06/02/14

há lá melhor língua do que a nossa!









carreguemos a cruz rodeados de belzebus

Jerónimo Bosch
Depois de dizer que a questão dos quadros de Miró se tinha transformado numa arma de arremesso político, disse Cavaco que nada dizia sobre o assunto. O negro Montenegro veio acusar a oposição, a propósito, de política baixa, ele que no parlamento é anão. O desemprego baixa, dizem as camarilhas instaladas no poder e na imprensa, não cuidando de nos informar, isso sim, se os trabalhadores no activo têm aumentado ou diminuído, se os que pagam IRS são mais ou são menos, quantos é que são precários, quantos recebem o salário mínimo, quantos emigraram, quantos estão a fazer estágios à borla, quantos desistiram de procurar emprego por já serem "velhos demais". Passos recusa-se a renegociar a dívida, porque o povo ainda não foi suficientemente punido pelos seus desvarios consumistas. Miguel Macedo recusa-se a ceder, aos deputados, o relatório da manifestação dos polícias. Crato diz que Portugal tem uma oposição sindical de natureza soviética. Duarte Lima, presumível assassino de Rosalina, é em Portugal presumível inocente até prova em contrário, prova que nunca virá. Os senhores da Bragaparques, presumíveis corruptores, exigem 350 milhões de euros à Câmara Municipal de Lisboa.

É muita intrujice, muita trafulhice e muita canalhice para um dia só. 

05/02/14

para pouca saúde mais vale nenhuma, não é doutor macedo?

Não viva em Chaves. Nem em Bragança. Nem em Macedo de Cavaleiros ou Freixo-de-Espada-à-Cinta. Mas também não more no Porto, nem em Coimbra, ou Faro, ou Évora. Venha para Lisboa. Por enquanto, é cá que está mais seguro. Por enquanto. Se sofrer um traumatismo, se tiver uma síncope, se estiver quase, quase a bater a bota, o mais natural é batê-la de vez porque nem em Chaves, nem em Bragança, nem no Porto ou Coimbra e muito menos em Freixo-de-Espada-à-Cinta terá cabidela num hospital. Terá que vir para Lisboa, onde chegará se calhar já cadáver ou, pelo menos, a um passo do traque-mestre, de estirar o pernil.

Oiço muitos comentadores gabar Macedo, o ministro dos cortes na Saúde, mas cuidadosos, dizem eles, cirúrgicos, como bisturi habilmente manejado pelas mãos do homem que já foi do fisco, que sabe de dinheiros como ninguém e o dinheiro, como toda a gente sabe, e se não sabe devia sabê-lo, dá saúde, dá vida a um morto, ele, não o morto mas Macedo, é o homem certo no lugar certo, providencial como o outro, o doutor de Santa Comba.

Entrementes, há gente gravemente ferida que tem que viajar 400 quilómetros para ser socorrida, há outros com ataques cardíacos a quem a ambulância não chega ou chega tarde demais, há hospitais cujos serviços pioram de dia para dia por falta de pessoal ou de recursos, há idosos que deixaram de ter carcanhol para os medicamentos e há doentes que, sem pilim para as taxas moderadoras, que de moderadas nada têm, fazem gazeta ao médico.

Resta-nos um consolo: por este andar, a esperança média de vida vai baixar. Qualquer dia, vai poder reformar-se aos 63 ou coisa que o valha. Por mais que os galifões sacristas queiram a reforma a título póstumo, em jeito de homenagem ao querido defunto, um cidadão exemplar agora e na hora da sua morte. 

Ámen. À merda.

04/02/14

admirável mundo louco, diria o aldous se fosse vivo

vá à mercearia do alex!

Fernando Fontes/http://www.dinheirovivo.pt/
O Estado não é, como se costuma dizer, "pessoa de bem". Nunca o foi, agora ainda menos. O Estado comporta-se como um papão, que ameaça quem deve 5 euros ao fisco. O Estado actua como um ladrão, que rouba as reformas de quem as pagou durante uma vida de trabalho. O Estado despede, o Estado esmifra, o Estado expulsa do País o sangue novo necessário à sua renovação, o Estado corta na Saúde, na Educação, nos apoios aos desempregados e aos doentes.

No entanto, o Estado nem sempre é má criatura. E, quando digo Estado, refiro-me ao governo que toma conta do Estado, para o tornar mais pequeno, dizem-nos, para o tornar melhor, matraqueiam-nos aos ouvidos até nós acreditarmos.

Veja-se este exemplo, só agora tornado público e é fácil perceber porquê: quem foi bafejado, em 2012, com mais benefícios fiscais, para além da Santa Casa da Misericórdia de Santana Lopes, putativo candidato à presidência da República, foi a sociedade de Alexandre Soares dos Santos, um dos homens mais ricos de Portugal. Sim. Leu bem. Essa mesmo, a que tem a sede fiscal na Holanda para pagar menos impostos.

Entre bancos e empresas que, diga-se de passagem, pouco ou nada contribuem para o progresso científico ou tecnológico ou agrícola ou industrial ou cultural do País, é para eles que vão os nossos colossais aumentos de impostos e os cortes à má fila que nos impõem. É para isto que é preciso baixar salários, cortar reformas, cortar subsídios, exagerar no confisco, extorquir, expropriar, matar se preciso for.

Continue a gastar na mercearia do Alex. Faça o bem sem olhar a quem.

