01/03/13

unidos como os dedos da mão

Um dia, tudo isto terá passado. Um dia, todo o pesadelo que temos vivido será apenas uma recordação dolorosa que tentaremos encaixar numa lógica qualquer. Os historiadores estudarão, perplexos, os tempos em que a democracia foi suspensa e o Estado deixou de ser uma pessoa de bem para se tornar num escroque. Os nossos filhos, os nossos netos ouvirão, incrédulos, as histórias verdadeiras que lhes contaremos, sobre a forma como direitos já conquistados há décadas pelos nossos avós e bisavós e consagrados nas tábuas da lei fundamental tiveram de ser novamente disputados, arrancados a ferros de algozes disfarçados de economistas. De como, em pleno século XXI, fomos obrigados a ocupar escolas e hospitais e fábricas e padarias e supermercados e campos e casas, porque nos haviam tentado — e em muitos casos conseguido — roubar a paz, o pão, a habitação, a saúde, a educação. De como tivemos de deitar muros abaixo e de construir pontes onde já só restavam fossos. De como abolimos fronteiras e demos as mãos aos que, do outro lado, apenas aspiravam a uma vida digna. De como erigimos uma terra sem amos e resgatámos os nossos sonhos. E saberão que foi por eles que o fizemos, por eles e por nós, porque ansiávamos pelo sal e pelo mel, porque nos tinham tapado o sol e secado a terra, porque já não aguentávamos ver as nossas vidas por um canudo, por mil canudos, sem os quais afirmavam nada valermos, mas que, após dura obtenção, só nos garantiam o direito a emigrar, a exilar-nos.

Um dia, tudo isto que passamos será passado, marca, cicatriz. Não conseguirão fazer-nos esquecer, mas transformaremos as nossas dores em árvores de fortes raízes. Penduraremos os recibos verdes em paredes antiquíssimas de museu e contaremos aos nossos netos que um dia, há muito, muito tempo, os que mandavam neste país quiseram condenar-nos a pagar impostos sobre dinheiros que nem sequer ganhávamos. Que quiseram deixar-nos à míngua, fazer-nos pagar por bens que eram nossos, que depois de destruírem o que produzíamos nos fizeram comprar a outros todos os víveres de que precisávamos para sobreviver. Que nos quiseram matar à espera de tratamentos nos hospitais, que tornaram o saber num luxo incomportável, que afastaram as nossas crianças das escolas, que acabaram com os caminhos de ferro e com os comboios, que limitaram as redes de transportes públicos, enfim, que tudo fizeram para que deixássemos de nos divertir, de sair à noite, de ir ao teatro e ao cinema. Que puseram aqueles de nós que tinham empregos a trabalhar por dois, por três, por quatro e que despediram os outros, de forma a que os primeiros caíssem de exaustão e os segundos de frustração, de desânimo e de isolamento.

Contar-lhes-emos como um dia fomos obrigados a abolir pela segunda vez a escravatura, pois tentaram convencer-nos que era normal trabalharmos para aquecer, para fazer currículo, tendo de provar uma vez e outra e outra o nosso mérito, as nossas capacidades, enquanto outros tudo tinham, muito embora ninguém percebesse muito bem de onde lhes vinha a fortuna. Explicaremos aos nossos netos que aos pais deles foi roubada parte da infância, porque, sorrateiramente, um bando de malfeitores mascarados de especialistas nos conseguiram durante algum tempo persuadir que termos casa e carro e telemóvel e dinheiro para acampar no verão e ir ver a neve no inverno era um luxo ao qual não nos podíamos dar, porque éramos pecadores e criminosos, embora não nos conseguíssemos lembrar o que raios poderíamos ter feito de tão grave para que os nossos filhos merecessem tal castigo. E eles espantar-se-ão e perguntarão como foi possível que nos sujeitássemos, tão pouco tempo após a sua conquista, a perder direitos tão fundamentais como o direito a trabalhar e a viver no país onde nascemos. O direito a simplesmente querermos ser felizes. 

