05/10/13

vendam-se as cidades, acabe-se com isto


Privatizem-se as cidades e o Estado arrecadará massa que nunca mais acaba. Isso sim, era revolucionário, Portugal seria o grande precursor de uma nova maneira de gerir municípios e de fazer dinheiro, montes de dinheiro. Entreguem-se as câmaras, mediante uma choruda quantia, claro está, a privados. Que administrarão os municípios como se fossem empresas. Afinal de contas, não são os neoliberais que passam a vida a dizer-nos, ad nauseam, que os privados são melhores gestores do que o Estado? Claro que teríamos que pagar mais impostos, mais taxas, mais emolumentos, se calhar pagar o direito a atravessar a rua, deitar lixo no contentor, passear nos jardins, tomar banho numa praia, mas, caramba!, também não se pode ter tudo. O Estado tem uma dívida enorme (que, segundo eles dizem, fomos nós que fizemos). Pois então que a paguem à nossa custa. Às nossas custas. Vendam estradas, vendam cidades, vendam a água, vendam o ar, quanto mais puro mais caro, até o Sol se for preciso, quanto mais quente melhor. Vendam-nos a nós também, embora sejamos gente de fraca valia, só útil enquanto trabalha e paga impostos mas sempre um estorvo, uma excrescência, o rebotalho.

Venda-se. Venda-se tudo. Esta é a época áurea da globalização. A noção de pátria, o conceito de património nacional, já não fazem sentido. O mundo é uma multinacional. E nós, Portugal, um negócio menor a tomar pela força, ao desbarato. 

Se não vendermos a bem, vamos vender a mal. Para isso é que existem, por lá, mercados, chantagem financeira, agências de rating e, por cá, políticos serviçais. Para levar todo um povo ao tapete, vencido pela fome, o desemprego, a incerteza, a angústia de uma vida em permanente sobressalto. Para que verguem de vez. Um povo submisso é mercadoria barata.

Comece-se por vender as cidades. Depois, logo se vê onde os novos garimpeiros vão desenterrar mais dinheiro e enterrar mais gente.  Que mina, que filão vão explorar a seguir.

O mundo é um mar de oportunidades. Há que saber aproveitá-lo.

machete é sempre manchete



Anda nos cabeçalhos dos jornais, por todos os telejornais, desde que tomou posse como ministro dos negócios estranhos. Do BPN e da trafulhice que foi tudo aquilo, aquilo onde esteve metido da ponta dos joanetes ao alto do cocoruto, até ao pedido, ontem mesmo, de desculpas a Angola. E porquê desculpas a Angola, essa ditosa pátria de gente séria, empório dos Santos, império dos generais milionários? Porque Portugal é um Estado de Direito. E porque, vejam lá a ousadia, investiga actos pouco transparentes dos Lordes de Angola perpetrados em Portugal. Que descaramento! Que topete! Perdoai-lhes Zé Du. Perdoai-lhes, Isabelita. Perdoai-lhes, Kopelipa, Manuel Vicente e demais imaculados. A parte boa do BPN passou a ser BIC. Parte da GALP é da Isabelita. E da ZON também. E o mais que não se sabe ou não se diz. 

Angola é vossa. E Portugal também. De joelhos imploramos-lhes compaixão. E dinheiro. O capital não tem pátria, muito menos moral ou pruridos de honestidade.


o monólogo do larápio em dia de quase orgasmo


Eh pá, ó Pedrocas, temos que esgalhar um plano, os gajos já andam a piar que nunca mais digo onde é que lhes vamos gamar a seguir. Já os esmifrámos a torto e a direito e os calhordas, até agora, quase não têm escoucinhado. Acho que podemos ir mais longe. Mas onde? Em quê? Já lhes subimos impostos, já os despedimos que é para aprenderam a aceitar salários mais baixos, já nos atirámos aos reformados, já surripiámos na saúde e na educação, já lhes pusemos o gás mais caro, a electricidade mais cara, a água mais cara, os transportes, os médicos, as rendas de casa, fosga-se!, ando a tratos de polé e desta cachimónia iluminada que Deus me deu não sai mais nada. Vamos-lhes aos pequenos depósitos, às pequenas economias, a quem ainda as tiver? (Aos outros, aos grandes ricaços, não lhes tocamos, não lhes podemos tocar nem com uma flor.)

Já sei! Obrigamos a pagar uma taxa todos os que, a partir de agora, participem em manifestações. É uma ajuda. E àqueles bardamerdas que escrevem em blogues? Olha, tive uma ideia, pagam uma multa por cada vez que escreverem filho da puta, ou ladrão, ou cabrão, ou bandidos, ou bandalhos, quando se estiverem a referir a nós. Vai ser só milharame a entrar, brocha da boa, bagalho a dar com um pau.

E que mais? E que mais? Olha, já sei! Acabamos com a Assembleia da República, é uma poupança. Acabamos com a democracia, que sai cara como o caraças. Desfazemos o Tribunal Constitucional e mandamos os juízes para o olho da rua. Porra!, que sacana de gozo me vai dar! E damos cabo da Provedoria, da Procuradoria, de todas essas merdas que não interessam a ninguém. Vai ser um fartote Pedrocas. Quase tenho um orgasmo só de pensar! Vão ver como elas lhes mordem!

Tens é que ter paciência pá, vou mais uma vez botar as culpas em ti. E nos senhores da troika. E, claro, no Sócrates. Eu faço o que faço por patriotismo, porque não tenho outro remédio se quero salvar a Pátria e o traseiro deste glorioso filho da Pátria. É pegar ou largar, meu, é pegar ou largar! Ou isto ou dou à sola e tu ficas a chuchar no dedo, deixas de ser o rei do gamanço, declaro aberta a caça ao coelho. Com chumbos e varapaus. Escolhe!

o cabaret da coxa

Por Fernanda Mestrinho

A economia de casino e o cabaret da coxa usufruem-se mutuamente. Congeminava nesta reflexão quando me caiu uma notícia no regaço.

Francisco Almeida Leite, jornalista, ia ser nomeado para a administração do tal banco de fomento que vai distribuir os 20 mil milhões da Europa. Da redacção de um jornal foi para o Instituto Camões para tratar da língua portuguesa (cultura), voou para secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e Cooperação de Paulo Portas (política internacional) e vai agora para aquela administração (economia).

Fiquei esmagada por esta genial versatilidade. O seu currículo vai ser apreciado por uma comissão. Mão amiga explicou-me: chama-se CRESAP, é constituída por 15 elementos, um presidente, 3 vogais permanentes e 11 não permanentes efectivos; há ainda 11 vogais não permanentes suplentes e uma bolsa de 44 peritos. Uf!

