22/02/14

"é triste ter que pensar que isto vai a jogar"

Sou só eu quem acha que "o fantástico sorteio de sensacionais automóveis" pelos contribuintes é uma coisa abjecta, digna da mais tresloucada República das Bananas?

Para combater o fisco, e à falta de fiscais ou da vontade de os ter, o Governo não vai de modas: faz de cada português um fiscal, acenando-lhe com a possibilidade de vir a ganhar um belo carrinho, daqueles topo de gama com que tantos portugueses sonham para se pavonearem pela vizinhança.

A não ser em certas despesas, para as quais sempre pedi factura, aviso desde já os senhores das Finanças que não dou o meu NIF por dá cá aquela palha, muito menos por um café ou um papo-seco. Mandem-me prender. E metam a viatura, aquela que nunca me vai sair, onde melhor vos aprouver.

Eu também estou contra a economia paralela. Frontalmente contra. Até porque são alguns dos mais ricos, dos mais ricos gatunos do País para ser mais preciso, que fogem aos impostos: veja-se o caso das grandes empresas que ganham o carcanhol em Portugal e vão pagar os impostos na Holanda, onde lhes sai mais barato, ou os que fogem com as suas fortunas para paraísos fiscais. A estes nada se faz, continuam incólumes a coberto das leis ... ou da falta delas.

Mas não é assim, com vergonhosos engodos, que se vai lá, até porque esta medida não atinge nem aflige os que mais fogem ao fisco. Esses continuarão a facturar pela calada. Esses serão os primeiros a pedir facturas, até porque têm muito dinheiro para gastar e, insaciáveis, aguardarão o momento em que um carro de luxo lhes irá parar à porta pago pelos otários, todos nós. E, convenhamos, eles gastam 10, 20 ou 30 vezes mais do que o comum dos cidadãos, multiplicando-se por 10, 20 ou 30 as suas probabilidades de ganhar.

Cito Ary, "é triste ter que pensar que isto vai a jogar", com a amargura de quem vê o seu país ser destruído, a cada dia que passa, por uma maralha ignóbil.

A partir de Abril anda a roda. A dos enjeitados.

21/02/14

tordo e os miseráveis

http://www.lux.iol.pt/




Afinal, Fernando Tordo é milionário. Quem o dá a entender é o "i", em parangonas da primeira página com "o melhor design da Península Ibérica". Segundo o jornal, Tordo terá recebido mais de 200.000 euros do Estado desde 2008. E as gentes predispostas a engolir venenos pensam: "grande malandro, a queixar-se e, afinal, recebe subsídios do Estado. A propósito de quê?"

Quem não se der ao trabalho de ler a notícia e se ficar pela manchete, restar-lhe-á espalhar o veneno pelo facebook, pelo twitter, pelos emails ditos virais.

Se ler a notícia, o caso muda de figura. Os tais "mais de 200.000 euros", 207.100 para ser exacto, não lhe foram oferecidos, de mão beijada, por um Estado perdulário. Foram-lhe pagos, principalmente por Câmaras, pelo seu trabalho ao longo de seis anos de concertos pelo País.

Mesmo que tivesse ficado com os 207.100 euros todos para si, Tordo receberia, nesse total de 72 meses, 2.876,39 euros por mês, acrescidos dos tais 200 euros que recebe de reforma. Uma fartura, já se vê, uma verdadeira fortuna para um artista com mais de 40 anos de carreira! 

Para este governo, quem receba mais de 600 euros é remediado e mais de 1.000 euros é rico. Logo, Tordo é milionário. Tordo não tem razão em queixar-se. Tordo é um passarão a precisar que lhe cortem as asas. Tordo é torto. Tordo é mau.

Mas não fiquemos por aqui em matéria de contas: desses 2.876,39 euros, há que deduzir os impostos, os custos das deslocações pelo País, o pagamento de honorários aos músicos e aos técnicos de som e de luz que com ele trabalham.

