19/01/13

enojado, retiro-me

Vou tentar não vir aqui por uns dias. Vou tentar não ler jornais, ver telejornais. Os cães raivosos abatem-se sobre este pobre país à beira-mar amargurado, arrancando-lhe as últimas raízes, sorvendo-lhe a seiva até à última gota. Mais cortes, mais impostos, mais desemprego, mais falências, mais mortes. Sem que alguém nos acuda. Enojado, retiro-me. Voltarei.


funeral português



Este foi a fingir. O verdadeiro está quase a acontecer. O moribundo estrebucha já. Os gatos-pingados e os coveiros, de Passos a Portas e Gaspar, tudo fazem para que o enterro seja em grande.

17/01/13

um antro nauseabundo


Dado como sou ao masoquismo, pus-me a ouvir os discursos dos deputados durante a apresentação do relatório da Comissão de Inquérito ao BPN. Os deputados do PSD convenceram-me, já não me resta a menor dúvida: a culpa daquilo tudo foi do Sócrates. Acho mesmo que Oliveira e Costa e Dias Loureiro, só para mencionar dois dos muitos que por lá administraram a roubalheira, são agentes socialistas secretamente infiltrados no seio do PSD por José Sócrates, um sob o falso nome de Senhor Silicone e o outro de Senhor Botox.

Não resta um pingo de vergonha a essa gente. Todo o seu discurso foi sobre a nacionalização, nem um pio sobre o que aconteceu antes, nos tempos dourados da fraude. 

Esse antro a que chamam Assembleia da República ou, os mais ousados, casa da democracia, devia fechar para uma limpeza geral. Aquilo anda muito emporcalhado. Contem, desde já, com o meu contributo: uns bons baldes de creolina, outros tantos de lixívia e um bidão de ácido muriático. Dos grandes.

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a república das putas

Por João Magueijo
http://www.publico.pt/

A expressão não é original, mas o plágio é deliberado. Quando Josef Skvorecky escreveu o livro A República das Putas, havia na então Checoslováquia o sentimento de um país traído, entregue ou vendido a uma ideologia questionável, por uma classe dominante corrupta e por políticos que eram de facto putas, metafórica e literalmente. No caso de Portugal não houve tanques a entrar pelo país e a ideologia a que fomos vendidos será a outra, supostamente oposta. Mas de resto a história é tal e qual, especialmente no que diz respeito à qualidade e moralidade dos políticos. 

E o pior é que paga o justo pelo pecador, ou pelo menos há pecadores, a nível mundial, que não pagaram nada. Até isto se resolver não me parece que faça grande sentido ser optimista, ou filosofar sobre o estado das letras e das ciências. Antes falar de tourada. 

Ainda deve haver por aí quem se lembre da Dona Branca, a autodenominada banqueira do povo. Para quem não sabe, era uma senhora que mais não fazia que comprar e vender dinheiro, fazê-lo circular, o que lhe era levado de novo era usado para pagar juros chorudos aos que já lá estavam, e cada vez havia mais. Ela arrecadava uma comissão, a coisa foi crescendo até que um dia PUM, foi tudo pelos ares. Recordo-me de uma Dona Arminda, que lavava as escadas lá do prédio, que perdeu as poupanças todas nestas andanças, ainda me lembro da senhora a chorar muito, faz-me lembrar o Portugal de hoje. E a Dona Branca inevitavelmente foi dar com os costados na prisão, coitada da senhora, estava muito avançada para a época, se fosse hoje davam-lhe um bónus de milhões, e teria uma posição de topo na Wall Street. 

Não sejamos hipócritas, já todos recorremos aos bancos, e houve tempos em que o mundo das finanças fazia algum sentido. Precisava-se de algo agora, a ser pago com dinheiro que se iria ganhar mais tarde, os bancos tratavam da necessária máquina do tempo financeira. Em Itália vai-se a uma terriola qualquer, e lá há-de estar a Caixa Agrícola de Montemerdini, ou lá o que for: emprestava para se comprar os adubos, as sementes, as alfaias, e quando se fazia a colheita pagava-se, ficava tudo contente, belos tempos. 

Eram tempos em que o capitalismo tinha um lado quase bom, ou pelos menos paternalista. Claro que a pobreza era extrema, e deixa lá as coisas correrem mal e logo se via quem passava fome. Mas o capital nesses tempos era usado para produzir riqueza real, e o sistema financeiro apoiava o processo, conduzia a coisas que se viam, que resultavam em produtos tangíveis e reais. 

O capitalismo de hoje é bem mais tenebroso. Os jogos financeiros contemporâneos são tão abstractos e auto-referenciais que trocando a coisa por miúdos mais não são do que comprar e vender dinheiro, como fazia a Dona Branca. Por razões que nunca entendi, muitas das galinhas dos ovos de ouro, em Londres e Nova Iorque, são físicos teóricos e matemáticos falhados, ex-colegas meus em alguns casos. Temos tido acesas discussões, mas numa coisa concordamos: a teoria do caos e o Lema de Ito que se lixe, aquilo é simplesmente jogar na lotaria. Como é que trocar acções por computador ao microssegundo, como se tem vindo a propor, pode corresponder a alguma operação económica real? Aquilo é verdadeiramente a Dona Branca: uma pescadinha de rabo na boca financeira, "financiar o financiamento das finanças financiadas", num jogo bem enterrado no umbigo da Wall Street e da City de Londres, um totoloto mundial mas com um belo seguro contra perdas: quando se ganha, ganham eles; quando se perde ,pagamos todos, em cascata. E é aí que entram as tais putas, especificamente as nacionais. 

