os pretos, os pobres e os panilas


Ontem, num desses programas abertos à opinião pública, neste caso da SIC, ouvi um espectador perorar sobre os méritos do actual governo, recorrendo aos argumentos de sempre: que estávamos a viver acima das nossas possibilidades, que a culpa é toda do Sócrates, que não tínhamos dinheiro nem sequer para pagar salários, enfim, o rol completo de mentiras e meias-verdades em segunda mão. Não perderia muito tempo com a criatura, dela e de tantas como ela não reza a História nem será o reino dos céus, não fora uma frase, uma simples frase que reflecte toda a hipocrisia das gentes de direita. Cito de cor, e não andarei longe do original: "eu até gostava que não houvesse pobres mas não pode ser, temos que pagar as dívidas".

Mal comparado, é como aqueles que dizem que "até têm amigos gay" mas que são contra o casamento dos maricas, e quanto aos panascas poderem adoptar crianças nem pensar, essa é doença que se pega. Ou como os que não se dizem racistas mas que, se calha terem que apertar a mão a alguém mais escuro do que eles, correm a lavar, pelo menos em pensamento, as conspurcadas mãos. Ou ainda os que se dizem defensores das mulheres mas que não partilham as tarefas domésticas com a cara-metade porque isso não é coisa de homem e, se for preciso, metem a mulher na ordem com um valente safanão que, como a gente sabe, é sempre eficaz quando dado a tempo, já Salazar o dizia. Ou como aqueles que andam sempre com o credo na boca, não faltam a uma missa nos dias santos, propagandeiam a sua comiseração e amor pelos pobrezinhos, mas votam e suportam qualquer governo que se proponha perpetuar a mendicidade, o egoísmo e a ignomínia humana.

Será que esta gente seria, algum dia, capaz de ser amiga de uma preta, pobre e lésbica, ou chamariam os serviços de desinfecção se esta se lhes atravessasse no caminho?

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