31/12/12

a festa da repartição dos sacrifícios


O ministro Adjunto e dos Assuntos Parlamentares, Miguel Relvas, foi passar os últimos dias do ano ao Rio de Janeiro, Brasil, e esteve num dos mais luxuosos hotéis da “Cidade Maravilhosa”, o emblemático Copacabana Palace. Mas não foi o único. O ex-administrador do BPN – Banco Português de Negócios, Dias Loureiro, e o ex-ministro das Cidades, Administração Local, Habitação e Desenvolvimento Regional, José Luís Arnaut, também lá estiveram. [ in jornal "i" ]

É a chamada repartição dos sacrifícios de que o Passos Coelho gosta tanto de falar. Uns fazem o sacrifício de passar por dificuldades e até miséria e fome, outros o de ir para hotéis de luxo em Copacabana festejar o Ano Novo. Claro que há os que têm pouco para festejar em relação ao ano que finda e menos a esperar do que aí vem, enquanto outros só se podem congratular pela forma como lhes correu a vida em 2012 e pelas perspectivas que 2013 lhes oferece. Festejam o aumento das suas riquezas pessoais, das negociatas, das privatizações, dos tachos e até da simpatia de uma justiça que lhes permite continuarem impunes perante casos como o do BPN. Até quando não sei porque espero que, no novo ano, os portugueses finalmente percebam que este país é deles e que os gatunos que enriquecem à custa da sua miséria só lá estão porque os deixam lá estar, e que finalmente lhes peçam responsabilidades e os façam pagar por tudo o que roubaram. Este são os meus votos para 2013.

Texto e imagem: http://wehavekaosinthegarden.wordpress.com/

diga não ao roubo generalizado!


Ah!, se fosse só o assalto fiscal a atazanar-nos a vida e a bolsa em 2013! Mas não. De repente, como quem não quer a coisa, os nossos queridos fornecedores de água, gás e electricidade, mais a Segurança Social, as Finanças e o diabo a quatro, descobriram que estão sem dinheiro (ou querem mais dinheiro) e, mais uma vez, temos que ser nós a contribuir para a nacional-gulodice. De repente, como quem quer a coisa, assaltam-nos as caixas de correio com contas para pagar, de despesas que não fizemos, de dívidas que nunca sonhámos ter. Os contadores, esses, passaram de contadores a corredores de fórmula 1, em desvairada aceleração. As dívidas, dizem eles, ascendem a muitas centenas de euros. Porque os angolanos, os franceses, os chineses e outros malteses, a quem entregámos de mão beijada as nossas empresas, e mais as que estão para alienar em nome da dívida pública e da sordidez dos políticos que nos desgovernam, pedem mais, querem mais, exigem mais.

Por isso, amigos, se lhe chegarem a casa facturas de tortuosos montantes, protestem, façam-lhes a vida negra, azucrinem-lhes os cobiçosos neurónios, refilem até que os dedos e a garganta vos doam, escrevam-lhes emails e cartas, recorram à Deco, não os deixem respirar, muito menos de alívio. Peçam a verificação (aferição, dizem eles) dos contadores a entidades credíveis. Sobretudo, desconfiem. Desconfiem muito. Essa gente não é gente de bem, aprendeu com o Estado que temos e a quem, alega Coelho, alega Gaspar, alegam Borges e os nossos banqueiros, devemos mundos e fundos. Este mundo e o outro.

Todos os assaltos têm um fim. E os criminosos, num país como deve ser, vão parar com os costados à cadeia.

balanço de 2012

O abismo aproxima-se perigosamente mas uma voz bem colocada, de tenor frustrado, manda-nos prosseguir e cicia-nos que "estamos no bom caminho", que esta é a saída "custe o que custar". Milhares de pessoas ficaram sem o seu ganha-pão. Outras perderam as suas casas. Outras, mas essas não interessam para as estatísticas, perderam as vidas. Milhares emigraram. Milhares passam fome. Milhares vivem numa angústia que os não deixa dormir, respirar, sorrir. Mas, comparado com o ano que aí vem, este que agora acaba foi apenas o primeiro acto de uma tragédia onde todos seremos protagonistas. E vítimas.

escondam as carteiras!


Rezam as últimas notícias, fresquinhas da silva, que o Sr. Silva de Boliqueime acaba de promulgar o Orçamento de Estado. Não me espanta. Nunca vi um presidente ... digamos ... tão isento, tão imparcial, tão cioso da coesão nacional, tão apostado em defender a Constituição.

