11/01/14

é preciso expulsar os vendilhões do templo


Já era de esperar: Álvaro Santos Pereira, o ex-ministro da Economia, ou a sombra de um ministro, ou o fantasma de um ministro, arranjou emprego como nº 2 da OCDE. José Luís Arnaut foi nomeado para um alto cargo no cói de bandidagem a que alguns ainda ousam chamar banco, a Goldman Sachs. Vítor Gaspar, coitado, não teve a mesma sorte e arrasta o corpo e a voz pelos corredores de um (pouco digno dele) Banco de Portugal, mas o futuro pertence-lhe, tão novo ainda e já com tão boas provas dadas. A Pedro Coelho estará destinada a mais gorda fatia do bolo porque quem parte e reparte e não fica com a melhor parte, já se sabe, ou é tolo ou não tem arte, e a gente já conhece, de ginjeira, os dons e artimanhas do artista.

Cá se fazem, cá se pagam. Os ricos, os muito ricos, não os simples bem abonados, compensam regiamente os seus serviçais. Todos terão um poiso dourado, um ordenado chorudo, e rir-se-ão de nós, os otários que lhes aturámos os roubos e abusos.

Esta economia mata, não sou eu quem o diz mas o procurador Dele na Terra. E os cúmplices da matança, os vassalos dos senhores do mundo, os vendilhões do templo, trepam na vida, incólumes e insaciáveis. Querem, à viva força, pertencer ao grupo dos eleitos, dos ungidos, dos pequenos deuses que nos governam, que decidem o nosso destino, a morte ou a má sorte.

O crime compensa. Sempre assim foi. Mas nem sempre assim será.

10/01/14

AVISO: descongelar antes de usar


não há pobres em portugal

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Palavra de honra que não entendo o escarcéu à volta do aumento de impostos, porque de imposto se trata, dos reformados que recebem 1.000 euros ou mais de pensão para não fazerem a ponta de um corno. É que a palavra diz tudo: mil. Se recebem mil, está-se mesmo a ver, são milionários. Sempre ouvi os energúmenos de esquerda vociferar "os ricos que paguem a crise". Este governo, muito à frente, fez-lhes a vontade. Os ricos estão a pagar as dívidas dos bancos e o executivo, benemérito, generoso como só Pedrito Coelho e os seus amigos podem ser, poupa os remediados, todos os que ganham menos de 1.000 euros.

Ora digam-me lá se isto não é justo?!

Não há pobres em Portugal. Há ricos e remediados. Os desempregados, os velhos, os doentes e os milionários estão protegidos em Portugal. Sob o manto benfazejo de gente comisera, pia, de mãos largas e coração grande.

Bem-hajam!

08/01/14

escorpiões enlatados

O governo, e os comentadores a ele engajados, e os políticos a ele acorrentados, não cessam de proclamar que a economia deu a volta, que nunca esteve tão bem, que o desemprego está a baixar. Diogo Feio, a feia criatura do CDS, por dentro que por fora nem bitates dou, teve até o desplante, ontem, de afirmar que se estão a criar novos empregos graças à política económica da comissão liquidatária de Portugal chefiada pelo Mamede em festa, Passos para uns, Coelho para outros, um palavrão para os demais.

É preciso ter lata! Em dois anos, o governo liquidou mais empresas e empregos e obrigou a uma descida de salários como nenhum outro se atreveu em Portugal nos anos de democracia. Estamos, quase todos, mais pobres do que estávamos quando Mamede veio fazer uma ... isso que o leitor está a pensar. Se a economia deu a volta para melhor foi para os abutres do capital desvairado, os especuladores, os mafiosos, os oportunistas, os chulos do trabalho alheio. Para esses sim, não há crise, a vida é-lhes opípara.

Mamede vencerá. Uma mentira, tantas vezes repetida, tornar-se-á verdade contra todas as evidências. Ou nos cuidamos ou teremos Mamede e sucedâneos de Mamede por uns 48 longos anos. É a nossa sina. É a nossa culpa.

