01/10/14

o mal-amado



Por Baptista-Bastos
http://www.dn.pt/

A derrota de António José Seguro, pela extensão e pelo número, configurou o escorraçar de um mal-amado e o desfazer de um equívoco. A política do secretário-geral do PS (ou, melhor, a falta dela) para enfrentar e combater a agenda do PSD; os indícios fornecidos pelas grandes manifestações populares; as decisões do Governo, cada vez mais autoritário e infenso aos clamores e às angústias da população, tudo isso exigiam uma disposição, uma coragem e, sobretudo, uma força moral de que Seguro não dispunha.

As suas intervenções, no Parlamento e fora dele, a falsa desenvoltura e o oculto embaraço; a miséria de uma retórica que personalizava tudo com um "eu quero" enfático, haviam feito deste homem obsoleto a caricatura de um político a sério. Adicione-se a estas falhas as deficiências de carácter, reveladas logo após a queda de Sócrates, que apenas por pudor não insisto em relembrar.

Durante a campanha assistimos à simpatia com que Seguro era tratado por elementos do Governo, e por comentadores e jornalistas estipendiados, e ao mal dissimulado desdém destes por António Costa. Sem esquecer as afirmações do Marcelo e do Marques Mendes, os quais entendiam que uma vitória de Seguro seria mais benévola para Passos Coelho. Penso que as coisas não são assim tão distendidas entre Costa e Seguro, mas o primeiro provém de outra cultura ideológica, de outra família política e de predicados consolidados em lutas antigas e nobres. Um legado nada despiciendo.

Não se pense que, assim de repente, Costa vai restituir as funções, as noções e os princípios comuns a um partido socialista, há muito esquecidos e traídos. No Fórum Lisboa revi muitos daqueles que ressuscitam sempre que lhes cheira a poder, a empregos e a funçanatas.

O PS, cheio de artroses, de vícios e de cãibras, tem de ser removido, e Costa e os seus enfrentam trabalhos e ciladas enormíssimos. Esta é a questão mais premente que se apresenta. Que Partido Socialista deseja António Costa, depois de desenterrar velhos símbolos, como o punho erguido, e o cravo vermelho, afastados do proscénio, como se ambos não fossem pertença de uma longa história resistente e sem donos?

Os obstáculos que o grande vencedor das primárias vai encontrar têm que ver com os que querem um PS sossegadinho e brunido, de vã retórica e absorto no "deixar andar", e aqueles que ambicionam rumar a outros portos. A votação de domingo surge como o despertar de qualquer coisa de veemente e de profundo. Claro que a participação dos "simpatizantes" e o número significativo dos votantes, aparentemente não filiados, sugerem outras injunções e permitem admitir que os "externos" deram um impulso poderoso ao movimento das coisas. Os sinais e as exigências de mudança, no partido e no País, não podem ser ignorados por uns e por outros.

30/09/14

publicidade de mau gosto

Para vender seguros, não vale tudo.

é do costa que o povo gosta

Sem levar um tusto à tesouraria do Rato, deixo aqui o slogan para a próxima campanha eleitoral. Costa ganhou as primárias, secundário assunto a merecer horas de televisão, honras de prime time, comentadores aos magotes, militantes aos pinotes, opositores aos dichotes, excitantes directos, entusiasmantes discursos, abraços à esquerda e à direita, aplausos, urros de vitória numa bambochata de glória para Costa e para quem dele gosta.

Até eu fiquei contente. Livrar-me da cara de Seguro, da voz de Seguro, do ridículo de Seguro é um seguro para a minha sanidade e uma pontinha, só um pozinho de esperança. Mas, depois, rodeando Costa, cumprimentando Costa, apoiando Costa com os olhos postos no futuro e nas rubicundas alcavalas dos amanhãs que cantam, lá estão as sombras, as nuvens, o lusco-fusco, uns Lacões, uns Perestrelos, umas Estrelas, uns Sócrates, e lá se vai toda a esperança, ainda que ténue, tão modesta, tão remediada como o Passos da Tecnoforma. Bato-me, belisco-me, insulto-me e digo de mim para comigo: não sejas ingénuo, és uma besta pá!

Seja como for, mal Coelho caia, mal Coelho saia da toca onde nunca devia ter entrado e, por magia negra e benfazeja, entre na cartola de onde nunca devia ter saído, irei feito atoleimado buzinar para o Marquês, a rotunda de onde sai a Liberdade e que conduziu à República. 

Não me levem a mal os ímpetos, a efémera alegria, o arroubo passageiro.

Não estarei lá para comemorar Costa, de quem o povo tanto gosta. 

Estarei lá para celebrar o fim de um pesadelo, o estertor da longa noite quasi-fascista, o estrebuchar do Coelho, o peido-mestre da laranja amarga.

http://eternamentebenficablogspot-com.blogspot.pt/

28/09/14

quem cabritos vende ...

Diz-se por aí que Pedro Passos Coelho - remediado assumido - já não mora num modesto andar em Massamá mas numa "bruta" moradia em Santo Amaro de Oeiras.

Tenho por hábito não comentar nem replicar boatos, mentiras ou tudo aquilo que, embora sendo verídico, não está ainda confirmado. Desta vez abro uma excepção uma vez que não acredito, tenho esse direito até prova irrefutável em contrário, na virginal inocência de PPC. Não me basta a palavra de PPC, por razões que saltam à vista do mais incauto.

A ser verdade que Passos tem casa nova, e de estadão, já se sabe que, quem cabritos vende e cabras não tem, de algum lugar lhe vem. E esse lugar não terá sido, certamente, a Incrível Almadense. Almada poderá ter sido palco de outras incríveis encenações. 