Para os pobres deste País - os que ganham 10, 20, 30, 40.000 euros ou mais por mês, os que se recusam a subir o salário mínimo, os que acham que um ordenado de 600 euros é mais do que justo para um recém-licenciado - Tordo não tem razões de queixa. Tordo chora-se mas mama. Tordo não se solidariza com os sacrifícios que os portugueses, os estóicos burros de carga, estão a fazer para salvar a economia, as finanças e a peidola gorda dos barões assinalados.

Tordo recusa-se a dar um cêntimo mais que seja para o peditório dos miseráveis. Não se faz. Retire-se a nacionalidade portuguesa a Tordo, recuse-se-lhe a entrada em Portugal. Não precisamos cá de gente assim. Temos Coelho, temos Portas, temos Montenegros, temos Catorgas, temos Mexias, temos Cavacos, temos Albuquerques, temos Ulriches, temos Soares dos Santos, temos Duartes Limas, temos Oliveiras e Costas, temos Dias Loureiros, temos Esteves e Cristas, Motas Soares e Cratos, Macedos e outros cavalheiros. Já estamos bem servidos. Olha Tordos p'ra nós!

20/02/14

antes e agora

Praça da Independência, Kiev.


que bem fica sempre que fala

Um portento, este Jesus, o único que respeita - na íntegra - o Acordo Ortográfico. Ou a arte de bem falar em toda a sela.

preciso de traduzir?


o elogio da responsabilidade


Acho uma certa graça - moderada porém, que a vida não está para risos -, aos que distinguem o PS dos partidos à sua esquerda, apelidando-o de oposição responsável, inferindo-se daqui que os outros serão irresponsáveis.

Deduz-se também que os partidos agora e em má hora no poder são igualmente responsáveis.

Eu acho que têm razão. Tanto o PS como o PSD e o CDS têm sido bastante responsáveis. Por submarinos, bancos falidos, auto-estradas para nenhures, negociatas obscuras, PPP's, swaps, distribuição de cargos pelas clientelas, favores, má gestão, corrupção, esbanjamento. Chega para lhes avaliar o grau de responsabilidade? Ou ainda não?

Quanto aos outros, esses que acham que é possível governar de forma diferente, com justiça social, com solidariedade, esses que com erros certamente, que com ovelhas ronhosas, não tenho dúvidas, rejeitariam a ditadura dos mercados, a desumanização, a pobreza, esses são os irresponsáveis. Porque, com eles, aumentariam as despesas com a Educação, a Saúde, as Prestações Sociais, os donos do País roubariam menos, aos Bancos, essas eternas vítimas, seriam recusadas mais ajudas do Estado para, coitados, poderem continuar a lucrar, as taxas de juro dos empréstimos internacionais aumentariam vertiginosamente, as sanções dos países "democráticos" mirrar-nos-iam, a União Europeia expulsar-nos-ia, a América invadir-nos-ia de espiões e conspiradores, a Alemanha ameaçar-nos-ia com balas e sanções e as facções políticas dos responsáveis mais à direita rechaçar-nos-iam à bomba.

Seria ou não seria uma irresponsabilidade, da nossa parte, fazer com que todas estas desgraças nos acontecessem? Mais vale perpetuar os responsáveis no poder. Eles governar-nos-ão com responsabilidade. E nós, mais pobres, mais amarfanhados, mais desprezados pelas elites da Nação, poderemos continuar a dormir descansados.

Teremos sempre, até que a morte nos separe, gente responsável a zelar por nós.

19/02/14

tiros no porta-aviões, submarinos ao fundo e o pequeno zagalote


Portas diz que as exportações são os porta-aviões da Economia. Não quereria dizer antes submarinos? Ou para o ministro, que já foi da Defesa, porta-aviões e submarinos são uma e a mesma coisa? Mas se, ao que parece, os porta-aviões se exportam e, por outro lado, os submarinos se importam, como é que o ministro que superintende na Economia pode confundir exportações com importações? E porquê porta-aviões? Porque não fragatas, corvetas, contra-torpedeiros? E porque têm que estar no mar e não no ar ou até mesmo em terra? Por que razão não são, as exportações, os bombardeiros da Economia? Ou as metralhadoras da Economia? E Paulo Portas? Será ele a bazuca do governo, uma granada de mão ou um irrisório zagalote?

