28/01/17

o grande mestre de donald trump





Chamava-se Roy Cohn e tornou-se colaborador principal de Joseph McCarthy durante a criminosa caça às bruxas. Foi um dos advogados que conduziu o processo de condenação à morte de Julius e Ethel Rosenberg. Dizem dele que terá sido advogado de mafiosos e corruptos de alto coturno, de milionários e patifórios a nadar em crimes e em dinheiro. No início da sua ascensão rumo à fortuna, Trump recorreu a Cohn para os defender, a ele e ao pai, de um caso em que eram acusados de descriminação racial no aluguer nos seus múltiplos empreendimentos. Roy Cohn ensinou a Trump a sua primeira grande lição: quando atacado, há que contra-atacar com redobrada violência, nunca ceder, nunca negociar acordos com a Justiça, nunca dar o braço a torcer. E é assim que Trump tem sido desde então. Violento, destemperado contra quem o combate. Faz isso com as mulheres que o acusam de assédio sexual. Faz isso com os países que não acatam de imediato as suas ordens ou ripostam contra as suas humilhações. Que um homem com tal passado tenha chegado a presidente diz bem da fragilidade das instituições americanas e da hipocrisia de largo número dos seus cidadãos. Lembrar-me eu do escândalo Clinton/Monica Levinsky, um caso que na Europa não passaria de um fait divers a alimentar as parangonas dos jornais tabloid. Por lá, um comprovado racista, intelectualmente deficiente, perigosamente vaidoso, um malfeitor como tantos do crème de la crème americano, governa o país e ameaça o mundo. Foi votado pela maioria, tem o direito de governar. Dizem os mesmos que defenderão, com toda a certeza, que Allende, igualmente eleito por vontade do povo, foi com toda a legitimidade afastado do poder e assassinado.

Que os deuses de todo o mundo nos acudam. Bem precisados estamos.








27/01/17

o aborto falou


Hoje, em Washington, houve mais uma manifestação, desta feita contra o aborto, que teve três defeitos: só compareceram abortos, foi bastante minguada e, last but not least como se costuma dizer, não contou com a presença, oh tristeza!, oh martírio!, da Drª Isilda Pegado.

Mike Pence, o vice-presidente de Trump, um homem às direitas e com eles no sítio, esteve lá e discursou, grande momento, tocante, prenhe de significado. E disse: "permitir às vítimas de violação que abortem vai fazer com que as mulheres tentem ser violadas".

Não entendo a lógica. As mulheres têm prazer em abortar e, por isso, vão criar condições para que tal aconteça?

Alguém, alma caridosa, de preferência indefectível defensora "do direito à vida", que me explique.

Estou confuso. A sério. Juro. E não devo ser o único.

kick donald's ass, please!



Já chega. Numa semana, desde a tomada de posse (a mais concorrida da história dos Estados Unidos, segundo os propagadores de factos alternativos), Mr. Twittler só tem dito, escrito e feito merda e da grossa. O maior e melhor negociador do mundo não passa, e não é que alguma vez tenha tido dúvidas acerca disso, de um gigantesco bluff, um garganta funda, uma varina endinheirada (sem menosprezo para quem alguma vez exerceu a profissão), um bufão que já conseguiu a magnífica proeza de, até agora, não ter resolvido um único problema do país mas, antes pelo contrário, ter indisposto muitos dos seus tradicionais aliados e assinado disposições presidenciais apressadas, estúpidas, profundamente anti-sociais e, nalguns ou em todos os casos, sem qualquer possibilidade de concretização ou que provocarão inevitáveis conflitos dentro e fora dos Estados Unidos. Reina o caos na Casa Branca e nos gabinetes ministeriais. Altos funcionários despedem-se em massa. Os que por lá ficam, a soldo de Trump. mentem desordenadamente, desmentidos que são no minuto seguinte pela imprensa que, difamada por Mr. Twittler e pelos seus capangas, não lhe perdoa uma vírgula fora do lugar, um gaguejo, uma gabarolice, ao contrário do que acontecia com os antecessores presidenciais, que contavam com uma comunicação social mais ou menos cooperante e cúmplice.

Basta. Uma guerra nuclear, o fim da civilização, ou no mínimo uma recessão económica à escala global, é o que nos espera se este homem continuar a mandar nos destinos dos Estados Unidos (e, julga ele, do mundo). Acabe-se com esta tragicomédia. Aniquilem-no. Exilem-no. Corram-no da Sala Oval, nem que seja a pontapé. 

Ah! E para os seres mais iluminados do que eu alguma vez serei, presumivelmente de esquerda, que afirmam nas redes sociais que Obama ou Trump é tudo a mesma trampa, aqui fica um recado: podem-me bloquear à vontade por vos chamar (quase) tão idiotas como o Twittler. Farei o mesmo seja a quem for, de esquerda ou de direita, que venha a terreiro tecer elogios ao homúnculo. Bloqueá-lo-ei sem apelo nem agravo. De quando em vez, há que proceder a uma higienização na nossa galeria de "amigos". Defender a direita, ainda vá que não vá, ou há democracia ou comem todos. Defender fascistas, como é o caso, é outra coisa completamente diferente, infame e imperdoável. 

