22/11/14

a imagem do dia

cabrita, coelho e o grande detido do dia


Foi Felícia Cabrita, a ilustre biógrafa de Pedro Passos Coelho e colaboradora de O Sol, a dar em primeiro lugar a notícia da detenção de Sócrates.

E o Correio da Manhã, às tantas da matina, lá estava no aeroporto a filmar a viatura onde Sócrates foi levado para o cadafalso, perdão, calabouço.

As televisões têm estaminé montado à porta de José Sócrates, na Rua Braancamp, e passam com desusado zelo excertos onde António Costa, ou Ferro Rodrigues ou outros não renegam, ao contrário do ideal líder do PS António José Seguro, a chamada herança socrática.

Sócrates está a ser crucificado. E com ele todo o PS, para gáudio e proveito das gentes do PSD.

Já agora, deixem-me acrescentar a estranheza que me causa o facto do caso Casa Pia, que pretendia em grande parte - e, diria até, primordialmente - atingir altas figuras do PS, ter sido "noticiado" também, e em primeira mão como agora, por Felícia Cabrita.

Tudo isto me cheira a cabrada. Sem ofensa para a Felícia, ilustre biógrafa de Pedro Passos Coelho, justiceira implacável, nome maior da imprensa pátria. 

Sem ofensa.

a justiça a que temos direito


Por Clara Ferreira Alves
http://expresso.sapo.pt/

A Justiça é antes de mais um código e um processo na sua fase de aplicação. Ou seja, obediência cega, essa sim cega, a um conjunto de regras que protegem os cidadãos da arbitrariedade. Do abuso de poder. Do uso excessivo da força. Essas regras têm, no seu nó central, uma ética. Toda e qualquer violação dessa ética é uma violação da Justiça. E uma negação dos princípios do Direito e da ordem jurídica que nos defendem. 

Num caso de tanta gravidade como este, o da suspeita de crimes graves e detenção de um ex-primeiro-ministro do Partido Socialista, verifico imediatamente que o processo foi grosseiramente violado. Praticou-se, já, o linchamento público. Como? 

1) Detendo o suspeito numa operação de coboiada cinemática, parecida com as de Carlos Cruz e Duarte Lima, a uma hora noturna e tardia, num aeroporto, quando não havia suspeita de fuga, pelo contrário. O suspeito chegava a Portugal. Porque não convocá-lo durante o dia para interrogatório ou levá-lo de casa para detenção? 

2) Convidou-se uma cadeia de televisão a filmar o acontecimento. Inacreditável. 

3) Deram-se elementos que, a serem verdadeiros, deviam constar em segredo de Justiça. Deram-se a dois jornais sensacionalistas, o "Correio de Manhã" e o "Sol", que nada fizeram para apurar o que quer que seja. Nem tal trabalho judicial lhes competia. Ou seja, a Justiça cometeu o crime de violação do segredo de Justiça ou pior, de manipulação do caso, que posso legitimamente suspeitar ser manipulação política dadas as simpatias dos ditos jornais pelo regime no poder. Suspeito, apenas. Tenho esse direito. 

4) Leio, pela mão da jornalista Felícia Cabrita, no site do "Sol", pouco passava da hora da detenção, que Sócrates (entre outros crimes graves) acumulou 20 milhões de euros ilícitos enquanto era primeiro-ministro. Alta corrupção no cargo. Milhões colocados numa conta secreta na Suíça. Uma acusação brutal que é dada como certa. Descrita como transitada em julgado. Base factual? Fontes? Cuidado no balanço das fontes, argumentos e contra-argumentos? Enunciado mínimo dos cuidados deontológicos de checking e fact-checking? Nada. Apenas "o Sol apurou junto de investigadores". O "Sol" não tem editores. Tem denúncias. Violações de segredo de Justiça. Certezas. E comenta a notícia chamando "trituradora" de dinheiro aos bolsos de Sócrates. Inacreditável. 

5) Verificamos apenas, num estilo canhestro a que a biógrafa de Passos Coelho nos habituou (caso Casa Pia, entre outros) que a notícia sai como confirmada e sustentada. Se o Watergate tivesse sido assim conduzido, Nixon teria ido preso antes de se saber se era culpado ou inocente. No jornalismo, como na justiça, há um processo e uma ética. Não neste jornalismo. 

6) Neste momento, não sei nem posso saber se Sócrates é inocente ou culpado. Até prova em contrário é inocente. In dubio pro reo. A base de todo o Direito Penal. 

7) Espero pelo processo e exijo, como cidadã, que seja cumprido à risca. Não foi, até agora. Nem neste caso nem noutros. Isto assusta-me. Como me assustou no caso Casa Pia. Esta Justiça de terceiro mundo aterroriza-me. Isto não acontece num país civilizado com jornais civilizados. Isto levanta-me suspeitas legítimas sobre o processo e a Justiça, e neste caso, dada a gravidade e ataque ao regime que ele representa, a Justiça ou age perfeitamente ou não é Justiça.