Salvem-me. Estou a ensandecer. Ou Portas não sabe o que diz ou eu não sei o que pensar de Portas.

Saber até sei. Mas não digo.

os pretos, os pobres e os panilas


Ontem, num desses programas abertos à opinião pública, neste caso da SIC, ouvi um espectador perorar sobre os méritos do actual governo, recorrendo aos argumentos de sempre: que estávamos a viver acima das nossas possibilidades, que a culpa é toda do Sócrates, que não tínhamos dinheiro nem sequer para pagar salários, enfim, o rol completo de mentiras e meias-verdades em segunda mão. Não perderia muito tempo com a criatura, dela e de tantas como ela não reza a História nem será o reino dos céus, não fora uma frase, uma simples frase que reflecte toda a hipocrisia das gentes de direita. Cito de cor, e não andarei longe do original: "eu até gostava que não houvesse pobres mas não pode ser, temos que pagar as dívidas".

Mal comparado, é como aqueles que dizem que "até têm amigos gay" mas que são contra o casamento dos maricas, e quanto aos panascas poderem adoptar crianças nem pensar, essa é doença que se pega. Ou como os que não se dizem racistas mas que, se calha terem que apertar a mão a alguém mais escuro do que eles, correm a lavar, pelo menos em pensamento, as conspurcadas mãos. Ou ainda os que se dizem defensores das mulheres mas que não partilham as tarefas domésticas com a cara-metade porque isso não é coisa de homem e, se for preciso, metem a mulher na ordem com um valente safanão que, como a gente sabe, é sempre eficaz quando dado a tempo, já Salazar o dizia. Ou como aqueles que andam sempre com o credo na boca, não faltam a uma missa nos dias santos, propagandeiam a sua comiseração e amor pelos pobrezinhos, mas votam e suportam qualquer governo que se proponha perpetuar a mendicidade, o egoísmo e a ignomínia humana.

Será que esta gente seria, algum dia, capaz de ser amiga de uma preta, pobre e lésbica, ou chamariam os serviços de desinfecção se esta se lhes atravessasse no caminho?

eleitores à portuguesa


carta ao pai

Por João Tordo
http://www.publico.pt

Ontem, o meu pai foi-se embora. Não vem e já volta; emigrou para o Recife e deixou este país, onde nasceu e onde viveu durante 65 anos.

A sua reforma seria, por cá, de duzentos e poucos euros, mais uma pequena reforma da Sociedade Portuguesa de Autores que tem servido, durante os últimos anos, para pagar o carro onde se deslocava por Lisboa e para os concertos que foi dando pelo país. Nesses concertos teve salas cheias, meio-cheias e, por vezes, quase vazias; fê-lo sempre (era o seu trabalho) com um sorriso nos lábios e boa disposição, ganhando à bilheteira.

Ontem, quando me deitei, senti-me triste. E, ao mesmo tempo, senti-me feliz. Triste, porque o mais normal é que os filhos emigrem e não os pais (mas talvez Portugal tenha sido capaz, nos últimos anos, de conseguir baralhar essa tendência). Feliz, porque admiro-lhe a coragem de começar outra vez num país que quase desconhece (e onde quase o desconhecem), partindo animado pelas coisas novas que irá encontrar.

Tudo isto são coisas pessoais que não interessam a ninguém, excepto à família do senhor Tordo. Acontece que o meu pai, quer se goste ou não da música que fez, foi uma figura conhecida desde muito novo e, portanto, a sua partida, que ele se limitou a anunciar no Facebook, onde mantinha contacto regular com os amigos e admiradores, acabou por se tornar mediática. E é essa a razão pela qual escrevo: porque, quase sem o querer, li alguns dos comentários à sua partida.