E, já agora, que viva o México e quem o apoiar!

26/01/17

let's play!

Alinhe comigo, entre no jogo. A língua portuguesa é mais rica do que Trump. Ora acrescente lá todos os nomes que lhe vierem à moleirinha para apodar o cavalheiro da triste figura, o bezerro d'oiro, a alimária trumpetista:

Farsante ... Gabarolas ... Racista ... Machista ... Facholas ... Intrujão ... Megalómano ... Mitómano ... Rufia ... Rude ... Rudimentar ... Primário ... Primata ... Vaidoso ... Insultuoso ... Fanfarrão ... Farsolas ... Chocarreiro ... Valentão ... Direitolas ... Gatuno ... Retrógrado ... Aldrabão ... Mentecapto ... Lunático ... Trapaceiro ... Charlatão ... Parlapatão ... Fala-Barato ... Burlão ... Embusteiro ... Fraudulento ,,, Imbecil ... Arruaceiro ... Proxeneta ... Bandido ... Bandalho ... Biltre ... Canalha ... Patife ... Pulha ... Infame ... Desprezível ... Vil ... Abjecto ... Maldito ... Raivoso ...

Quem dá mais? Quem dá mais?...

AP/Stephen B. Morton

24/01/17

aquela santa


Sem sombra de pecado. Sem contras, só prós. Deformando cidadãos, desinformando, manipulando. A imprensa. Aquela santa. Onde os jornalistas são jornaleiros, pagos à jorna. Onde as notícias são "tratadas", como se de doentes se tratassem. Os patrões são de Angola, da China, mais o Belmiro cá do Continente e o Francisco do Bilderberg universal. Quem se quer bem, sempre se encontra. Nas páginas dos jornais, no prime time televisivo. São sempre os mesmos. Jornaleiros. Pagos à jorna. Comentam Trump com bonomia, porque Hitler só houve um e o Donald não é nenhum. Acham Merkel uma pia criatura, canonizada já, já no altar entre Cristo e a Virgem Maria. O capitalismo selvagem é, para eles, o paraíso terreno. A Goldman Sachs, uma parideira de heróis. A União Europeia, uma beata caritativa. Os bancos, múltiplos vaticanozinhos para depósito da dízima. A imprensa. Aquela santa.  

Imagem encontrada em http://entreasbrumasdamemoria.blogspot.pt/

23/01/17

o original e a cópia


Primeiro, plagiou o discurso de Michelle. Agora, copia a fatiota de Jackie Kennedy. E os olhos, esses, continuam aflitivamente sem expressão, o sorriso, frio, de uma musa inacessível. A primeira-dama, dizem eles orgulhosos da sua modelo de virtudes. Imigrante, como tantos outros que eles, o marido e demais capangas, querem expulsar. Expurgar da grandiosa América, branca, pura, sem mácula. Onde os pretos devem ser aquilo que sempre foram, burros de carga, carne para canhão. Atroador. Aterrador.

22/01/17

o grande rodeo americano

Sherif Arafa/Cartoon Movement

O toiro embravecido entrou em acção. Abriram-se as grades por onde saiu dos seus curros de oiro e rococós, de lixo e luxo, prometendo, com os cornos, as patas, o focinho façanhudo, aos urros e aos bramidos, levar tudo à frente, a China e o Irão, o México e a Europa em desunião, os terroristas e os opositores, os que não lhe arrebanham a baba nem lhe aparam os coices de animal raivoso. Contra a imprensa e as empresas que não lhe veneram o fecundo génio, contra as liberdades de cada um, contra a gatunagem que tem explorado a benemérita América anos sem fim, contra e a favor das secretas, dos republicanos e democratas, de milionários e autocratas, contra e a favor seja do que for desde que lhe renda adeptos, aplausos, vassalagem. Entrou na arena para a grande faena, a festa brava, o bacanal dos bravos, as pegas de caras e de cernelha, as cornadas em brancos, pretos, índios, latinos, filhos de deuses menorizados, porque ele é o Messias, o Salvador da federação, o defensor de guerras e vendilhão de armas, o distribuidor de dinheiro a rodos pelos filhos da nação e só pelos filhos da nação desde que marcados à nascença com o ferrete do dólar, símbolo máximo e sagrado da maior de todas as pátrias, a mais rica, a mais poderosa, a mais talentosa, a mais esperta como esperto, talentoso, poderoso e rico é o ser que agora lhe dirige os destinos com a sobranceria dos predestinados, a inconsciência dos atoleimados. A América vai ser grande outra vez, maior ainda, enormíssima, pejada de muros, muralhas, aljubes, masmorras, cárceres que mandará erigir para seu proveito e eterna glória porque os interesses da Trump Organization se confundem com os do país e ele com Washington, ele é George ressuscitado e tem a cidade a seus pés, o mundo debaixo das patas.

Mas o povo americano não é, nunca foi todo ele ou estúpido ou ignorante ou ferozmente retrógrado. Do outro lado da barricada, eles lá estarão aos milhões. Marcharão, contestarão, resistirão a cada estocada até que a besta seja domada, levada de volta aos curros da Quinta Avenida.

Ou melhor ainda. Que eu sou contra os toiros de morte mas, para este, abro uma excepção.