Mais em:
http://www.publico.pt/economia/noticia/beneficios-fiscais-as-empresas-em-2012-diminuiram-em-350-milhoes-de-euros-1621445

03/02/14

o maravilhoso mundo novo

Por Tomás Vasques
http://www.ionline.pt/

É cada vez mais evidente que vivemos num mundo totalmente - totalitariamente - comandado pelos poderosos, pelos donos do dinheiro. Um mundo em que, mesmo na Europa, um palco privilegiado de tantas lutas e revoluções pela Liberdade, conceitos como Democracia, Igualdade, Fraternidade ou Solidariedade estão a ser atirados para o sótão das velharias ou para museus de "arte antiga".

O relatório da organização humanitária Oxfam, divulgado uns dias antes do conclave de Davos - esse santuário dos "ricaços da neve", para onde, anualmente, o "poder político" se encaminha, como cordeiro, a esmolar atenções e investimentos - dá-nos uma nítida fotografia da tragédia. Os números são tão devastadores como qualquer cenário das piores atrocidades de guerra: oitenta e cinco pessoas detém uma riqueza igual à da metade mais pobre da população mundial - 3,5 mil milhões de pessoas; 1% das pessoas com maior património detém o equivalente a 65 vezes a riqueza da metade mais pobre da população mundial. Na Europa, o património das dez pessoas mais ricas é superior ao total das medidas de estímulo à economia aplicadas entre 2008 e 2010. Esta concentração da riqueza nas mãos de uns quantos não parou de aumentar nas últimas três décadas. E vai continuar, inevitavelmente.

É para encher ainda mais este mealheiro dos "mercados" que os Estados têm de gastar menos em saúde, educação e segurança social e sugar com impostos e reduções de salários e pensões de reforma quem trabalha ou quem passou a vida a trabalhar. Tudo em nome da "ordem natural das coisas". E, se nos portamos mal, "eles" ameaçam-nos com o aumento dos juros da dívida, com mais austeridade, com maior pobreza e muitos outros sacrifícios.

Este "maravilhoso mundo novo", comandado pelos "mercados", com a cumplicidade de governos "soberanos", tem suporte ideológico, entre nós, nos dois partidos da coligação que nos governam, numa dúzia de blogues alimentados pelo ressabiamento "anti- -socialista" de uns quantos "iluminados" neoliberais e pelas "juventudes" partidárias do CDS-PP e do PSD. Já não há vergonha. Dois exemplos: os "jovens" do partido de Paulo Portas propõem a redução dos anos de ensino obrigatório. Para eles não faz sentido que o Estado "gaste tanto dinheiro" em educação com gente que, para ganhar quatrocentos ou quinhentos euros por mês, saber ler, escrever e contar é suficiente. Por sua vez, os "jovens" do PSD querem referendar os direitos das pessoas, sobretudo os direitos das minorias, procurando fazer da Democracia um jogo dos poderosos. Assistimos, impávidos e serenos, quase sem pestanejar, a uma ofensiva ideológica da Direita muito semelhante à que assistimos em 1974-75, durante o PREC. Só que de sentido contrário. E não há esquerda, não há pensamento de esquerda, não há praxis de esquerda, não há nada que trave esta enxurrada.

02/02/14

estamos tramados, é o que vos digo

Digam-me cá: se o PS de Mário Soares foi capaz de encher a Alameda para combater a esquerda amalandrada (com a ajuda da direita agradecida, claro), por que raios e coriscos é que o PS de Seguro não consegue encher uma tendinha de circo para ajudar a rechaçar a direita canalha?

Eu respondo: porque o PS, salvo raras e honrosas excepções, é composto por gente com os mesmos mesquinhos interesses da maltosa do outro lado da barricada. O mundo dos negócios, da alta-finança, da distribuição de tachos em dia de bodo aos pobres, os de espírito e de moral. O outro mundo, o da Equidade, da Solidariedade, do Estado Social, pouco ou nada lhes diz, surte efeito nos discursos da praxe, os de atrair papalvo.

E a outra esquerda, a verdadeira? Essa, num momento tão grave como o que atravessamos, uma contra-revolução de extrema-direita (chamemos os bois pelos nomes), é incapaz de se entender e de entender que as suas quintarolas e pergaminhos valem muito menos do que os direitos, a saúde, a educação, o trabalho, a dignidade de quem dizem querer defender. Mas querer, só, não basta. Querer não é poder.

São incapazes de desmentir, por palavras e actos, um dos venenos preferidos da direita: que não querem governar, que se limitam a ser meros partidos de protesto. São incapazes de juntar na rua, de uma só vez e de uma vez por todas, todas as gerações e facções indignadas e fartas de sabujos, salafrários e doutorados em roubalheira. Uns, esperam salvar-se do definhamento anunciado. Outros, contabilizam intenções de voto, à espera da lotaria que, de mão beijada, os poderá bafejar nas próximas eleições. Eu cá, para dar o exemplo (mas quem quer saber do meu exemplo?) vou a todas as manifestações convocadas seja por quem for, desde que seja por uma causa maior: o derrube deste desgoverno que nos coube em má sorte. Não me tem servido de muito mas vou, como dizia o outro de triste e má memória, andar por aí. Sou e serei pela unidade das esquerdas contra o descalabro para onde nos estão a levar, um retrocesso de décadas e um futuro terrível, que gostaria de poupar aos que, sangue do meu sangue, me irão suceder neste cada vez mais pardacento vale de lágrimas, qualquer dia ainda mais sangrento, qualquer dia exangue.

Ah!, e irei votar. Sempre. Porque, não votar, é dar a vitória, continuadamente, alternadamente, às várias direitas do insidioso "arco da governação". Para fazer mais do mesmo, friamente como Passos ou com lágrimas de crocodilo mariquinhas, como Seguro. Se lá chegar. Ao dia de tomada de posse, diante de Cavaco e de um país escavacado.

Estamos tramados, só vos digo.