Muita gente se despediu com palavras de encorajamento. Outros, contudo, mandaram-no para Cuba. Ou para a Coreia do Norte. Ou disseram que já devia ter emigrado há muito. Que só faz falta quem cá está. Chamam-lhe palavrões dos duros. Associam-no à política, de que se dissociou activamente há décadas (enquanto lá esteve contribuiu, à sua modesta maneira, com outros músicos, escritores, cineastas e artistas, para a libertação de um povo). E perguntaram o que iria fazer: limpar WC's e cozinhas? Usufruir da reforma dourada? Agarrar um "tacho" proporcionado pelos "amiguinhos"? Houve até um que, com ironia insuspeita, lhe pediu que "deixasse cá a reforma". Os duzentos e tal euros.

Eu entendo o desamor. Sempre o entendi; é natural, ainda mais natural quando vivemos como vivemos e onde vivemos e com as dificuldades por que passamos. O que eu não entendo é o ódio. O meu pai, que é uma pessoa cheia de defeitos como todos nós – e como todos os autores destes singelos insultos –, fez aquilo que lhe restava fazer.

Quer se queira, quer não, ele faz parte da história da música em Portugal. Sozinho, ou com Ary dos Santos, ou para algumas das vozes mais apreciadas do público de hoje – Carminho, Carlos do Carmo, Mariza, são incontáveis – fez alguns dos temas que irão perdurar enquanto nos for permitido ouvir música.

Pouco importa quem é o homem; isso fica reservado para a intimidade de quem o conhece. Eu conheço-o: é um tipo simpático e cheio de humor, que está bem com a vida e que, ontem, partiu com uma mala às costas e uma guitarra na mão, aos 65 anos, cansado deste país onde, mais cedo do que tarde, aqueles que o mandam para Cuba, a Coreia do Norte ou limpar WC's e cozinhas encontrarão, finalmente, a terra prometida: um lugar onde nada restará senão os reality shows da televisão, as telenovelas e a vergonha.

Os nossos governantes têm-se preparado para anunciar, contentíssimos, que a crise acabou, esquecendo-se de dizer tudo o que acabou com ela. A primeira coisa foi a cultura, que é o património de um país. A segunda foi a felicidade, que está ausente dos rostos de quem anda na rua todos os dias. A terceira foi a esperança. E a quarta foi o meu pai, e outros como ele, que se recusam a ser governados por gente que fez tudo para dar cabo deste país - do país que ele, e milhões de pessoas como ele, cheias de defeitos, quiseram construir: um país melhor para os filhos e para os netos. Fracassaram nesse propósito; enganaram-se ao pensarem que podíamos mudar.

Não queremos mudar. Queremos esta miséria, admitimo-la, deixamos passar. E alguns de nós até aí estão para insultar, do conforto dos seus sofás, quem, por não ter trabalho aqui – e precisar de trabalhar para, aos 65 anos, não se transformar num fantasma ou num pedinte – pegou nas malas e numa guitarra e se foi embora.

Ontem, ao deitar-me, imaginei-o dentro do avião, sozinho, a sonhar com o futuro; bem-disposto, com um sorriso nos lábios. Eu vou ter muitas saudades dele, mas sou suspeito. Dói-me saber que, ontem, o meu pai se foi embora.

marcos antónios

Por Luís Rainha
www.ionline.pt

Após uma juventude estroina, acumulando dívidas sem fim, Marco António fugiu aos credores em busca de um chefe que o levasse às alturas a que se via fadado. Aprendeu a arte da retórica; sem dominar a palavra, não se domina ninguém. Virou soldado, dando o litro para impressionar o líder com vigorosas espadeiradas nos inimigos de ocasião. Depois, a escalada não mais parou. Pena foi que o denodo nas refregas não tivesse correspondência na administração da coisa pública; aí, as desgraças somaram-se sem glória nem feitos de jeito.