E não saberemos o que responder-lhes. Porque na verdade teremos nós próprios dificuldade em perceber como chegámos nós um dia ao ponto a que chegámos. Mas saberemos sim que um dia dissemos basta, que um dia, com toda a força e veemência da nossa razão e da nossa vontade exigimos o que é nosso. E nos erguemos, já não como rios, mas como marés, como mares, como oceanos de certeza. 

Nesse dia, sairemos das nossas casas aquecidas e mostrar-lhes-emos os caminhos que desbravámos juntos: caminharemos pela República, da José Fontana à Praça de Espanha. Desfilaremos nas Avenidas que são da Liberdade e desembocaremos de novo nos Terreiros que são do Povo. Com eles, entoaremos Grândola Vila Morena, duas vezes senha, duas vezes sonho, e as lágrimas brilharão nas nossas vozes e os versos ecoarão nas nossas memórias como ecoaram um dia nas escadarias e corredores dos Passos Perdidos, sob o olhar embargado dos polícias que só desejavam poder connosco cantar. Recordaremos o 2 de Março, o 13 de Outubro, o 15 de Setembro, o 12 de Março e de novo o 1º de Maio e o 25 de Abril, uma vez e outra e outra ainda, um dia, a chorar de alegria, de alívio precoce e intranquilo, com a certeza de que todos os invernos vão dar à primavera e de que os homens que dormem acordam sempre um dia. Um dia...

Myriam Zaluar
http://queselixeatroika15setembro.blogspot.pt/

Em 1971, para encerrar o meu primeiro disco, Os Sobreviventes, escrevi uma canção com uma das letras mais curtas: «Aprende a nadar, companheiro, que a maré se vai levantar, que a liberdade está a passar por aqui. Maré alta maré alta maré alta». Às vezes o menos é mais.

Estávamos então em pleno marcelismo, e digo-o com letra pequena porque era uma versão já semi-inerte do fascismo. E no entanto, havia ainda uma polícia política, agora com três letrinhas apenas, DGS, que se dedicava às mesmas nobres actividades da PIDE sua mãe. Vigiar, prender, torturar, nada de novo. Havia uma guerra colonial que se arrastava pelos campos minados de África, campos imensos sem fim à vista nem esperança de solução. E muitos mortos e feridos e enlouquecidos. Havia censura de peneira fina, e havia a emigração dos pobres, uma peneira de furos largos a deixar fugir o melhor de nós.

E no entanto a liberdade estava a passar por aqui. «O solo que pisamos é livre, defendamo-lo» foi o que pensaram e fizeram muitos resistentes, novos e antigos. Havia um velha adivinha que perguntava: «Qual é a altura do Salazar?» E respondia-se: «É a altura de se ir embora». O mesmo valia para a sua herança e os seus descendentes. Era altura de se irem embora.

Foi nesse conjunto de pensamentos e acções que se chegou à luminosa manhã do 25 de Abril. Vim então de longe, como muitos de nós, para ver e acreditar nos meus olhos e em todos os meus sentidos. E para cantar pela primeira vez no centro do redemoinho de uma maré alta onde todos pudemos vir à tona e navegar à vista longínqua.

Passados todos estes anos, sabemos como o país está em maré intencionalmente esvaziada e sangrada, e assim estará nos tempos mais próximos, aconteça o que acontecer.

Mas não interiorizemos o medo escuro nem o conformismo pardo. O presente tem «o acesso bloqueado»? Cabe a nós encontrarmos novas chaves, novos atalhos, novas formas activas de o usufruir. Queremos as nossas vidas, sim, por difícil que seja habitá-las neste presente sombrio.

O solo que pisamos é livre, e desde há muito terreno libertado. Defendamo-lo.

A liberdade está a passar por aqui.

Sérgio Godinho
http://queselixeatroika15setembro.blogspot.pt/

O medo faz parte da minha vida.

Desde pequena que a falta de liberdade me assusta. O não ter espaço para a minha voz e para os meus movimentos. O medo do escuro no preconceito, na desilusão, na falta de harmonia. Na solidão. São medos que, com o tempo, tenho vindo a aceitar como condição para viver esta vida.

Mas ter medo do estado é coisa pouco bonita. É coisa feia. E é coisa que veio ocupar espaço a mais no meu lado negro, como uma inevitabilidade. É o que agora sinto. Não como menina pequenina mas como mulher que sonhou com uma vida aqui, onde há história dos meus pais, dos meus avós e dos meus amigos.

