06/04/13

até que a morte nos separe

Não parecendo o que são, são convites de casamento ...




Imagens de Manuel Morgado
http://manuelmorgado.com

à lei da bala


A Manuela Ferreira Leite alvitrou a suspensão da democracia durante 6 meses para pôr o País na ordem. Sugiro a Passos Coelho que siga o mesmo caminho: suspenda a Constituição durante 9 meses. Um gangster que é gangster, perdão, um governante que é governante não se fica, riposta. Se preciso for, à lei da bala.

Afinal de contas, e parafraseando um nobel comentador que acabei de ler no facebook, "só os países do terceiro mundo têm Tribunal Constitucional".  E nós podemos ser roubados, espoliados, esmifrados, mas não queremos - repito, não queremos - pertencer ao terceiro mundo.

um bom investimento


Confesso a minha ignorância: nunca tinha ouvido falar em economia social. Sempre achei que não ter um tostão furado, dormir pelas ruas, recorrer à sopa dos pobres, eram cancros a erradicar da sociedade. Agora, já não. Graças aos homens bons que nos governam fez-se-me luz, fiquei a saber que a pobreza dá dinheiro, cria empregos, faz andar o País para a frente. Para a frente de um comboio, em jeito de suicídio. Fabricam-se desempregados para se criar emprego. Gera-se pobreza para se produzir riqueza. Tiram-se abonos de uns poucos euros para se atribuírem subsídios de muitos milhões. Recuámos aos tempos de Salazar. Ou pior. Pobrezinhos mas honrados, pobretes mas alegretes e, sobretudo, muito, muito empreendedores. A minha enxerga a céu aberto é melhor do que a tua. Lar, doce lar numa das barracas que voltarão a sujar a paisagem, uma esmolinha por caridade, um papo-seco por amor de Deus. Economia social, dizem eles. O deve e o haver das sopas que se dão, a contabilidade dos pães que se distribuem, dos trapos que se oferecem, da miséria que grassa como peste negra. Economia social, dizem eles. Faça-se o bem mas olhe-se a quem. Roube-se ao pobre, ao remediado, ao velho, ao doente, aos acomodados que conservam os empregos e aos párias que os perderam por incúria e mandriice. Ampare-se a banca, protejam-se as empresas dos lucros colossais com sedes na estranja para fugir aos impostos e invista-se - ah sim, invista-se que nós somos almas generosas - na economia social. Faça-se a esmola de alimentar quem tem fome, de salvar quem está doente, de albergar quem perdeu casa, futuro e dignidade. É um bom negócio, sem riscos, um dia destes cotado na bolsa, com bónus para administradores, dividendos para accionistas, alcavalas para sócios, parceiros, os amigalhaços do costume.

Desculpem a minha ignorância. Agora sei, cada vez sei mais do que esta gente é capaz. Ponham-se os desempregados a desmatar, os indigentes a mendigar, os ricos a dadivar as sobras e a sacudir as consciências emporcalhadas com as notas extorquidas em nome da economia. A social também.

Se Deus existe, Ele que nos salve. De alguns homens, dos activos tóxicos do capitalismo de casino e de hospício, nada de bom virá ao mundo.

05/04/13

à espera do constitucional

a grande m/perda

Imagem: http://henricartoon.blogs.sapo.pt/

fujam coelhos, vem aí a monda!

E o Coelho?  E Gaspar? E os irmãos (de armas) Macedos? E Portas? E Cruz e Cristas? E Mota e Álvaro? E Crato e Branco? Enquanto houver um português sem fome ou com emprego, enquanto existirem empresas no activo, enquanto todo o património nacional não for vendido a preço de saldo, enquanto os salários forem altíssimos, para cima de 300 euros, eles vão-se agarrar ao poder como os náufragos ao bote de salvação. Há que afundá-los. Arrancá-los. Proceder à desparasitação, à desratização, à higienização do País. Custe o que custar.

04/04/13

mais encanto, o tanas!


só mais um empurrão e, a seguir a relvas, vai todo o joio


Relvas demitiu-se. Isto prova que a opinião pública, as manifestações, as redes sociais, por mais que eles neguem e por mais que eles não queiram, têm força e conseguem resultados. Demora tempo - tudo depende da união do povo, tudo depende do seu activismo e grau de mobilização - mas, mais tarde ou mais cedo, levamos a melhor. Agora, falta só mais um empurrão. Para pôr Passos e os outros todos na alheta, que se faz tarde. Pelos escândalos, pelo empobrecimento de milhões e o enriquecimento de poucos, pela sobranceria, pela roubalheira, pela destruição da economia, pelo aumento colossal do desemprego, pela inépcia, pela ideologia amoral, pela subserviência à Merkel dos mercados, Passos e companhia têm que fazer-se à vidinha por outras paragens. Há sempre um Goldman Sachs disposto a oferecer-lhes cargos e prebendas. Não deixam saudades. Antes um rasto de pobreza e de ignomínia nunca vistos em Portugal.

