23/08/13

portugal, terra queimada

Fotografia de Nuno André Ferreira/Lusa
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bandeiras às avessas


Foi premonitório aquele erguer de bandeira, por Cavaco Silva, num ido feriado de Outubro. Fomos vendidos. As nossas vidas, a nossa qualidade de vida, o nosso gosto pela vida. Venderam-nos ao desbarato. Connosco, foram empresas rentáveis, património nacional, tudo o que renda trinta dinheiros a nós, muitos milhões a eles, alemães, americanos, chineses, angolanos. E mais se seguirá, se esventrará. Os CTT, a TAP, o raio que os parta, os queime, os incinere. 

Nos últimos 2 anos, esmifraram-nos, esmifraram o País, venderam-nos. Vendidos!

vidas sofridas



soltem-se os escravos

Lisa Kristine é fotógrafa e luta pela libertação dos povos ainda sob o jugo da escravatura em pleno século XXI. Em minas de ouro, pedreiras, fábricas, a vida esvai-se por um pouco de pão. Sem poupar velhos, mulheres, crianças.

Gana


o regresso da sopa dos pobres como modelo de apoio social

Por José Vítor Malheiros

O filho mais velho de Cláudia tem dez anos e acompanha a mãe e os dois irmãos mais pequenos à cantina social de Matosinhos. Levam sacos com recipientes vazios que vão levar para casa com o almoço da família. Pai e mãe estão desempregados e o subsídio de desemprego não chega para cobrir as despesas e comprar comida para todos. Ao entrar na cantina, o rapaz cruzou-se com um colega da escola, que deve ter percebido o que a família ia fazer. “Que vergonha!”, disse o rapaz à mãe.

A história é contada numa reportagem de Ana Cristina Pereira, publicada há poucos dias nestas páginas, a par de um artigo de Andreia Sanches sobre o Programa de Emergência Alimentar. E nós não podemos senão repetir, como o filho mais velho de Cláudia, “Que vergonha!”.

Que vergonha que o Governo de Passos Coelho esteja a mergulhar cada vez mais famílias na pobreza, a destruir os apoios sociais a que todos os cidadãos têm direito nos momentos de necessidade e para os quais todos contribuímos, e a substituí-los por humilhantes programas de caridade, onde os direitos se transformam em esmolas, onde a dignidade das pessoas é ofendida, onde a sua autonomia é negada, onde a sua perda de estatuto é ofensivamente reiterada dia após dia.

É infame que o ministro Mota Soares envergonhe o filho mais velho de Cláudia, uma criança de dez anos cujo único crime é ter pais desempregados. É infame que o ministro Mota Soares apenas aceite alimentar os filhos das Cláudias em troca da sua humilhação. Mas Mota Soares, que de facto é não só ministro para a Promoção da Miséria mas também grão-mestre da Humilhação dos Pobres, não se fica por aqui. Há todos os dias milhares e milhares de crianças que comem a sopa da caridade, sob o olhar envergonhado dos pais, e que rezam para que nenhum colega da escola os veja entrar numa cantina social ou entrar de sacos vazios e sair de sacos cheios de uma IPSS ou de um Centro Paroquial. Mota Soares pode achar esta vergonha despropositada em miseráveis, pode considerar que todos eles têm muita sorte por ter a sua sopinha grátis e pode até argumentar que seria pior se não a tivessem, mas a questão é que o Estado tem o dever de proteger os direitos das pessoas em geral e dos seus cidadãos mais frágeis em particular e que estas doações não são senão retribuições que a sociedade lhes deve – como no-las deve a cada um de nós em caso de necessidade porque todos contribuímos solidariamente uns para os outros. Mota Soares não percebe que o seu papel é gerir os recursos de todos de acordo com as políticas solidárias que a sociedade colectivamente sancionou e não impor um programa de submissão dos pobrezinhos para aterrorizar os trabalhadores e facilitar o ataque aos seus direitos. Mota Soares não percebe que as pessoas são todas iguais em direitos e dignidade e que não pode impor aos filhos dos mais pobres o que nunca admitiria que fosse imposto aos seus filhos. Mota Soares não percebe que está a vender a sua sopa a um preço demasiado alto.

Mota Soares não percebe que é abjecto organizar apoios sociais de uma forma que humilha os necessitados, que eterniza a sua dependência porque não lhes permite qualquer autonomia e que nem sequer é a mais eficiente.

Há 415.000 portugueses que vivem de alimentos doados, quer pelo Banco Alimentar contra a Fome quer pelas cantinas sociais do Programa de Emergência Alimentar. Se somarmos a estes os que são alimentados por organizações privadas que não estão ligadas àqueles programas e por indivíduos a título pessoal, o número excederá certamente o meio milhão. Meio milhão de pessoas que só podem comer todos os dias se forem pedir comida.

