01/10/15

queres estabilidade, filho?


Queres estabilidade, filho, queres?

A estabilidade do desemprego a alturas nunca vistas, não é isso, filho? E a dos desempregados sujeitos a liberdade condicional, à permanente humilhação das comparências quinzenais para mostrarem que estão vivos, que não estão a enganar o Estado, a passar-lhe a perna, a esmifrá-lo, porque essa coisa das roubalheiras é primazia e apanágio do Estado e não da vulgata, do cidadão anónimo e sem voz, aquele que, como tu filho, como tu, come e cala de cara alegre porque quem protesta ou é comunista ou mau português, anti-patriótico, um pária, um traidor. E a estabilidade propiciada aos desempregados obrigados a trabalhar de borla ou a frequentar cursilhos da treta para que, enquanto o pau vai e volta por uma côdea de pão, folguem as estatísticas douradas da propaganda governamental. Não é assim, filho?

Queres estabilidade, filho, queres?

A estabilidade de um emprego cada vez mais mal remunerado porque, se não aproveitares, "há mais quem queira". A estabilidade de um emprego precário. A estabilidade de um emprego de onde te podem despedir por dá cá aquela palha porque, graças à UGT também, os patrões podem agora despedir com toda a facilidade e por tuta-e-meia. E, diz o programa do PS, e diz-nos a prática do PAF, uma maior liberalização é ainda desejável a bem da economia, porque a economia não existe para as pessoas, existe para a alta finança acumular riqueza e tu, meu filho, andares a pão e água porque laranja é luxo de remediado. A estabilidade de um emprego onde cada vez trabalhas mais - substituis outros que se vão indo embora sem que o seu lugar seja ocupado -, e cada mais mais horas, porque o governo eliminou feriados e, na sua fúria estabilizadora, quer aumentar a carga laboral de cada um e roubar-lhe os poucos direitos que ainda tem. É bestial, não é filho?

Queres estabilidade, filho, queres?

A estabilidade dos impostos que, se já estão altos, não vão descer, tomáramos nós que não subam. A estabilidade de um IRS gourmet, que te come grande parte do teu salário ou da tua pensão acrescido de complementos extraordinários que passaram a ordinários, que seria de um comilão sem a sua sobremesazinha, o seu amuse-bouche? A estabilidade de um IVA máximo na electricidade, na água, no gás, que pagas mais caro do que a maioria dos europeus. Gostas disto, não gostas, filho? Do fisco que te persegue por uns cêntimos de dívida, que, por via das dúvidas porque se não és ainda podes vir a ser, te trata como um caloteiro do piorio, te ameaça, te leva a casa, o carro, a paz de espírito, a alegria de viver. Que bom, não é filho?

Queres estabilidade, filho, queres?

A estabilidade da caridadezinha, porque o governo cortou radicalmente nas prestações sociais, a torto e a direito, mas dá milhões para a sopa dos pobres, para gáudio das Jonet e dos Motas Soares, farinha do mesmo saco, matéria do mesmo monturo. A estabilidade dos sem-abrigo, cada vez mais acompanhados porque outros tantos se lhes juntam. A estabilidade das famílias que perderam empregos, rendimentos, a esperança.

Queres estabilidade, filho, queres?

A estabilidade de uma Justiça que persegue Sócrates, ainda estamos para ver se com razão ou sem ela, e esquece tantos e tantos vilões, alguns deles encaixados em altaneiros cargos desta Nação doente, berço de um povo capado, indolente. É fantástico, não é filho?

Queres estabilidade, filho, queres?

A estabilidade de um Estado tomado de assalto por uma despudorada élite de compadres e comadres, de negociatas de bastidores, de PPP, de fundações, de milhões entregues de mão-beijada a empresários que já foram ministros e ministros que já foram empresários, num proxenetismo que tem a estabilidade de uma cama de putas. Dá-te gozo só de pensar nisso, não dá filho?

Queres estabilidade, filho, queres?

A estabilidade dos bancos que vão à falência por falta de vigilância do regulador estatal, das grandes empresas que nos levam o nosso rico dinheirinho mas pagam os impostos lá fora, das pequenas e médias empresas asfixiadas por impostos e regras e decretos e demais imposições, fechando as portas e criando mais desemprego porque assim é preciso, é a selecção natural, que caiam os mais fracos e resistam os mais fortes, as tais empresas que estão na bolsa, no grande casino, na crista da onda e onde os seus directores, presidentes, vogais e demais arraia-grossa ganha o que ganha, 10, 20, 30, 50 vezes mais do que tu, um apologista da estabilidade, um devoto da evolução na continuidade, de um Estado novo com velhos vícios.