Ao longo dos anos vimos o país a endividar-se com coisas que eram precisas e coisas que não eram. Tínhamos um serviço nacional de saúde do terceiro mundo e uma taxa de mortalidade infantil a condizer, analfabetismo e subdesenvolvimento a níveis do Subsara... e as coisas mudaram dramaticamente nos últimos 20 anos. Saí de Portugal em 1989 e sempre que voltava via algo de novo que era genuinamente preciso: portos para pescadores, estradas ao nível europeu, uma enorme expansão do ensino, etc., etc. E claro que tudo isto custa dinheiro, mas podia argumentar-se que se a Europa não queria ter um país do terceiro mundo no seu seio que o pagasse. 

Mas onde a porca torce o rabo é que se via também uma orgia de infra-estruturas desnecessárias: túneis nas entranhas da Madeira que levavam a lado nenhum, estradas em duplicado nos cus de judas regionais, coisas tão ridículas que davam vontade de rir. Foram-se fazendo obras públicas completamente faraónicas, de novo-rico que não sabe o que há-de fazer ao dinheiro. Tornava-se óbvio que se construíam infra-estruturas, não para preparar o futuro, mas sim para alimentar o presente, numa cumplicidade corrupta entre Estado e empresas privadas, em que o último elo da cadeia era o mundo das finanças internacionais. E esses andavam entretidos com os seus jogos de totoloto, e quando a bolha rebentou lixou-se o proverbial mexilhão, tradução, nós. 

Como Skvorecky notava, as "putas" que tinham antes vendido o seu país aos nazis eram as mesmas que agora acolhiam os soviéticos (e mais tarde, muito depois de o livro ser publicado, acolheriam o capitalismo selvagem, sem que ele o soubesse). O mesmo se passa no nosso caso: não tenham dúvidas de que em tempos de fascismo os nossos primeiros-ministros teriam sido rapazes de sucesso. Mas de certa forma estamos a bater no ceguinho. Se eles (e nós, por extensão) fizeram figuras tristes e agora estamos a pagar por isso, houve quem fez pior e se está agora a rir. Os usurários mundiais nem sequer construíram túneis inúteis: construíram castelos de valores inexistentes, que continuam a crescer e a alimentar a sua ganância. Até isto se resolver falemos de tourada, porque não faz muito sentido discutir o estado da nossa sociedade, e o demais, em 2013. 

Aliás, parece-me que a nossa sociedade estaria muito bem, muito obrigado, se não fosse este "pequeno detalhe" político e financeiro. Por exemplo: a sociedade portuguesa é muito mais sã do que a inglesa. Na Inglaterra, quem abre a boca inevitavelmente vomita uma etiqueta de classe social autenticada. Os famosos sotaques britânicos fornecem informações precisas sobre a classe, uma pena não se ensinar isto nas aulas de inglês do secundário que cá se apanham. E este simples facto cria uma quase ausência de mobilidade e interacção entre as classes; pior, torna as pessoas em estereótipos da sua classe social. Por exemplo, a classe operária inglesa força-se a seguir um cliché de ignorância e estupidez, atitudes racistas e xenófobas, contra a cultura e a educação. A sua imagem de marca é falar com erros de gramática que em Portugal só um atrasado mental cometeria... assim as classes superiores os têm vindo a controlar. 

Nada disto se passa em Portugal (e já agora na Grécia, onde se encontram camponeses analfabetos a pagar a educação dos filhos em Cambridge). Ainda fui daqueles que tiveram de ir fazer a inspecção para a tropa, estava já então em Inglaterra, e o que mais me impressionou foi que entre os 500 "mancebos" de pirilau de fora que lá estavam, não se sabia de que classe era quem (tirando os casos extremos de dois grosseiríssimos labregos e de um pretendente à coroa). Ora na Inglaterra nada disto seria assim, e com graves consequências: ao contrário de Inglaterra, se há cultura e identidade neste país, elas residem precisamente na classe trabalhadora. E diria que é este o maior potencial de Portugal: temos uma sociedade muito mais saudável, em termos de identidade e de classe, apesar de todos os problemas com que nos deparamos. 

Sim, éramos um país de pobres que passou temporariamente a um país de novos-ricos. Mas agora somos um país de novos-pobres: miúdos cheios de talento desempregados há dois anos, pessoal de ponta a emigrar para o estrangeiro, médicos educados cá a colmatarem as faltas de sistema de saúde inglês... um desperdício óbvio de uma geração. Em vez de usarmos estas fontes de rendimento, deixámos os tanques financeiros entrar pelo país, para aumentar os impostos e baixar os salários, já de si entre os mais baixos da Europa. 

Não sei se haverá soluções milagrosas, mas uma quebra total com o que se tem vindo a fazer é evidentemente necessária. Lembro-me de uma senhora perguntar a um médico meu amigo se podia usar água benta para a sua enfermidade. O médico respondeu-lhe que sim, mas que a fervesse primeiro. Não me parece que doses sucessivas de banha da cobra sejam a solução dos nossos males. Muita da nossa dívida, e consequente austeridade, não é legítima, em perfeita analogia com as dívidas contraídas pelas prostitutas, e que as mantêm nas malhas dos seus donos. Se a nível mundial algo tem de ser feito para refrear os chulos financeiros, a nível nacional um corte com o passado seria um primeiro passo. Ou então que se dê o Prémio Nobel da Economia à Dona Branca. E viva a República das Putas. 

