17/12/16

pornografia política


Por causa, como direi?, de um momento de distracção conjugal, pediram a cabeça do Bill. Agora, os mesmíssimos seres que só praticam o acto na posição de missionários, que nunca tiveram pensamentos pecaminosos, que privilegiam a pureza de pensamentos, palavras, obras, tudo perdoam a Trump, que deus o guarde, preserve, conserve por muitos e bons anos nem que seja em álcool ou formol. Não têm conta os deslizes, os desmandos, as aleivosias, gabarolices, mentiras, incorrecções, imprudências fatais cometidas pela criatura de laranja madeixa ao vento, a paz mundial em causa, a economia por um fio, a credibilidade da América de rastos, mas o povoléu exulta, temos homem!, este tem-nos no sítio e é branquinho como o algodão que não engana, se fosse português todos diriam como disseram num desatino do Isaltino de Oeiras City: rouba mas faz. Que periclitantes instituições tem a América para salvaguarda da sua democracia, que já de si nunca foi grande coisa. Os russos ajudaram-no, ao laranjinha de má nota, a ganhar as eleições? Não se passa nada. O gajo passou 12 milhões dos dinheiros da campanha para os seus negócios privados? Nada. Insulta a Hilária e mais quem a apoiar? Nada. Nomeia fascistas, negreiros, gatunos, proxenetas da alta finança, racistas, mad dogs para o seu governo? Nada. Acusam-no de um sem-número de trafulhices, vigarices, idiotices e quais as consequências? Nenhumas. É um idiota inimputável, um herói do povo e do polvo de Wall Street que ele disse ir combater. Foi eleito, eleito está. Viva a democracia. Até que a morte nos separe.

vamos indo


Pedro Coelho, a passos de tartaruga, vai soltando a verrina que lhe enche peito e neurónios enquanto perde fiéis e votos, pedindo ao seu Deus, a Merkel, a Schauble, como prenda de Natal e Ano Novo, o regresso dos reis-magos da Troika, a derrocada económica, a falência do Estado, o apocalipse da geringonça. Teresa Caeiro, oh suprema lata!, insurge-se contra o governo por nada fazer para evitar o encerramento da Cornucópia. Santana Lopes anda por aí em misericordiosa missão, vítima, coitado, de vistorias de mangas de alpaca e visitas de ramonas, sempiterno infante maltratado desde o berço, e até agora não está claro se concorre contra Cristas pela tomada de Lisboa ou se, qual Cristo, se sacrifica pelo bem comum da direita de extrema unção, presunção, água-benta e sebentas ambições. Os patrões, acagaçados com a réplica da arremetida comunista que Eanes e Soares rechaçaram nos idos de 1975, vitupera o PS por se deixar influenciar pela extrema esquerda e querer aumentar o salário mínimo nuns míseros euros, porque todo o dinheiro é pouco para os Mercedes à pato-bravo e para as férias com as suas Idalinas ou concubinas em Cancún e porque a vidinha está pela hora da morte e porque um burro se sustenta a palha, para quê dar-lhe fava e da rica? Medina Carreira e Tony Carreira continuam de vento em popa, ídolos das televisões e das multidões. Os jornais, as revistas, as televisões, a rádio, dão especial relevo ao mais do que provável aumento dos juros da dívida, plagiando Passos no mau agoiro e nos desejos pouco secretos. Os portugueses acorrem aos centros comerciais em demanda do presente de Natal esquecido do familiar à última hora lembrado. Abrem os cordões à bolsa, consomem, a bem da economia e para salvação da Pátria. Não há casa que lhes esconda os segredos, telenovela de que não saibam o novelo, polémica no facebook a que não acorram aos palavrões e aos pontapés na grafia e na gramática, sempre, sempre em defesa dos valores da tradição e dos bons costumes ventilados a todo o instante pela santa madre igreja. Nós, por cá, todos bem. Não há Aleppo, nem Trump, nem Putin, nem mil generais-cães-raivosos que nos tirem o sono e o sonho.

15/12/16

obras de artur loureiro












crónica de uma morte anunciada

E se desse um tranglomanglo ao Dr. Passos Coelho que o levasse desta para melhor, verteria uma lágrima? Não. Mas não celebraria. Deixo as comemorações felizes para o passamento de um Pinochet e de outros assassinos de igual calibre. Não aceito, entristece-me, causa-me repulsa que alguns, mesmo aqueles que repudiaram quem, em Miami, se alegrou com o fim de Fidel, venham agora regozijar-se com a morte, que eles esperam iminente, de Mário Soares. Nunca votei nele, a não ser para a presidência da República, os tais sapos que tive o ensejo de engolir com vontade e diligência. Não gostei, é certo, de ver Mário Soares a ser vitoriado pela direita e extrema-direita na Alameda no Verão de 1975, em defesa dos "valores democráticos" que, adivinhámos então e temos agora a certeza, nos conduziram a esta democracia que, ainda jovem, já está anquilosada, maltratada por oportunistas, demagogos, corruptos e fascistas a sair da toca. Ainda estão por explicar as suas ligações e amizades espúrias com gente como Frank Carlucci, as suas conspirações com o conluio de aliados pouco recomendáveis. Mas, devo alegar em sua defesa, foi das vozes mais contundentes contra a negra governação de Passos Coelho e apaniguados. Devo-lhe isso, quanto mais não seja. A celebrar alguma coisa, será a sua permanência entre nós.