Fotografia: Pedro Rocha/Global Imagens

esperança, esparrelas e demagogia

Sabem quem é a D. Esperança? Não? Eu digo. É uma ignara deputada do PSD que, cheia de fervor partidário, de paixões láparas, elogia destemidamente a acção governamental em matéria de Saúde. E chegou ao ponto, a, repito, ignara criatura, de elogiar a contratação de 600 novos enfermeiros para o SNS. Só que a notícia dessa contratação não passou de uma mentira de 1 de Abril. A D. Esperança caiu que nem uma patinha. Por amor a Coelho.

sob o olhar embevecido de relvas, a bater punho com força, com energia



Imagem: http://wehavekaosinthegarden.blogspot.pt/

era lisboa e chovia














vítor gaspar no bundestag

Por Viriato Soromenho-Marques

Com o seu habitual zelo religioso (mesmo que seja a um deus desconhecido), Vítor Gaspar falou quarta-feira aos deputados em Lisboa, como se estivesse no Bundestag, com Merkel a seu lado. Foi incapaz de reconhecer o caminho suicidário do "ajustamento". Incapaz de compreender que a raiz do mal que poderá matar a Europa reside no carácter monstruoso da arquitectura da Zona Euro (que combina perigosamente união monetária com fragmentação orçamental, sem cuidar da união política). Pelo contrário, essa arquitectura é tida como um inalterável fim da história. Custe o que custar, doa a quem doer. Aconselho a Vítor Gaspar a leitura de vozes sensatas e sábias que, na Alemanha, alertam para a catástrofe em que Berlim nos ameaça mergulhar a todos. O grande sociólogo Ulrich Beck, num ensaio com o título significativo de "A Europa Alemã", chama a atenção para o modo como Merkel rompeu as regras do jogo na Europa, passando da cooperação para a imposição: "Porém, este jogo de soma positiva da cooperação transformou-se, ao longo da crise do euro, num jogo de soma nula e alguns participantes têm de se conformar com perdas enormes de poder." Do mesmo modo, o jornalista e editor Jakob Augstein alertava para o egoísmo da chanceler: "A ideia de Merkel para a integração europeia consiste em simplesmente afirmar que a Europa se deve inclinar à vontade política alemã." Tudo isso conduz, segundo U. Beck, a uma encruzilhada: "(...) a crise do euro tirou definitivamente a legitimidade à Europa neoliberal. A consequência é a assimetria entre o poder e a legitimidade. Um grande poder e pouca legitimidade do lado do capital e dos Estados, um pequeno poder e uma elevada legitimidade do lado daqueles que protestam." A Europa só se salvará quando a legitimidade se tornar poder. Mas para isso não basta citar Tito Lívio. É preciso compreendê-lo.

é o capitalismo, estúpido!

Por Baptista-Bastos

Já se sabe que a ideologia neoliberal não respeita nem as leis da economia nem as obrigações do direito. Os enredos governamentais apoiam-se na espontaneidade dos mecanismos económicos e na natureza dos acasos. Economistas ilustres como Daniel Bessa ou Ferreira do Amaral e professores universitários como Paulo Morais têm-no dito, incansavelmente, acentuando as características complexas do poder e das liberdades. As consequências são claras: a democracia, tal como a concebemos e foi estruturada na Europa Social, está desfigurada e, por este caminho, condenada a desaparecer. Quando Viriato Soromenho-Marques escreve que a Europa morreu em Chipre, ele adverte-nos de que o intervencionismo económico, tal como aconteceu naquele país, constitui uma ameaça às liberdades.

Estamos no interior de uma nova guerra, cujas conclusões são imprevisíveis. Parafraseando o outro: "É o capitalismo, estúpido!" Do ponto de vista desta irracionalidade política, não há lugar para o sujeito plural, para a diversidade de opiniões. "Não há alternativa", frase tão ao gosto de Pedro Passos Coelho, não lhe pertence em sistema de exclusividade: faz parte do breviário da "nova" doutrina, agora, embora tardiamente, condenada pela Igreja católica.