O Programa Alimentar de Emergência cresceu paralelamente à redução das prestações e do âmbito do rendimento social de inserção (RSI), que apoia cada vez menos pessoas apesar do evidente aumento das necessidades, mas todos os especialistas consideram que um grande alargamento do RSI seria a medida mais justa, mais respeitadora da dignidade das pessoas, mais promotora da sua autonomia e até mais benéfica para a economia nacional. Porque é que o Governo gosta de distribuir sopa mas reduz o RSI? Porque o RSI proporciona uma autonomia que o Governo não quer promover. O RSI serve para fazer sopa ou para um bilhete de autocarro. A sopa é só sopa. Não permite veleidades.

Usando habilmente de uma propaganda sem escrúpulos, o Governo e a direita em geral conseguiram difundir a ideia de que o RSI promovia a preguiça e atrofiava a iniciativa, além de gastar recursos gigantescos. Era e é mentira, mas a campanha ajudou a estabelecer a sopa dos pobres como modelo social alternativo.

Mota Soares prefere dar sopa e anunciar que os pobres podem fazer bicha para a sopa. “É bom para o Governo e para a alma”, sonha Mota Soares. “É maravilhoso ter muitos pobres a quem dar sopa, porque quem dá sopa aos pobres pratica a caridade e quem pratica a caridade está na graça de Deus.” É por isso que Mota Soares exulta com a sopa dos pobres. Por isso e porque sabe que na bicha da sopa só estarão os filhos dos outros.

22/08/13

o segredo é a alma dos cobardes


O governo só revelará os cortes que vai fazer - ou, se se quiser ser cínico, a reforma do Estado - depois das eleições autárquicas. Bruxo! Coelho e afins não querem perder eleições. Não gostam de perder nem a feijões. Para as legislativas, Coelho mentiu com quantos dentes tinha na boca, e a gente sabe como a cremalheira lhe vai branca e sadia. Para as autárquicas, esconde. Não diz onde nos vai lixar, estropiar, gamar os parcos proventos que ainda restam a grande parte dos portugueses. Não diz que vamos ter ainda menos Saúde, menos Educação, menos amparo no desemprego e na velhice. Porque é aí e só aí que se vai reformar o Estado, mandá-lo para o galheiro, esfrangalhá-lo de vez, pô-lo de pantanas, fodê-lo. 

Os cavalheiros da alta - mais os da baixa política - por aí andarão de rabo alçado, no Estado "reformado", nas empresas públicas depenadas, nas empresas privadas que contratam senhores "estadistas" para que o Estado não lhes fuja, nos escritórios dos advogados que emitem pareceres para o Estado a milhares de euros por página, nos partidos do logro e do engodo, da grande farsa a que dão o pomposo nome de democracia.

Os grandes proxenetas da Nação por aí andarão entre segredos e mentiras, enriquecimentos e jogatanas. Nós, os da arraia-miúda, os parolos, os palermas, pagaremos como sempre a factura. 

É assim que queremos. Votando neles.

chegou o tempo dos chacais

Por Baptista-Bastos

Numa entrevista a Ana Sá Lopes, no jornal «I», Mário Soares disse que António José Seguro «o desiludira.» Este, numa resposta em que o desdém era apadrinhado pelo paternalismo palerma, afirmou que sentia por Soares «carinho» e «ternura.» Afinal, Soares confirmou o que se sabe, no PS e fora do PS e, ao reafirmá-lo, fê-lo com a sabedoria e o conhecimento de causa que faz dele o que Manuel Alegre designou (ao lado de Cunhal) por um dos dois últimos leopardos da política portuguesa. E Alegre acrescentou: «Agora, é o tempo dos chacais.»

Seguro não é o homem exacto para o momento dilemático em que vivemos. Desprovido de convicções, pouco culto, não possui estatura de estadista nem fibra para enfrentar a complexidade da situação actual. Mas ele é o reflexo actual do PS: sem grandeza nem estilo, sem leitura e sem desígnio a não ser o atabalhoado desejo de poder. Tony Judt, num livro a vários títulos extremamente estimulante, «Um tratado sobre os nossos actuais descontentamentos» [Edições 70, que tem publicado grande parte da obra deste autor], analisa o vazio ideológico da social-democracia, as suas debilidades éticas e as suas traições. Sem esquecer a quase total ausência de textos ideológicos.