Tartamudeou o senhor presidente, num dia que lhe deu para o humor, faceta onde também revelou total falta de jeito, que o silêncio é de ouro. Neste caso, acho eu e acha muita gente, não é. É de pechisbeque e do mais rasca. Não vale um cavaco.

E, tal como prevíamos que o orçamento do assalto fiscal iria passar pelo crivo presidencial, também podemos desde já antecipar o próximo capítulo: tal como está, o documento será considerado inconstitucional mas, dada a crise que o país atravessa, terá o beneplácito do Tribunal que, tal como o senhor presidente, jurou fazer cumprir a Constituição.

E o assalto consumar-se-á. Escondam as carteiras. Guardem as pratas, se ainda as tiverem. Fujam enquanto é tempo. O pior está para vir.

o ano em que passos coelho matou o natal

Por José Vítor Malheiros
http://versaletes.blogspot.pt/

Surpreende que um dos feriados eliminados não tenha sido o Natal, tal é a sanha anti-humanista dos rufias no poder


1. Este Governo neo-liberal perturba de tal forma toda a vida da sociedade e interfere com tal despudor na nossa vida que não é possível encontrar um rincão deste Natal onde ele não espreite, empeçonhando o que normalmente seria um momento de comunhão, de tranquilidade e de esperança. Do dinheiro que não há para prendas e festas à ansiedade perante o ano que vem, do receio pelo futuro dos nossos filhos à vergonha que sentimos pela pobreza crescente e à repulsa pelo reaparecimento da caridade como cínico instrumento de desumanização, tudo contribui para impedir que, mesmo no mais recolhido dos momentos, possamos acreditar que é possível dar, neste Natal, um passo em direcção à paz na Terra aos homens de boa vontade.

É curioso que não há na ideia de austeridade nada que contrarie o espírito cristão do Natal. Uma verdadeira austeridade rima com frugalidade, só que rima também com honestidade, igualdade e entre-ajuda, conceitos que escapam aos governantes que temos. Tudo o que se esconde atrás desta mascarada de austeridade que Passos Coelho, Vítor Gaspar, Miguel Relvas e Mota Soares representam é desigualdade, favorecimento, empobrecimento, benefícios aos ricos, subserviência perante os fortes, despotismo perante os fracos, hipocrisia, descaramento, desumanidade. O contrário do que gostamos de pensar que é o espírito de Natal. Surpreende que um dos feriados eliminados não tenha sido o Natal, tal é a sanha anti-humanista dos rufias no poder.

Este Natal haverá uma menina dos fósforos que vai morrer de frio e Passos Coelho vai fazer um brinde com Mota Soares e dizer-nos que está tudo a correr como previsto.

2. O que se pode fazer quando um Governo, formado com base num partido que foi o mais votado em eleições democráticas, com base em determinadas promessas eleitorais, viola flagrantemente e sistematicamente os seus compromissos? O que se pode fazer quando esse Governo se apoia numa coligação parlamentar que, apesar de todas as fissuras e incomodidades que exibe, parece disposta a apoiar o governo faça este o que fizer, destrua o que destruir e minta o que mentir? O que se pode fazer quando um Governo não hesita em meter a mão no bolso de todos os portugueses, incluindo os mais pobres mas protegendo os verdadeiros ricos, para financiar as "dívidas incobráveis" que os seus correligionários políticos deixaram no BPN? O que fazer quando um governo aproveita uma situação de emergência para vender património público em condições lesivas do interesse nacional? O que fazer quando um governo aproveita uma situação de emergência para pôr de lado a Reserva Ecológica Nacional e abrir caminho a todos os abusos? O que fazer quando um governo põe em prática uma estratégia de enfraquecimento do Estado para enriquecer as empresas que irão posteriormente vender os serviços essenciais de saúde, educação, protecção social, energia, água e transportes que o Estado vai deixar de fornecer? O que fazer quando o Governo abusa do poder de cobrar impostos para empobrecer os portugueses e fragilizar a posição dos trabalhadores perante os patrões? O que fazer quando o Governo prefere pagar juros agiotas aos banqueiros a fornecer protecção social aos mais fracos? O que fazer quando o governo tenta usar a polícia para intimidar os cidadãos, acusando pacíficos activistas de um crime inexistente de "manifestação não autorizada", à boa maneira fascista? O que fazer quando o Governo atropela os direitos dos jornalistas e permite que a polícia aceda a materiais protegidos pelo sigilo profissional sem se dar ao incómodo de obter um mandado judicial? O que fazer quando um governo coloca o país numa situação de chantagem tal que o próprio Tribunal Constitucional fecha os olhos ao que ele próprio considera inconstitucional? O que fazer quando um primeiro-ministro tem uma tal desfaçatez que acusa no Parlamento uma deputada de dizer falsidades, em tom intimidatório, quando esta cita uma declaração sua, feita meses antes, no mesmo Parlamento e que todo o país viu e ouviu? O que fazer quando se tem um Miguel Relvas no Governo? O que fazer quando se tem um Mota Soares na Solidariedade? O que fazer quando se tem uma Cristas no Ambiente? O que fazer enfim quando se tem um primeiro-ministro tão escassamente instruído, tão infantilmente birrento, tão desprovido de consciência social quanto de competências sociais, tão determinado quanto aos fins, tão indiferente quanto aos meios e tão flexível quanto aos princípios? O que fazer quando se tem um primeiro-ministro tão indiferente a Portugal e aos portugueses e tão subserviente perante poderes estrangeiros?