Há nomes proféticos. O Marco António acima não é o Costa, mas sim o triúnviro romano. O Costa é peixe de águas mais pequeninas, mais poluídas e ainda menos transparentes. Já foi acólito de Santana, já largou o parlamento pela “necessidade imperiosa” de dedicar toda a sua energia ao município de Gaia (e a esse fenómeno político-freudiano que foi o dr. Menezes).

Agora ofende-se por o ligarem às dívidas colossais que lá deixou. Quem o ataca ignora que os grandes vogam bem acima de temas rasteiros como contas por pagar. Esta rapina não dorme, olhinhos semicerrados em mira, sempre a tirar a medida a quem lhe passa pela frente. E lá vai cuidando da higiene do patrão, à laia de um daqueles peixes que limpam os dentes aos tubarões, sonhando vir um dia a ser um deles.

Trezentos milhões de dívida? Minudências, para o homem que terá forçado Passos Coelho a deixar cair Sócrates. Nunca ninguém o obrigará a pagar. Nem a mostrar alguma vergonha.

o grau zero da ignomínia

wehavekaosinthegarden.wordpress.com
Por Baptista-Bastos
http://www.dn.pt

Nas celebrações dos 500 anos das Misericórdias, as televisões filmaram o ministro Pedro Mota Soares, compungido e piedoso, a assistir à liturgia na igreja de Castelo Branco. Um momento de estremecida devoção. Nas orações que acompanhou, afeiçoado de dó e ungido de evidente santidade, o ministro Mota persignou-se, genuflectiu, beijou a mão, tomou a hóstia, certamente pedindo perdão ao Criador pelas malfeitorias infligidas ao mundo dos que trabalham ou que trabalharam. Nós.

O ministro Mota denuncia um rosto de santo de altar, atormentado e macerado, como convém à clemência exposta. O ministro Mota não é uma criatura de Deus: é um adjectivo. Diz-se militante do CDS, mas não propende para "democrata-cristão", tendo em conta a violência dos decretos que assina. Será, quando muito, um servente do ideário neoliberal, que tem desgraçado o País e destruído o que de melhor a pátria possui: a história e a juventude. Depois, pelo que se ouve e diz, vai às missas de domingo, acaso pedir as bênçãos do céu e a absolvição a Jesus.

Que têm a ver as práticas governativas do CDS com a compaixão subjacente ao catolicismo, de que aquele partido se diz estrénuo paladino? Este farisaísmo repartido entre os infames cometimentos de segunda a sexta-feira, e as práticas religiosas como salvação apaziguadora devolvem-nos a imagem de quem está no poder, e se diz católico. Haja Deus e haja Freud!

Talvez Freud seja a explicação mais recomendável para se entender esta corja de hipócritas que invadiu os territórios da decência e transformou o embuste em culto. Talvez. Deus, como precaução de celestes bonanças, serve de ocorrência momentânea, não como devoção e crença.

A repugnante cena de Mota na igreja fez-me recordar um poema de Guerra Junqueiro, recolhido em A Velhice do Padre Eterno, que cito de cor, pelo que me desculpo de qualquer incorrecção: "No meio de uma feira / uns poucos de palhaços / andavam a mostrar/ em cima de um jumento / um aborto infeliz/ sem mãos, sem pés, sem braços/ aborto que lhes dava um grande rendimento. / E o monstro arregalava / uns grandes olhos baços / e sem entendimento. / Ao ver esse quadro, apóstolos romanos/ funâmbulos da cruz/ eu lembrei-me de vós / hipócratas, devassos / que andais pelo universo/ há mil e tantos anos/ exibindo e explorando o corpo de Jesus."

Em Os Irmãos Karamazov, o mais velho deles afirma: "Se Deus não existe, tudo é permitido." Deus existe mesmo para esta súcia que tripudia na política e no espírito, no amor pelos outros, na consciência e na fé, com desenvolto desprezo?

Atingimos o grau zero da ignomínia. Socorro.

18/02/14

fuck you!