Imagem: http://wehavekaosinthegarden.blogspot.pt

conspiração palaciana


Alguém me sabe dizer se os membros da Sociedade Secreta já saíram do Palácio Foz ou se ainda continuam por lá a conspirar contra o povo? E alguém me sabe explicar porque é que estava tão pouca gente nos Restauradores a apupar, ontem, as altas individualidades que iam entrando e saindo do sinistro convénio? Será que, de brandos, passámos a inexistentes? Ou será, pura e simplesmente, um fenómeno de hibernação colectiva por causa do inverno, funesto e negro?

há um novo terramoto em portugal

O nosso pibinho

Por André Macedo
http://www.dn.pt

O Governo fala muito em exportações. Compreende-se. Não há quase nada de bom para falar, nem sequer a queda dos juros dos títulos da dívida é 100% recomendável: estão a cair, é verdade, é muito bom, é excelente, é promissor, mas podem voltar a disparar a qualquer momento. A Europa passou de crises de confiança agudas em 2012 para um mal-estar permanente. A Zona Euro sofre agora de uma moinha que arrelia como uma dor de dentes, provoca recessão, muito desemprego e um terrível medo e pobreza lá ao longe na Grécia e em Portugal, também na Irlanda e em Espanha, mas que não implica grandes mudanças de rumo político no centro da Europa.

A nuvem não desapareceu, anda por aqui. A procura interna está de rastos, cairá pelo menos 17% entre 2009 e 2013. No mesmo período, o investimento cairá 36%. Nunca na história recente de Portugal o investimento se despenhou tanto e tão depressa. O dinheiro sumiu-se, foi-se, desapareceu. Não há crédito, exceto para as grandes empresas - e, mesmo esse, caríssimo. Não há consumo, não há expectativas, não há confiança, o desemprego vai loucamente a caminho dos 17%. Não há negócio que aguente ou que possa nascer neste ambiente de permanente hostilidade fiscal.

A palavra empreendedor deve, aliás, ser retirada do dicionário. Caiu em desuso. É um conceito zombie. As estatísticas revelam que, depois do mergulho dos bens duradouros (casas, carros, eletrodomésticos...), nos últimos meses os bens essenciais também entraram em plano inclinado. Chama-se a isto colapso económico, já não é ajustamento nenhum. É por isso, dizia eu, que o Governo fala tanto no milagre das exportações e dos "bens transacionáveis". Na verdade, falava. Daqui para a frente terá de falar menos ou, pelo menos, com mais cuidado. O Banco de Portugal avisou anteontem: em 2012, a procura externa sobre os produtos portugueses estagnou (apenas mais 0,2% face a 2011) e este ano, na melhor das hipóteses, vai ser igual, já que a Zona Euro está tecnicamente em recessão, o que significa que Portugal enfrentará mais concorrência dos parceiros da UE para vender nos mercados extracomunitários.

Tecnicamente, portanto será assim. Aliás, será pior. Não é apenas no imediato que o País vai sofrer. A redução do investimento, os tais chocantes menos 36%, tem a prazo outra consequência profunda. Está escrito no relatório do Banco de Portugal: esta quebra terá implicações "sobre a capacidade de incorporação de progresso técnico e, em última análise, sobre o crescimento do produto potencial". Significa isto que sem dinheiro para investir - por exemplo, em tecnologia - as empresas não se modernizam, atrasam-se, tornam-se menos produtivas, menos competitivas e perdem mercado. Deixámos de ter PIB, agora temos pibinho.

Fotografia: http://arquivomunicipal.cm-lisboa.pt/

quem sabe sabe, e o salgado é que sabe!

Os trabalhadores a recibos verdes, geralmente precários, geralmente mal pagos, geralmente esmifrados pelos patrões e pelo Estado, podem vir a ser presos se deverem mais de 3.500 euros à Segurança Social. Ricardo Salgado "esqueceu-se" de declarar 8 milhões e meio ao fisco, para além das outras histórias de contornos obscuros em que o BES está envolvido. Irá preso também, ou esse é privilégio apenas da arraia-miúda? 

Imagem: http://noticias.pt.msn.com

16/01/13

luzes de lisboa




isto não é um governo, é uma comissão liquidatária

Há instituições internacionais, daquelas prenhes de bondade e delicadeza capitalista, que andam atrás do nosso ouro (ver link abaixo). Depois das privatizações ao desbarato, da perda de direitos laborais e da derrocada salarial, para que esta coutada de mão-de-obra seja cada vez mais acessível e barata, para que as indústrias mais poluentes venham de onde outros não as querem, está quase tudo feito. No tempo recorde de ano e meio. Vão chamando incompetente ao Passos. Ele rala-se muito.

http://www.rtp.pt/noticias/index.php?article=597651&tm=6&layout=121&visual=49

Imagem: http://www.munknee.com

se o primeiro deu em nada, que venha outro







o desacordo ortográfico

o coelhinho é bom cantor, é bom cantor tem boa voz, está sempre a cantar trololó trololó

el-rei pasmado


Faça-me um favor, senhor presidente: contrate quem lhe escreva os discursos. Mas uma pessoa só, não duas ou três, e de preferência que não seja atormentada por qualquer maleita psicossomática que a faça ser ora o Dr. Jekyll ora o Mr. Hyde. É que o senhor presidente, desculpe que lhe diga, não faz condizer a bota com a perdigota. Num dia jura a pés juntos que o governo nos está a conduzir para uma espiral recessiva, no outro dia afirma que vamos pelo melhor dos caminhos; num dia parece que está contra o governo, no outro dia cegamente a favor. A desorientação é tal que, num mesmo discurso, chega a dizer uma coisa e o seu contrário.

Se puder, se conseguir resistir à tentação, faça-me mais um favor senhor presidente: não mande publicar em livro os seus discursos dos últimos tempos, para que não seja ainda mais evidente a fragilidade do seu pensamento, errático, e da sua acção, inexistente.

Por fim, repare que nem sequer me atrevo a pedir-lhe o derradeiro dos favores: que se demita, para não continuar a desonrar o cargo que ocupa. Seria pedir muito.

