13/12/13

o papa fala outra vez

EPA/http://www.independent.co.uk
Desta vez, não me alongo. Deixo que o Papa fale por mim, por biliões de seres humanos em todo o Mundo, na sua mensagem para o Dia Mundial da Paz:

"Às guerras feitas de confrontos armados juntam-se guerras menos visíveis, mas não menos cruéis, que se combatem nos campos económico e financeiro com meios igualmente demolidores de vidas, de famílias, de empresas." 
(...) 
"Penso no drama dilacerante da droga com a qual se lucra desafiando leis morais e civis, na devastação dos recursos naturais e na poluição em curso, na tragédia da exploração do trabalho; penso nos tráficos ilícitos de dinheiro como também na especulação financeira que, muitas vezes, assume caracteres predadores e nocivos para inteiros sistemas económicos e sociais, lançando na pobreza milhões de homens e mulheres". 
(...) 
"Em muitas partes do mundo, parece não conhecer tréguas a grave lesão dos direitos humanos fundamentais, sobretudo dos direitos à vida e à liberdade de religião. Exemplo preocupante disso mesmo é o dramático fenómeno do tráfico de seres humanos, sobre cuja vida e desespero especulam pessoas sem escrúpulos". 
(...) 
"A paz, afirma João Paulo II, é um bem indivisível: ou é bem de todos ou não o é de ninguém. Na realidade, a paz só pode ser conquistada e usufruída como melhor qualidade de vida e como desenvolvimento mais humano e sustentável se estiver viva, em todos, 'a determinação firme e perseverante de se empenhar pelo bem comum'. Isto implica não deixar-se guiar pela 'avidez do lucro' e pela 'sede do poder'. É preciso estar pronto a 'perder-se' em benefício do próximo em vez de o explorar e a 'servi-lo' em vez de o oprimir para proveito próprio". 
(...) 
"O 'outro' - pessoa, povo ou nação - [não deve ser visto] como um instrumento qualquer, de que se explora, a baixo preço, a capacidade de trabalhar e a resistência física, para o abandonar quando já não serve; mas sim como um nosso 'semelhante', um 'auxílio'". 
(...) 
"As novas ideologias, caracterizadas por generalizado individualismo, egocentrismo e consumismo materialista, debilitam os laços sociais, alimentando aquela mentalidade do "descartável' que induz ao desprezo e abandono dos mais fracos, daqueles que são considerados 'inúteis'." 
(....) 
(O dever de solidariedade) "exige que as nações ricas ajudem as menos avançadas", e o dever de justiça social, "que requer a reformulação, em termos mais correctos, das relações defeituosas entre povos fortes e povos fracos". 
(...) 
"O dever de caridade universal, que implica a promoção de um mundo mais humano para todos, um mundo onde todos tenham qualquer coisa a dar e a receber, sem que o progresso de uns seja obstáculo ao desenvolvimento dos outros". 
(...) 
(São necessárias) "políticas eficazes que promovam o princípio da fraternidade, garantindo às pessoas - iguais na sua dignidade e nos seus direitos fundamentais - acesso aos 'capitais', aos serviços, aos recursos educativos, sanitários e tecnológicos, para que cada uma delas tenha oportunidade de exprimir e realizar o seu projecto de vida e possa desenvolver-se plenamente como pessoa". 
(...) 
"Reconhece-se haver necessidade também de políticas que sirvam para atenuar a excessiva desigualdade de rendimento". 
(...) 
"As sucessivas crises económicas devem levar a repensar adequadamente os modelos de desenvolvimento económico e a mudar os estilos de vida. A crise actual, com pesadas consequências na vida das pessoas, pode ser também uma ocasião propícia para recuperar as virtudes da prudência, temperança, justiça e fortaleza. Elas podem ajudar-nos a superar os momentos difíceis e a redescobrir os laços fraternos que nos unem uns aos outros, com a confiança profunda de que o homem tem necessidade e é capaz de algo mais do que a maximização do próprio lucro individual."

12/12/13

desanquem-se!