No quadro constitucional português, a instância a quem cabe resolver este nó górdio é o Presidente da República. Mas o que fazer quando este está demasiado ocupado a comer bolo-rei? Vamos perder a vida e o futuro e a liberdade por delicadeza, como no poema de Rimbaud? 

PS para PPC: Rimbaud é um poeta francês, mas não se incomode a ler. Leia antes “Lettres et le Néon”, um livro sobre publicidade do seu filósofo de cabeceira, Jean-Paul Sartre, que tem certamente na prateleira dos livros.

Imagem: http://wehavekaosinthegarden.blogspot.pt/

metamorfose europeia


Por Viriato Soromenho-Marques
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A Europa de 2013 já não é a de 1986, quando Portugal se tornou membro efetivo da CEE. Nem a de 9 de maio de 1950, quando Robert Schuman anunciou a criação da Comunidade Europeia do Carvão e do Aço. Nós, cidadãos dos 27 Estados membros, olhamos para este território, para estas instituições, para a atmosfera reinante no que ainda se chama União Europeia, e é impossível não sofrer o mesmo calafrio sentido por Gregor Samsa, o personagem central da novela de Kafka, A Metamorfose, quando numa bela manhã, ao acordar, descobriu que se transformara num horrendo inseto. A Comunidade em que Portugal entrou tinha três objetivos fundamentais: impedir que a Europa pudesse voltar a ser dominada por uma potência hegemónica; garantir o respeito pelas leis e pelos direitos humanos à escala continental; assegurar progresso e convergência sociais fundados numa visão de paz e prosperidade económica sustentável. Se Jean Monnet ressuscitasse agora, cairia sobre os joelhos, dobrado pela comoção e angústia face ao brutal contraste entre esses objetivos e a realidade: a Europa vive sob um regime de indisputada hegemonia germânica, como se um génio maligno tivesse reescrito o final dos sangrentos anos de 1918 e 1945; a única lei vigente são os acórdãos do Tribunal Constitucional Alemão, pois os Tratados são letra morta, e os titulares dos cargos das instituições europeias transformaram-se em sombras patéticas; a UE tornou-se numa das maiores ameaças à segurança mundial, pelos riscos globais da sua eventual implosão, e promoveu, com frieza e deliberação, o regresso da pobreza e da fome à Europa como parte dos programas de austeridade incluídos nos memorandos de entendimento. Boa sorte para 2013! Bem precisamos dela para sair deste pesadelo.

o pedro

Por Constança Cunha e Sá
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Não satisfeito com a sua mensagem de Natal, na qualidade de primeiro-ministro, o Dr. Passos Coelho resolveu este ano brindar o país com um pequeno texto íntimo no facebook, onde os portugueses surgem (não se sabe bem como) na qualidade de “amigos” e o remetente dá pelo singelo nome de Pedro. Ao contrário de Passos Coelho – o primeiro-ministro – Pedro – o amigo – junta-se a nós no infortúnio (que ele como primeiro-ministro nos infligiu), num alinhavado de frases que não honra a quarta classe, onde os erros de concordância abundam e o vocabulário revela uma confrangedora pobreza.