Imagem: http://wehavekaosinthegarden.blogspot.pt

o futuro à porta fechada

Por Luís Rainha
http://www.ionline.pt

Enquanto escrevo estas linhas, uma suposta emanação colectiva da “sociedade civil” discute o futuro do nosso Estado. O evento deu logo que falar, não pelo que lá será falado, mas por não se poder falar do que ali se fala. Até deixam entrar jornalistas, mas nada de gravar os brilhantes pensamentos que por certo se multiplicam naquele salão como cogumelos alucinogénicos num pântano. Dada a “natureza do debate”, só poderão ser reproduzidas as ideias de génio com autorização expressa dos seus autores.

Não sei se esta original proibição já representa em si um modelo de organização do Estado, se pretende dar tempo às luminárias para registarem as patentes das suas inspirações antes que alguém as venda aos chineses, ou se é apenas uma prudente demonstração de vergonha antecipada, sabendo-se já o que muitos dos crânios arrebanhados para o convénio produziram antes. Mas calma: nós, comuns mortais, poderemos depois admirar o “clip de um minuto”, talvez com música de um rapper coreano, com que os competentes assessores resumirão a coisa mais logo. Isto também é o nosso triste estado. Lá longe o país vai-se derretendo sem ligar a nada disto: previsões económicas em queda, mais suspeitas em torno de contratos com o dedo de Paulo Portas, mais banqueiros investigados por lucros indevidos. Palpita-me que o nosso verdadeiro futuro está às portas do Palácio Foz: os feirantes que ali se manifestam sempre trabalham num campo destinado a entreter turistas. Aí sim, talvez ainda haja porvir.

Imagem recolhida em: http://www.rightposters.com

o estado social

Por Viriato Soromenho-Marques
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Encerra hoje, em Lisboa, uma conferência sobre a reforma do Estado. Já se sabe o que em português corrente isso significa: trata-se de perguntar onde é que o nosso débil "Estado social" pode ser (ainda mais) sangrado para se atingir o desiderato de reduzir quatro mil milhões de euros na despesa.

A hostilidade deste Governo contra as políticas públicas de proteção social assenta em duas premissas ideológicas, totalmente erradas.

A primeira consiste em acreditar que o Estado social nasceu de uma posição política de esquerda. A segunda assenta na ideia de que só em períodos de crescimento se poderá consentir no "luxo" de políticas sociais.

A história - essa dimensão do conhecimento esquecida por quem hoje manda na Europa - ensina-nos o contrário.

O Estado social moderno nasceu com o chanceler Bismarck, numa Alemanha recentemente unificada. Bismarck era profundamente hostil a tudo o que cheirasse a "socialismo", mas integrou a classe operária alemã no contrato social através da Lei dos Seguros de Saúde (1883), da Lei do Seguro de Acidentes de Trabalho (1884), da Lei do Seguro de Velhice e Invalidez (1889).

A segunda premissa também está errada. O impulso para o Estado social foi dado no meio das ruínas da Grande Depressão dos anos 30, com altos níveis de desemprego e a queda brutal do PIB. Foi em 1933 que Salazar lançou o Estatuto do Trabalho Nacional. Foi em 1935 que Roosevelt fez aprovar o Social Security Act. Foi em 1936 que, na França governada por Léon Blum, os trabalhadores tiveram férias pagas e na Suécia se efetuou o grande acordo entre patronato e sindicatos que ainda hoje explica como esse país se tornou um farol de civilização. Mas numa conferência inaugurada por Carlos Moedas seria demasiado pedir que os factos contassem para alguma coisa.

Imagem recolhida em: http://blog.ganderson.us

o crime de ser português

Por Baptista-Bastos
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Dizer-se, de Pedro Passos Coelho, que é muito corajoso traduz, unicamente, uma interpretação do homem e da sua circunstância: não traz mal ao mundo, e somente compromete o autor ou os autores da afirmação. Mas a "circunstância" é bem mais pesada e cruel do que a amável frase parece querer significar. Ortega discreteou, em lições proferidas em Lisboa, sobre os factos colaterais por ela obrigados, talvez para explicar a natureza das suas próprias opções. A coragem não é mensurável; porém, a coragem de quem é martirizado adquire uma dimensão mais significativa do que aquela dos dispensados de mau passadio.

Reconhecendo a experiência de uma sociedade como a nossa, em que os conflitos não param de surgir, em extensão cada vez mais fatídica, as vozes de protesto contra esse comportamento, dito "corajoso", assumem a configuração de requisitórios. À lista juntam-se, agora, os nomes de Adriano Moreira, de recato e sensatez reconhecidos, e de Alfredo José de Sousa, provedor de Justiça, cujas funções tem exercido com extrema prudência. O que leva homens como estes a resistir à tentação irresponsável do silêncio é, creio, o apelo à consciência moral. E a noção dos perigos iminentes corridos pela pátria, já coberta de vexames e desfeitas desde que a "coragem" se tornou num veículo de hipocrisia e de dissolvência.

A situação tornou-se insustentável. À dissipação do horizonte secular da esperança sucedeu-se um tempo sombrio, sem promessas nem sonhos. Estamos rodeados de economistas muito sábios, mas que têm reduzido o humano a gélidas equações, como se o poder fosse uma substância e não uma relação de identidade. A vida existe, com particulares qualidades éticas, para lá do discurso subjectivo do "mercado", que desleixa esses valores. Talvez seja oportuno gritar: "Não é só economia, estúpido!"