Vendilhões de Portugal a retalho, os mordomos da troika têm alienado o património público como quem se livra de um furúnculo ou de almorróidas no recôndito lugar que a gente sabe, parte da EDP para os chineses, que são afinal quem manda lá, o BPN para os angolanos, o pedaço de leão dos CTT para os americanos da Goldman Sachs, os estaleiros de Viana para portugueses falidos e a TAP, se os deuses deles quiserem, e hão-de querer, para uma mistura fina de sangue polaco, brasileiro e colombiano, tudo para que a globalização do país, a sua passagem a multinacional, de Estado Social a Estado Empresa com sede no estrangeiro, a sua carne esquartejada, se parta e reparta entre os agiotas do mundo, que a todos contemple sem excepção alguma. Se não há moral, ao menos que comam por igual.

E tudo isto sem nos ser explicada a razão para as vendas, concessões, privatizações, doações ou lá o que é, estarem a ser efectuadas por tuta-e-meia para lucro de uns quantos e prejuízo dos portugueses que ficarão, por longos anos, a pagar a factura. Nada a que não estejamos habituados, valha a verdade. Para muitos a fava, para uns poucos o bolo-rei.

Mas não há quem os desanque? Quem revogue os irrevogáveis, os leiloeiros da Pátria, os negociantes de Portugal a pataco? E as oposições, porque não desataram ainda à estalada? (Claro que não estou a pensar no PS, Seguro não conta, esse aguarda, com bovina paciência, a sua vez de ocupar a cadeira que já foi de Salazar, não a que o matou, infelizmente a essa a governanta do governante deu-lhe sumiço, a serventia que não teria agora). Porque deixam, sem rebuliço de maior, que os serventes da troika, os serventuários da Merkel imperial, façam o que lhes dá na real gana, comprometendo irremediavelmente o futuro de Portugal, o nosso futuro?

Quem lhes arreia? Quem os apeia? Quem lhes dá um pontapé no sítio onde lhes crescem as almorróidas e por onde brotam os mesmíssimos sedimentos que, das iluminadas cachimónias, se lhes esvaem numa fétida evacuação de matéria fecal?

Quem prepara o clíster? Quem puxa o autoclismo? Quem maneja o piaçaba? Quem fornece a creolina? Quem os manda bardamerda?!

goldman sachs é o principal accionista dos CTT

E assim, aceleradamente, celeradamente, vai-se fazendo luz, vamos confirmando quem manda em Portugal.

Quem manda? Quem manda? Quem manda?

Já não é Salazar, muito menos é o povo quem mais ordena.

Estou enojado. Há por aí um Alka-Seltzer?

cavaco acerta sempre em cheio

O presidente, apoiante do governo que mais portugueses tem atirado para a pobreza e para a mendicidade nas últimas quatro décadas, acerta sempre no alvo, é um ser congruente, se não disse que raramente se engana e nunca tem dúvidas poderia tê-lo dito, estava no seu direito. Como temos mais pobres, remedeie-se o problema com o recurso à esmola. E se Isabel Jonet tem agora um cargo internacional graças às suas obras valorosas, que a vão na lei da sorte anafando, por que razão não havemos de ter mais Isabelinhas em miniatura espalhadas pelo País e, ainda melhor, pelo mundo, esse mesmo que descobrimos e explorámos e desbravámos e cristianizámos e não sei o quê mais há uns cinco séculos?

Por isso o presidente, na congruência que lhe é por todos reconhecida, vai dedicar o dia de hoje ao empreendedorismo social, expressão galante para designar o que, antes, se chamava caridade. Mais refeitórios para os pobres, mais distribuição de vitualhas e enxovais, mais agasalhos para os que dormem pelas ruas da amargura, mais soluções esmoleres e menos Estado Social, pior distribuição da riqueza, maior retrocesso civilizacional e clivagem entre ricos e pobres, a lembrar tempos quase medievais.

Concedam-me a esmola de acreditar que Cavaco, tal como o País, está no bom caminho. Porque amiúde está certo. Porque nunca por nunca ser questiona os seus actos, por mais críticas de que seja alvo e munições que lhe acertem. Ele é à prova de bala. E dura, e dura, e dura como o coelhinho das pilhas. Deve vir daí o seu amor, mal disfarçado, ao coelhinho da troika, num truca-truca platónico.

11/12/13

o homem do ano

Randy Bish, http://www.cagle.com

portugal tem heróis




José António Pinto, também conhecido por Chalana, é assistente social no Porto e foi distinguido, pela Assembleia da República, com uma medalha comemorativa da Declaração Universal dos Direitos do Homem. Foi receber o distintivozito mas em troca deixou lá, no Parlamento, um discurso demolidor contra os sequazes da troika.

