25/06/14

encontro de irmãos

Hugo Correia/Reuters/http://www.jn.pt/
Qual soba ajoelhado perante o amo colonizador, o nosso venerando presidente acolheu por cá o da Alemanha. Entre salamaleques, vénias e genuflexões - esquecendo-se, talvez, que quem ajoelha tem sempre que rezar -, lá foi lambendo as botas do compatriota de Merkel, lá foi dizendo, entre outras pepitas de ouro velho, que Portugal aprendeu a lição dos últimos anos, ou seja, que a menina-dos-cinco-olhos com que a Alemanha, entre outros, nos tem flagelado, tem produzido resultados, feridos no nosso orgulho, e na nossa bolsa, não voltaremos, nunca mais!, a viver acima das nossas possibilidades. Também ficámos a saber que, sempre que o sistema financeiro colapsar, lá estaremos na linha da frente, com os nossos ordenados, as nossas pensões, os nossos impostos, prontos a compensar as barracadas dos banqueiros e dos seus sucedâneos bolsistas. Também aprendemos que devemos ter cuidado com a cruz que fazemos nos nossos boletins de voto, de vez em quando temos uma reacção vagal que coloca, no poleiro e nunca no pelourinho, quem - definitivamente - não merece.

24/06/14

quando não havia televisão, nem computador, nem tablets, nem playstation, nem telemóvel

Não sou apologista dos tempos idos. A pobreza não é alegria, os pobretes não são alegretes. Não ter brinquedos, uma prenda pelo Natal, no aniversário, não dão gozo a nenhum ganapo que se preze de o ser. Mas preocupam-me os pais que, nos dias de hoje, trabalham como burros de carga para comprar aos seus rebentos o último jogo electrónico, o último berro da tecnologia, com que os petizes queimam neurónios horas a fio, sem contacto com a Natureza ou sequer com a realidade. Serão mais espertos do que nós, os miúdos de antigamente? Talvez, aquelas maquinetas até serão capazes de lhes desenvolver capacidades que, na nossa meninice, não tivemos possibilidade de exercitar. Mas não os torna mais humanos.

Não sou partidário dos mentirosos que nos dizem que andámos a gastar mais do que ganhámos. Em Portugal sempre se ganhou mal. Ninguém deve viver por viver, para garantir tão-só a sua subsistência, quantas vezes nem isso. Mas o consumo excessivo, a mania das marcas, o apelo pelos gadgets, a atracção pelo fútil, pelo inútil, transformam-nos em seres pueris, superficiais, em certos casos ostentadores de luxos com que nos endividamos, e egoístas, e ególatras, incapazes de um pensamento mais profundo, de um acto de generosidade que ultrapasse a mera caridade apaziguadora de consciências.

A economia só cresce através do consumo, é o que nos dizem da direita à esquerda, é preciso aumentar mais e mais e mais a produção de bens, mesmo que supérfluos, mas é isto mesmo que conduz ao tresloucado aumento da poluição, ao capitalismo selvagem, à alienação, à massificação, à criação de robôs em vez de meninos, ao gosto de ter e não de ser, apenas ser.

Talvez um dia, quem sabe?, saberemos resolver esta contradição. Até lá, esperaremos que a crise passe. Mais do que a económica, a de valores.

a urgência da justiça

Samuel Mendonça/http://folhadodomingo.pt/
Por José Vítor Malheiros
http://www.publico.pt/

Há cerca de um ano, no final de um debate organizado pela rede Economia com Futuro sobre a situação do país, que reuniu duas ou três dezenas de economistas nas instalações do ISEG, em Lisboa, Manuela Silva começou a ler as conclusões da reunião. A dado momento, quando enumerava uma série de objectivos que tinham emanado das intervenções e das discussões, lê "Redução da pobreza" e estaca na leitura. Franze o sobrolho, olha o papel que tem na mão com surpresa e diz "Isto aqui está mal. É preciso corrigir isto. Nós não queremos reduzir a pobreza. Nós queremos ERRADICAR a pobreza."

Foi um momento passageiro, de apenas uns segundos, nem sequer um incidente, uma mera errata sem história numa lista de conclusões que talvez até tenha passado despercebida a alguns dos presentes, mas penso que este episódio ficará gravado na minha memória para sempre, pois ele representa o exemplo da exigência ética e da generosidade com que Manuela Silva encara a sua actividade cidadã e representa, ao mesmo tempo, o melhor que a esquerda tem para oferecer.

Este episódio é para mim o perfeito simétrico da única conversa que tive até hoje com Isabel Jonet, presidente do Banco Alimentar Contra a Fome, onde, em resposta a algumas ideias que eu lhe expunha, ela me disse às tantas, um tudo-nada irritada: "Mas acha que é possível acabar com a pobreza? Não é possível! Sempre houve pobres e sempre haverá. A única coisa que podemos fazer é atenuar um bocado essa pobreza, mais nada."