A redacção do Pedro, na sua penosa mediocridade, revela-nos antes de mais um ser (que, por acaso, é nosso primeiro-ministro) que não domina a língua que utiliza, deixando-nos sérias dúvidas quanto à articulação do seu pensamento – que como se sabe não é algo de etéreo e se traduz através da linguagem em que se expressa. Como se imagina, é sempre desagradável descobrirmos que, depois de tudo o que já passámos, chegámos agora ao cúmulo, de ter um primeiro-ministro cuja utilização da língua é no mínimo rudimentar. Este pormenor ajuda-nos a perceber a constante trapalhada conceptual em que o Dr. Passos Coelho navega, utilizando conceitos que não domina e frases que ninguém compreende. A título de exemplo refira--se apenas a misteriosa “refundação” que começou por ser do Memorando, depois aterrou no Estado, para acabar por se esfumar, sem que ninguém tenha alcançado o que o primeiro-ministro quis dizer – nem sequer o próprio, que, obviamente, não sabia o significado da palavra que utilizou.

Apesar de tudo, o essencial da mensagem percebe-se: embora este não tenha sido o Natal que merecíamos (presumo que o ajustamento das famílias de que tanto se gaba o governo não é para ser aplicado a épocas festivas), o Pedro garante-nos que devemos ter orgulho nos sacrifícios que fazemos porque a pobreza em si mesma é um mérito que devemos transmitir aos nossos filhos e netos, de forma que eles possam, um dia, ter um Natal melhor. Até lá temos de deixar os bifes de lombo com que nos empanturrávamos e recuperar o copo de dentes para pouparmos a água que até aqui sempre esbanjámos. E esperar que em melhores épocas, no tal Natal dos nossos filhos e netos, não tornemos a “viver acima das nossas possibilidades”, porque o país é pobre e os portugueses uns falidos irresponsáveis.

Este artificial esforço de proximidade, que o primeiro-ministro ensaiou no facebook, aconselhado por um qualquer assessor criativo, revela em todo o seu esplendor a indigência intelectual e política de quem nos governa. A mensagem aos “amigos”, além de tudo o que já foi dito, é um exercício degradante que diminui as instituições e enxovalha qualquer cargo político. O contacto directo com os cidadãos não se confunde com exercícios patéticos, nos quais o primeiro-ministro se deixa substituir pelo Pedro através de uma redacção medíocre, com laivos de um sentimentalismo bacoco que ainda por cima revelam as insuficiências notórias do primeiro-ministro que temos.

27/12/12

as primeiras reacções à mensagem de passos coelho no facebook







a mensagem do primeiro-ministro revista e dissecada (2)




me leve p'ra casa, lady laura, me abrace forte, lady laura, me faça dormir, lady laura

a mensagem do primeiro-ministro revista e dissecada

olha, olha, o pedro escreveu-me!

Escreveu-me a mim, a si, a todos. Não sei para que insiste em fazê-lo. De cada vez que escreve no facebook, ou manda escrever por ele, segue-se um chorrilho de comentários que só lidos, contados ninguém acredita. Porquê? Para quê? Para controlar os arruaceiros, contar os opositores, as cabeças do exército que nunca alinhará com ele, os párias a condenar quando "isto" virar?

Leia a mensagem, um tratado de hipocrisia num português sofrível, e deixe o seu comentário na página do autor: 
https://www.facebook.com/pedropassoscoelho

Amigos,

Este não foi o Natal que merecíamos. Muitas famílias não tiveram na Consoada os pratos que se habituaram. Muitos não conseguiram ter a família toda à mesma mesa. E muitos não puderam dar aos filhos um simples presente.

Já aqui estivemos antes. Já nos sentámos em mesas em que a comida esticava para chegar a todos, já demos aos nossos filhos presentes menores porque não tínhamos como dar outros. Mas a verdade é que para muitos, este foi apenas mais um dia num ano cheio de sacrifícios, e penso muitas vezes neles e no que estão a sofrer.

A eles, e a todos vós, no fim deste ano tão difícil em que tanto já nos foi pedido, peço apenas que procurem a força para, quando olharem os vossos filhos e netos, o façam não com pesar mas com o orgulho de quem sabe que os sacrifícios que fazemos hoje, as difíceis decisões que estamos a tomar, fazemo-lo para que os nossos filhos tenham no futuro um Natal melhor.

A Laura e eu desejamos a todos umas Festas Felizes.

Um abraço,
Pedro.