Com a ascensão de Tony Blair a primeiro-ministro no Reino Unido, e a proclamada «terceira via», o «socialismo moderno» adquiriu um fôlego tão inesperado como patético. Recordo-me do entusiasmo delirante de António Guterres, cujas ideias também se respaldavam em… Bill Clinton, vejam só…, na paixão dele pela educação, e na fuga precipitada do «pântano» para o comovente lugar de comissário qualquer coisa dos refugiados. O meu saudoso amigo Fernando Lopes dizia que o «socialismo tinha chegado à pia de água benta», e chamava de beato António ao então primeiro-ministro.

Todas estas tropelias, embaraços e curvas apertadas formaram o PS que, notoriamente, deve ter muita força para aguentar com tanto. Votei uma vez no partido, exactamente no tempo de Guterres, atraído pela melodia do que ele dissera sobre educação. E tenho, entre os meus grandes amigos, militantes e dirigentes socialistas, alguns há mais de quarenta anos, como é o caso de João Soares.

Critiquei, por vezes duramente, José Sócrates. Apesar de tudo, o seu consulado possuía um objectivo e uma consistência que este Executivo de Passos Coelho está longe de alcançar. Passos trepou ao poder por um equívoco, e alicerçado em pequenos embustes e promessas que o tempo provou serem altamente perigosas. O poder pelo poder é algo que desprezo, pelo que comporta de malefício colectivo e pelas características de improviso que envolve. Durante este tempo todo, António José Seguro tirocinou na Jota, não se sabe em que trabalhou, e foi eurodeputado. Ganhou a vidinha, com reforma assegurada, e chamam-lhe «doutor». Enquanto o PS de Sócrates enfrentava as mais ferozes críticas de que há memória, Seguro estava de tocaia, aguardando, em silêncio cavo, uma oportunidade. Não tomou posição nem por um nem por outro. Caladinho que nem um rato, sabendo que o tempo corria a seu favor.

Antes, dissera, numa comentadíssima entrevista ao «Expresso», estar cansado da política e disponível para ir para o Parlamento Europeu. Move-se com movimentos estudados e ar grave. O grande jornalista Ricardo Ornellas dizia que, quem assim se exibe, é, somente, para impressionar os contínuos.

A subida de Seguro ao mais alto lugar do PS deve-se à desistência de outros, à negligência de alguns e à indiferença de muitos. Mas resulta de uma espera, cautelosa e paciente, minuciosa e astuta, deste homem de qualidades duvidosas e de «socialismo» imperceptível. O desconforto que se vive, no interior do partido, é semelhante à preocupação dos portugueses, com a possibilidade de Seguro chegar a primeiro-ministro. Mário Soares acreditou, inicialmente, neste homem que conhecia de rapaz, e agradava-lhe o tom cerimonioso e a educada reverência com que se lhe dirigia. Depois, o PS não dispunha de mais ninguém, logo que António Costa não estava inclinado a dirigir o partido. A crise era, e é, mais grave e aparentemente insolúvel do que se presume e presumia.

Chegámos a esta situação deplorável. Um vazio político que o PS não preenche porque não suscita credibilidade a ninguém, e um Governo de coligação PSD-CDS moribundo, sem hipóteses dse futuro, que arrasta Portugal e os portugueses para uma miséria irreparável.

Marcelo Rebelo de Sousa, com a graciosidade que se lhe reconhece, disse que «a quarta idade» de Soares não lhe obnubilara a intuição política. A deselegância está à vista, mas com um lado de verdade que se lhe não nega. Ao afirmar, a Ana Sá Lopes, que António José Seguro o desiludira, Mário Soares deu imagem e voz ao nosso comum desalento.

o cabo das tormentas

Por Viriato Soromenho-Marques

É compreensível a satisfação decorrente do crescimento ocorrido, no segundo trimestre, na Zona Euro (0,3%), e em Portugal (1,1%). O que não é aceitável é o apelo a uma espécie de terapia psicológica do otimismo, pois isso afasta-nos a todos, cidadãos e atores políticos, daquilo que é essencial: conceber, consensualizar e implementar estratégias que permitam não um crescimento qualquer (as "bolhas" são um exemplo de um crescimento que serve poucos durante um curto período) mas sim um verdadeiro desenvolvimento sustentável, respeitando os direitos das pessoas e os limites ambientais, um desenvolvimento que não devore o futuro. Infelizmente, o que temos visto em matéria de propostas económicas avulsas, por parte dos governos tutelados pela troika, é uma cosmética sem rasgo. E a prova da profunda patologia que nos atinge reside num indicador que não para de crescer: o do desemprego jovem (população ativa dos 15 aos 24 anos). Na Grécia já afeta 64,9%. Em Espanha, 56%. Em Portugal, os valores escalaram nos dois anos de "ajustamento" (entre junho de 2011 e junho de 2013), de 24,7% para 41%. Em toda a OCDE existem 26 milhões de jovens NEET (que não têm emprego nem nenhuma atividade de educação ou formação). Paradoxalmente, nunca estes países possuíram uma juventude com níveis tão elevados de literacia. A criação de uma "geração perdida" é a maior confissão de que o atual modelo económico e político perdeu a ligação ao futuro. E nunca como hoje, Portugal, a Europa e o mundo precisaram tanto desse contributo inovador, que só os jovens estão habilitados a dar. Resta às políticas públicas darem rosto à esperança necessária. Ou prepararem-se para absorver as ondas de choque de uma revolta inevitável.