O medo que a bondade e a justiça não existam de todo e que a crueldade, a frieza e os números ditem os afazeres no meu país. O fazer desfazer. O desfazer pessoas. 

Tenho medo que a tristeza nos assole de vez. Que as vozes esmoreçam por falta de forças. Que os movimentos se toldem por amarras perversas. Que nos isolemos e que o amor não chegue. 

Que estado é este? Um vento forte que derruba as árvores e as casas, de Norte a Sul, que não pede licença e leva as sementes para fora dos campos? Que põe montanhas fora dos seus lugares e que tapa as vistas com destroços? Que estado é este? Para onde é que vai tão apressado? O que restará? E parece tão perdido. Vazio.

Este estado não me representa. Não me representa como cidadã e pessoa. Não tem o meu orgulho nem compreensão. Este estado envergonha-me porque os seus valores não se encontram com os meus. Este estado que se desculpa com o estado a que as coisas chegaram. O estado dos bons meninos cumpridores que eu não consigo desculpar.

O que me ilumina é saber que somos muitos. É perceber que a dor que, deste lado sentimos, é sentida na pele e não num papel. É real. Faz mossa e entristece. E isso faz com que se cante, que a voz soe e que os movimentos se libertem. Calar o medo. Calar o medo. Calar o medo.

Rita Redshoes
http://queselixeatroika15setembro.blogspot.pt/



vá lá, toca a acordar!

Cristina Massena e uma grande canção, para ouvir e cantar.

hoje é dia de colar cartazes, amanhã de gritar cartases






contra o confisco dos senhores do fisco


28/02/13

que a maré se vai levantar



Aprende a nadar, companheiro
aprende a nadar, companheiro
Que a maré se vai levantar
que a maré se vai levantar
Que a liberdade está a passar por aqui
que a liberdade está a passar por aqui
que a liberdade está a passar por aqui
Maré alta
Maré alta
Maré alta

coelhito, já te tenho dito que não é bonito andares a enganar, chora agora coelhito chora, que te vais embora p'ra não mais voltar

madrid já cá canta!


contra passos, todos os passos vão dar ao paço


haja dignidade

Meus amigos,

Braga também tem muita gente boa, é com eles que vou estar no dia 2 de Março. É bom centrarmo-nos e, sobretudo, citando o nosso maestro Victorino de Almeida, não deixarmos que Portugal se torne numa espécie de cão abandonado que lambe as mãos do primeiro que lhe der qualquer coisa para comer. Merecemos ser muito mais que isso, haja dignidade, coragem, inteligência e solidariedade de facto. Isto está só a começar, o rumo da locomotiva está nas nossas mãos.  BOA VIAGEM!

Jorge Palma
http://queselixeatroika15setembro.blogspot.pt/

psst! encontramo-nos lá?

Cartaz de Gui Castro Felga
http://oblogouavida.blogspot.pt/

a vida corre lesta

será que o relvas vai deixar?

A partir de amanhã, Francisco Louçã vai ter um programa na SIC Notícias. Como se trata de um canal privado, e porque Balsemão, cheira-me, não deve gramar o Relvas nem pintado, acho que o Relvas não vai conseguir meter o bedelho. Ou vai?

olá, o meu nome é vítor gaspar e tenho um problema

Por Tiago Mesquita
http://expresso.sapo.pt

"Olá, o meu nome é Vítor Gaspar e estou limpo há quatro dias, sem alterar previsões financeiras. O meu problema orçamental começou há quase dois anos. O objectivo inicial era ter um défice de 2,3% em 2014. Delírios. A partir daí, entrei numa espiral recessiva e nunca mais consegui controlar-me. Nem a mim, nem ao défice. Entrei em negação. Em Setembro do ano passado já derrapava por todos os lados - o objectivo saltou de 3% para 4,5%. Viciado em previsões, injetava fantasias nos portugueses.