O relato que se segue é do JN:
"Eu não quero receber medalhas, quero justiça na economia, justiça na repartição da riqueza criada, quero emprego com direitos para gerar essa riqueza, quero que a dignidade do homem seja mais valorizada que os mercados, quero que o interesse coletivo e o bem comum tenham mais força que os interesses de meia dúzia de privilegiados", disse, num discurso muito aplaudido, mas que incomodou visivelmente alguns deputados da maioria que assistiram à cerimónia no Salão Nobre.

Num recado dirigido à presidente da Assembleia da República, José António Pinto disse ambicionar "que os cidadãos deste país protestem livremente e de forma legítima dentro desta casa e que ao reivindicarem os seus direitos por uma vida melhor não sejam expulsos pela polícia das galerias deste Parlamento". Mas Assunção Esteves não acusou o toque, limitando-se a reconhecer, no seu discurso, que "nenhuma democracia estará conseguida sem homens e mulheres livres e detentores de condições de vida digna" e que "o Estado tem a função primordial de garantir a equidade e a justiça e a coesão social que proporciona a participação".

No seu discurso, José António Pinto desafiou os políticos a "resistir à idolatria do dinheiro, à tirania dos mercados e à especulação financeira" e a que "estanquem imediatamente este retrocesso civilizacional que ilumina palácio mas, ao mesmo tempo, enche a cidade de pessoas a dormir na rua".

Seguem-se dois vídeos, da sua intervenção no Parlamento e numa conferência organizada pela Visão:


ei-lo que está de volta!



oh escândalo! oh heresia! oh apocalipse!

Alessandra Tarantino/AP/SIPA
Por mais de uma vez, tenho manifestado a minha admiração pelo Papa Francisco, ainda que a procissão não tenha saído do adro e seja preciso fazer como São Tomé, ver para crer, esperar para ver, e se até agora o que se tem visto é bom, é muito bom, ainda é pouco, não chega para suster a barbárie dos altos interesses financeiros e a irracional cobiça dos mercados, ou seja, dos mais ricos entre os ricos, ao lado dos quais Amorim ou Soares dos Santos fazem figura de pobretanas.

No entanto, os senhores e senhoras da situação, aqueles que veneram Cristo sem lhe apreender os ensinamentos, já vêm dizer que os malandros da esquerda, que até agora não ligaram patavina a nenhum Papa a não ser para dizer mal, se querem "apropriar"do Papa Francisco, que as suas palavras estão a ser oportunisticamente desvirtuadas para justificar o injustificável: acabar com a pobreza no mundo, oh escândalo!, oh heresia, oh apocalipse! E tentam, tentam-no com denodados esforços, interpretar os ditos e escritos do Papa por meio de rebuscadas explicações, daquelas de que não se entende a ponta de um corno a não ser que Francisco não disse o que disse mas o que eles querem que diga.

Respondo por mim: se me "apropriei" deste Papa e não de outros, é porque este não é como os outros, cujas palavras, por mais bem intencionadas que tivessem sido, nunca passaram dos adros das igrejas para o mundo real. Cujos actos, a maior parte das vezes, não corresponderam às palavras.

Simples, não é?

O que eles querem sei eu, é papar o Papa, fazer com ele o que fazem com tudo o que é bom na vida e que constitui o seu décimo primeiro mandamento: não partilharás! 

pátria, lugar de desventura

Por Baptista-Bastos

"Acabou a recessão!", exclamaram, cheios de alegria e tolejo, jornais, rádios e televisões. Ninguém explicou nada a ninguém, e o bulício de regozijo pegou-se. Nos corredores dos ministérios, nas farmácias, nos quartéis, no edifício majestoso onde funciona a Galp, no bloco operatório de Os Lusíadas, o murmúrio adquiriu formas de clamor: "Acabou a recessão!" E Paulo Portas, que gosta de dizer coisas, falou e disse, entre enlevado e libidinoso: "Vai começar um novo ciclo!", sorriu e caminhou, lépido, para o gabinete onde congemina.

