20/06/14

portugal enforcado

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Com a austeridade, Portugal ficou mais austero. Um jovem algarvio fez a instalação que se vê na fotografia, artisticamente duvidosa mas de mensagem eficaz. Tão eficaz que o Estado, por via sabe-se lá de quem, resolveu processar o estudante - pois de um trabalho escolar se tratou, pelo qual recebeu aliás uma excelente classificação -, por injúrias à bandeira.

O governo, que desde que tomou posse sempre mostrou as suas tendências totalitárias, esse sim, não cessa de injuriar uma das mais importantes instituições nacionais, o Tribunal Constitucional, chegando ao ponto de dizer que os seus juízes não prestam, que têm que ser melhor escolhidos. Mas, esse, esses que o compõem para desgraça de todos nós, passam incólumes com a complacência de um outro símbolo pátrio, este encavacado, este encalacrado.

A Justiça está como está, esperam-se anos por uma sentença. Mas, célere, vai tentar condenar um rapaz por, tão simples quanto isto, ilustrar numa instalação, em terreno privado, o que a maioria dos portugueses sente sobre o estado a que o Estado chegou.

Que não haja a mínima dúvida: somos um povo de enforcados. E é o povo que faz um país, não os governantes, tão sensíveis e bons que não podem ver uma bandeira que não esteja hasteada como deve ser, em edifícios públicos, orgulhamente, verde de esperança e rubra de vergonha. Como nós.

Tal como nós.

19/06/14

o costa da concórdia

António Costa apresentou ontem a sua candidatura. Cordato, com aparente candura, apelou à concórdia entre todos nós, acenou à esquerda e à direita, como se o azeite se pudesse misturar com água.

Para bem de Portugal e dos portugueses, esperemos que não lhe aconteça o mesmo que ao outro Costa. Concórdia.

de enxúndias bem tratadas

Há miúdos a desmaiar em salas de aula, com fome. Há cada vez mais gente a recorrer às cantinas sociais. O governo vai dar não sei quantos milhões para empreendedorismo social. Empreendedorismo social, não mais do que caridade assim a puxar para o fino, quem melhor do que os nossos governantes para reinventar a língua portuguesa?

Já não há saraus de beneficência. Agora há empresas de esmolas, subsidiadas pelo Estado. O Estado corta nos apoios sociais directos, no RSI, no Abono de Família, nas Pensões de Sobrevivência, em tudo o que cheire a solidariedade social. Em vez disso, aposta nos santos empreendedores, com a Jonet dos bifes no topo da lista dos felizes eleitos para fazer o bem sem olhar a quem, à gentalha sem iniciativa, aos calaceiros que não querem fazer nenhum, aos desempregados que se habituaram à boa vida, aos doentes com saúde para trabalhar, aos velhos que já deviam ter morrido há muito, são um incómodo e uma despesa para as gerações mais novas.

Há miúdos cheios de fome. Há graúdos de bandulho cheio. A abjecção tomou conta do País. 
















15/06/14

a culpa foi do sócrates!

Juro que não gramo o Sócrates nem com água de rosas, muito menos com molho de tomate que é vermelho, credo!, mas quando oiço a direitíssima manada que nos governa culpá-lo, ou pior, culpar-nos a nós que, tendo dos salários mais baixos da Europa ainda assim tivemos o arrojo de andar a viver acima das nossas posses, confesso que me dá cá uma raiva difícil de suster.

A crise, para quem ainda não tenha dado por isso, despoletou-se nos Estados Unidos em 2008 e espalhou-se ao comprido, atingindo a Europa e, claro, as economias mais fracas primeiro. Porque são sempre os pobres que pagam as crises, já se sabe, sempre se soube mas, ainda assim, custa a engolir tal a dimensão da cabrada.

Lá, pelos States, foram a Lehman Brothers, a AIG e outras seriíssimas instituições financeiras, que julgaram, e ainda julgam, que o mundo é um casino e que cada país é uma roleta onde podem jogar e perder o que quiserem porque alguém há-de pagar, não eles, meros jogadores de ocasião. Por cá, já são muitos os escândalos, os rombos, os casos de polícia, desde o BPN, cujos responsáveis andam à solta ou quase, até ao mais recente affaire do BES, da omnipresente, omnipotente e se calhar omnisciente família Espírito Santo, não da Santíssima Trindade, longe disso apesar de venerarem o seu Deus, que não é o mesmo Deus dos pobres, mas os Espírito Santo da alta, os mais finos entre os finos, a nata da nata, o crème de la crème neste torrãozinho povoado de invejosos, paupérrimas e desprezíveis criaturas que não sabem amealhar um tostão, uns perdulários que nunca hão-de passar da cepa torta, ignorantes, crédulos, estúpidos.

Se, nos idos de 75, a sagrada família sobreviveu e enriqueceu ainda mais, não há-de ser agora, por uma ninharia, uma merdice, que vão pelo esgoto abaixo. Os piaçabas para toda a obra, o povoléu encardido, cá estará para lhes limpar a porcaria e, no final, pagar a conta.

Santos da casa, com o Senhor dos Passos à cabeça, fazem milagres. Nós aguentamos. Ai aguentamos, aguentamos. Só precisamos de chamar a D. Inércia, para que o crime fique sem castigo, e de culpar o contabilista.

E o Sócrates. Não esqueçamos o Sócrates.