Seis meses passados, a ressacar, ando de mão estendida a pedir ao dealer mais um ano para tentar reequilibrar a minha vida e deixar o défice abaixo dos 3%, mesmo sabendo que mais depressa se demite o meu colega Relvas. Tentei várias vezes iludir-me, iludir a família política, a oposição e os cidadãos. Nunca consegui combater o problema. Os amigos e aliados começaram a afastar-se. E é por isso que decidi juntar-me a este grupo de cidadãos com problemas de défice anónimos. Sinto-me só.

Sei que o meu descontrolo financeiro afecta milhões de pessoas. Prometi reduzir o défice e, quando vi que não conseguia, comecei a dar nas receitas extraordinárias como um maluco. Andava desorientado.Todas as metas que tracei foram um desastre total. Sinto-me frustrado. As expectativas foram goradas. A recessão prevista de 1% para 2013 foi outra situação complicada. Tenho de enfrentar a realidade, a recessão de 2% está aí, depois da quebra no PIB de 3,2% em 2012. Tudo isto deitou-me ainda mais abaixo, as minhas olheiras alastram, a minha voz arrasta-se. A dívida pública, comigo, já passou a barreira dos 120% do PIB. Não sei o que fazer. Neste momento, já não distingo um ficheiro Excel de um Powerpoint.

Durante este processo, recorri a algumas entidades estrangeiras especializadas para me ajudarem a ultrapassar o problema, mas até as previsões definidas conjuntamente, com as quais me comprometi, falharam totalmente. Sinto-me a surfar uma onda de trinta metros, como aquele rapaz da Nazaré, com a diferença de que não percebo puto de surf. Sei perfeitamente que, não tarda muito, vou levar com o vagalhão na nuca. Perdi completamente o controlo da situação e gostava que me ajudassem a recuperar a capacidade de acreditar nas minha próprias fantasias."

Uma salva de palmas para o Vítor, que teve a coragem de partilhar a sua história connosco. 

as unhas de gel de passos coelho

Por Tiago Mesquita
http://expresso.sapo.pt

O feitiço virou-se contra o feiticeiro. Em protesto contra a nova legislação que penaliza com multas até 2000 euros quem não pedir facturas, muitos consumidores começaram a pedir facturas com o número de identificação fiscal de Pedro Passos Coelho. Os dados do primeiro-ministro estão a ser divulgados em SMS e emails que se tornaram virais. As redes sociais estão a propagar o protesto.

Segundo o Correio da Manhã, deram entrada no sistema e-factura "milhares de facturas" com o número de contribuinte do primeiro-ministro, passadas em restaurantes, cabeleireiros e oficinas de automóveis - totalizando milhões de euros em despesas." Público

Pois é, isto de legislar à portuguesa tem quase sempre uma resposta... à portuguesa. A originalidade sempre foi uma das facetas do povo português e isso está a ficar demonstrado nos balcões de pastelaria e nas mesas de restaurante, ao som dos secadores e com um cheiro intenso a óleo de motor impregnado no ar. O protesto, apesar de ilegal, pois configura um crime de falsas declarações, é de tal forma criativo que jornais como o El Pais e o Financial Times já o destacaram nas suas edições. Uma página criada no Facebook denominada "As Facturas do Coelho" vai dando conta das "alegadas" despesas privadas de algumas figuras de Estado.

E ao que parece não é só Pedro Passos Coelho a fazer unhas de gel todo o santo dia, depois de comprar vários quilos de cenouras a granel. Enquanto o primeiro-ministro comprava um corpete e preservativos que davam para um regimento numa sex-shop do Bairro Alto, o ministro Miguel Relvas, em Campolide, colocava extensões pela quinta vez em apenas uma semana. Ao mesmo tempo, comprava um chupa-chupa em Évora. Vítor Gaspar muda o óleo do automóvel de hora a hora e bebe mil e quinhentos cafés por dia, facto que não parece ajudá-lo em relação à acuidade das suas previsões orçamentais, nem tão pouco parece a cafeína em excesso acelerar-lhe o discurso. Passa a vida a recauchutar os pneus e o défice.

A ministra da Justiça, Paula Teixeira da Cruz, também não sobreviveu à onda das facturas: deve ter mais pontos da Galp que uma empresa de camionagem. O ministro Paulo Portas, a julgar pelo dinheiro que gasta em fast food, deve estar a pesar trezentos e cinquenta quilos. A caminho de Viseu, comprou um rapa-tachos.

