te: quando foi confrontativo, Ronaldo perdeu; quando foi humilde, Cristiano ganhou.

10. Ignora aqueles que dizem: não mates o mensageiro. Matar a quem, senão ao mensageiro? Ignora aqueles que dizem que não se bate nos mais fracos: bater em quem, senão nos mais fracos? Nos mais fortes? Só os idiotas batem nos mais fortes. Não te armes em corajoso. Se quiseres mostrar coragem (até para desviar as atenções), empurra um bêbado ou humilha um criado.

Cumpre estas leis e poderás, pela calada, desobedecer a todas as outras. Ámen.