Não é preciso tanto esforço. Os partidos que governam (PSD e CDS) ou o PS não ligam a essas minudências curriculares.

Por isso a vaga de independentes agora é moda. Marcelo Rebelo de Sousa chamou louca a Helena Roseta quando, há anos, criou o Movimento de Cidadãos por Lisboa. Há quem cavalgue a onda quando ela já bateu na areia. Voltei à reflexão: o casino revigora-se depois do susto, o cabaret da coxa nunca interrompeu a festança. Lá estão assessores e consultores, amigos e familiares, militantes e simpatizantes.

Quando dizem que vêm aí 20 mil milhões, só posso dizer: "ai, lá se vai outra vez o nosso rico dinheiro?"

04/10/13

vejam lá se se entendem!

Já não sei a quantas ando. Quantas manifestações estão marcadas, quando, onde, a que horas. Vejam lá se se entendem, senhores organizadores. Tentem conciliar datas, não dispersar. Conversem, cheguem a consensos. É que, pelo andar da coisa, não vão ter ninguém em nenhuma delas. E não há maior vitória para Passos e pandilha.


sado-maluquismo

Por Fernanda Câncio
http://www.dn.pt

"Como avisei na altura devida, chegámos a uma situação insustentável", Cavaco, 10/6/2010 (com dívida 94%)

"São insustentáveis tanto a trajetória da dívida pública como as trajetórias da dívida externa." Cavaco, 9/3/2011 (com dívida 108,2%)

"As dificuldades que Portugal atravessa derivam do nível insustentável da dívida do Estado e da dívida do País para com o estrangeiro." Cavaco, 1/1/2013 (com dívida 124,1%)

"Surpreende-me que em Portugal existam analistas e até políticos que digam que a dívida pública não é sustentável. Só há uma palavra para definir esta atitude: ma-so-quismo." Cavaco, 30/10/2013 (com dívida prevista pelo Governo de 127,8%)

"Os juros da dívida soberana vão cair gradualmente, à medida que Portugal atinge as metas impostas pelo programa de assistência financeira." Gaspar, 20/4/2012

"O cumprimento do Programa é inequívoco e os progressos alcançados são significativos." Gaspar 20/2/2013

"O incumprimento dos limites originais do programa para o défice e a dívida, em 2012 e 2013 (...), minou a minha credibilidade enquanto ministro das Finanças." Gaspar, 1/7/2013

"Não é uma teimosia minha com os salários da função pública, não é uma teimosia minha com as pensões dos pensionistas do Estado, (...) é a diferença entre fecharmos este programa de assistência ou podermos ter de pedir um outro programa." Passos, 21/9/2013

A maioria PSD/CDS-PP no poder está "a criar condições para que os portugueses possam acreditar com confiança que esta crise será vencida." Passos, 27/9/2013

"As dívidas têm de ser todas pagas, os países têm de pagar as dívidas." Moedas, 27/8/2013

"Só nos resta (a nós e a outros) o possível caminho da reestruturação da dívida. Ou seja, ir falar com os nossos credores e dizer-lhes que dos cem que nos emprestaram já só vão receber 70 ou 80." Moedas, 26/5/2010

"Não compensa absolutamente nada para a economia portuguesa (...) estabelecer uma retórica de ataque às posições dos mercados." Cavaco, 10/11/2010

"Não existe nenhuma razão lógica para as obrigações do Estado português atingirem taxas de juro de 7% nos mercados financeiros." Cavaco, 30/9/2013

"Deus nos livre de termos um Presidente da República que não mede as palavras que diz" Cavaco, 21/12/2010

adecco



Por Pedro Vieira

une petite histoire que pode ou não ter a ver com eleições, quem a ler decidirá (olá senhores fiscais, o que querem para almoçar), de um lado a multinacional Adecco, especialista em trabalho temporário e em precariedade e em call-centers, com sede na suíça, o paraíso na terra segundo henrique raposo e outros revolucionários que gritam aos cães "no pasarán", do outro a câmara da guarda, que em 2009 investiu 400 mil euros numas instalações que pudessem acolher a Adecco mais o seu centro de apoio a clientes e a sua lógica de gente descartável e etc, e assim foi, tudo cor-de-rosa, empregos criados na região e a multinacional isenta de renda e com o encargo de pagar a água e a luz da propriedade que é pública, e que serviu para captar o mítico investimento estrangeiro que agora, 4 anos depois, vai dar às de vila-diogo, deixando os trabal... os colaboradores no desemprego, porque afinal não há massa crítica para fazer negócios no interior e tal, é assim, voam para parasitar outra região, outro país, o dinheiro público investido e as taxas e rendas perdoadas vão com o caralho, 250 vidas também, mas lembrem-se, as gorduras do estado é que estragam tudo, mais os velhos e os doentes do SNS, longa vida ao ajustamento e à iniciativa privada que resolve tudo, menos quando foge da beira alta sem olhar para trás, se bem que tudo isto deve ter acontecido por uma boa razão, afinal de contas são sérios, afinal de contas são suíços.

é do porto que vêm as verdades


shitdown

Imagem: Gianfranco Uber
http://www.cartoonmovement.com

oh homem, fale claro e mije direito!


Lembro-me, ah se me lembro!, da primeira vez que a troika apareceu por cá. Antes de ser apresentado oficialmente o execrando Memorando, o de Entendimento, aquele que tanto nos faz penar, apareceu José Sócrates na televisão a enumerar os males de que nos tinha livrado, ou seja, os sacrifícios que não nos iriam ser impostos pela troika. Só dias depois veio o rol das punições. Em inglês, por traduzir ficou um ror de tempo.

Lembra-se?

Pois o Portas hoje parecia o Sócrates, para pior. Mais maquiavélico, mais patranheiro, mais teatreiro, mais escorregadiço, qual enguia entre as mãos de uma peixeira, uma imagem que ele não desdenhará, gloriosa lembrança será dos seus tempos de feira em feira, de mercado em mercado, beijoca para cá, beijoca para lá, muito fénico, muita promessa apechungada de velhices fartas e de sóis no nabal.

Parafraseando Araújo Pereira, o grande Ricardo, então não é que a criatura falou, falou, falou e não disse nada? Depois de uma boa hora especado a ver o espantalho na pantalha, fiquei sem saber por que lado nos vão, digamos assim à falta de termo mais cristão, procriar. Que extraordinárias javardices se preparam para nos atazanar ainda mais o toutiço e levar o chouriço, a broa, a malga da sopa dos que ainda a têm.