Mas não fica por aqui. Desde que a legislação se tornou moda pelo célebre discurso do "tomar no cu" proferido pelo ex-secretário de Estado da Cultura, insurgindo-se contra a máquina fiscal do Estado, até o Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, parece ter sido "obrigado" a aderir ao e-factura. Um brushing, meia-perna e virilhas, seguidos de um almoço farto na estrada da Guia. Ironias do destino, seguir-se-á a mais que provável fiscalização por gastos superiores aos rendimentos declarados. Se é de lei, é para cumprir.

carreira das neves, o cláudio ramos da igreja católica

Por Tiago Mesquita
http://expresso.sapo.pt

O padre Carreira das Neves é uma espécie de Cláudio Ramos da Igreja Católica. Sempre que há tricas, o padre Carreira tem uma na manga - da batina. Sabe sempre mais qualquer coisa que o comum dos párocos. É o verdadeiro rato de sacristia. Teria uma excelente "carreira" como cronista social numa publicação sobre a vida cor-de-rosa do Vaticano.

No dia 21, disse na SIC que sabia que o ex-bispo auxiliar de Lisboa, Dom Carlos Azevedo, é homossexual e que "tinha problemas complicados". Portanto, para o padre Carreira, para além de gay, Dom Carlos tinha "problemas complicados". Ora bem, mais generalista é impossível. Dá para tudo. Insondáveis são as palavras de Carreira. Quem é que hoje em dia não tem "problemas complicados"? Só Dom Carlos Azevedo, o padre das Neves e Deus saberão, ao certo, a que problemas se referia. Prestações do carro em atraso? Problemas hemorroidais? Bem, sejam quais forem, aparentemente a solução está em viajar até Itália. Segundo Carreira, "talvez ele tenha ido para Roma por causa desses problemas complicados." Todos os problemas vão dar a Roma.

Ontem, na SIC Notícias, o padre pediu desculpa pelas afirmações. "Quero pedir perdão. Que me desculpe o Dom Carlos Azevedo(...) Fiz declarações a partir de rumores que andavam por aí. Quando me perguntaram, quando surgiu esta questão, se eu sabia, eu disse que tinha tido, há três ou quatro meses, notícias através de um amigo de que havia rumores de que ele era homossexual e que a homossexualidade era reconhecida", explicou. Brilhante. A minha porteira não faria melhor.

Foi mais ou menos assim: tinha ido ao café comer uma pata de veado e, ao balcão, estava uma senhora a dizer ao proprietário que o filho tinha um Dom para a matemática, segundo a professora da primária. Na mesa ao lado, numa conversa paralela, um moço estava a dizer que um vizinho dele, um tal de Carlos, era um grande maricas e que o tinha sido apanhado agarrado ao caseiro no celeiro da quinta de Almoçageme de Vale e Azevedo. Eu, preocupado em registar o euromilhões em semana de jackpot, baralhei-me, juntei tudo na 1,2,3, carreguei e saiu o DOM CARLOS AZEVEDO MARICAS. Estas coisas acontecem. Tenho um primo que transformei em hermafrodita aos quinze anos de idade, numa situação parecida mas passada na mercearia. Ainda hoje não se livrou da fama -coitado.

"A minha mensagem... como chegou a ele... Com certeza que está muito ofendido comigo. Quem não se sente não é filho de boa gente. Eu quero dizer ao Dom Carlos Azevedo que sou amigo dele (...)", disse Carreira das Neves. É caso para dizer a Dom Carlos Azevedo, em jeito de conselho, que com amigos destes mais vale fazer um pacto com o diabo.

o traste

Por Sérgio Lavos
http://arrastao.org/

O exercício já foi feito por mais pessoas, mas nunca é de mais recordar alguns dos tuítes com que Pedro Passos Coelho nos brindou antes de ir ao pote, um festival de encenação e má fé nunca antes visto em Portugal:











Prefiro ser criticado por alguma medida mais difícil que defendo do que ser acusado de ludibriar as pessoas. - 16 de Maio de 2011.