Para quem acabou a recessão?, e quais os benefícios que traz ao milhão de desempregados; aos milhares de famílias que recorrem ao Banco Alimentar e à Cáritas para comer; aos reformados e pensionistas, esbulhados dos magríssimos proventos; aos 25 mil casais sem emprego; aos milhares de miúdos que vão para a escola com o estômago vazio; aos cem mil jovens portugueses que abandonaram a pátria porque a pátria é lugar de infortúnio; aos velhos que morrem sozinhos sem ninguém dar por isso, ou espantados de medo nos caixotes de vivos para aonde são enviados por quem os não quer - para quem e para quê?

A recessão acabou, e então? E acabou mesmo? Ou não será outra das "incongruências problemáticas" de um Governo mentiroso, servo dos mais poderosos e notoriamente incapaz de resolver os nossos problemas mais ínfimos? Ninguém esclarece nada a ninguém. E o directo concorrente ao poder, pela interposta pessoa do triste e melancólico António José Seguro, perde-se nas banalidades do costume, com o bordão já famoso de o PS ser "um partido responsável", afirmação que os factos procedentes da sua direcção desmentem e enxovalham.

Poderia ser uma ópera-bufa se o assunto fosse para rir. Mas não é. Trata-se da nossa própria existência como nação, e o desassossego chegou a tal ponto que muitos elementos do próprio PSD já chegam a exigir a substituição de Seguro! Que venha outra coisa porque "isto" não é coisa nenhuma. Dizem.

Aliás, as sondagens são inquietantes. É modestíssima a vantagem do PS sobre o PSD, e a agitação naquele partido, cuja tradição de conspiração interna é conhecida, avoluma-se cada dia que passa. O espectáculo mediático protagonizado pelo secretário-geral dos socialistas, chega a ser pungente pela tibieza do seu conjunto e pela inexistência de fibra. Toda a gente já percebeu que o homem não serve, que não sabe, e que simplifica sempre, por inépcia, as respostas que se lhe exigem.

Esta historieta do fim da recessão vem auxiliar, ainda mais, o jogo de indefinições com o qual o chefe do PSD gosta de se enredar para melhor servir os seus objectivos, que não são inocentes: marcados fortemente pela ideologia que defende e executa como paladino e crente. Porque, na verdade, Pedro Passos Coelho tem, ama e serve uma ideologia. Quanto a António José Seguro?

10/12/13

e fez-se história!

Hoje, na homenagem a Nelson Mandela, Barack Obama e Raul Castro, presidentes de dois países desavindos há cerca de 60 anos, cumprimentaram-se, parece que com afabilidade. Ficamos a dever mais esta a Mandela. E, já agora, que tal levantar o embargo a Cuba? Será pedir muito?

AFP
Chip Somodevilla; Getty Images; ABC News
CBC
Kai Pfaffenbach; Reuters; Expresso

09/12/13

são tantas, senhores, são tantas


São tantas, senhores, são tantas. Conspiram em conselhos, de ministros, de administração, de Estado. Querem menos Estado e melhor Estado, o menos para nós, o melhor para elas. Procriam e multiplicam-se por cloacas, ministérios, palácios e palacetes, pocilgas e retretes, entram-nos pela casa dentro de dedinho em riste, dando-nos lições, pregando-nos sermões, soltando pregões publicitários para nos levar à certa a nós, os otários. São tantas, senhores, são tantas. Moem-nos de angústias e incerteza, destroem-nos o futuro, roem-nos o pão, a carne, os ossos. Por esgotos andarão, para esgotos nos arrastarão. São tantas, senhores, são tantas. Uma raça protegida, um género à parte, uma espécie em vias de expansão. Fedem. Fodem e fadam. São tantas, senhores, são tantas. Enquanto tiverem vida, não teremos esperança. Enquanto os caneiros andarem cheios, os nossos bolsos andarão vazios. Enquanto vivermos de joelhos, morder-nos-ão os artelhos. Nem velhos, nem doentes, nem docentes, nem os contentes escaparão. Artigos em liquidação, saldos de ocasião, miseráveis em promoção. Cada um, carne para canhão, candidato a ganhão, desempregado, ladrão ou pobre de estimação, a viver da caridade, da bondade das ratazanas.

Dos sacanas.