Fotografia: Steven Governo/Global Imagens (http://www.jn.pt)

26/12/12

o grande irmão zela por nós



Os Gaiteiros de Lisboa mandam à gaita os avejões, papagaios, aves de rapina e outra passarada de maus voos e piores poleiros.

natal na grécia

Fotografia: https://www.facebook.com/internationalriot

natal na turquia

Fotografia: http://waronsociety.noblogs.org

natal no chile





Fotografias: http://waronsociety.noblogs.org

natal na macedónia


Fotografias: https://www.facebook.com/internationalriot

os sacanas não terão a última palavra




antes que se faça tarde: infeliz ano novo


É isso mesmo, sem tirar nem pôr. Aos chulos que nos empobrecem, aos que nos governam mal e porcamente e aos que nunca nos governaram bem, aos que nos presidem como se fossemos uma colectividade para recreação de alguns, aos que nos mentem e prometem mundos e fundos quando o que nos querem é sacar os fundos, aos que intrigam e negoceiam no escuro o património que é de todos, aos que nos depauperam a Saúde, a Educação e a alegria de viver, aos que dão um pão enquanto sorriem para a televisão, aos que se lhes opõem com a falsa determinação e a artificial indignação dos políticos de pacotilha, a todos estes e aos muitos outros que por aqui esqueci, corruptos, vendilhões, vendidos, sacanas, egoístas, piedosas ratas de sacristia, mercadores de dinheiro de sangue, a todos sem excepção, os meus votos de um muito infeliz ano de 2013. Que a derrota vos sorria, o desespero vos atormente. E, se não for pedir muito, que a pobreza, aquela que tanto gostam de ver nos outros, vos ameace os dias, vos ronde a porta como um fantasma benfazejo.

Inspirado num artigo do El País escrito pela grande Almudena Grandes.

refutação ao tempo

Por Baptista-Bastos
http://www.dn.pt

Meu Dilecto: 

É verdade que, por vezes, sou tocado por funesta tristeza. E penso que a minha prosa devia, talvez, ser levada para paragens mais alegres. Mas a época é pesada e trágica, não gosto do que vejo e sinto, e, mesmo com o apoio dos meus eventuais merecimentos, soçobro na melancolia. As forças que me confrontam possuem, actualmente um poder ilustrativo do meu descontentamento e das minhas decepções. Mas não desisto. Venho de longe, do desafio de todas as lutas, dos escombros de todas as derrotas e do recomeço de todos os combates. Sei que a frase comporta, em si, algo de bravata, porém as coisas foram assim, e o riso dos enfatuados possui algo de indecoroso.

Meu Dilecto:

A prova de que estes, os de agora, não venceram, ao contrário do que julgam e proclamam, é a sanha persecutória com que agem. Tentam apagar os nossos símbolos, desprezar o nosso património moral, passar ao lado dos nossos castelos, escarnecer das nossas bandeiras. A história do que têm feito resulta num rasto de sangue, de miséria e de afronta à condição humana. "As direitas sempre se uniram para o mal", escreveu Maurice Merleau-Ponty (Humanisme et Terreur), que temos a obrigação de recuperar do silêncio e das sombras com que o envolveram. A desilusão que o grande filósofo sofreu, posteriormente, não obriga a que o projectemos no limbo. E essa desilusão possui algo de trágico porque configura parte das nossas decepções actuais. Não vale a pena chorar no leite derramado, dizem. Mas calar as incertezas do conflito e a decência de uma luta constantemente desigual constituiria a abdicação da nossa ética. Ter passado é conter lastro, haver história, retribuir ao tempo o que o tempo nos prometeu. Estes biltres que nos governam nada respeitam, nem, sobretudo, o papel dos sentimentos e das emoções, esvaziando de sentido o princípio democrático, para o preencher com negócios, com a adulteração do conceito de «legalidade» substituindo-o por um autoritarismo fascista.

Meu Dilecto:

Quando um primeiro-ministro, este, diz que os reformados já receberam mais do que as verbas por eles descontadas, a frase deixa de constituir uma questão semântica para configurar a mais desprezível vilania. Este homem não é digno de nos representar, em circunstância alguma. Mas ele vai passar, deixando um traço de ignomínia e uma soma de vergonhas morais, a começar pelas suas mentiras, continuando pela sua frondosa incompetência e terminando na leviandade dos juízos. É um subalterno. A voz não lhe pertence, as ideias são de outros.