Foi você que pediu um primeiro-ministro mentiroso, aldrabão, ignorante, cínico e farsante? Ou quer repudiar e derrubar o maior traste que já passou pela cadeira de primeiro-ministro de Portugal?

a chacota

Por Fernando Dacosta
http://www.ionline.pt

Passos Coelho e a Vítor Gaspar aconteceu a pior coisa que pode suceder a um governante em Portugal: de temidos passaram a desprezados. Não perceberam que a posição de superioridade e arrogância que tomaram, de pesporrência e insolência que exibiram, é muito imprudente em políticos sem currículo, sem obra, sem reconhecimento. Como os não tinham, disfarçaram a ignorância com a sobranceria, a impreparação com o autismo; cheios de vento, golpearam identidades, tradições, direitos, culturas, dignidades. Acabarem com o feriado do 1.o de Dezembro foi uma das piores leviandades cometidas; o ódio que fomentaram nos funcionários públicos e nos reformados, uma canalhice; a aldrabice sistemática que utilizam, um opróbrio; o esbulho da classe média, uma hecatombe fascizante.

Emproados internamente, provincianos externamente, revelaram-se subservientes com os de cima e despóticos com os de baixo. O servilismo mostrado ante os senhores germânicos tornou-se pungente de ver, repugnante de aceitar. O seu comportamento contagiou ondas de roedores contra a dignidade portuguesa, o que leva as populações a execrá-los ao som da “Grândola”, canção-hino de liberdade e júbilo.

Presidente, ministros, secretários de Estado e afins não podem já sair à rua sem ser vomitados. Ao perceber que o rei vai nu, o português entre-_gou-se ao escárnio, perdendo o respeito, o medo, a paciência. Ora quando tal acontece torna-_-se impossível ao governante a governação, diz a história e o bom senso. Este executivo vai desmoronar-se pontapeado pela ira e pela chacota – mistura letal entre nós.

portugal multiplicado


200 milhões, é o número de pessoas que a ONU calcula terem entrado na pobreza extrema em 2012. O equivalente a 20 países com a população de Portugal. É obra. Dos mercados, dos que mais têm e mais querem acumular, da banca, dos governantes de um mundo cada vez mais sórdido. De um mundo em colapso.

27/02/13

jardim d'infância













Éramos eternos.


esta ANA não se vende

o facebook bloqueou-me

Estou de castigo. O facebook é mau, o facebook é severo, o facebook é um sacana da primeira apanha. Bloqueou-me. Sob o pretexto de que estaria a publicar demasiados posts. Isso. Estava a abusar, é o que eles dizem.

Coincidência. Pura coincidência. É que, daqui a dois dias, é 2 de Março. Até lá, não posso divulgar nenhum cartaz, nenhum comentário, nada, nadinha. 

Vão à merda.

Estás temporariamente bloqueado

Aparentemente, estavas a avançar demasiado depressa e a abusar desta funcionalidade, por isso, foste bloqueado durante até dois dias.

Sabe mais sobre bloqueios no Centro de Ajuda.

o meu amigo matou-se


É um dos motivos porque vou à manifestação do dia 2 de Março.

Vou também em nome do meu amigo. No dia 18 de Fevereiro o meu amigo J. C. deu um tiro na cabeça. Já não vai a esta manifestação.

Era um indigente ou um faminto? Não. Era um exemplo da chamada classe média. Gostava da vida. De comer, de dançar, de ir à praia. Ele e a mulher comportavam-se como dois namorados, depois de todos estes anos. Gostava dos filhos, a quem era muito chegado, gostava da neta. Gostava do trabalho. Mas, a situação a que nos levaram criou um labirinto sem saída. De facto, sem saída para uma grande parte da população. Deixemo-nos de flores, de «há soluções para tudo», de «é preciso ter esperança» ou de «há-de correr bem». Há certas situações que não têm solução à vista. Tinha os pais em casa com oitenta e tal anos e tinham chegado ao ponto de não conseguirem tratar de si próprios. Solução? Um «lar» custa 1300 euros para cada um. Uma empregada permanente anda por aí.

Tinha empregados a quem tinha que pagar salários todos os meses. Tinha empréstimos ao banco, crédito a cumprir, letras. Tinha clientes que não pagavam, porque por sua vez não lhes pagavam a eles. Os filhos trabalhavam, mas havia um apoio indispensável, por causa da precariedade e por causa de situações de doença.