"Para viver, toda a Terra; para morrer, Portugal." Escreveu o padre António Vieira, moldando o País a uma demonstração de aflitos. Raramente fomos felizes, e a nossa literatura é um desfile de grandes angústias. Porém, sempre obtivemos uma certa independência, caracterizada por compromissos políticos e sociais. Desta vez, o ciclo é mais pesado e trágico. Constitui a expulsão de um todo: físico, espiritual, cultural e moral, como se poderosa amnésia se houvesse abatido nesses modos de entidade. Ser português, para estes senhores da "nova" ideologia, tornou-se num quase pecado que terá de ser punido com rude severidade. É isso que está em causa: a modificação radical do que somos, em nome de uma "normalização" que nos torne iguais aos outros e a todos. Um mundo tenebroso e negro, no qual a dança das culturas e das diversidades é absolutamente proibida. Um mundo dirigido por um poder distante e inacessível. Eis o que se nos propõe.

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15/01/13

é sempre a mesma cantiga

Por Daniel Oliveira

Governo propõe mais meia hora de trabalho por semana. UGT ameaça não assinar acordo de concertação social. Governo recua e altera lei laboral radicalmente.

Governo propõe alterações na Taxa Social Única, aumentando os descontos da segurança social dos trabalhadores e reduzindo os descontos dos empregadores, pondo os trabalhadores a financiar as empresas. Enormes manifestações em todo o País. Governo recua e aplica o maior aumento de impostos de que há memória.

Governo pede um relatório ao FMI sobre os cortes no Estado Social de que será a única fonte. Relatório político (e não técnico) propõe aumento do horário, redução de salário e despedimento de 20% a 30% dos funcionários públicos; aumento dos horários dos professores com dispensa de 30 a 50 mil docentes; aumento das propinas; redução drástica dos apoios ao desemprego e restantes prestações sociais; redução drástica das reformas e aumento da idade de reforma; aumento das taxas moderadoras e redução das comparticipações dos medicamentos. Reação generalizada contra as propostas avançadas, que se traduziriam num aumento brutal do desemprego, na destruição do pouco que resta do mercado interno, na miséria para a maioria dos portugueses e na demissão do Estado, em plena crise aguda, das suas principais funções sociais. Governo avisa que o "relatório técnico" de que é, na realidade, o verdadeiro autor, não será a sua bíblia.

A tática é sempre o mesmo: anunciar o intolerável para avançar com o inaceitável. Em nenhum momento há um verdadeiro processo de negociação. Em nenhum momento o governo realmente cede a alguma coisa. Em nenhum momento há a tentativa de encontrar soluções sensatas. Há um truque, sempre o mesmo truque.

Continua a cair quem quer. E já não parece que alguém caia. Este relatório - que não é um relatório, mas um programa de governo - técnico - que não é um técnico, pois está pejado de erros factuais - do FMI - que não é do FMI, mas uma mera transposição das intenções políticas de Pedro Passos Coelho - é uma fraude. Uma fraude para impor um ponto de vista inaceitável para o começo de um debate. Assim sendo, ele não deve ser visto pelos partidos da oposição e os parceiros sociais como um ponto de partida. O ponto de partida, nesta matéria, é a Constituição da República Portuguesa. Na sua letra e no seu espírito. É aí que está, escrito e com legitimidade democrática, o consenso nacional sobre o Estado Social. Querem uma revolução? Arranjem os aliados para mudar a lei fundamental do País.

Texto e imagem: http://arrastao.org/

presente mais que imperfeito com futuro condicional

Por José Vítor Malheiros
http://versaletes.blogspot.pt

“Me dijeron que en el reino del revés
nadie baila con los pies.
Que un ladrón es vigilante y otro es juez
y que dos y dos son tres.
“El Reino del Revés”
María Elena Walsh

Na política portuguesa o futuro deixou de existir. Claro que existirá quando lá chegarmos, mas deixou de existir como futuro, como lugar para onde nos podemos projectar, como um tempo que sucede ao presente, como um tempo para onde podemos fazer planos, sonhar e ter esperança. Estamos aprisionados no presente, no interior de um daqueles pisa-papéis de vidro maciço, com bolinhas coloridas a flutuar à nossa volta, de olhos bem abertos mas com a mesma impossibilidade de olhar para o dia de amanhã que temos de olhar o Big Bang nos olhos.

O horizonte do acontecimento para além do qual nada é sequer remotamente perscrutável é hoje à meia-noite. É todos os dias à meia-noite.

Claro que há coisas que imaginamos que vão acontecer, como uma decisão do Tribunal Constitucional sobre o Orçamento, mas nada do que imaginamos que irá acontecer tem a mínima relação com as leis da Física ou do Direito ou com os princípios da Política ou da Ética. Nada é minimamente previsível, nada decorre do que queremos hoje e nada se inscreve na racionalidade. Nada desse futuro do outro lado do espelho decorre da vontade do povo ou do interesse da maioria ou dos programas eleitorais e, por isso, todos os exercícios de previsão com base na lógica e na democracia se mostram inúteis. Tudo o que possamos imaginar é acto de fé, superstição, especulação metafísica ou ficção científica. Regressámos à Idade Média, ao tempo em que tudo podia acontecer porque não havia nenhum princípio científico a respeitar, onde tudo era ignorância e magia. O Tribunal Constitucional pode levar uma semana ou seis meses a falar que ninguém se surpreenderá. E quando o Tribunal Constitucional falar pode dizer tudo e o seu contrário, incluindo que o OE é inconstitucional mas que pode seguir o seu curso, a bem da Nação. O Direito não permite essa decisão? A Política não a aconselha? Talvez, mas a História sabe que ela já aconteceu e a História repete-se.

Nesse futuro imperscrutável o FMI pode dizer que a austeridade não funciona mas é para continuar porque sim. O PR pode dizer que a austeridade nos matará a todos mas é para continuar para evitar uma crise política. O PS pode dizer que esta austeridade é insuportável e que um dia vai fazer uma birra, olá se vai!...