07/01/14

sobre a televisão em dia de funeral

Ontem, todos os canais portugueses, os generalistas e os de informação, estiveram praticamente o dia inteiro a acompanhar as cerimónias fúnebres de Eusébio. Abutres à volta da carniça que dá audiências. Horas e horas de momentos de televisão em que nada acontece e, como os repórteres nada têm para relatar, palram. Palram demais. Do rei. Do king. Do maior jogador de todos os tempos. Eusébio é Portugal e Portugal é Eusébio. O jogador global etc. e tal. Frases bacocas, frases tolas, frases redundantes, frases pomposas, num português titubeante e tantas vezes medíocre.

Eusébio merecia melhor. E nós também. Os telejornais imitam os piores tablóides. O resto da programação limita-se às telenovelas, enlatados, música pimba e reality shows a rondar a abjecção. Os apresentadores e enternainers são fabricados em proveta e escrevem livros, muitos livros escrevem eles, best sellers da moda que se vendem no supermercado a preços sensacionais, como se fossem vinho ou iogurtes ou tremoços ou pedaços de toucinho. Para os talk shows da RTP, convidam-se as "celebridades" da RTP. Para os outros canais, as "celebridades" desses canais. A informação é tendenciosa, os comentadores, quase todos, alinhados pelo poder da alternância, o humor inteligente relegado para as horas de dormir. Jornalistas, escritores, artistas, políticos incómodos são personae non gratae. Estupidifica-se um povo para que, contentinho da silva, chafurde na sua alegre tristeza. Regredimos. E não só economicamente.

Lusa/Reuters/http://www.tvi24.iol.pt
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quem não deve, não treme


Que dizer de um presidente que mais não é do que uma mera correia de transmissão do governo? Às vezes, só às vezes, e parece-me que só quando essas vezes lhe tocam directamente na carteira, mostra sinais tímidos de rebelião, logo abafados por outros ditos e dichotes que mostram de que lado está, da economia que mata. 

A razão por que os portugueses o elegeram duas vezes primeiro-ministro e duas vezes presidente da República é um mistério que, para mim, permanece insolúvel. Não tem carisma, não tem figura de estadista, não tem pulso, não tem ponta por onde se lhe pegue. É um mal que arrastamos connosco há demasiados anos. 

Desacreditado, desautorizado, desmoralizado, abandonará a presidência sem que lhe tenhamos conhecido uma palavra, um gesto, uma iniciativa que honre a sua passagem por Belém.

Faz-nos passar as passas do Algarve. Que volte para Boliqueime e que por lá fique a gozar as pensões que não lhe chegam. Não deixará boas recordações de um tempo em que mais precisávamos de um líder isento, lúcido, forte. Um presidente. O lugar está vago. A cadeira, por ocupar.

um chá de adrenalina

Perto da cidade chinesa de Huayin, existe uma casa de chá. Mas não é uma casa de chá qualquer. Para se lá chegar é preciso desafiar a morte, e são muitos os que o fazem, a popularidade do local é cada vez maior. Se sofre de vertigens, se tem pânico das alturas, se tem amor à vida ou, o mais provável, falta de dinheiro para ir até lá, limite-se a olhar para as fotografias e para os vídeos. Vai-lhe chegar e sobrar.



















Todas as fotografias recolhidas em:

um apartamento em paris

Falemos de coisas fúteis, que desta vez vale a pena. Receando os nazis, uma mulher refugia-se no sul de França e, por razões desconhecidas, nunca mais voltou à sua casa em Paris, que deixou abandonada durante cerca de 70 anos. Só após a sua morte, aos 91 anos, o apartamento foi reaberto, descobrindo-se um verdadeiro tesouro em mobiliário, objectos decorativos e obras de arte. Um dos quadros encontrados no espólio, atribuído a Giovanni Boldini, foi avaliado em 3 milhões e meio de dólares e retrata a actriz Marthe Florian, avó da dona da casa.

Getty/http://twistedsifter.com

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06/01/14

morreu o rei, viva o rei!

Tenho o maior respeito por Eusébio e pelos seus feitos. Mas os telejornais, os jornais, a rádio, as redes sociais, os jornais online só vivem desde ontem para Eusébio depois de morto. Não será um bocadinho demais? E dos vivos? Quem cuida deles, quem se importa com eles, quem lhes dá uma mão? 

Todos os dias morre gente por obra e graça da dieta austeritária que nos enfiam pelas goelas. E se afinássemos todos a garganta, em uníssono, para espantar os espectros que nos ensombram os dias, dia e noite?