no extremo do oriente

21/08/13

passagem para a índia


o regresso de portugal aos alegres tempos do salazarismo


Segundo as estatísticas, os portugueses trabalham mais horas do que qualquer povo desta coisa a que se convencionou chamar União Europeia, mas que de União não tem nada. Segundo as estatísticas, só os búlgaros viajam menos do que os portugueses que, até cá dentro, gozam menos férias a não ser nas suas casas com, quanto muito, umas idas à praia e uns biscates para equilibrar o orçamento. No entanto, os Coelhos, os Cavacos, os Ulrich, os Catrogas, os Belezas, os Borges, os Mexias, os Mira Amarais, as Merkel, os Barrosos e os seus papagaios amestrados ousam apontar-nos o dedo, acusando-nos de ter vivido acima das nossas possibilidades. Dizem-nos que é preciso acabar com os privilégios que conquistámos com Abril, luxos que eles, empresários e serventuários sempre prontos a baixar as calcinhas aos seus amos, não aguentam conceder. Juram-nos que os alemães trabalham mais do que nós, que os ingleses têm menos férias do que nós, que os nórdicos têm menos feriados do que nós, que fomos estragados com mimos, que temos dinheiro a mais, direitos a mais. Dinheiro e direitos que, agora, nos vêm sonegar despudoradamente, vilmente, alarvemente. E, por cada direito que nos roubam, justificam-se com estudos aprofundadíssimos, dados indesmentíveis (mas nunca revelados) que demonstram, à saciedade, que as leis a implementar por cá para nos tramar, e tramar nem sequer é a palavra que merecia ser escrita, estão em sintonia com as que se praticam no resto da Europa. Por isso trabalhamos mais, ganhamos menos, viajamos menos, temos menos protecção no desemprego, na doença, na velhice. Para que, de europeus, tenhamos os deveres. Nunca os benefícios. Tratados como párias, enriquecemos os verdugos.

Diz-se que dos fracos não reza a história. E dos sacanas, dos mentirosos, dos bandidos e bandalhos de que o poder é feito?

gentes do mundo


que mundo é este, que mundo?

La surconsommation from Lasurconsommation on Vimeo.

vernáculo do melhor, daquele que alivia a tripa

20/08/13

não sei se isto é rap, se é hip hop, mas é bom e recomendo

Uma canção dedicada ao Sr. Coelho. Uma belíssima surpresa. Há gente boa por aí. Talentosa e consciente. Uma lição para os dormentes, inconscientes, ausentes.

à sua saúde, frau fett


Frau Fétida tem muita pena dos povos do Sul, que não governam nem se deixam governar. Tem sido tão bondosa a Frau, manda-nos rios de dinheiro para nos ajudar a superar a crise. Claro que, em troca, pede disciplina, como boa alemã que é. Pede rigor aos pobrezinhos, austeridade para todos menos para os mais ricos que esses, coitados, não têm culpa se o povo, a escumalha, a ralé, andou a viver acima das suas possibilidades, com dias de férias a mais, salários a mais, feriados a mais, regalias a mais. E horas de trabalho a menos, disciplina a menos, resignação a menos, humildade e humilhação a menos.

Entrementes, a Alemanha já ganhou 41 mil milhões de euros em juros, à conta dos otários do Sul. É um mero efeito colateral que nada, mas mesmo nada tem a ver com a bondade, a generosidade, a candura e a ternura da Frau Fétida. Frau Fétida é boa. Frau Fétida é amiga. Tchim Tchim Frau Fétida. Que a terra lhe seja leve. Quando chegar a sua hora.

19/08/13

porto de portugal

charlie foi mais do que charlot

valha-nos nossa senhora de fátima!