Nesse futuro insondável e irracional nem a lei da gravitação universal permite fazer previsões. O poder político já não atrai, mas repele. O Governo não quer o poder e a oposição também não, o PR ainda menos. Ou talvez não, não se percebe. E o Parlamento só passa espectáculos de circo, com Luís Montenegro, esplendoroso no seu dólmen vermelho e dragonas douradas, gordo como uma rã que quer ser tão gorda como um boi, a rir de satisfação em cima do seu elefante, enquanto Assunção Esteves, alheada do mundo, linda com a sua sombrinha nova, faz piruetas sobre o arame.

Nesse mundo futuro é impossível perceber se os impostos vão deixar dinheiro suficiente às famílias para elas comerem e poderem continuar a pagar impostos ou se Vítor Gaspar é mesmo o escorpião da fábula e nos vai obrigar a beber até à última gota a curva de Laffer (não é Laughter?) desatando a rir no fim, quando desaparecer numa nuvem de fumo verde e todos percebermos enfim que ele é o Joker do Batman, o psicopata apaixonado por charadas.

Neste futuro imperscrutável há umas escassíssimas certezas, que qualquer cartomante de feira pode garantir: os off-shores vão continuar a mandar, o PSD e o CDS a obedecer, Seguro não saberá o que pensar e Relvas vai-se safar. Tudo o resto é nebuloso. Mas sabemos que os impostos que pagamos hoje não têm nada a ver com os serviços que o Estado fornece no futuro e que a formação que um jovem adquire hoje não lhe garante nada no futuro.

Nesse futuro insondável tudo será como no Reino del Revés de uma canção da minha infância, com a diferença de que viveremos lá. Ou, pelo menos, morreremos lá.

Tal como depois da Revolução Francesa o futuro era logo ali (“lundi matin”, na expressão luminosa de George Steiner), na Revolução Portuguesa neoliberal o futuro é “nunca mais”. No Reino del Revés onde estamos a entrar, o ministério da Saúde diz-nos para não adoecer para não gastarmos dinheiro, Vítor Gaspar corre de cassetete na mão atrás dos feirantes para que passem facturas enquanto enfia rolos de dinheiro nos bolsos dos banqueiros e accionistas do Banif, do BPN, do BCP, do BPI, de todos os bancos.

A única vantagem deste cenário é que, como o futuro não tem nada a ver com o presente, não há nenhuma razão para sermos bem-comportados e esperarmos uma recompensa pelos sacrifícios. O futuro já está decidido pelo Joker e o Joker faz sempre batota. Resta-nos, para não perder a dignidade, perder a paciência.

Imagem: http://wehavekaosinthegarden.wordpress.com/

mostre as facturas, que isto é um assalto!



Então é assim: continuando a agradecer-nos pelos seus caríssimos estudos, o ministro Gaspar decidiu (e quando decide, já se sabe, está decidido) mudar o sistema informático do comércio de forma a que menos e menos gente possa escapar ao fisco, esse monstro sagrado da economia nacional. Mas a coisa foi feita em cima do joelho, à pressa, que o ministro também tem as suas falhas, poucas, mas tem. Vai daí, muitos comerciantes não tiveram tempo para se preparar, tanto mais que o respectivo software está a ser difícil de obter. Que faz o ministro Gaspar, em agradecimento pelos seus caríssimos estudos? Adia a implementação do sistema? Não, que o ministro Gaspar não é desses, é melhor do que o outro, nunca se engana e muito menos tem dúvidas. O que o ministro Gaspar faz, recompensando-nos mais uma vez pelos seus caríssimos estudos, é atiçar os cães contra os comerciantes, tantos deles já com a corda na garganta (os comerciantes, não os cães).

Eu explico. Começa hoje, dia 15 de Janeiro do ano da desgraça de 2013, uma grande inspecção, por parte da Autoridade Tributária, aos estabelecimentos comerciais do País. São 100 inspectores que, quais abutres em busca de carniça podrida, andarão pelo país a espiolhar a facturação de, entre outros, restaurantes, hotéis, oficinas de automóveis, cabeleireiros e institutos de beleza. Uma beleza. Vai ser limpinho. As maquias que o Estado vai empochar, por via desta gigantesca caça à multa, não serão menosprezáveis, é mais um passo para que o défice se cumpra e as falências progridam. Tudo isto porque o ministro Gaspar nos quer agradecer pela sua caríssima educação que, como se sabe, nos tem valido de muito.

Por isso, nós é que lhe agradecemos. Obrigado. Muito obrigado.

14/01/13

"a constituição sou eu!"

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mário soares e os cobardes


Por Daniel Oliveira

Nunca votei em Mário Soares. Muitas vezes discordei dele, outras concordei. Muitas vezes o considerei um adversário, outras um aliado. Muitas vezes me surpreendeu positivamente, outras desiludiu-me. Sei dos ódios e das paixões que provoca. O que apenas quer dizer que não se limitou a passar pela vida e fez diferença. Para o mal e para o bem. Discordando e concordando com ele, respeito a sua história e a sua coragem.

Mário Soares foi hospitalizado. Esperemos, espero pelo menos eu, que não seja nada de grave.

Ao ler os comentários que pululam na Net perante à notícia da sua hospitalização tentei não me chocar em demasia. A Net não se limita a revelar o melhor e o pior da condição humana. A revelar coisas que nos parecem ser impensáveis. Ela amplifica, pela possibilidade do anonimato da opinião, os mais abjectos dos sentimentos. Na realidade, como sempre soubemos - dos bufos aos linchadores -, o anonimato sempre permitiu que os constrangimentos sociais e morais desaparecessem e a escória humana se exibisse sem pudor.