Se eu fosse malcriado, que não sou, e se tivesse estado naquela conferência de imprensa, no solilóquio do irrevogável, teria vontade de repetir o brado que, nos meus tempos de ganapo, ouvia às peixeiras do bairro, de certeza o Portas ia gostar: OH HOMEM, FALE CLARO E MIJE DIREITO!

Não há, definitivamente não há, pachorra para tanta manha do craque da endrómina, pantomineiro feito ministro. Vice, ainda por cima. Mije direito, porra!

03/10/13

departamento comercial do estado novo em folha

Alguns levaram-me. Outros não. São a equipa de vendas do governo do senhor dos passos. Auferem comissões elevadas, uns em altos cargos, outros em altos voos que um dia virão. Uns melhor, outros pior, são do pior que o país tem.




a dívida, a dúvida e a insustentabilidade sustentável


Para Cavaco, no seu discurso de Ano Novo deste ano, há pouco mais de 9 meses, a dívida era insustentável (no vídeo, ao minuto 3:30). Hoje, lá longe na Suécia, entre banquetes e beija-mãos, entre as sessões de caixeiro-viajante para angariar investimentos como quem vende alfarrábios porta-a-porta, afirma o contrário, que a dívida é sustentável e que, quem diz o contrário, é masoquista.

Confira.

occupy crato city


Andam por aí zunzuns de que professores e estudantes ocuparam, de surpresa, o Ministério da Educação. Vou ver se a TV diz alguma coisa. E você, amigo, amiga, vá dando notícias se as souber. É destas acções que precisamos. A assim não ser, estiolamos. Morremos na praia, como diria o primeiro.

cavacolemia

Sala de banquetes do palácio real, Estocolmo. Foto: Kungahuset.se
Por José Gabriel
http://aventar.eu/

Ao contrário do que pensa o senso comum, a Suécia produz vinho. Em pequenas quantidades, mas produz. Costumam, por lá, bebê-lo quente, frequentemente misturado com especiarias e vodka ou aguardente. 

Trago aqui esta informação para que tentemos compreender a nível politológico – e até toxicológico – as declarações proferidas naquele país pelo presidente Cavaco Silva e segundo as quais Portugal já tinha saído da recessão e iniciado um caminho de próspero crescimento.

qualquer semelhança talvez seja pura coincidência.

Eu disse talvez.

séculos de sangue derramado


Este vídeo mostra as fronteiras da Europa ao longo dos séculos. E agora? Que império se prepara? Que guerras se avizinham? A independência dos povos é cada vez mais frágil, o poder do dinheiro apátrida é cada vez mais forte. E os dirigentes das nações europeias, de quase todas, transformaram-se em títeres, pequenos bonifrates sem alma nem vontade de a ter. E sem coração também. Próprio, afinal, de marionetas.

follow the leader

Lagarde não faz as coisas à lagardère. Todos os passos são bem calculados, as análises financeiras bem estudadas, os riscos bem acautelados. Lagarde aponta-nos o caminho. Sigamos Lagarde,

a bolsa ou a câmara!

Imagem: http://henricartoon.blogs.sapo.pt/

pelos cornos da desgraça


Cavaco chama masoquistas aos que dizem não ser sustentável a dívida portuguesa, ela é sustentável desde que o vulgo a pague até à miséria final. Passos, esse, coitadito, não dorme de tão angustiado que anda com a dívida e com a execução orçamental. O PSD quer expulsar os militantes que apoiaram outras listas que não as do partido e Capucho é um dos visados, qualquer dia até lhe chamam o Capucho vermelho. Em Sintra, Basílio Horta alia-se ao PSD para formar maioria absoluta, a antevisão da fantochada que nos espera quando Seguro chegar ao poleiro que tanto quer, foi para isso que foi jotinha toda a vida. Os papéis dos swaps afinal não foram perdidos nem surripiados, parece que estavam era mal arquivados. O governo, premiando os incumpridores em vez das mulas de carga que pagam ao fisco o que o fisco lhes confisca, concede amnistia fiscal a quem tem dívidas às Finanças. A PT passa para mãos estrangeiras e os economistas-comentadores não escondem a baba do deleite nem o ranho da comoção. A troika, de visita à colónia periférica, não cede "nem um milímetro" nas exigências de austeridade e roubo. 

Tudo isto se lê nas gordas dos jornais numa única manhã. E o martirizado leitor, sem comprar o jornal que o tempo não está para luxos, lá vai, acabrunhado, à sua vida, à espera de mais cortes extraordinários, impostos extraordinários, extraordinárias patifarias de um governo ordinário, o pior de Abril para cá, quem nos acaba o resto que amanhã não há.

Nesta tourada nacional, meus amigos, em boa verdade vos digo, não adianta fazermos pegas. Nem de caras nem de cernelha. Muito menos chicuelinas ou verónicas. Os cornos do touro atingem-nos por todos os lados.  Na carteira, no orgulho, no estômago de muitos, na saúde de tantos. E outros, mais do que se fala, já pagam as cornadas com a vida.


aníbal cavaco silva vs juan carlos alfonso víctor maría de borbón y borbón-dos sicilias



Cavaco sai-nos caro. De todas as maneiras possíveis.

Sai caro porque não actua como Presidente em defesa do povo que o elegeu. Verdade seja dita que, quem o elegeu por maioria foi ... uma minoria, mas isso não vem à colação.

Sai caro porque custa mais ao erário público português, sustentado por todos nós, do que, para o tesouro espanhol, D. Juan Carlos e a sua vasta prole de infantes e infantas que fazem questão (pudera!) de viver de acordo com a sua principesca condição.

Assim sendo, que tem Cavaco que D. Juan Carlos não tem?

Fui ver. A neve não caía mas caiu-me o queixo ao chão.

Na Casa Civil contei, por alto, 39 colaboradores de topo, entre o chefe da dita, assessores e consultores. Com nomes sonantes por tal sinal porque, se o Juanito tem por lá marqueses e malteses, Cavaco não se pode ficar atrás e recheou Belém com Byrnes, e Pitta e Cunhas, e Sevinate Pintos, e Bustorffs, e outros finos representantes do bon chic bon genre que é para não destoar do ocupante da casa, distinto como poucos.

Depois vem a Casa Militar, onde contei um Tenente-General, um Capitão-de-Fragata, dois Tenentes-Coronéis, um Capitão-Tenente e dois Majores. E não acredito que não tenham uns quantos praças para lhes fazer cafés e ir buscar " A Bola" à rua.

Há também que contar com o Serviço de Segurança constituído, e passo a transcrever o site da presidência, "para além da Chefia (Chefe e Adjunto), um Esquadrão Presidencial da GNR, uma Esquadra de Segurança Interna da PSP e um Destacamento de Segurança Pessoal da PSP". Assim mesmo, em maiúsculas, que o respeitinho é muito bonito e com esta gente não se brinca. Ficamos, todavia, e reparem como todavia soa aqui tão chique, sem saber com quantos elementos contam o esquadrão, a esquadra e o destacamento. Reparei também que falta uma (es)quadrilha, lapso seguramente de quem trata do site.