Meu Dilecto:

O que esta gente nos trouxe de miséria, de descrença, de desapontamento, de fome de ser e de angústia de não podermos estar, comporta um peso, uma culpa inaudita na nossa história recente. Contudo, estamos aqui, para o que der e vier. Até já!

25/12/12

as prendas de gaspar


E pronto, chegou o dia de Natal, o dia das prendas, o dia mais desejado quando éramos crianças. Mudam-se as idades e mudam-se os tempos. Quem parece gostar de mandar muitas prendas neste mês de Natal é o amigo Vitor, que para fechar o ano em beleza descarrega tudo o que tem sobre os contribuintes. Quem não tiver as centenas de euros para pagar paga com a penhora, seja casa ou salário. Mais sorte tem quem deve milhões porque a esses tudo é perdoado em nome do empreendedorismo e do investimento, que nunca se vê nem nunca acontece. Para o ano mais e mais impostos, a promessa de muitos mais quando tudo começar a desmoronar-se, esta é a prenda do Gaspar, a prenda que ninguém quer mas todos recebem. Quando era pequeno eram meias, agora são cartas do Gaspar.

Texto e imagem: http://wehavekaosinthegarden.wordpress.com

meninos-escravos











esta história, dr. passos, não vai de facto acabar aqui


é natal

Por Tomás Vasques
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É Natal, mas um Natal sem esperança para a maioria dos portugueses, como já não havia há dezenas de anos. Um Natal que faz lembrar outros tempos, em que o ditador de Santa Comba Dão elogiava as virtudes da malfadada pobreza em que se vivia; em que centenas de senhoras, com nomes a cheirar a perfume caro, como Jonet e outros, de fina e esmerada educação, tocadoras de piano nos salões onde habitavam, aliviavam a triste sina dos “pobrezinhos” com caridosas esmolas dadas à porta das missas, onde iam lavar as almas e remover os pecados; em que milhares de portugueses sem trabalho deixavam o país e a família, carregando às costas todas as desventuras de um povo dentro de uma mala de cartão. Há de novo, nestes tempos que correm, o elogio da pobreza, o incentivo à emigração, o louvor da caridade, enquanto se acusa a maioria dos portugueses de todos os males do mundo: os salários que recebem são muito elevados para aquilo que produzem; o valor das reformas está acima do que descontaram; as indemnizações por despedimento são um roubo que destrói a economia; o subsídio de desemprego só alimenta ociosos ou que não pagam impostos suficientes para ter luxos como saúde e educação quase à borla. Só não é Natal como antigamente porque nos falta o burrinho e a vaquinha no presépio, adornos do nosso imaginário, que Sua Santidade nos roubou. Roubam-nos tudo, nem o burrinho e a vaquinha do presépio escaparam ao saque.

A propósito do Natal e de saques, os povos maias anunciaram, há muitas centenas de anos, o fim das nossas vidas para este Natal. Segundo a leitura dos entendidos, por alturas do solstício de Inverno, precisamente deste Inverno de 2012, quando a estrela Régulo entrasse no sexto sector do zodíaco tropical, onde está o signo de Virgem, o “mundo acabava”. Assim, sem mais nem menos. Não acabou porque os astros também se enganam. Para mal dos nossos pecados, não eram só os povos maias a ler nos astros o nosso futuro. Agora os nossos governantes também se guiam por estrelas e conjugações astrais. No Natal do ano passado, quando apresentaram o Orçamento do Estado para este ano, prometeram a redenção em troca de pesados sacrifícios. Mas nada bateu certo: a receita do Estado caiu, a despesa aumentou, o défice e a dívida externa ficaram acima do que foi prometido. Talvez a entrada da estrela Oríon em Capricórnio, no zodíaco sideral, não tenha ajudado as contas de Vítor Gaspar. E se os povos maias não acertaram no dia do fim do mundo, o nosso ministro das Finanças não lhes fica atrás: não acerta uma previsão.