Há tantos, senhores, há tantos.

os duros trabalhos parlamentares de um deputado quando jovem

http://salvoconduto.blogs.sapo.pt/

Miguel Relvas deseja-lhe um feliz Natal e um próspero ano novo.

contra vladimir, estatele-se vladimir

Em Kiev, quase 90 anos depois de morto, Vladimir Lenine expia os pecados de Vladimir Putin.


tragédia grega

Os gregos recusam mais austeridade. Tarde demais. A miséria e a fome já se espalharam como peste. O país está destruído. O FMI, o BCE, a UE, Merkel, os mercados, os bancos, os novos nazis do capitalismo bárbaro, ganharam a batalha. Não hão-de ganhar a guerra. As fotografias que se seguem são, deverão ser, a vergonha de uma Europa que se diz civilizada.








livro de condolências


juan carlos de espanha, a queda de um mito

08/12/13

o luxo das arábias de um general angolano








Esta não é uma mansão qualquer. É luxuosa, mas muitas o são. Foi construída no Algarve, mas muitas outras o são também, com a mesma opulência. Pertence a um estrangeiro, mas a isso também estamos habituados, o Algarve pertence ao povo, que lá trabalha e pena, e mais ainda aos ingleses, holandeses, russos, alemães, qualquer dia chineses, qualquer dia árabes, que lá vão desfrutar do melhor do Algarve.

Esta não é uma mansão qualquer porque pertence ao general Kopelipa, um dos grandes senhores de Angola, unha com carne com Eduardo dos Santos, magnate de um povo na miséria, um dos usurpadores das riquezas do País, um príncipe, um imperador, um generalíssimo, braço direito do presidente de Angola, chefe da sua casa militar, dono de vinhas do Douro, accionista de bancos portugueses e o mais que não se sabe, porque muitos negócios serão realizados por testas-de-ferro e outros em nome de familiares, como um filho que comprou a Viauto, representante em Portugal da Ferrari e da Maseratti, de certeza para que o pimpolho possa ter uns carritos a mais com que brincar.

E é a esta gente que Portugal pede desculpa. E é com esta gente que Portugal quer fazer negócios. Porque a honra, a moral, a dignidade, não são nada se não houver dinheiro. A honra, a moral, a dignidade, cedem-se em troca de umas casas no Algarve, uns investimentos em grandes empresas, umas parcerias aqui e acolá, uma bóia de salvação para as construtoras em apuros, e tudo isso vamos pagar caro porque nada disso contribuirá, a longo prazo, para a consolidação ou reforço do poder económico de Portugal, antes para a sua penhora a pequenos títeres e grandes criminosos.

Sobre os negócios de Kopelipa em Portugal:

tea party à portuguesa





Por Pedro Marques Lopes

Há quem tenha ficado muito revoltado, chocado até, com a posição assumida pelo secretário de Estado da Integração Europeia, Bruno Maçães, numa mesa redonda sobre "governância económica e crise europeia", em Atenas. Em termos muito simples, este cavalheiro, representando o Estado português, mostrou total alinhamento com as posições alemães e contra qualquer tipo de iniciativa, dos países mais afectados pela crise, para encontrar uma alternativa. Mais tarde, quando acusado de ser mais troikista que a troika, mais alemão que os alemães e fanático da velocidade do ajustamento, veio para uma rede social orgulhar-se de assim ser tratado.

Ora, eu acho que o ex-autor de discursos de Passos Coelho merece ser elogiado. Não pelas posições expressas, mas pela maneira clara e desassombrada como exprimiu a posição do Governo português e as convicções políticas e ideológicas de quem nos governa.

Bruno Maçães, um dos principais ideólogos do primeiro-ministro, fez cair todas as máscaras. Não é que já não suspeitássemos, mas agora ficou absolutamente claro que o Governo não negoceia com a troika. Ou melhor, negoceia mas dentro do espírito "tu dizes mata, e eu esfola". Hoje, estes liberais de badana devem estar a esconjurar Gaspar, esse traidor que não percebeu o sentido da História.

Espero que agora não exista mais discussão sobre o porquê do Governo ter aplicado o dobro da austeridade contratada no memorando. Nem sobre se o primeiro-ministro queria dizer outra coisa quando afirmou que este seria sempre o seu programa, mesmo sem memorando. Ficou cristalino que aquilo de ir para além da troika não foi um "erro de comunicação". Era mesmo assim. E às tantas até foi escrito pelo Maçães.