A presidência da República conta ainda com apoio médico e sabe-se lá quantos enfermeiros, cozinheiros, pessoal da manutenção, empregadas de limpeza, jardineiros, motoristas, pessoal administrativo e por aí fora, sempre a somar.

Tudo isto, repito, é pago por nós. Não vou ao ponto, até para não me acusarem de populista, de afirmar que o Dr. Cavaco devia ter poiso num qualquer quatro assoalhadas à Curraleira, ou fazer como José Mujica, presidente do Uruguai, que conduz o seu próprio carro em deslocações oficiais, por tal sinal um carocha mais-para-lá-do-que-para-cá e não um BMW, ou um Mercedes, ou um Volvo novinho em folha com que os nossos governantes tanto gostam de se pavonear. Mas, para o que o Sr. Silva de Boliqueime produz de útil à Nação, o simples facto de o saber mais caro do que a família Bourbon dá-me vontade de me embebedar ... a bourbon, mais caro do que medronho mas os exemplos vêm de cima.

O vídeo que se segue é velho, a notícia não é de hoje, mas convém sempre lembrar. Para mais tarde recordar. Na hora de votar noutro que lhe siga as pisadas porque neste, digo-o de olhos pejados de lágrimas, já não pode ser. Outro virá de igual envergadura. É só nós querermos e, nestas coisas, costumamos querer. Quanto mais não seja por abstenção. Quem cala, consente.

02/10/13

e um mundo sem raposos, não seria melhor?

O traste-escriba da direita mais abstrusa, que dá pelo nome de Henrique Raposo, escreve mais um dos seus artigos de ler e vomitar por mais. O link está mais abaixo, clique se tiver estômago dos fortes ou sais de fruto à mão. Sonha, o homem sonha, que a obra não nasça por via dos cães. Ou seja, farto de que eles obrem pelas ruas, em vez de apelar ao civismo dos donos quer, antes, que se acabe com os cães na cidade.

Um escarro nunca vem só. No outro dia borrou-se, em jeito de escrita, sobre a pedofilia. Segundo ele, brilhante pensador, a pedofilia é vista como um hábito chique pelas gentes da esquerda.

E um mundo sem raposos, não seria um mundo melhor? Sem Césares das Neves, sem Camilos Lourenços, sem Saraivas, com Sol ou sem Sol, e, já agora, sem Relvas nem Passos. Ah, fantasias minhas, delírios meus, má fortuna. O paraíso nunca acontece.

shutdown



Por Eduardo Pitta
daliteratura.blogspot.pt

O braço-de-ferro entre democratas e republicanos por causa do Orçamento para 2014 podia ser um confronto de projectos, natural numa sociedade livre. Mas a chantagem dos representantes do Tea Party faz dele um acto fascista. Causa próxima: o Obamacare. Verdade que parte significativa dos contribuintes americanos não quer subvencionar os cuidados básicos de saúde de 46 milhões de carenciados. Num país com 316 milhões de habitantes, não sabemos que parte da população quer medir o país pela bitola do Zimbábue. Contudo, uma sondagem da CNN garante que 46% dos americanos desaprovam o extremismo dos republicanos, considerando que o Tea Party está a conduzir o país a um suicídio colectivo.

Se o assunto não ficar resolvido até ao próximo dia 17, os Estados Unidos declaram bancarrota. Seria pleonástico antecipar as ondas de choque em todo o mundo. Cameron, num acesso de histeria, começou ontem a espernear.

A dispensa, efectiva desde anteontem, de 800 mil funcionários públicos classificados como “não essenciais” (num total de 2,3 milhões), é uma nano-mostra do que pode vir a acontecer. Neste momento, as forças de segurança, as polícias, os guardas de fronteira, os controladores aéreos e o pessoal dos correios, estão a fazer o seu trabalho sem auferir salário. Excepção: as forças armadas colocadas no estrangeiro. Por seu turno, senadores e congressistas, a quem o shutdown não afecta, continuam a ser remunerados. Se isto não é fascismo, vou ali e já venho.

Não é a primeira vez que tal acontece: entre 5 de Dezembro de 1995 e 6 de Janeiro de 1996, o mundo esteve suspenso do duelo entre Clinton e Newt Gingrich. A ver vamos se Obama está à altura da História.

um estorvo chamado pobreza


Os organismos de Estado americanos estão fechados. Não todos, claro. Os hospitais, as forças de segurança, as forças armadas e mais alguns, poucos, continuam a funcionar. E tudo isto, resumindo e simplificando, porque os republicanos não querem aprovar um orçamento que desperdice - ai que horror! - dinheiro com a saúde dos mais pobres. Tudo por culpa deles, esse estorvo da grande pátria do deus-dinheiro. In God We Trust, e quanto mais provas tiverem de que Ele existe, em notas chorudas arrebanhadas à pobreza, tanto melhor.

À boa maneira americana, 800.000 funcionários públicos foram para casa. Sem vencimento e sem culpa.

Por mim, só fechava o Capitólio. Para teatro, já basta a Broadway.

roubo mas faço

Por Daniel Oliveira

Em frente a um estabelecimento prisional, centenas de carros buzinam enquanto os seus condutores gritam o nome de um dos presidiários. Trata-se de um político local preso por corrupção. O seu delfim ganhou as eleições e o povo, feliz, quer dividir aquele momento com o seu herói encarcerado. Esta vitória foi dele. Ninguém nega que ele roubou. Roubou mas fez. Esta cena não se passa numa qualquer pequena cidade perdida no Brasil dos coronéis. Não se passa no México do narcotráfico ou numa nova ditadura nascida da ex-URSS. Passou-se em Oeiras, o concelho com maior percentagem de licenciados de Portugal, um país democrático e supostamente desenvolvido da União Europeia.

Explicar isto sem ser deselegante para com os meus concidadãos não é fácil. Opto, por isso, por falar dos mitos que são abalados pelo resultado de Paulo Vistas e da sua lista de homenagem ao presidiário Isaltino.

Não é verdade que a descrença crescente dos portugueses na democracia e nos políticos resulte de uma qualquer exigência ética. Não é a corrupção que cria desconfiança perante a classe política. Mesmo os portugueses mais ilustrados toleram bem a corrupção, desde que "deixe obra" para si. Muito menos é a impunidade que cria revolta. Quando a justiça faz o seu trabalho o eleitor trata de o desfazer.