Queres estabilidade, filho, queres?

A estabilidade dos mortos por falta de assistência médica. A estabilidade dos teus filhos que emigram porque cá não conseguem viver. A estabilidade dos jovens que deixaram de poder aceder ao ensino universitário. A estabilidade das classes profissionais, todas eles, que se manifestam constantemente nas ruas contra o governo e a propagandeada estabilidade. 

Queres estabilidade, filho, queres?

Não há maior estabilidade do que a dos cemitérios. E este país está a morrer. Ajuda a acabar com ele. Pela estabilidade, por ti, pelos teus, vota PAF filho, vota PAF.

29/09/15

nem tudo está perdido, podem crer


Por Baptista-Bastos

Que vai restar daquilo que, apesar de tudo, conseguimos, nestes quarenta anos? Pouco. A mística que nos envolveu e nos fez agir, logo após Abril de 74, foi persistentemente esbatida, com a nossa total indolência. A vitória do capitalismo mais predador, da substituição do humanismo por uma ordem que minimiza a cultura e dá premência ao dinheiro, domina Portugal e o mundo. A União Europeia desmorona-se, porque, na realidade, nunca existiu. Os "mercados" deixaram de ser abstracções entediantes para se tornarem nos vampiros da canção: estão em todo o lado, tudo devoram e não deixam nada.

Portugal está à beira de qualquer coisa, e ninguém sabe bem de quê. Mas o panorama não augura nada de bom. Os partidos que se têm alternado no poder são uma miséria política, moral, social e filosófica. As vozes isoladas, que recalcitram contra este amorfismo, são perseguidas, saneadas, ou tidas como obsoletas. O dr. Passos Coelho, desabusado e sem pingo de vergonha, disse: "Nós nunca seremos oposição ao País!" Como o País somos todos nós, o que ele tem sido é exactamente o contrário do que afirma. Ouvimo-lo, naqueles comícios gritados, nas televisões e nos jornais caracterizados por uma docilidade comprada, e não acreditamos que ainda haja um tipo desta natureza.

Um imbecil dessa estirpe chamou aos velhos "peste grisalha" e ninguém da classe dirigente o exautorou e apontou à execração pública. Concordaram. Os velhos, são, aliás, o alvo preferencial de uma casta ignóbil, apoiada pelo dr. Cavaco e estimulada por Passos Coelho e os seus. A ignorância campeia alegremente. Os apedeutas, como os chamava um grande jornalista português, no tempo em que os havia, e que não eram "professores doutores". Quem sabe, faz; quem não sabe, ensina. Nunca o aforismo teve aplicação tão acertada e justa como hoje.

Há um mundo de decência, de integridade e de consideração que está a ser sovado por oportunistas estipendiados pelas forças do mando e do comando. Repito o que tenho dito: os escritores portugueses que, nas épocas mais ignominiosas, mantiveram a honra do convento, sabendo que, para isso, desafiavam o poder absoluto, punham a vida em perigo e as funções em risco – calam-se; outro, menoríssimo, recebe das mãos do inimigo um penduricalho envergonhante; e aqueles, ainda, que se calam perante a indignidade. 

A pátria é o mais atroz lugar de exílio, para fazer uma paráfrase de um belo livro de Daniel Filipe: "Pátria, Lugar de Exílio." Os refugiados do nosso tempo, aos milhares de milhares, também somos nós. Vivemos na falsa prosperidade e mergulhamos numa infelicidade dolorosa. Não protestamos contra esta desdita, somos manipulados, indolentes e adormecidos por quem sabe o que quer, e o que quer são os novos escravos de uma civilização que o deixou de ser. 

A fatalidade parece que nos anatemiza. Falei no Daniel Filipe, parceiro, companheiro e amigo, grande poeta esquecido como tantos outros grandes. Morreu de desgosto, de mágoa infinita e de espanto. Eu estava no Brasil, quando soube da sua morte, por um artigo comovente de Miguel Urbano Rodrigues, no Estado de São Paulo: "Daniel Filipe, Cronista sem Coluna." Seria bom que um editor recuperasse as crónicas dele, "Discurso sobre a Cidade" e reeditasse a sua poesia. Assim digo porque gente desta estirpe faz falta e sempre rasga um pouco do véu que nos tolda. 

Mas o grau de futilidades e de indiferenças que nos cerca é demasiado poderoso, sei isso muito bem. Contudo, nem tudo será sempre assim. As pequenas possibilidades oferecidas serão, um dia, muito maiores. Nem tudo está definitivamente perdido. Podem crer.

In Jornal de Negócios