Um dos comentários mais habituais foi a crítica ao facto de Mário Soares ter sido hospitalizado no Hospital da Luz. Um hospital privado. Seria, escreveram vários, sinal de incoerência. Mas nem todos os que escreveram eram anónimos.José Manuel Fernandes, antigo diretor do "Público", escreveu no seu twitter: "O dr. Mário Soares não deveria ter ido para um hospital do SNS para dar o exemplo? É só para saber, nada mais."

Não vou aqui elaborar sobre o direito de qualquer cidadão se bater pelos serviços públicos e usar, se assim entender, serviços privados. Não é o momento. O que me choca, o que me deixa mesmo próximo do vómito, é alguém aproveitar um momento destes para fazer combate político. Quem aproveita a hospitalização de um homem para o combate político, quem aproveita a fragilidade física de um adversário para o atacar, tem apenas um nome: é um cobarde. E com cobardes não se debate. Desprezam-se apenas.

Texto e imagem: http://arrastao.org/

a pinta do comendador rangel


Vem nos mentideros de toda a parvónia: um empresário do Norte, Eduardo Rangel de seu nome, casou o filho em Maceió, no Brasil, e fez uma festa para mais de 1000 convidados. Até aqui, tudo bem. Sabe-se também que 200 dos convidados viajaram desde Lisboa e estiveram hospedados num hotel de luxo a expensas do anfitrião. Até aqui, tudo bem. Cada um gasta o dinheiro, desde que ganho honestamente, como quer e lhe apetece. O que já não me parece bem é que grande parte desses convidados seja gente com fortes ligações ao PSD e ao PS, a saber: Fernando Seara e Judite Sousa, Luís Filipe Menezes e o filho (deputado do PSD), Luís Montenegro (líder parlamentar do PSD), João Soares, Marques Mendes e Marcos Perestrello, entre outros. Segundo consta, o responsável pelos convites foi Luís Campos Ferreira, um dos deputados da moda. Do PSD. Esta estreita ligação entre o mundo empresarial e político cheira-me a esturro e tanta generosidade leva-me a desconfiar.

Eduardo Rangel, que foi feito comendador por Cavaco Silva, é, e passo a citar a Wikipédia, fundador do Grupo Rangel, "um dos líderes em serviços logísticos integrados em Portugal" oferecendo serviços e soluções globais em Portugal, Espanha, Angola e Brasil.

Que negócios mais vai ter o comendador Rangel, em estreita colaboração com os seus convivas? Perguntar não ofende.

a festa que vou fazer quando corrermos com passos & cia

Imagem roubada a: http://trespassaopassos.tumblr.com/

teodoro, não vás ao sonoro!






golpe de misericórdia

Imagem: http://henricartoon.blogs.sapo.pt/

porto amigo, porto d'abrigo





diga não às manipulações (políticas, que as fotográficas pode ser)




o filme da sua vida

 

Deite o DVD fora. Mande fumigar a casa. Purifique os neurónios. Feche a televisão. Não compre jornais. Vá para a rua. Revolte-se!

Imagem: http://wehavekaosinthegarden.wordpress.com/

desempregados, esses preguiçosos







Cá venho eu desancar mais uma vez o relatório do FMI. E isto porque vou sabendo, aos soluços como convém para não me dar o badagaio, mais algumas propostas que o governo, perdão, o FMI resolveu bolçar para os pacóvios cá do burgo. Os escrevinhadores de serviço, reputados técnicos, excelsos economistas, finos teóricos do empobrecimento de massas, consideram o subsídio de desemprego demasiado elevado, altíssimo, um escândalo, um roubo ao Estado, um convite à preguiça, e sugerem a sua redução em valor e em tempo de vigência.

Sabendo que o montante do subsídio se situa (neste momento, amanhã não se sabe) entre os 400 e os 1.200 euros, a partir deste mês sujeitos a descontos, é fácil perceber que é dinheiro mais do que suficiente para zarparmos para as Caraíbas umas semanitas para arejar e bronzear as enxúndias. É carcanhol que baste para comprar um Porshe, encomendar as refeições ao Gambrinus e, quiçá?, adquirir uma mansão de 10 assoalhadas na Quinta do Lago ou na da Marinha.

Em muitos casos não dará para alimentar a família, ai pois não, mas o que importa isso quando um mar de ensolaradas oportunidades se rasga diante de cada podricalho que, por incompetência decerto, foi posto na alheta por indecente e má figura, refugo sem préstimo, rebotalho a quem a experiência profissional só serviu para criar vícios e levantar a grimpa diante de patrões e chefes?

Pela mesma ordem de ideias, reduzam-se as pensões de reforma porque são um convite à velhice, eliminem-se as pensões de invalidez porque são um convite ao acidente, abata-se o SNS porque é um convite à doença. 

Acabe-se com o País e com esta afrontosa mania de se ser português. Até no Burkina Faso nos vão tratar melhor.

13/01/13

portugal estilhaçado

Deixem-me falar claro e grosso. Toda a gente - menos o núcleo duro do governo, a tríade constituída por Passos, Gaspar e Relvas - diz que o relatório do FMI é uma merda (por outras palavras, que eles são bem educados e eu não sou), que contém erros crassos e análises enviesadas porque dá jeito à tríade, e que é, no fundo, um tratado neoliberal-fascista encomendado pelo próprio governo. Ponto.