Muitos dos que votaram na lista de Isaltino aplaudirão com entusiasmo as intervenções públicas de Paulo Morais e até as diatribes de Marinho Pinto. A corrupção incomoda-os. Mas o que os incomoda não é o roubo. É serem eles os roubados. Se o corrupto lhes deixa alguma coisa a corrupção deixa de ser um problema. Porque é apenas o seu interesse pessoal, e não a exigência ética que nasce da pertença a uma comunidade de valores, que determina as suas escolhas políticas. É por isso que, para muitos portugueses, os seus direitos são direitos e os direitos dos outros são privilégios, a sua greve é justa e a greve do outro é um transtorno.

O combate à corrupção não se faz com discursos inflamados contra os políticos. Faz-se através de uma ideia de solidariedade entre cidadãos que veem os recursos públicos como pertença de todos e o seu uso indevido como uma falha sempre grave, seja qual for o beneficiário. Só que, ao contrário do que se costuma dizer, Portugal não é um país especialmente solidário. O que é normal, tendo em conta os seus altíssimos níveis de desigualdade. A solidariedade nasce da pertença a uma comunidade. Essa pertença só acontece quando há empatia. A empatia precisa de proximidade. E a proximidade exige mínimos de igualde social e económica. As sociedades desiguais são egoístas e, por isso, pouco escrupulosas na sua ética coletiva. E assim é Portugal.

O fascínio que os eleitores têm pelas listas independentes não resulta apenas de uma qualquer doença partidária que promova a corrupção e o compadrio. Com isso, a maioria dos eleitores vive sem qualquer problema. A desconfiança em relação aos partidos é, em Portugal, antes de mais, uma desconfiança em relação às suas formas pouco democráticas de seleção de pessoal político. Uma desconfiança justa e legítima, porque retira aos eleitores a possibilidade de escolha. Mas que nada tem a ver com qualquer tipo de exigência ética.

A descrença nos partidos também resulta da crise económica, pela qual estes são responsabilizados. Mas a alternativa em que muitos cidadãos apostam é o atalho mais fácil: alguém que deixe obra passando por cima das regras e da lei. A maioria dos eleitores comunga do pragmatismo amoral de muitos políticos: desde que sobre alguma coisa para mim, que se danem os bons costumes. E se a maioria dos eleitores é egoísta e pouco exigente é natural que os políticos também o sejam. Afinal de contas, vivemos numa democracia representativa. Os que elegemos limitam-se a representar o que nós próprios somos. Não, o país não se divide entre políticos, por um lado, e os portugueses, suas vítimas.

Por fim, este episódio recorda-nos que, ao contrário do que se costuma pensar, não é a educação que garante uma democracia saudável e exigente. Essa falta de exigência não resulta de ignorância. As pessoas mais qualificadas não são eticamente mais rigorosas. O bom funcionamento da democracia tem a ver com regras. É a definição de poucas mais invioláveis regras que permite não misturar tudo no mesmo saco, como se tudo (do pequeno atraso fiscal à corrupção) tivesse a mesma gravidade e relevância. Definir linhas éticas claras e não nebulosas de suspeição, onde, como todos cabem, nada chega a ser realmente grave. São essas regras que criam, mesmo na cabeça dos eleitores, um ambiente de exigência formal ou um ambiente propício à corrupção. São elas que acabam por instituir que há práticas inaceitáveis.

Se Isaltino Morais tivesse sido travado no primeiro momento em que prevaricou e tivesse perdido imediatamente o lugar não teria tido oportunidade de criar as teias de interesses que criou. E não teria conseguido passar a ideia de que o crime compensa. E que compensa a ele e compensa aos eleitores, que se comportam como seus cúmplices. Nunca se poderia dizer, sobre ele, que "rouba mas faz". Porque a regra seria esta: "quem rouba não faz". Porque não roubar tem de ser a primeira condição para fazer seja o que for no Estado. Não precisamos de políticos puros, que nunca tenham falhado como cidadãos. Até porque eles não existem. Precisamos de poucas regras cuja violação represente, para todos, a imediata impossibilidade de exercer cargos públicos.

a vitória da troika

Por Luís Rainha

Em 2011, a troika desembarcou em Portugal, iniciando o cortejo de roubos, incompetências, trapalhadas, mentiras e falhanços que hoje todos sabemos de cor. Após dois anos de pesadelo, claro que os portugueses indignados com o jugo estrangeiro se ergueram em protesto, votando nos partidos que desde a primeira hora combateram o Memorando de entendimento. Certo?

Errado. Nas legislativas da ascensão de Passos Coelho, 794 mil apoiaram o “arco antitroika” – PCP, Bloco e MRPP. Nas presentes autárquicas, só 717 mil eleitores votaram contra o assassinato do seu país – e aqui até se inclui a coligação que espetou uma lança na capital do soba madeirense. Recuando às eleições locais de 2009, para comparar sufrágios idênticos, o panorama não melhora muito: mesmo face aos 721 mil votos então recebidos, os partidos antitroika declinaram.

Terá o bom povo, na sua sabedoria, reservado o protesto para as próximas legislativas? Será a contestação um enorme centrifugador, liquefazendo a revolta em emigração, abstenção e nos votos em branco e nulos, que aumentaram quase 50% desde 2011? Há ainda quem veja nos “independentes” o caminho da salvação, como se estes não fossem, quase todos, meros filhos pródigos das máquinas partidárias, bem capazes de nelas se dissolver à primeira oportunidade.

Seja como for, parece certo que os partidos que cederam a nossa soberania aos funcionários das potências ocupantes podem continuar a monopolizar o poder. Nas urnas, nada os ameaça.

a rainha na tasca do silva


Podia ser um filme mas não é. É a realidade. Fomos apregoar a nossa lavra por terras da rainha Sílvia. Silva anunciou, por lá, o fim da recessão. Já não há crise económica. Nem noção do ridículo. Não vi por lá a princesa Vitória. Mas vitória cantou de galo o Silva, sempre a aviar copos de três e doses de couratos na grelha. Bem passados. Para a mesa do canto. 

a maldição de salomé

Ainda decorre a reunião magna do Conselho Nacional do partidarelho que nos desgoverna, mas o porta-voz de tão impressionante evento, Marco António, já veio falar à comunicação social. Falou e disse. Disse que o ambiente, no PSD, é de coesão total e absoluta.

Manuela Ferreira Leite, António Capucho, Miguel Veiga, José Pacheco Pereira, Marco Almeida, só para citar os exemplos que, de repente, me ocorrem à memória, são algumas das cabeças a fazer rolar. Com toda a calma.

Haverá sangue. Com total coesão.