Depois de Jonet, depois de Ulrich, depois da Espírito Santo, temos agora Fátima Lopes, a estilista. Diz ela, para justificar o uso de peles em confecções de luxo, que envergar raposa é o mesmo que comer um bife. Não vem à colação se nos devíamos tornar todos vegetarianos, muito menos o método de abate dos animais, em tantos casos repugnante e cruel. O que está em causa é a burrice da menina. A Fátima desconhece a diferença entre matar por necessidade e matar por vaidade, por ostentação. A Fátima nunca poderia ter sido um dos pastorinhos. A Fátima nunca poderia ter surgido do céu sem ser por acidente de pára-quedas ou de balão. O santuário da Fátima tem moedas em vez de hóstias, champanhe por água-benta, vestidos de noite por paramentos.

Portugal anda bem servido de cabeças de vento, crápulas, ricaços vitimados, coitados, pelo egoísmo, a avidez do lucro, o desprezo pelo, no dizer cristão, seu semelhante.

Jesus disse que deles nunca seria o reino dos céus. Esperemos que, ao menos Ele, tenha sabido cumprir uma promessa.

solidariedade







Em Itália, os banhistas formam um cordão humano para ajudar a desembarcar 164 refugiados sírios. Ainda há corações a palpitar no mundo.

lisboa anima-se

artesãos do futuro

em sintra, magia não falta

anda, vem ver lisboa

18/08/13

o chulé da princesa


A gente nunca sabe até que ponto a imprensa (já tomada por Angola?) aposta na notícia que não é notícia, na superficialidade. Até aqui, era o divórcio de fulana, o Ferrari de beltrano, a festarola deste, o corpete daquela. Mas o ser humano é criativo, há que ir mais longe, explorar diferentes horizontes, dar à ralé o que a ralé pede mas em doses mais abundantes ainda, mais sofisticadas. E é assim que o DN, ou os artistas da palavra que por lá laboram, se lembraram dos delicados pés da princesa das Astúrias, Letízia de seu nome, rainha de sua sina, mais ano, menos ano. Esclarece o DN, iluminando-nos a vida, o espírito, a inteligência e sei lá que mais, que a princesa, até agora, costumava aparecer em público com as unhas dos pés pintadas em verniz de tons claros ou mesmo transparente. Contudo, toquem as fanfarras, rufem os tambores, surgiu agora com as unhas, as dos delicados pés, pintadas de vermelho. Ganhei o dia, fiquei mais esclarecido, infinitamente mais culto. Quanto mais não vale saber isto do que o que se passa no Egipto, no Sudão, na China, na Índia, no Iraque, com os seus milhões de pés descalços? Quanto mais não vale o chulé de uma princesa?

diário de lisboa

Ele, só sei que é do sexo masculino mas não lhe conheço nem nome nem idade, anda por Lisboa de máquina em punho. Capta tudo o que lhe enamora o olhar, jardins sem cimento, gente sem lágrimas, objectos de culto, casarios de cores, marcos e marcas, ruas e ruelas da cidade bela, nossa ainda. O resultado são tesouros.

Veja com os seus olhos:


bichas na avenida


Cartier, Prada, Gucci, Louis Vuitton, Boss, Carolina Herrera, Dolce & Gabbana, estas e muitas outras marcas de luxo assentaram arraiais na Avenida da Liberdade onde os angolanos, os chineses, os brasileiros, os colombianos, os mesmos que agradecem a Portas o vistozinho dourado, o passe para a Europa do bas-fond milionário, fazem as suas comprichas e gastam em quinze minutos o que muitas famílias portuguesas não gastam num ano inteiro. Outros donos das marcas, donos do mundo afinal, que gostam mais do cheiro do dinheiro do que de um perfume de gabarito, já estão a abrir a mandíbula esfomeada porque, num país onde a miséria se espalha como peste, o negócio do fútil e do inútil vai de vento em popa lá para as bandas do Passeio Impúdico. Tanto assim é que, segundo reza o DN de hoje, há filas de espera para alugar ou comprar um espaço que, na avenida da opulenta liberdade, sirva de loja de cebolas, cachuchos e trapicalhos onde os afiambrados da estranja vão gastar folhas de alface como quem consome pipis e caracóis na tasca do Mal-Lavado.

Descansem as almas pias, que o diabo não veste Prada só. Veste Boss, veste Armani, veste D&G, veste Zegna, veste Gant, qualquer rodilha lhe assenta bem desde que concebida por uma qualquer prima-dona do alfinete, confeccionada num qualquer resort de trabalho escravo.

Mais aqui:
http://www.dn.pt/inicio/economia/interior.aspx?content_id=3376791&seccao=Dinheiro%20Vivo