2012, um ano de má memória

Por Tomás Vasques
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Chega hoje ao fim 2012, um ano de má memória. Portugal ficou muito mais pobre: a maioria dos portugueses empobreceu e alastrou a miséria; empobreceu a economia e destruíram-se equilíbrios elementares nas relações laborais; o discurso político dos governantes está cada vez mais vazio e inculto; empobreceram a democracia e a cultura. Mais grave ainda é saber que este foi o primeiro dos muitos anos de empobrecimento que aí vêm.

Foi também um ano de enganos e de desenganos. O desengano maior coube à maioria dos portugueses quando percebeu que o actual governo, a quem foi conferida legitimidade eleitoral há ano e meio, entende que este empobrecimento do país, a todos os níveis, não é um mal passageiro para fazer face a mais uma crise do sistema capitalista, como aconteceu no passado, mas um modelo da sociedade portuguesa para o futuro – criar um país de trabalhadores pobres e cabisbaixos, destituídos dos mais elementares direitos sociais e laborais, espoliados até ao osso pelo fisco, com medo de perderem o emprego e a casa, reverentes e agradecidos. A expressão deste desengano dos portugueses aconteceu a 15 de Setembro, quando um país inteiro saiu à rua a exercer o seu direito à indignação e ao descontentamento contra as medidas de um governo que conseguiu o prodígio de tomar a maioria dos portugueses por um inimigo a abater.

O grande engano deste ano vai para o todo-poderoso ministro das Finanças, Vítor Gaspar, a quem está entregue o triste destino deste país. Foi apresentado aos portugueses como “um técnico competente, de contas rigorosas e infalíveis”. Entrou com pezinhos de lã e cantilena pachorrenta, o que ajudou ao engodo dos primeiros meses. Em Outubro de 2011, aquando da apresentação do Orçamento do Estado para este ano, ainda em estado de graça, disse, em demorada conferência de imprensa, que as duras medidas de austeridade que propunha, entre elas a suspensão de dois salários aos funcionários públicos e pensionistas, se destinavam “ à redução do défice orçamental que será de 4,5%”. Disse também que “o aumento do horário laboral vai ajudar a dinamizar a economia” e que o “desemprego atingirá os 13,4%”. E rematou: “2012 será o ano crucial para que a economia volte a crescer em 2013. Este orçamento tem metas cujo cumprimento não se pode falhar.” Falhou em todas as previsões e em todas as metas: o défice ultrapassa os 6%, maquilhado com a venda da ANA; o desemprego ronda os 16,5%. Falhou na receita e na despesa do Estado, como falhou no objectivo de “reanimação da economia” para 2013. Este falhanço era previsível. Até Manuela Ferreira Leite, ex-líder do PSD, na altura, numa conferência na Ordem dos Economistas, lhe disse: “É uma coisa óbvia, este orçamento vai falhar”. Vítor Gaspar, incorrigível aluno da “solução alemã” para a Europa, insiste no seu fracassado rumo e fez aprovar o Orçamento para 2013, onde se aumenta a dose de empobrecimento dos portugueses e de destruição da economia. Infelizmente, o falhanço vai ser ainda maior, com pesadas consequências para a maioria dos portugueses. Provavelmente, o ministro das Finanças – o verdadeiro primeiro-ministro, como Paulo Portas bem sabe – deseja estes resultados. Estamos nas mãos de quem os portugueses não elegeram, e que nunca prestará contas dos seus enganos. É o estado a que a nossa democracia chegou.

Neste ano que acaba, a cumplicidade do Presidente da República com este governo não é um engano, nem um desengano – é igual a ele próprio. Como sempre foi. Cavaco Silva bóia, como uma rolha há mais de 40 anos: o salazarismo não o incomodou, e a democracia e o bom povo português deram-lhe dez anos como primeiro-ministro e mais dez como Presidente da República.

Enganados e desenganados vamos enfrentar o ano de 2013.

Fotografia: http://www.zimbio.com

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