01/10/13

mais olhos do que barriga


O Sr. Barriga jamais há-de ganhar a vida como bruxo.

"O PS é muito capaz de eleger 5 vereadores em Beja".
Meteu lá três. 

"A CDU vai ter a maior derrota da sua vida".
Arrebanhou a Câmara ao PS.

Aconselho vivamente o Sr. Barriga a, de costas ou de barriga, não entrar em casinos ou salas de bingo, não comprar bilhetes de lotaria, não registar boletins de euromilhões, totobola ou totoloto, nunca por nunca ser apostar em jogos de fortuna e azar. Vai ter azar.

bicéfalo? não, obrigado!


As carpideiras, os justiceiros, os carrascos, todos em uníssono vieram às televisões, aos jornais, às estações de rádio, assinar a certidão de óbito do Bloco de Esquerda. Talvez se estejam a precipitar, talvez do que o BE precise é de um novo medicamento que o salve, uma nova direcção. Não bicéfala. Talvez precise de, sem nunca abdicar dos seus princípios fundamentais, dialogar mais com o resto da esquerda, encontrar consensos, pontos, frentes comuns contra a desgraça que se avizinha. Os tempos são graves demais para que cada um não abra mão de alguns pergaminhos, não saia da sua pequena quinta, a favor de Portugal e dos portugueses.

Para já, não lhes apressem o funeral. Não chamem o gato-pingado nem o coveiro. É cedo ainda.

notícias da pátria de hitler

A extrema-direita ficou em terceiro lugar nas eleições austríacas do passado domingo. Por cá, um partido congénere, o PNR, quedou-se entre os últimos com 0,06% dos votos. E depois nós é que somos os atrasados, os menos civilizados, os menos instruídos?

e eu sou o pai natal


do penta de portas só falo com números


Impante, Portas anunciou a grande vitória do CDS, o fim da solidão municipal do CDS, o penta do campeão CDS. 

Vejamos se Portas teve razão para tal euforia.

Não me vou referir ao total nacional, devido às coligações a que o CDS aderiu em várias localidades, tornando difícil a verificação de resultados. Mas vejamos os das câmaras que conquistou:

Ponte de Lima: 18.467 votos em 2009; 14.982 em 2013.
Albergaria-a-Velha: 4.373 votos em 2009; 5.701 em 2013.
Vale de Cambra: 5.652 votos em 2009; 6.382 em 2013.
Velas, Açores: 399 votos em 2009; 1.716 em 2013.
Santana, Madeira: 638 votos em 2009; 2.605 em 2013.

Com excepção de Ponte de Lima, onde perdeu mais de 4.000 votos, o CDS aumentou o número de eleitores nos outros 4 concelhos onde, pela primeira vez, abocanhou a Câmara Municipal. Só que o total de eleitores, nesses 4 concelhos, é de apenas 25.642 pessoas. Ou seja, pouco menos do que uma única das muitas autarquias ganhas pela CDU, Silves, com 30.547 eleitores.

Grande vitória? Estamos conversados.

e para que quero eu um rato mickey?

Por Ferreira Fernandes

Diziam antes os analistas: "No domingo é que é a verdadeira sondagem!" Mas apareceu a sondagem - que não sem razão é palavra que vem de sonda, instrumento para nos indicar a profundidade das águas - e todos se puseram a contar os telhados das câmaras ganhas. Ora isto faz-se com os dedos, um ábaco ou com o calculator do telemóvel, soma-se e, em dando 150 para o partido mais votado e o partido seguinte ficar só com 106, ganha o primeiro. Não me dei ao trabalho de recontagens porque em questão de câmaras basta-me uma, onde moro (e fiquei bem servido). Digo-vos isto para confirmar que não fiquei entusiasmado com a composição da Associação Nacional de Municípios (esta composição ou outra qualquer) porque suspeito que os congressos da FIFA me condicionam mais o meu dia a dia. Já lições a tirar do que a tal sonda trouxe à superfície interessam-me. Porque me iluminam as legislativas (os governos) a vir. Foi disso que escrevi na crónica de ontem. A macrossondagem feita no domingo (foram ouvidos milhões) disse-me que os portugueses estão zangados mas também que os portugueses mobilizaram-se menos, agora, 2013, do que em 2009 o tinham feito pelo partido que se propõe apaziguar a zanga. A quota de votos do PS desceu de 37,67 por cento para 36,35 nesses quatro anos. Logo, a oposição convence pouco. Será suficiente para ganhar, será, porque ao Bugs Bunny qualquer Rato Mickey ganha... Mas a questão é: e para que quero eu um Rato Mickey?

não há dinheiro, não há palhaços



Por Daniel Oliveira

Disse e escrevi várias vezes - e porque o disse de forma bruta tive de ir, com regularidade, visitar o tribunal do Funchal - que no dia em que fechassem a torneira a Alberto João Jardim o seu domínio sobre a Madeira chegaria ao fim. Não porque o Estado Central deva usar o controlo dos recursos públicos para premiar ou punir políticos de que não gosta. Mas porque o governo Regional da Madeira usa esse dinheiro, muito para lá daquilo a que, numa divisão equitativa dos recursos nacionais, lhe caberia por direito, para manter uma teia de interesses, cumplicidades e dependências. Porque, numa região onde nem sequer há, como no continente, uma lei de incompatibilidades para os deputados, o despudor na promiscuidade entre interesses políticos e económicos atinge níveis que até num país como Portugal são difíceis de tolerar. Porque, só para pegar num entre muitos exemplos, o dinheiro dos contribuintes serve para distribuir um jornal privado gratuitamente, tentando assim sufocar o pluralismo informativo.

A Madeira foi, nestes últimos 39 anos, um feudo de violação sistemática das regras democráticas, de atropelo à legalidade constitucional, de ataque às liberdades cívicas e de achincalhamento da ética republicana. Nada que o todo nacional não conheça por experiência própria. Alberto João Jardim tinha dinheiro para manter os eleitores satisfeitos, os aliados fiéis e os opositores divididos. Para comprar empresários e a poderosa Igreja Católica local. Foi com esse dinheiro, que fazia falta a outras regiões do país, mas que por razões que desconheço nunca lhe foi negado, que Jardim construiu as fundações do seu poder clientelar e arbitrário. E o caciquismo permitiu-lhe isolar a oposição, a que, com o poder económico e político todo dependente de Jardim, apenas os mais corajosos ou com fortuna própria se podiam dar ao luxo de pertencer.