Como diria o outro: habituem-se. Políticos e governantes têm sim, têm que fazer strip-tease - seja ele bancário, policial, jurídico - sempre que a sua idoneidade e honra sejam postas em causa.





os tecnofórmicos


Por Rui Cardoso Martins
http://www.publico.pt/

Abuso, aldrabice, ardil, chico-espertice, crime, descaramento, desonestidade, esquema, engodo, esquecimento, falsidade, fraude, garganeirice, intrujice, mentira, moscambilha, ocultação, pantominice, trapaça. Tanta palavra que já não faz falta, segundo o Novo Dicionário da Língua Portuguesa do Professor Marcelo. Basta “desleixo”. Exemplo: um assaltante mascarado de primeiro-ministro desleixou ontem os cofres de uma agência bancária de Massamá.

As Relvices Pagam-se Caro, Coelhinho? é uma obra de referência para a infância e a juventude social-democrata, de autor anónimo, que só está à espera de editora e do prefácio do chefe parlamentar do PSD, Luís Montenegro, o homem mais probo do pior ramo da maçonaria portuguesa. Sobre o livro, o insigne especialista-geral Marcelo Rebelo de Sousa já preparou a apresentação pública, com um toque do Padre António Vieira e do famoso “ou o sal não salga, ou a terra não se deixa salgar”. Diz Marcelo sobre a acusação de pagamentos da Tecnoforma a Passos Coelho: “Das duas, uma. Ou isto aconteceu, ou não aconteceu. Ou não aconteceu e não há problema. Ou aconteceu e também não há problema, entendido?”

A História de Portugal enriquece-se com mais um episódio em que, como diz Montenegro, um primeiro-ministro demonstrou “múltiplas provas de seriedade” contra “acusações e insinuações contra ele”, como foi o caso do aumento dos impostos, que nunca aconteceu quando ganhou as eleições. Ou da Tecnoforma, a empresa de formação de fantasmas em aeródromos vazios, com a qual nunca foram enganados eleitores e contribuintes europeus.

Se tudo tem um preço, talvez a vergonha alheia que aí anda nas ruas possa custar apenas 150 mil euros (não declarados às finanças). É barato, uma pessoa até se esquece. Eu nem sei o que comi ontem com o Miguel Relvas, como é que me vou agora lembrar que foi lagosta de Angola e berbigão à Manta Rota?

Ao que tudo indica, um ácido corroeu as memórias dos nossos governantes. Segundo vários especialistas a quem damos a oportunidade de inventar uma boa teoria política, há fortes possibilidades de se tratar de ácido fórmico, o mais simples dos ácidos orgânicos. Encontra-se por todo o lado na natureza, basta lembrar que, a primeira vez que foi isolado, ocorreu por destilação do corpo de uma formiga. É portanto de colocar a hipótese, em bom português passo-coelhês, de que haja a possibilidade de, eventualmente, numa hipótese que neste momento não podemos avaliar, porque passaram muitos anos, de que alguma coisa possa ter escapado inadvertidamente ao conhecimento dos envolvidos, isto é, que Miguel Relvas se tenha contaminado nas meninges com grandes quantidades de ácido fórmico largado pelas terríveis formigas vermelhas da selva amazónica, tidas por alguns cientistas como as verdadeiras culpadas das chuvas ácidas nas florestas europeias, pelo fenómeno da evaporação do Amazonas, quando o ex-ministro Relvas ia ao Brasil tratar dos seus negócios com viagens-fantasmas pagas pelo Parlamento, ou para financiar o mensalão brasileiro.

É portanto de crer que o contacto permanente entre Passos Coelho e Relvas — agora no Conselho Nacional do Partido — tenha induzido o primeiro-ministro a deixar acidificar-se-lhe o cérebro composto de vigorosa fibra moral, para agora se esquecer das fortunas que recebeu não se sabe a fazer o quê, mas coisa boa não parece que tenha sido. É uma teoria consistente como o nosso crescimento económico.

A Procuradoria-Geral da República que investigue, porque é para isso que o Estado paga aos tipos e as nossas cabeças parecem as de duas formigas tontas e não se lembram bem. O ácido fórmico também se chama metanóico, mas devia chamar-se ainda paranóico. Deixem-me trabalhar!, como diz o outro. Por falar nisso, o Presidente não se esqueceu também da casa do Algarve e das acções do BPN/SLN? O tempo apaga tudo. E uma mão unta a outra.

Entretanto, já está pronto o rascunho de uma suposta carta de reintegração/resignação que talvezpossa deitar luz sobre este relvado às escuras. Os mais atentos repararão que, desta vez, não se fala em exclusividade porque, pelos vistos, como explicou Marcelo, isto era o que eles faziam todos nos anos 90. Desleixavam-se, pronto. Mas de repente as pessoas ficaram tão aborrecidas, isto não lembrava ao careca.

Exmo. Senhor Presidente da República:

Tendo eu, um vosso admirador, requerido a V. Exa. a atribuição do subsídio de dissimulação, ao abrigo do artigo remuneratório e ilusório dos governantes, venho agora, por solicitação de uns chatos do PÚBLICO (uns tais de Cerejo e Pena) e do EXPRESSO, que não me largam, informar que desempenhei as funções de primeiro-ministro, durante o XIX Constitucional, em regime de manifesta falsidade.

Subscrevo-me, com os cumprimentos mais cordiais,

Pedro Miguel Relvas de Passos Coelho