O senhorio acabava de, em concordância com a nova lei das rendas, passar-lhe a renda para o dobro.
Tinha solução para esta espiral que todos os dias se agravava? Não tinha.

Declarava insolvência, renunciava a todos os pequenos bens, ia para a rua, abandonava pais e filhos ao destino? Claro, tudo é possível. Mas a dignidade tem um preço. Os amigos podiam ajudar? Muito pouco.

Foi com certeza em nome da dignidade que teve a coragem de acabar com a vida.

Nesse mesmo dia veio ter ao Serviço de Urgência do Hospital de Santa Maria uma senhora que se atirou para debaixo do comboio do Metro. Salvaram-na, mas ficou sem um braço. Dias antes atirara-se a professora e o filho de uma janela em Bragança. Na ponte da Arrábida são frequentes os ajuntamentos porque alguém se atirou.

Estamos a assistir a uma epidemia?

Como os nossos governantes e as estruturas internacionais e o poder financeiro mundial já não distinguem entre o Bem e o Mal, temos nós que desobedecer às leis do Mal, protestar, mas não só. Encontrar o caminho para derrubar este Poder. No dia 2 de Março o meu caminho começará na Maternidade Alfredo da Costa na Maré Branca e continuará com todos os outros, através de Lisboa.

Também em nome do meu amigo que NÃO AGUENTOU.

Isabel do Carmo

coelho vaiado outra vez

Esta tarde, na Faculdade de Direito. Não há direito! Tadinho do leporídeo.




está-se-lhes a acabar o tempo de saldar o que não é deles



Foi Bertolt Brecht, servindo-se do seu alter-ego «Senhor Keuner», quem contou a história do desempregado que, em julgamento, quando lhe perguntaram se pretendia fazer um juramento laico ou religioso, respondeu que, na situação em que se encontrava, aquela questão tinha deixado de fazer sentido. Tinha, muito simplesmente, mais com que se preocupar.

Talvez os indivíduos que nos governam se fiem demasiado nesta lição e tenham entendido que, num país com um desemprego galopante como o nosso, as pessoas estão tão ocupadas em imaginar um modo de sobreviver que não terão tempo para se opor ao constante acosso de que vão sendo vítimas. Mais preocupados em assegurar, ao menos, o jantar do dia seguinte, queremos lá saber se, em 2015, ainda haverá alguma coisa a que possamos chamar nossa e que não tenha já sido entregue à grande roda dos amigalhaços instalados, a troco de férias no Copacabana Palace e lugares em conselhos de administração.

Quando, há dias, foi interrompido pela Grândola, Vila Morena num debate (chamemos-lhe assim por mera comodidade) em Vila Nova de Gaia, o urubu Miguel Relvas assinalou a saída dos manifestantes da sala com recurso ao velho adágio, segundo o qual «o povo é sereno». Menos de vinte e quatro horas depois, no ISCTE, em Lisboa, outros manifestantes conseguiram que Relvas se calasse e abandonasse o salão, recordando a quem por acaso não se lembre que, por muito sereno e paciente que seja o povo, também chega uma altura em que se lhe esgota a proverbial paciência.

A saída do rotweiller do governo do ISCTE com o rabo entre as pernas é uma coisa que dá que pensar. Desde há muito tempo que me parece claro que só existe uma forma de obrigar quem nos governa a ganhar decoro e vergonha na cara: impedindo que saiam à rua sem serem confrontados com o descontentamento daqueles que vão passando mal enquanto a banca recebe, de papo cheio, os milhões de recapitalização da troika. Se, de cada vez que põem o nariz fora da porta, escutassem a Grândola e aquele «o povo unido jamais será vencido», talvez Passos Coelho e os seus elfos vendilhões percebessem que se lhes está a acabar o tempo de saldar o que não lhes pertence.

É por isto que manifestações como a que está marcada para 2 de Março são importantes: para que a cáfila possa ver quantos somos e de que tamanho é a nossa determinação. Um dia atrás do outro, porém, é necessário que continuemos mobilizados e activos — para que, ao menos, não volte a suceder que grupos de cidadãos desçam à miséria de ir cantar as Janeiras ao indivíduo que cinicamente lhes assalta os bolsos, como servos da gleba indo prestar vassalagem ao senhor feudal.

