portugal estilhaçado

Deixem-me falar claro e grosso. Toda a gente - menos o núcleo duro do governo, a tríade constituída por Passos, Gaspar e Relvas - diz que o relatório do FMI é uma merda (por outras palavras, que eles são bem educados e eu não sou), que contém erros crassos e análises enviesadas porque dá jeito à tríade, e que é, no fundo, um tratado neoliberal-fascista encomendado pelo próprio governo. Ponto.

No entanto, os opinioneiros de serviço às televisões e aos jornais, independentemente de estarem contra o relatório ou de serem mais de esquerda ou mais de direita, não falam, pelo menos não com a acutilância devida, do essencial: dos negócios e negociatas sustentados ao longo de décadas para serventia das panelinhas partidárias com custos colossais para a Nação, todos nós. Nada se diz dos pareceres jurídicos encomendados a grandes sociedades de advogados e que custam milhares e milhares de euros ao Estado. Não se fala das frotas automóveis dos governantes, totalmente desproporcionadas tendo em conta a escassa riqueza do País. Não se acaba com as reformas antecipadas dos deputados (ah!, já me esquecia, é essa coisa dos direitos adquiridos, do contrato celebrado com o Estado e da confiança que o Estado deve merecer aos cidadãos - mas não a todos, não exageremos). Não se belisca a quantidade de motoristas, assessores, consultores, secretárias, especialistas e demais boys and girls do governo. Não se toca nas PPP's. Não se reduzem benefícios fiscais totalmente injustificados e injustos. Não se mexe nas Fundações e nos milhões que nos custam todos os anos (apesar do simulacro, hipócrita, de há uns meses, onde a principal intenção, nunca concretizada aliás, e ainda bem, era a de destruir obra culturalmente meritória, como é o caso da Fundação Paula Rego).

Desde que o governo tomou posse, não se tentou poupar em nada, a não ser em salários (não os deles), em pensões de reforma (não as deles), na Saúde e na Educação. Aquele anúncio inicial de que o governo passaria a viajar em turística não passou de mera propaganda para enganar papalvo. A vidinha dessa gente continua como dantes, com as mesmas alcavalas, as mesmas mordomias, os mesmos luxos e manias de sultanato a nadar em petrodólares. Aqui d'el-rei se alguém tentar cortar aí. O PSD e o CDS não o farão, são os partidos e os seus apaniguados e as suas clientelas que estariam em causa. O PS também não. Porque o PS faz parte, lembram-se?, do arco de governação e o socialismo há muito que foi metido na gaveta. Ainda por cima, o poleiro está-lhes cada vez mais próximo. Não podem desiludir os seus camaradas, compinchas, comparsas e os que, vendo chegado o afundamento do Titanic PSD, vão mudar de  navio e de timoneiro, nem que para isso tenham que suportar os enjoos da viagem).

Resta-nos o PCP, o BE e outros que nunca conseguiram ser eleitos. Em quem muitos não querem votar. Preferindo perpetuar no poder estas criaturas que têm arrasado a economia de Portugal. E, agora também, os deveres essenciais do Estado para com o seu povo. Depauperando os portugueses e, em cada vez mais casos, matando-os até, por falta de cuidados de saúde e de apoios sociais condignos. Os doentes não se tratam. Os velhos são votados ao abandono, à solidão e à miséria, porque uma reforma de 300 euros é uma despesa insustentável, imerecida. Os desempregados são atirados para debaixo das pontes. Os estudantes desistem, não podem pagar as propinas, os pais estão em situação precária, mas o governo sabe o que faz: gastámos muito dinheiro para formar jovens que, agora, saem para o estrangeiro sem que o País tivesse ganho fosse o que fosse com a sua educação, para quê persistir no erro? Todos sabemos que um povo ignorante é um povo dócil, facilmente refém dos mercados e da escravatura laboral.

Enquanto isso, muitos vão escapar entre os estilhaços. Nós sabemos quais são. Continuaremos a escolhê-los para nos sangrar.

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