Fechem-se as portas. Afugente-se o coelho. Sem dar cavaco, façamos de coveiros deste desgoverno moribundo. Choremos Eusébio. Mas choremos também o luto no coração dos milhões de portugueses que, desempregados, empobrecidos, humilhados, padecem às garras e nos dentes dos lobos esfaimados por dinheiro e sangue.











eles têm o poder, nós temos a razão

Ângelo Lucas/http://www.dinheirovivo.pt
Por Baptista-Bastos

Não sei se era velho. Sei, isso sei, que estávamos cansados dele e do que para nós representou de fome, de desemprego, de miséria, de desespero sem fim, de mentiras e de embustes. Se não houver alterações substanciais, este, que chegou, será mais e pior do mesmo. Portugal parece alheado: andou numa fona de gastos, e a correria às compras deu a ideia de que a normalidade era a regra. A alegoria segundo a qual os bárbaros estão às portas de Bizâncio e os bizantinos discutem o sexo dos anjos, reformula, uma vez mais, a imperdoável e sempre repetida negligência dos caracteres.

2013 foi o que foi porque o permitimos. 2014 adivinha-se o que será e nós andamos às compras. Informam graves estudos de que, a partir de agora, desempregados com 40/45 anos nunca mais encontrarão ocupações. Os celtas antigos atiravam os velhos das falésias, por inúteis; os modernos matam-nos de modo mais sofisticado, lentamente, com o fogo da mais cruel das decisões: "desocupam-nos." Os "desocupados" formam legiões sem destino e sem esperança.

Não preciso de discutir a situação emergente para chegar à conclusão de que a nova ordem económica internacional tem causado um desespero tão atroz e imundo que só a indiferença dos mandantes torna mais sórdida. "Vamos no bom caminho", diz, com treinada voz de tenor melífluo, o extraordinário dr. Passos Coelho. E o dr. Cavaco, a maior tragédia que nos calhou, nos últimos quarenta anos, aplaude, sustenta e concorda.

Ninguém diz a ninguém que o custo desta aventura é um peso inominável e arrasta consigo a própria noção de pátria. Um milhão e meio de desempregados; 140 mil jovens que deixaram o País por impossibilidade de viver; redução drástica de estudantes no secundário e no superior; despovoamento acentuadíssimo do interior; riqueza obscena de meia dúzia de senhoritos; lucros faraónicos de empresas e depredação, cada vez maior, das possibilidades naturais do país. A acumulação de funções e de cargos multiplica-se. Apenas um exemplo: corre pela internet, uma informação pormenorizada das incumbências desempenhada pelo ministro Aguiar-Branco, aquele do imbróglio dos Estaleiros de Viana do Castelo. É uma lista vergonhosa e de certa forma ilustrativa da imoralidade que grassa pelo País. O caso não é único: mas é exemplar.

Quando Passos e o dr. Cavaco decidiram discretear, em funestas exortações de fim-de-ano, a desvergonha atingiu, pelas omissões deliberadas e pelas contorções à realidade circundante, uma dimensão de nojo. O Papa Francisco, que parece ser o último arrimo de uma humanidade desesperada, tem dado a entender que a luta contra a agressão do dinheiro e a perversidade do lucro põem em causa a própria religião como expressão de identidade. Infelizmente, a Igreja portuguesa arredou-se das exortações papais e do exemplo que, notoriamente, o Sumo Pontífice está a dar. A última homilia e as declarações posteriores de patriarca de Lisboa, Manuel Clemente, vão em direcção de uma esquivada ambiguidade. Digo-o com pesar: conheço o antigo bispo do Porto, carteei-me electronicamente com ele, estive num debate promovido pelo Montepio sobre exclusão social, e lamento que o espírito de abertura intelectual, política e social que manifestou esteja, agora, silenciado e evasivo. A voz de um homem como Manuel Clemente, culto e lido, é imperiosa; porém, neste momento, está a baralhar, singularmente, a relação de esperança que poderíamos ter com a Igreja de Francisco.

Os tempos não parecem propícios às grandes fraternidades, agora, que a invasão dos bárbaros avança com inclemente vigor. Mas não podemos desistir, não podemos capitular, não podemos abandonar o terreno onde se dirimem as questões centrais da civilização. Nem tudo está perdido, porque nos resta a força da nossa razão e o poder imparável daquilo que queremos.