"É o capitalismo, estúpido!", decorre da circunstância de não se lhe haver opositor, e as críticas conhecidas (Badiou, por exemplo, L'Hypothèse Com- muniste) encontrarem pela frente um concerto de estipendiados, bem pago e bem organizado, o qual faz eco da frase "Salvemos os bancos!", salvaguarda de um sistema que incorporou "o fim das ideologias" como teoria. É desolador o deserto de ideias à nossa volta. A paixão pelo pensamento crítico parece ter desaparecido; e as páginas dos jornais, habitualmente portadoras de sugestões, incentivando à leitura e ao debate, consagram-se à superfície das coisas, às futilidades e ao desprezo pelas causas. O ser humano está concebido como homo oeconomicus, e a sua existência regida pela rendibilidade e subordinada aos grandes interesses económicos.

Uma certa Europa do humanismo e da solidariedade morreu em Chipre, como acentuou Soromenho-Marques. E talvez para sempre, porque a capitulação daquele pequeno país prova que a mutação do ideal social em um Estado omnipotente e autoritário (a Alemanha é que manda, até por interpostas economias) não é capricho do acaso, sim um projecto hegemónico e perigosíssimo, que pode conduzir à guerra (avisou Jean-Claude Juncker).

Mas há uma pergunta a formular: alguma vez essa Europa do humanismo e da solidariedade existiu? É o capitalismo que ordena as coisas e a própria vida das pessoas. O capitalismo que chegou excessivamente longe, com o apoio das irresponsabilidades e das cedências de quem devia ter uma posição moral irredutível. Nesta conjuntura avultam muitas traições e imprevidências. Chegámos a esta miséria. E agora?

03/04/13

um imóvel ao príncipe real

É o palacete que faz esquina com a Calçada da Patriarcal. Diz-se que vai ser transformado, por um "empreendedor" austríaco, num bazar oriental destinado a clientela de luxo. Jóias, mobiliário, roupas de marca, restauração chique, tudo na mão de estrangeiros para gáudio de uma minoria. Antes assim, digo eu, do que ver os mais belos edifícios de Lisboa votados ao abandono ou condenados ao camartelo.


para o que me havia de dar!

Hoje deu-me para aqui. Roubar ao blogue Diário de Lisboa (http://lisboadiarios.blogspot.pt) as excelentes fotografias que aqui ponho. Porque Lisboa não é a cidade provinciana e cinzenta de outras eras. Goste-se ou não,  são estas e outras excentricidades que tornam a cidade mais viva numa altura em que tudo - esperança, futuro, bem-estar, felicidade, saúde, educação, moral, compaixão, solidariedade - morre lentamente à nossa volta. Deixem-me ser fútil. Por um dia.













e para quando a queda do IV reich?

miguel relvas e o génio de zeca afonso

E eis como uma canção escrita nos idos de 70, "Como Se Faz um Canalha", assenta que nem uma luva, um preservativo envenenado, no canastro tumefacto do homem do cadastro.

linha para nenhures


Por Luís Rainha

Pela primeira vez desde que viajo de comboio (são longas e chocalhadas décadas) dei ontem com todos os cartazes publicitários da linha de Cascais em branco. Molduras retroiluminadas enquadrando o vazio que começa já a acolher graffiti e outras marés negras da cidade. Onde antes se prometiam felicidades ao alcance de qualquer bolsa, milagres imunes a qualquer recessão, hoje grita o nada. Com o mar sujo por cenário e suburbanos apressados por figurantes, a crise impõe-se como mensagem em si, como produto doméstico, slogan do olvido. Sei que há coisas mais prementes para dar conta, nos meus minutos ferroviários: horários ignorados, composições em ruína, olhares perdidos aos milhares, mendigos cada vez mais aflitos, o suicida que atrapalha as manhãs. Mas esta parada de moais indecifráveis a berrar nada parece- -me querer dizer muito; talvez mais uma mensagem do Poder, a juntar aos incitamentos à emigração, às “janelas de oportunidade” de onde nos podemos atirar. Pois que futuro nos prometem, como meta a alcançar depois de purificados por tanto sacrifício? Nada. Que fogo anima os vendilhões da desgraça, de Passos Coelho ao rapace Relvas? A nulidade. Que ramal nos levará a outras estações? Nenhum.

Num curioso filme de John Carpenter, alienígenas extorsionários escondiam nos cartazes sobranceiros às avenidas os seus mandamentos: “Conformem-se”, “Obedeçam”. Agora, nem o subliminar resistiu à erosão dos medíocres, às litanias dos sem-esperança; “Nada” é o nosso destino, a nossa viagem.