Neste Natal do nosso descontentamento, no Orçamento do Estado do próximo ano, os nossos governantes duplicaram a dose da receita que ampliou a desgraça, provavelmente acreditando que a estrela Riguel, da galáxia de Andrómeda, entrará em Vénus em meados de 2013. A decisão do Tribunal Constitucional, lá para Abril, sobre alguns dos saques a que o Presidente da República se esquivou a pedir a avaliação da constitucionalidade e a opinião da Comissão Europeia de que a redução de 4 mil milhões de euros na despesa do Estado não chega para as encomendas feitas por Berlim, vão marcar a dimensão do desastre que este governo anda a engendrar. É pois de temer o momento em que Vítor Gaspar e Passos Coelho se sentem à mesa na noite da consoada e, desiludidos com os astros, passem ao candomblé angolano, chamando o deus Inkices, e lancem os búzios. Sairá seguramente aumento da carga fiscal, redução de salários, pobreza e miséria, se entretanto o governo não cair com o estrondo que merece.

Neste Natal de 2012, sem burrinho, nem vaquinha no presépio, e com a desgraça a bater à porta de quase todos os portugueses, em vez do menino Jesus do que menos precisávamos era de ter o nosso destino nas mãos de bruxos e adivinhos.

o ano de todos os perigos

Uma certa alergia à legalidade constitucional
Por Nuno Ramos de Almeida
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Se um dia os portugueses, sentindo que não tinham nada a perder, pura e simplesmente deixassem de obedecer: não pagassem impostos crescentemente injustos, recusassem ser despejados de suas casas, se negassem a desembolsar exorbitantes aumentos de transportes e ocupassem as empresas fechadas e os milhares de casas devolutas, como poderia qualquer governo sobreviver apenas pela repressão quando milhões o ignoravam activamente?

Quem está no poder tem de perceber que manda porque as pessoas aceitam obedecer e que esse facto é garantido pelo facto de as populações acharem que a democracia é um regime legítimo em que os governantes não estão acima da lei. E que as leis da República são justas e iguais para todos.

A troika e os governos que executam as suas ordens acham que a lei, a democracia e a liberdade são descartáveis e que tudo se deve subordinar aos seus planos de austeridade, que levam no regaço a destruição completa do modelo social europeu.

Só assim é possível perceber o total seguidismo do executivo de Passos Coelho em relação às declarações da Comissão Europeia que se atiram ao Tribunal Constitucional Português, acusando-o de ser um factor de instabilidade. Cairia o Carmo e a Trindade germânica se uma instituição europeia fosse contra a necessidade de se respeitarem as leis da Alemanha, mas como Portugal é actualmente uma colónia dos interesses do capital financeiro, disfarçados de instituições comunitárias, o governo cala-se convenientemente.

A democracia em Portugal foi construída depois de décadas de ditadura, e é fruto da luta de gerações, tal como o modelo social europeu é resultado das conquistas dos trabalhadores ao longo de décadas. A implosão dos dois cria uma situação com consequências difíceis de prever. O fim de uma Europa que redistribui de uma forma menos injusta os rendimentos entre capital e trabalho e a pressão para que sejam destruído o edifício da legalidade democrática fazem antever uma transformação autoritária nos países do Sul da Europa.

Na sua ânsia de darem tudo aos privados, de liquidarem o sector público, de aumentarem desmesuradamente os lucros de muito poucos e roubarem os salários de muitos, os executores destas políticas deviam recordar que o poder pode exercer-se episodicamente por repressão, mas só é duradouramente aceite caso as pessoas não o achem completamente intolerável.

À força de espremerem sempre os mesmos, trabalhadores por conta de outrem e reformados, há um momento em que as pessoas deixam de ter alguma coisa a perder, e nesse instante os governos apenas conseguem mandar pelo medo. Quando vemos que a activista Myriam Zular é acusada do crime inexistente de “manifestação não autorizada” por distribuir panfletos à porta de um centro de emprego e que se vai buscar aos baús da ditadura a acusação de motim para processar os arguidos dos incidentes da manifestação da greve geral, percebe-se que 2013 vai ser um ano de repressão. Não se esqueçam os mandantes que também pode ser o ano em que se acabe o medo.

Fotografia: Julien Warnand/epa (http://www.ionline.pt)

ai o que eu gramei o meu presente deste ano!

Imagem: http://henricartoon.blogs.sapo.pt/

parecem bandos de ladrões à solta, os putos, os putos

São os jotinhas. Cresceram nas juventudes partidárias, a mãe com quem aprenderam a mamar e a tratar da vidinha. Aí e mais tarde, tarde e a más horas, à sombra de empresas amigas e à sombra do Estado, das "ajudas" do Estado, dos arranjinhos e favores do Estado. São a elite, a nata, a fina-flor do entulho nacional. Uns piores do que outros, valha a verdade, nenhum serve o País. Servem-se. Para melhor servirem a sua vaidadezinha, o seu ego inchado e, bastas, demasiadas vezes, o seu pecúlio. Fracos estadistas, tribunos sofríveis, falta-lhes a generosidade e o saber vital à governação. Mas governam. Governam-se. Brincam aos governinhos usando-nos como peões, como bilas ou caricas de um jogo que ganham sempre. Nunca perdem. Não se perdem. São os putos. Astutos como poucos.