No entanto, os opinioneiros de serviço às televisões e aos jornais, independentemente de estarem contra o relatório ou de serem mais de esquerda ou mais de direita, não falam, pelo menos não com a acutilância devida, do essencial: dos negócios e negociatas sustentados ao longo de décadas para serventia das panelinhas partidárias com custos colossais para a Nação, todos nós. Nada se diz dos pareceres jurídicos encomendados a grandes sociedades de advogados e que custam milhares e milhares de euros ao Estado. Não se fala das frotas automóveis dos governantes, totalmente desproporcionadas tendo em conta a escassa riqueza do País. Não se acaba com as reformas antecipadas dos deputados (ah!, já me esquecia, é essa coisa dos direitos adquiridos, do contrato celebrado com o Estado e da confiança que o Estado deve merecer aos cidadãos - mas não a todos, não exageremos). Não se belisca a quantidade de motoristas, assessores, consultores, secretárias, especialistas e demais boys and girls do governo. Não se toca nas PPP's. Não se reduzem benefícios fiscais totalmente injustificados e injustos. Não se mexe nas Fundações e nos milhões que nos custam todos os anos (apesar do simulacro, hipócrita, de há uns meses, onde a principal intenção, nunca concretizada aliás, e ainda bem, era a de destruir obra culturalmente meritória, como é o caso da Fundação Paula Rego).

Desde que o governo tomou posse, não se tentou poupar em nada, a não ser em salários (não os deles), em pensões de reforma (não as deles), na Saúde e na Educação. Aquele anúncio inicial de que o governo passaria a viajar em turística não passou de mera propaganda para enganar papalvo. A vidinha dessa gente continua como dantes, com as mesmas alcavalas, as mesmas mordomias, os mesmos luxos e manias de sultanato a nadar em petrodólares. Aqui d'el-rei se alguém tentar cortar aí. O PSD e o CDS não o farão, são os partidos e os seus apaniguados e as suas clientelas que estariam em causa. O PS também não. Porque o PS faz parte, lembram-se?, do arco de governação e o socialismo há muito que foi metido na gaveta. Ainda por cima, o poleiro está-lhes cada vez mais próximo. Não podem desiludir os seus camaradas, compinchas, comparsas e os que, vendo chegado o afundamento do Titanic PSD, vão mudar de  navio e de timoneiro, nem que para isso tenham que suportar os enjoos da viagem).

Resta-nos o PCP, o BE e outros que nunca conseguiram ser eleitos. Em quem muitos não querem votar. Preferindo perpetuar no poder estas criaturas que têm arrasado a economia de Portugal. E, agora também, os deveres essenciais do Estado para com o seu povo. Depauperando os portugueses e, em cada vez mais casos, matando-os até, por falta de cuidados de saúde e de apoios sociais condignos. Os doentes não se tratam. Os velhos são votados ao abandono, à solidão e à miséria, porque uma reforma de 300 euros é uma despesa insustentável, imerecida. Os desempregados são atirados para debaixo das pontes. Os estudantes desistem, não podem pagar as propinas, os pais estão em situação precária, mas o governo sabe o que faz: gastámos muito dinheiro para formar jovens que, agora, saem para o estrangeiro sem que o País tivesse ganho fosse o que fosse com a sua educação, para quê persistir no erro? Todos sabemos que um povo ignorante é um povo dócil, facilmente refém dos mercados e da escravatura laboral.

Enquanto isso, muitos vão escapar entre os estilhaços. Nós sabemos quais são. Continuaremos a escolhê-los para nos sangrar.

até no vaticano, Senhor?

Há dias, na Praça de São Pedro. Não sei qual foi o motivo do protesto, só consegui saber que foi contra o Papa. Até no Vaticano, Senhor? Porque nos dais tanta dor, porque padecemos assim?

comam chocolates

Por Ana Cristina Leonardo
http://wwwmeditacaonapastelaria.blogspot.pt/

O povo habituara-se a ostras. Com a crise, as ostras estavam pela hora da morte e todas as diligências esbarravam na inflexibilidade de Hollande: “Impossível baixar preço moluscos. Disponíveis brioches baratos”. O MNE declinou a oferta. Em telegrama oficial, citou Álvaro Santos Pereira e a qualidade superior das nossas bolas-de-berlim. Os franceses, letrados e mulherengos, confundiram o Álvaro com Álvaro e ficaram-se por respeito a Ofélia. Foi quando começou a chover. 

Assunção, a caminho do Conselho de Ministros, agradeceu a Deus e abriu o guarda-chuva. À chegada cruzou-se com Relvas, vindo do Rio onde passara o fim do ano à cata do conhecimento permanente. “Bela gravata!”, comentou ao passar o engripado Paulo Macedo. Gaspar já lá estava, jogando batalha naval numa folha de Excel, longe do olhar de Portas não fosse este susceptibilizar-se e convocar uma conferência de imprensa de apoio ao governo. Pedro pousou o livro sobre Salazar e falou na sua voz de barítono: “Se em 1935 beber vinho era dar de comer a um milhão de portugueses, em 2013 um só copo de leite há-de dar mais de 25% daquilo que precisamos por dia de cálcio”. 

Mas a frase era fraca, nem sequer rimava. Um assessor propôs que contratassem Graça Moura. Ao lembraram-lhe que o poeta os mandara assoar ao guardanapo, o assessor suicidou-se politicamente. Com menos um à mesa, a dieta nacional era adiada para depois do almoço. 

Como entrada, uma das ostrinhas de Alice recitou Bocage: “Estando enfermo um poeta/ Foi visitá-lo um doutor/ E em rigorosa dieta/ Logo, logo o mandou pôr/ ‘Regule-se, coma pouco’/ Diz-lhe o médico eminente/ ‘Ai senhor! (acode o louco)/ Por isso é que estou doente.” 
Gabaram-lhe o wit e depois comeram-na.

já tenho a cabeça a andar à roda por nada pescar da poda

Ainda há acordo ortográfico? Deverei escrever acção ou ação? Hão-de ou hão de? Hão de ter muitos amigos, hão-de.





Imagens recolhidas em: http://wwwmeditacaonapastelaria.blogspot.pt/