Se a democracia portuguesa está doente (disso falarei noutro texto), a da Madeira está, há décadas, em estado de coma. Na realidade, a democracia plena não chegou a criar raízes na ilha. Até que, como sempre disse que teria de acontecer, a torneira se fechou. Não por decisão de algum governante mais escrupuloso, mas pela profunda crise nacional. A quase vitória interna de Miguel Albuquerque (anterior presidente da Câmara Municipal do Funchal) explica-se por isso mesmo. Num PSD/Madeira construído na base da traficância de cargos e negócios, a escassez deixou cada vez mais militantes fora do banquete. Que, ressentidos, procuraram novo senhor. Também se explicam assim os desentendimentos entre Jardim e o seu mais rasteiro colaborador, Jaime Ramos. E, por fim, é a crise que explica a brutal derrota eleitoral que o PSD teve, no domingo, na Madeira. Nunca foram os dislates e disparates de Jardim que lhe renderam votos. Disso os madeirenses riam-se. Era a bebedeira de despesa útil e inútil, legítima e de legalidade duvidosa, que, ao contrário do que muitos gostam de dizer, não tinha qualquer paralelo com o que se fazia no resto do País. Era uma lógica de apoio social que, em vez de combater a pobreza e a exclusão, limitava-se a criar laços de dependência política. Uma cultura que fez escola em vários partidos de oposição. Em que parte do País os deputados distribuem comida aos eleitores com o dinheiro das subvenções do Estado e acham que isso é politicamente aceitável?

Também sempre disse que a Câmara Municipal do Funchal era o calcanhar de Aquiles de Jardim. Não era impossível a oposição conquistá-la e, a partir dela, romper a teia jardinista. Não esperava que no dia em que isso acontecesse o PSD perdesse mais seis autarquias (em onze). Sem estas sete câmaras municipais o poder de Jardim, que sufocava financeiramente cada autarquia que lhe saísse das mãos, torna-se impossível de exercer. Sem dinheiro, sem grande parte do poder local, com o partido rachado a meio e com todos os ratos a abandonar o barco, Alberto João está politicamente morto. Não tem os instrumentos - o dinheiro e as fidelidades que ele compra, o medo e os silêncios que ele garante - para se manter no poder. A sua promessa de purga interna é apenas um daqueles momentos patéticos que a paranóia de todos os pequenos déspotas sempre nos reserva no momento de cairem da cadeira do poder. 

A coligação que juntou o PS, o Bloco de Esquerda, o PND, o PTP e o PAN (os últimos três são, na realidade, partidos regionais que adoptaram siglas de partidos nacionais já existentes) conseguiu um feito. Em que o PCP/Madeira deveria ter participado, não ficando de fora da festa regional e da festa que o partido teve no continente. Ou esta coligação aproveita o momento para construir uma alternativa credível para a região ou a fera ferida terá tempo para se recompor. E poderá nascer, dentro do PSD, um novo jardinismo sem Jardim. Mas a tarefa mais difícil vem depois: reverter quatro décadas de uma cultura clientelar que minou a democracia na Madeira. Se a pedagogia da democracia exigente é, como se viu em Oeiras (tema de amanhã), uma tarefa fundamental mas difícil em todo o país, na Madeira ela implica um trabalho hercúleo.

qual vitória do PS, qual carapuça!


Que me desculpem os que foram votar no PS, mais os pivôs engalanados, os politólogos encartados e outros comentadores engajados. É que o PS não teve uma retumbante vitória coisíssima nenhuma.

Os números não enganam e muito menos perdoam os, digamos assim para não dizer pior, mistificadores: em 2009, com Sócrates já em declínio, alvo de ataques justos e de rumores injustos, que também os teve, o PS alcançou 2.084.382 votos; no Domingo, recebeu 1.810.744 (na realidade, menos 13% de votantes do que em 2009). 

É isto uma vitória? É isto a glória propalada aos quatro ventos por tribunos e vassalos na noite das eleições?

No Distrito de Viana do Castelo, obteve 64.919 votos em 2009; agora, quedou-se pelos 55.148. Em Braga, 222.702 votos em 2009; 190.815 em 2013. Em Vila Real, 54.625 votos em 2009; 54.731 em 2013. Em Bragança, 37.786 votos em 2009; 33.727 em 2013. No Porto, 339.291 votos em 2009; 316.597 em 2013. Em Aveiro, 142.188 votos em 2009; 119.007 em 2013. Em Viseu, 86.309 votos em 2009; 85.026 em 2013; na Guarda, 53.062 votos em 2009; 41.150 em 2013. Em Coimbra, 92.713 votos em 2009; 89.884 em 2013. Em Castelo Branco, 54.111 votos em 2009; 47.590 em 2013. Em Leiria, 80.957 votos. 71.804 em 2013. Em Santarém, 91.135 votos em 2009; 80.363 em 2013. Em Portalegre, 32.730 votos em 2009; 28.368 em 2013. Em Lisboa, 391.940 votos em 2009; 319.109 em 2013. Em Setúbal, 97.622 votos em 2009; 78.909 em 2013. Em Évora, 36.385 votos em 2009, 27.767 em 2013.

Querem que continue mais para baixo - e para os lados, Madeira e Açores -, ou estes números chegam para lhes provar que o PS não ganhou, que o PS antes perdeu votantes e influência?

Desculpem estropiar-lhes a festarola. Isto não é uma vitória. Isto é antes uma prova de que Seguro é um líder fraco e que o PS não conseguiu canalizar os votos nem dos descontentes nem dos revoltados com a política vergonhosa do PSD/CDS. Não convenceu e muito menos venceu. Perdeu, apesar das percentagens, apesar do número de presidentes de Câmara, apesar dos sorrisos de triunfo e da possibilidade próxima de vir a saciar a gula de poder.

O primeiro lugar das eleições de Domingo coube à abstenção. Esta é que é a verdade. Tudo o mais, são tretas.

Fontes de consulta

30/09/13

homem ao mar!


E eis que se vai dar o naufrágio do Titanic de papelão. A banda ainda toca, mas os músicos desafinam, cada qual para seu lado. O homem do leme treme mas mantém a rota. Os marinheiros, habituados ao bom tempo, andam da proa para o convés e do convés para a proa sem saber por onde estancar a água, impedir a hecatombe. Os passageiros, esses, inconscientes do perigo, dançam ao som de um tango agonizante e aplaudem a perícia, a elegância, o savoir faire do comandante. Que, agarrado ao dinheiro que tanto lhe custou a confiscar, sonha com um futuro que nunca encalhe nos escolhos da verdade, da solidariedade, do humanismo, da justiça. Deseja chegar depressa à Terra Prometida, a Ilha do Tesouro, onde o esperarão altos cargos e prebendas. Pelos serviços prestados.

o melhor resultado destas eleições

O que mais gostei de ver, nos resultados destas eleições, foi a votação alcançada pelo PNR: uma percentagem de 0.06% e 2976 votos em todo o País. Mas, afinal de contas, por onde andam todos os que vociferam que "Salazar faz cá muita falta"? Votaram útil? Votaram CDS ou PSD? 