24/12/12

está aí alguém?


Como é que alguém pode governar contra quem trabalha e contra os desempregados, contra os reformados e os pequenos e médios empresários, os ferroviários e os funcionários públicos, os estivadores e os professores, os estudantes, os doentes, contra tudo e contra todos (menos os da sua laia, claro)? Com todos implica porque todos, no seu entender, vivem acima dos rendimentos já de si chorudos. São portugueses, logo trafulhas, calões e pulhas. Anda há mais de um ano a destruir Portugal. E nós deixamos. Ao que parece, não há meios legais, e muito menos democráticos, para correr com ele de vez e exigir-lhe contas pelo empobrecimento obsceno de um país. Ao que parece, não está cá ninguém. Já não está cá ninguém.

Imagem: http://www.dansdata.com

tome lá, porque é natal (13)

Eray Özbek

Enrico Bertuccioli

Sofia Mamalinga

Saad Murtadha

Tayo Fatunla

Manos Symeonakis
Todas as imagens de http://www.cartoonmovement.com

23/12/12

BPN, ainda o escândalo, ainda a impunidade


Por Henrique Monteiro
http://expresso.sapo.pt/

Quem leu o Expresso deste fim-de-semana e quem viu, ontem, a reportagem especial da SIC sobre o BPN não pode ter deixado de ficar, como eu fiquei, com uma espécie de nojo. Tudo aquilo é mau de mais para ser verdade. Nós todos, contribuintes, os pobres, os remediados, os ricos, estamos a pagar a irresponsabilidade de uns, muito poucos, cujos nomes se repetem à exaustão.

Esses nomes, com o de Oliveira Costa à cabeça, e os de Duarte Lima, Dias Loureiro e Arlindo Carvalho como os mais conhecidos, têm todos em comum o facto de terem trabalhado para (ou com) o atual Presidente da República. O mesmo acontece com Joaquim Coimbra, Fernando Fantasia, membros da Comissão de Honra de Cavaco e este último seu vizinho na praia, e com a filha de Oliveira Costa com casa de férias no mesmo local.

Há um padrão inelutável, que não significa obrigatoriamente um envolvimento menos legal de nenhum dos citados, mas lança uma sombra sobre o que se tem passado com o BPN. O buraco que em Novembro de 2008, quando foi nacionalizado, se estimava em 740 milhões, ia em março em mais de quatro vezes esse valor, ultrapassando os três mil milhões, e deverá atingir, com as imparidades e créditos incobráveis, os sete mil milhões.

Quase o custo do ministério da Saúde, durante um ano. Tudo isto em dívidas de não mais de 500 pessoas, boa parte das quais relacionadas politica e pessoalmente.

Quando, há quatro anos duvidei da nacionalização, quase todos (incluindo bons amigos e especialistas em Economia) me alertaram para o facto de haver um risco sistémico grande em deixar o BPN falir. Sempre contra-argumentei, que não se pode distribuir os danos de alguns por todos - o que se está agora a fazer.

Já nem digo que gostava de ver todas as responsabilidades apuradas. Dos nomes citados, de outros que por aí andam, daqueles que nacionalizaram o banco e dos que permitiram que ele fosse governado criminosamente.

Apenas apreciaria ver uma dessas pessoas pedir desculpa pelo que nós, contribuintes que nada tivemos a ver com aquilo estamos a pagar. Mas parece-me que é mais fácil acabar o mundo do que ver um pingo de vergonha na maioria daquelas caras. 

Imagem: http://wehavekaosinthegarden.blogspot.pt/

tome lá, porque é natal (12)

Não sabe o que oferecer a esse alguém muito especial, marido, filho, sobrinho, afilhado? Se vivesse na América, tinha a solução em qualquer supermercado Walmart. Por um preço imbatível, mais imbatível do que o de uma vida humana, poderia oferecer um daqueles brinquedos que matam. São baratos e, quem os recebe, guardá-los-á para toda a vida. Mesmo que a vida lhes seja curta.