Se perguntarmos a alguém se é a favor ou contra a pobreza, é praticamente certo que essa pessoa dirá que é contra, seja qual for a sua ideologia, as suas preferências partidárias, a sua instrução, a sua riqueza pessoal e a sua posição social. Mas é fundamental em termos práticos, em termos políticos, conhecer o grau dessa recusa. Há pessoas que acham que se deve tentar reduzir a miséria extrema mas que, a partir daí, cabe às próprias pessoas mergulhadas na pobreza sair dela pelos seus próprios meios, de forma a não criar entre os assistidos fenómenos de "dependência" da ajuda. Há pessoas que acham que o Estado deve ter políticas activas de combate à pobreza, devotando-lhe alguns recursos, mas que fundamentalmente cabe ao desenvolvimento económico, ao disseminar naturalmente pela sociedade a riqueza produzida, pôr fim ao flagelo. E há pessoas que acham que o combate à pobreza, à exclusão e à desigualdade deve ser um elemento central de todas as políticas, porque consideram inaceitável viver numa sociedade onde uma criança passa fome e onde o destino dessa criança é escrito no momento em que nasce, condenando-a à pobreza, à ignorância e à doença apenas por ter nascido naquele bairro e naquela família.

Há pessoas que acham que devemos reduzir a pobreza e há outras que querem erradicar a pobreza. E há pessoas que querem erradicar a pobreza nos próximos cem anos e outras que querem erradicar a pobreza o mais depressa possível, nos próximos anos, já, porque acham que não podemos dizer a uma mãe que a sua filha vai ser pobre e que nunca vai cumprir os seus sonhos mas que a sua neta talvez já não seja.

Há pessoas que acham que devemos resgatar algumas pessoas da pobreza e há outras pessoas que acham que não podemos deixar nem uma única pessoa para trás, porque essa pessoa tem a mesma dignidade, os mesmos direitos e os mesmos sonhos que os nossos filhos e os nossos pais. Somos todos contra a pobreza? Sim. Mas há uns que são mais do que os outros. É uma questão de grau? É. É por isso que "JÁ!" é uma palavra tão importante nos combates da esquerda. Os direitos não podem esperar.

Não levar o combate à pobreza até ao fim significa que aceitamos que milhares de pessoas, milhares de crianças, não sejam o que podem ser, e isso é intolerável porque é aceitar que os direitos só existem para quem tem dinheiro. É dizer que o apartheid é aceitável.

Vem isto a propósito da disputa da liderança do PS onde ambos os contendores se reclamam da social-democracia (como aliás o próprio Passos Coelho y sus muchachos), demonstrando que o rótulo, de tão usado por tanta gente de tão má reputação, não significa hoje absolutamente nada. Mas os próprios objectivos "concretos" definidos pelos políticos em geral e, no caso vertente, pelos rivais do PS, significam muito pouco se não conhecermos o seu grau de urgência. Ser social-democrata deveria ser regular os mercados, instituir um sistema de economia mista, com forte intervenção do Estado e com um papel central da contratação colectiva. Costa vai fazer isso? Já? Ser social-democrata é pôr em prática políticas de erradicação da pobreza e de redistribuição da riqueza. Costa vai fazer isso? Já?

23/06/14

a derrocada europeia


Espanha já foi. Inglaterra também. Grécia e Itália estão periclitantes. Portugal está a um passo da viagem de volta. De tudo isto, lá mais para a frente, sobrará a Alemanha, sempre a Alemanha, a revigorada Alemanha, a rica Alemanha do Quarto Reich.

Que ganhe o Brasil, o México, a Argentina, a Costa Rica, a Nigéria. Não quero ver mais Merkel aos pulinhos de alegria.

dissecação



E este desenho, já é aceitável? Não é a bandeira que lá está, será um português, desempregado, desesperado, depenado? E os abutres e os lobos e as hienas, quem são? Os carnívoros, que se sustentam da nossa carne? Os mamíferos, que se alimentam na teta do Estado? Os aldrabões, os vilões, os poltrões? Os sacanas e as suas manas? Os sujos e os sabujos? Talvez larápios, corruptos, sanguessugas, chupistas, egoístas, oportunistas, salafrários, milionários, tolos e parolos. Porque pobreza haverá sempre. Porque o dinheiro é de quem o amealha. Porque a terra não é de quem a trabalha. Porque há os empreendedores e os resignados. Os gestores e os empregados. Os matreiros e os calaceiros. Os chicos-espertos e os tansos. Os aguerridos e os mansos. Os filhos de boas famílias e as famílias sem bons filhos. Os filhos da puta e os filhos que não dão luta. Os fura-vidas e as vidas furadas. A fina-flor e o restolho. A nata e o entulho. O bagulho e o esbulho. Os que vivem acima das suas possibilidades e os que não têm possibilidades de viver. Os vencedores e os derrotados. Os lúcidos e os alienados. Os sortudos e os azarados. Os anafados e os esfomeados.

Os degolados.