linha para nenhures


Por Luís Rainha

Pela primeira vez desde que viajo de comboio (são longas e chocalhadas décadas) dei ontem com todos os cartazes publicitários da linha de Cascais em branco. Molduras retroiluminadas enquadrando o vazio que começa já a acolher graffiti e outras marés negras da cidade. Onde antes se prometiam felicidades ao alcance de qualquer bolsa, milagres imunes a qualquer recessão, hoje grita o nada. Com o mar sujo por cenário e suburbanos apressados por figurantes, a crise impõe-se como mensagem em si, como produto doméstico, slogan do olvido. Sei que há coisas mais prementes para dar conta, nos meus minutos ferroviários: horários ignorados, composições em ruína, olhares perdidos aos milhares, mendigos cada vez mais aflitos, o suicida que atrapalha as manhãs. Mas esta parada de moais indecifráveis a berrar nada parece- -me querer dizer muito; talvez mais uma mensagem do Poder, a juntar aos incitamentos à emigração, às “janelas de oportunidade” de onde nos podemos atirar. Pois que futuro nos prometem, como meta a alcançar depois de purificados por tanto sacrifício? Nada. Que fogo anima os vendilhões da desgraça, de Passos Coelho ao rapace Relvas? A nulidade. Que ramal nos levará a outras estações? Nenhum.

Num curioso filme de John Carpenter, alienígenas extorsionários escondiam nos cartazes sobranceiros às avenidas os seus mandamentos: “Conformem-se”, “Obedeçam”. Agora, nem o subliminar resistiu à erosão dos medíocres, às litanias dos sem-esperança; “Nada” é o nosso destino, a nossa viagem.

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