Afinal não se pediu nada. Nem mais prazo, nem menos esforços para a classe média, nem para ninguém: é preciso esmagar. "Drill, baby, drill": o Maçães é capaz de ter aproveitado este slogan desse movimento que tanto admira, o Tea Party americano - é um confesso admirador e apoiante de Sarah Pallin -, e sugerido aos nossos credores que o adaptassem aos portugueses: "Perfurem, rapazes, perfurem, que os meus concidadãos ainda não estão secos."

Como é do conhecimento de quem frequenta este espaço, não tenho dúvida nenhuma de que o caminho prosseguido pela Europa e caninamente seguido pelo Governo português está a levar a própria Europa, e ainda mais rapidamente Portugal, para uma situação que terminará em desagregação económica, social e, finalmente, política. Que no fim deste "reajustamento", não vai haver nada para reajustar: nem empresas, nem emprego, nem nada. Que o nosso incipiente Estado social se tornará uma gigantesca sopa de pobres. Que o fim acelerado da classe média destruirá a democracia.

É, no entanto, esse o fim do caminho que Passos Coelho, Maçães e camaradas defendem. Na perspectiva deles, o País estará muito melhor depois de tudo isso acontecer. Pensarão, com certeza, que a democracia - uma democracia sem classe média e em que a liberdade económica será tudo e as outras liberdades pouco ou nada - se aguentará. A vida vista desde um gabinete na faculdade, rodeado de grandes idealistas que nunca conheceram uma empresa, uma exploração agrícola, uma fábrica, um hospital, uma escola pública, uma família pobre ou sequer de classe média deve ser um mundo fantástico. Onde se mexe na folha de cálculo, se tira dali e põe acolá, e tudo bate certo. Onde se pensa que a liberdade pode existir sem igualdade e a igualdade é um conceito comunista.

E o serviço nacional de saúde, a educação pública ou o salário mínimo instrumentos limitadores da liberdade individual. Um mundo dividido entre fortes e fracos, vencedores e derrotados, empreendedores e funcionários, velhos e novos, ricos e pobres.

Muito se podia rir a esquerda, se não tivesse em grande parte também entregue a patetas parecidos com estes. Gente que pensa que os direitos crescem nas árvores e que o dinheiro é uma coisa que se produz numa máquina. Visionários que dão como garantido que não há altos e baixos na vida da comunidade e que os filhos ficarão sempre melhor que os pais. Tipos que julgam que as dívidas são uns papéis sem valor. Lunáticos que acham que o Estado social é um dado adquirido e que não exige um constante esforço de adaptação aos tempos, às condições económicas e à realidade social.

Neste momento estamos nas mãos do Tea Party à portuguesa e de indivíduos como o Bruno "Pallin" Maçães. Os irmãos americanos destes inconscientes estão a destruir o Partido Republicano e a direita americana. Estes estão apenas a destruir a direita e o centro-direita português - sob o olhar de quem apenas critica pela calada e espera pela "melhor oportunidade" para os parar.

Nos Estados Unidos, esta gente não conseguiu levar os seus planos para a frente. Tinha de nos calhar a nós, desgraçados portugueses, sermos o laboratório deste bando de loucos furiosos.

mário soares

http://www.record.xl.pt
Houve tempos em que não gostava de Mário Soares. Nada. Mas hoje, quando tudo se encaminha para perdermos tudo o que ganhámos com Abril, eu quero lá saber se Soares foi isto ou fez aquilo.

O que sei, e é isso que me importa agora, é que Soares é uma das vozes mais contundentes contra os cavalheiros que nos tomaram de assalto e nos assaltam todos os dias. O que sei é que, do alto dos seus 89 anos, é dos mais activos políticos portugueses. Um dos poucos que tenta reunir uma frente comum contra os revolucionários da treta. O que levanta a voz. O que vai à luta.

Pode ser que seja só desta vez mas é uma vez crucial: estou com Soares, como estou com todos os que, independentemente das suas simpatias partidárias, partilham a minha indignação. 

Disse, está dito.

lisboa, velha cidade

Marcos Sobral/http://lisboameninadourada.blogspot.pt/
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a abraçar o tejo

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