Confesso. Já não suporto as fronhas e as vozes de Pedrito Coelho e Seus Amigos. Não os de qualquer série baseada nos livros de Beatrix Potter, mas os da série do serial killer que se diz um homem sério. 

A sério. A televisão só se liga, cá em casa, fora das horas das notícias. Os canais de informação são alvo de apressado zapping. Os debates, mesas-redondas e espaços publicitários dos comentadores políticos cá do burgo, e eles multiplicam-se como ratazanas num esgoto, foram banidos, proibidos, expurgados da pantalha. Antes que restaurem a censura, imponho-a eu. O blackout. O recolher obrigatório. O estado de sítio.

Quando o Coelho der de frosques, avisem-me. Não o vou saber por jornais, telejornais e demais órgãos de propaganda oficial do monturo.

Correndo o risco de vos parecer infantil e ordinário: fuck mesmo.

17/02/14

fujam, fujam que o coelho é comunista!


Fernando Ulrich de seu nome, casado com Isabel Diana de Bettencourt de Melo e Castro, filha do Conde de Galveias, militante do PSD e funcionária em Belém ao serviço de Cavaco Silva, esse Fernando, o Senhor Aguenta-Aguenta, saiu-se este fim de semana com mais uma das suas pérolas: "nunca provavelmente a esquerda fez uma política tão redistributiva como a que tem feito o governo de Passos Coelho". E acrescentou, porque só uma pérola não dá para um par de brincos, muito menos para um colar: "O que o Dr. Passos Coelho fez nesta matéria é tão redistributivo ou mais do que o Partido Comunista fez em 75".

Pois. Deve ser por isso, por causa desta mania igualitária que tomou conta de Coelho e do seu governo, perigosamente esquerdista, escandalosamente social-fascista, que os ricos estão mais ricos e os pobres mais pobres. Diz-nos a insuspeita OCDE, dizem-nos as evidências. Mas o que é evidente para nós, para Ulrich não passa de uma fantasia, uma toleima, um macaquinho no sótão onde guardamos teias e telhas, teúdos e manteúdos que temos sido por um Estado generoso e bom.

Disse-o também Coelho este fim de semana, que os deficientes não podem contar só com o favor do Estado. O Estado é generoso e bom, lá isso é, mas não abusemos. O dinheiro não chega para todos e há que acudir aos Ulrich, aos Mexia, aos Espírito Santo, aos Mello, aos Catorga, aos Relvas, aos Arnault, aos Montenegro, às castas e clãs que sempre viveram sob os favores do Estado e os que contam viver à sombra e à conta dele. Tal como Passos. Ou já nos esquecemos da Tecnoforma e dos favores com que foi bafejada pelo Estado generoso e bom, um caso que noutro país seria um escândalo e que, por aqui, não passou de burburinho de "silly season"? E dos favores que Coelho irá receber quando o seu desgoverno cair, alcandorado que será a um qualquer lugar regiamente pago por todos nós?

As vozes da infâmia não aguentam estar caladas. Sofrem de incontinência verbal. E de ejaculação precoce. Atingem o clímax com demasiada facilidade.

o menino roubado

A verdadeira Philomena
Cena do Filme

"Filomena", de Stephen Frears. Recomendo. Sobretudo aos católicos acríticos.

não, não estou velho, não sou é suficientemente novo para já saber tudo!

Por Júlio Isidro
http://www.ericeiraonline.pt/

Passaram 40 anos de um sonho chamado Abril.

E lembro-me do texto de Jorge de Sena…. Não quero morrer sem ver a cor da liberdade.

Passaram quatro décadas e de súbito os portugueses ficam a saber, em espanto, que são responsáveis de uma crise e que a têm que pagar…. civilizadamente, ordenadamente, no respeito das regras da democracia, com manifestações próprias das democracias e greves a que têm direito, mas demonstrando sempre o seu elevado espírito cívico, no sofrer e ….calar.

Sou dos que acreditam na invenção desta crise.