13/12/16

retrato para a bosteridade

https://www.facebook.com/anterozoide/

quem se quer bem ...






chamem os bois pelos nomes!


Encarquilham-se-me as unhas dos pés de cada vez que ouço a palavra populismo, tão na moda entre os arautos da comunicação associal, para caracterizar os bois a que não ousam dar nome: os fascistas. Porque Le Pen não é (só) populista, é antes de mais fascista. Tal como Trump. A mentira exacerbada, a demagogia desenfreada, a violência verbal, a intolerância, a xenofobia, o apelo ao ódio, são apenas meios - populistas - para atingir os seus fins: o poder. Trump não quer, nunca quis as responsabilidades inerentes à presidência dos Estados Unidos. Quer poder pelo poder. É o seu brinquedo derradeiro porque a mansão dourada, os negócios espúrios, os logros milionários, a exploração atroz de colaboradores e parceiros, as gajas boas já não lhe chegavam para satisfazer a sua imensa vaidade, a fútil ligeireza do seu ser mesquinho e trapaceiro, nulo de valores, ideias, ideais humanos. Trump quis mais. E conseguiu, com o beneplácito de multidões que, tal como aconteceu com Hitler, viram nele o salvador, o regresso do D. Sebastião a que todos os povos almejam.

Reproduzo, a seguir, uma passagem do livro"O Eterno Retorno do Fascismo", escrito em 2010 por Rob Riemen:

"Qualquer pessoa que saiba um pouco sobre a história da nossa cultura, a história do declínio dos valores, do desaparecimento do espírito europeu, e que analise a nossa sociedade contemporânea, não poderá deixar de concluir que Albert Camus e Thomas Mann tinham toda a razão quando, em 1947, declararam que o fascismo é um fenómeno político que não desapareceu com o fim da guerra e que podemos agora descrever como a politização da mentalidade do homem-massa rancoroso. É a política utilizada por demagogos cujo único objectivo é o reforço e alargamento do próprio poder. Para esse efeito, explorarão o ressentimento, designarão bodes-expiatórios, incitarão o ódio, esconderão o vazio intelectual por trás de slogans e insultos roucos, e, com o seu populismo, elevarão o oportunismo político a uma forma de arte."

Palavras premonitórias. Aí temos Trump e, com ele, o regresso do fascismo a que urge pôr cobro. Antes que seja tarde para todos nós.

11/12/16

na rota da morte

Pobreza extremada. Escravatura. Poluição. Terrorismo. Guerras sem freio. A isto nos conduziram os modernos dias de apogeu da civilização, num mundo cada vez mais desigual, cada vez mais envenenado, cada vez mais assente no consumo, a via única para o progresso económico, dizem à esquerda, à direita, à saciedade. E os povos, os mesmos que enriquecem até à demência 1% da população mundial, trabalham mais horas por menos dinheiro e menos direitos, matam-se e morrem, mas elegem alegremente os seus algozes, admiram os ricos e os famosos, comem, no chão, as migalhas que caem das fartas mesas dos senhores do Universo, invejando-lhes o donaire, as vestes, os dourados das mansões de milhões, as colecções de arte, de carros, de escândalos. Voltámos à idade média. Nada aprendemos com o tempo e com os sacrifícios dos nossos mártires. Caminhamos para a destruição, o genocídio que se estenderá de Aleppo às favelas do Rio, aos casebres de Port-Au-Prince, às palhotas de Mogadíscio, aos campos de refugiados de Dadaab, Kakuma, Yida  Mas, aqueles que podem, que ainda conseguem, têm a favor da sua inconsciência os reality shows, a informação desgraçada, o refúgio das religiões, o escape do futebol e as compras, do último modelo automóvel, do último telemóvel, do último jogo electrónico, do último grito da moda, o vestido barato que tão caro saiu aos escravos das sweatshops. Vivemos, os que podemos, na grande farra. Até ao estertor final, ao qual não escaparão, fraco consolo, os Trumps e as trampas do pior capitalismo que nos foi dado viver. E pelo qual iremos morrer, de mãos postas em louvor de deuses, ditadores, investidores, empreendedores, rapaces negreiros de um tempo que se finda.