Mesmo assim, ainda são quase três mil mânfios. Crie-se-lhes uma reserva, um Portugal dos Pequeninos. Sem pretos nem mestiços, sem bichas nem trichas, sem comunas nem socialistas, sem monhés, sem ucranianos, brasileiros, chineses, sem islâmicos, judeus, protestantes, budistas, hindus.

O paraíso na Terra. 

a extinção dos dinossauros

Por Luís Menezes Leitão

Se as eleições autárquicas serviram para alguma coisa foi para derrotar estrondosamente a estratégia suicida de candidatar dinossauros às câmaras vizinhas numa clara fraude à lei de limitação de mandatos, escandalosamente sancionada pelo Tribunal Constitucional. De facto, com as excepções de Ribau Esteves em Aveiro e Álvaro Amaro na Guarda, as candidaturas de dinossauros autárquicos foram estrondosamente derrotadas. Seara teve um resultado humilhante em Lisboa e Luís Filipe Menezes deixou que a Câmara do Porto fosse parar às mãos de um independente sem qualquer currículo político. De Fernando Costa em Loures e Moita Flores em Oeiras nem vale a pena falar. Para a próxima é bom que os partidos aprendam a lição e saibam sobrepor ao interesse pessoal dos candidatos a concorrer eternamente às autarquias o interesse público da renovação de mandatos. Se não o fizerem nunca conseguirão ter o respeito dos eleitores.

a graça que o portas tem!


E Portas, ufano, bradou: GANHÁMOS! Temos 5 câmaras, dantes tínhamos só uma!

Do que o Portas se esqueceu, provavelmente são sequelas do desterro a que tem sido sujeito no palácio de Farrobo, é que o CDS quase desapareceu do mapa, eclipsou-se, deu o berro, o peido-mestre. 

Portas, o penta-campeão irrevogável, perdeu o tino e o País.

isaltino aliviado


Agora que Isaltino Morais foi eleito de novo presidente da Câmara de Oeiras, juntemo-nos e em uníssono cantemos "Soltem os Prisioneiros"! Soltem Isaltino! Soltem Duarte Lima! Soltem o Oliveira e Costa! Soltem os poucos, muito poucos tubarões que já foram ao charco. Mandem-nos de regresso à cloaca. Ponham-nos a presidir, a administrar, a governar. Abençoada a Pátria que tais filhos tem parido.

a morte lenta do messias de massamá






Ele há dias em que até o Correio da Manhã trás uma manchete decente. Passos perdeu, que o peso da sua derrota nos seja leve. Ainda não foi a que merecia e que o seu desempenho plenamente justificava, há votos devotos que são pecado mortal, mas é melhor do que nada. É o princípio do fim. Do fim deste longo drama de faca e alguidar de que os vindouros, felizmente, só ouvirão falar em panfletos de cordel e nos rodapés dos compêndios de História.

E agora, o que vem a seguir? A que chantagens, a que pressões, a que medos vamos ser sujeitos? Os juros da dívida já estão a subir, tanto quando Passos e o PPD estão a descer? E a Bolsa de Lisboa, vai ter um dia funesto? E a frau Merkel? Que atitude vai tomar perante este desmando ao seu mando? E Durão? Vai-nos atiçar os cães da troika, nós que temos sido carniça tão apetecível nos mercados da traficância? E Silva, o eterno, o perene Sr. Silva? Vai continuar a ser o Presidente de alguns portugueses, felizmente cada vez em menor número? E quais os novos roubos, os novos crimes que, quanto mais não seja por vingança, Passos vai perpetrar contra os portugueses? Não nos esqueçamos disto: o homem, o pequeno homem que pensava ser grande, não tem nada a ver com os portugueses, com o nosso sentir, a nossa maneira de ser e de viver. Ele acha-nos podricalhos e piegas. Ele acha que, finalmente, nos está a domesticar e a meter nos eixos. Mais uns cilícios, mais umas macerações, só nos podem fazer bem. Ele, o Messias de Massamá, regenerará os portugueses, purificará a raça, preparará Portugal para enfrentar os desafios do futuro. Quando, depois de colónia alemã, pertencermos à China na qualidade de zona franca destinada a trabalho escravo.

Mas, enquanto o pau vai e vem, folgam-me as costas. Folgazão, vejo as primeiras páginas dos jornais de hoje e sorrio. Um dia não são dias. O dia nasceu chuvoso lá para os lados da Buenos Aires e do Caldas. Aqui, onde moro, há uns raios de Sol a passar por entre as nuvens. Raios de esperança. Nem tudo está perdido.

29/09/13

ora agora copulas tu, ora agora copulo eu, ora agora copulas tu, copulas tu mais eu

Hoje fomos às putas.

Mais uma vez o povo, o grande derrotado destas eleições, votou a favor do alterne neste prostíbulo a que muitos ousam dar o nome de democracia. Num dia é a madame de negligé laranja a mandar no lupanar, no outro a do negligé rosa, e assim vamos indo desde há três décadas, com as marafonas cada vez mais fanadas por anos de fornicanço com os milhões que lhes fazem a clientela.

O partido mais votado chama-se abstenção mas, disso, os especialistas em arrotos de pescada em posta, vulgo comentadores, pouco ou nada disseram pelas pantalhas.

O vencedor, a título individual, foi Sua Excelência o Presidente Honorário de Oeiras, Sr. Dr. Isaltino Morais, encorajando-nos a gritar "soltem o prisioneiro!"; o povo exige-o cá fora para que os seus filhos-munícipes não se sintam órfãos! 

Por outro lado, nem o PSD e muito menos o CDS foram os grandes derrotados da noite, como seria de esperar depois da torpeza com que nos têm desgovernado, e conseguem, em muitos casos, votações acima dos 50%. 

Estes dois factos, os resultados do recluso Isaltino e os da coligação de Desgraça Nacional, são, por si só, mais do que suficientes para nos envergonhar a todos.

Cumpra-se, no entanto e sempre, a vontade da maioria. Com coito ou sem coito, depois de lavado e enxuto tudo, absolutamente tudo, fica como novo. O País não é excepção.

a ver vamos daqui a nada

A ver vamos daqui a nada.

Não auguro nada de bom. O alterne manter-se-á. Umas rameiras cederão a sua cama a outras e será tudo. A nível nacional, o putedo guinchará os seus ganhos e jurará vingança às pegas desavindas.

E nós, sem sequer "molhar o bico", vamos pagar aos chulos.

o crato sabe da poda