Um “directório” algures decidiu que as classes médias estavam a viver acima da média. E de repente verificou-se que todos os países estão a dever dinheiro uns aos outros…. a dívida soberana entrou no nosso vocabulário e invadiu o dia a dia.

Serviu para despedir, cortar salários, regalias/direitos do chamado Estado Social e o valor do trabalho foi diminuído, embora um nosso ministro tenha dito, decerto por lapso, que “o trabalho liberta”, frase escrita no portão de entrada de Auschwitz.

Parece que alguém anda à procura de uma solução que se espera não seja final.

Os homens nascem com direito à felicidade e não apenas à estrita e restrita sobrevivência.

Foi perante o espanto dos portugueses que os velhos ficaram com muito menos do seu contrato com o Estado que se comprometia devolver o investimento de uma vida de trabalho.Mas, daqui a 20 anos isto resolve-se.

Agora os velhos, atónitos, repartem o dinheiro entre os medicamentos e a comida.

E ainda tem que dar para ajudar os filhos e netos num exercício de gestão impossível.

A Igreja e tantas instituições de solidariedade fazem diariamente o milagre da multiplicação dos pães.

Morrem mais velhos em solidão, dão por eles pelo cheiro, os passes sociais impedem-nos de sair de casa, suicidam-se mais pessoas, mata-se mais dentro de casa, maridos, mulheres e filhos mancham-se de sangue , 5% dos sem abrigo têm cursos superiores, consta que há cursos superiores de geração espontânea, mas 81.000 licenciados estão desempregados.

Milhares de alunos saem das universidades porque não têm como pagar as propinas, enquanto que muitos desistem de estudar para procurar trabalho.

Há 200.000 novos emigrantes, e o filme “Gaiola Dourada” faz um milhão de espectadores.

Há terras do interior sem centro de saúde, sem correios e sem finanças, e os festivais de verão estão cheios com bilhetes de centenas de euros.

Há carros topo de gama para sortear e auto-estradas desertas. Na televisão a gente vê gente a fazer sexo explícito e explicitamente a revelar histórias de vida que exaltam a boçalidade.

Há 50.000 trabalhadores rurais que abandonaram os campos, mas há as grandes vitórias da venda de dívida pública a taxas muito mais altas do que outros países intervencionados.

Há romances de ajustes de contas entre políticos e ex-políticos, mas tudo vai acabar em bem...estar para ambas as partes.

Aumentam as mortes por problemas respiratórios consequência de carências alimentares e higiénicas, há enfermeiros a partir entre lágrimas para Inglaterra e Alemanha para ganharem muito mais do que 3 euros à hora, há o romance do senhor Hollande e o enredo do senhor Obama que tudo tem feito para que o SNS americano seja mesmo para todos os americanos. Também ele tem um sonho…

Há a privatização de empresas portuguesas altamente lucrativas e outras que virão a ser lucrativas. Se são e podem vir a ser, porque é que se vendem?

E há a saída à irlandesa quando eu preferia uma…à francesa.

Há muita gente a opinar, alguns escondidos com o rabo de fora.

E aprendemos neologismos como “inconseguimento” e “irrevogável” que quer dizer exactamente o contrário do que está escrito no dicionário.

Mas há os penalties escalpelizados na TV em câmara lenta, muito lenta e muito discutidos, e muita conversa, muita conversa e nós, distraídos.

E agora, já quase todos sabemos que existiu um pintor chamado Miró, nem que seja por via bancária. Surrealista…

Mas há os meninos que têm que ir à escola nas férias para ter pequeno- almoço e almoço.

E as mães que vão ao banco…. alimentar contra a fome , envergonhadamente , matar a fome dos seus meninos.

É por estes meninos com a esperança de dias melhores prometidos para daqui a 20 anos, pelos velhos sem mais 20 anos de esperança de vida e pelos quarentões com a desconfiança de que não mudarão de vida, que eu não quero morrer sem ver a cor de uma nova liberdade.