8) Verifico a coincidência temporal com o Congresso do PS. Verifico apenas. Não suspeito. Aponto. E recordo que há pouco tempo um rumor semelhante, detenção no aeroporto à chegada de Paris, correu numa festa de embaixada onde eu estava presente. Uma história igual. Por alturas da suspeita de envolvimento de José Sócrates no caso Monte Branco. Aponto a coincidência. Há um comunicado da Procuradoria a negar a ligação deste caso ao caso Monte Branco. A Justiça desmente as suas violações do segredo de Justiça. Aponto. 

9) E não, repito, não gosto de José Sócrates. Nem desgosto. Sou indiferente à personagem e, penso, a personagem não tem por mim a menor simpatia depois da entrevista que lhe fiz no Expresso há um ano. Não nos cumprimentamos. Não sou amiga nem admiradora. É bizarro ter de fazer este ponto deslocado e sentimental mas sei donde e como partem as acusações de "socratismo" em Portugal. 

10) As minhas dúvidas são as de uma cidadã que leu com atenção os livros de Direito. E que, por isso mesmo, acha que a única coisa que a Justiça tem a fazer é dar uma conferência de imprensa onde todos, jornalistas, possamos estar presentes e fazer as perguntas em vez de deixar escorregar acusações não provadas para o "Correio da Manhã" e o "Sol". E quejandos. Não confio nestes tabloides para me informarem. Exijo uma conferência de imprensa. Tenho esse direito. Vivo num Estado de Direito. 

11) Há em Portugal bom jornalismo. Compete-lhe impedir que, mais uma vez, as nossas liberdades sejam atropeladas pelo mau jornalismo e a manipulação política. 

12) Vou seguir este processo com atenção. Muita. Ou ele é perfeito, repito, ou é a Justiça que se afundará definitivamente no justicialismo. Na vingança. No abuso de poder. Na proteção própria. O teste é maior para a Justiça porque é o teste do regime democrático. E este é mais importante que os crimes atribuídos a quem quer que seja. Não quero que um dia, como no poema falsamente atribuído a Brecht, venham por mim e não haja ninguém para falar por mim. A minha liberdade, a liberdade dos portugueses, é mais importante que o descrédito da Justiça. A Justiça reforma-se. A liberdade perde-se. E com ela a democracia.

o circo das altas (es)feras

Ai ele é isso? Então só vão presas figuras, figurinhas e figurões do PSD? Vamos subir a parada e prender Sócrates, o povoléu vai adorar e nós vamos ficar a ganhar. Porque agora é que vai ser, agora é que o BPN, os submarinos, Rosalina Machado, a Tecnoforma, os Vistos Gold - tam, tam, tam, tam! - vão cair no rol dos esquecidos.

O povo quer circo, atire-se Sócrates aos leões. E mesmo que Sócrates seja declarado inocente, a gente sabe como é, nas mentes comezinhas será culpado para sempre.

Que jogada de mestre! Tiro-lhes, senhores, o meu chapéu.

18/11/14

vistos cold



isto é o da joana

Cada governo tem tido o seu peluche, a sua coqueluche, a sua mascote artística. A de Pedro é a Joana. Orgulho pátrio a levar longe o nome de Portugal. Com tachos, garrafas, tampões, rendas e bordados, tudo em grande, à grande, grande obra, grande artista. Sempre a obrar, a obrar, a obrar.


para comprar caramelos


Dizem por aí, as luminárias do costume, que apesar das ligações perigosas que associam Miguel Macedo à maior parte dos implicados no caso dos Vistos Gold, essa venda airosa da cidadania não portuguesa mas europeia, que Portugal é apenas uma porta dos fundos de oportuna serventia, o ex-ministro é tão inocente como um petiz de cueiros.

Como qualquer pessoa não é culpada de nada até prova em contrário, vou acreditar que é verdade, que Macedo não soube escolher nem os amigos nem os conhecidos, que é mau avaliador do carácter de quem escolhe para rodeá-lo na vida e nos negócios, enfim, que é um ingénuo, uma alma crédula, um ser bondoso que não enxerga as intenções malignas de quem quer que seja, desde que esse quem quer que seja não faça parte da vil oposição ao seu partido.

Há no entanto um pormenor, um pequeno pormenor noticiado ontem pela RTP, que me dá que pensar. E por isso pergunto, porque perguntar não ofende e muito menos dá direito a processo penal: por que raio é que Miguel Macedo foi a Ayamonte conferenciar com um dos agora detidos, ao que foi dito - alto e bom som - para não ser apanhado nas escutas?

A Tecnoforma, os submarinos, o BPN e tantos outros casos estão a desaparecer das páginas dos jornais e a cair no esquecimento. O mesmo vai acontecer com esta Operação Labirinto. E a pergunta, claro, ficará sem resposta.

Vamos assumir que Macedo foi a Ayamonte, tão simplesmente, para comprar caramelos na melhor das companhias. E dele restará a memória, para os vindouros, de um homem recto, que teve o nobre gesto de se demitir, de se sacrificar sem culpas no cartório nem pecadilhos a pesar-lhe na consciência. Em nome da dignidade do Estado.

Pobre Estado, a que estado chegou.