Manuel Jorge Marmelo
http://queselixeatroika15setembro.blogspot.pt/

vamos encher esta praça!

Por aqui andou Salazar em dias de raça. Por aqui Azevedo, o almirante-bardamerda, gritou à populaça que o povo era sereno, que era só fumaça. Se é sereno não é burro, não sempre, nem peça de caça nem gente madraça. Rejeitamos a desgraça, a trapaça, a ameaça. Em Março, vamos encher a praça. Em Março, o Paço é nosso. Vamos a terreiro gritar contra a farsa, a mordaça, a carcaça hedionda de um capitalismo em estertor. Estarei lá!

sábado é dia de boa ventura

ai o ódio, ai o insulto, ai a grândola


O Sr. Pingo Doce afirma-se revoltado com as "mensagens difíceis de compreender em que o ódio e o insulto é (sic) a característica principal”. Pois. O Sr. Pingo Doce não precisa de insultar ninguém. Com mais 360 milhões de euros no papo, tanto quanto os seus lucros em 2012, para o Sr. Pingo Doce a vida é uma doçura, um rio de mel, rebuçadinhos da marca dele. Nós, pelo nosso lado, continuaremos a insultar se for preciso. Quanto ao ódio, a cada um o seu feitio. Eu limito-me a desprezar os pingos, por mais doces que sejam. 

Fotografia de Nuno André Ferreira/Lusa (http://www.esquerda.net)

quando a europa salva os bancos, quem paga?

cá vai alho!

Não publico aqui todos os cartazes do dois de Março, tal a abundância e a explosão criativa. Mas, este, merece bis. Eles que vão para o alho enquanto nós, do Marquês ao D. José, vamos exorcizar os demónios que nos sugam a vida e ensombram o futuro. O auto dos danados é já no Sábado. E cá vai alho!


a onda vai virar tsunami



1917-2013


nós na rua para os meter na rua

Não podemos deixar que nos matem, nos roubem esta felicidade de estarmos vivos e juntos, não podemos adiar a nossa vida, não queremos esta vida assim, queremos apenas ser amigos uns dos outros — e livremente pensarmos e livremente viver. É difícil. Mas queremos, e assim faremos tudo para deitar abaixo quem nos impede a vida e essa coisa a que chamamos amor.
Jorge de Silva Melo

Nós somos «a esperança que não fica à espera».
Quem pode ser no mundo tão quieto
Que o não movem nem o clamor do dia
Nem a cólera dos homens desabitados
Nem o diamante da noite que se estilhaça e voa
Nem a ira, o grito ininterrupto e suspenso
Que golpeia aqueles a quem a voz cegaram
Quem pode ser no mundo tão quieto
Que o não mova o próprio mundo nele.
Manuel Gusmão

Quantos Jardins, quantos Loureiros serão ainda necessários para que isto rebente e o país finalmente aprenda todos os velhos cantos das novas lutas, e a gente acorde finalmente por nós próprios, sem que ninguém nos mande? Quem precisa de acordar é o povo. Esse é que anda adormecido.
Pedro Barroso

Com o aumentar da miséria e da violência, o seu território principal é a rua. Quanto mais tarde tomarmos as ruas para fazer esta batalha, mais difícil será o nosso futuro. É preciso unir esforços. Multiplicar activistas, reforçar as ligações, construir pontes e aumentar a militância combativa para fazer frente a todos os ataques. Juntar cidadãos, movimentos e partidos que não acreditam que nos devamos restringir a pregar por uma exploração mais fofinha. Juntar quem se opõe às políticas da troika e todos os que se declaram intransigentes na defesa da liberdade, igualdade e democracia. Juntar quem está disponível para o choque e para o confronto. Juntar para lutar, resistir e construir uma democracia plena. Tomemos as ruas. Rompamos o silêncio.
Tiago Mota Saraiva

Vivemos tempos difíceis, todos sabemos, e que continuam os abusos de poder também sabemos, que é uma injustiça diária o que vemos nas notícias, todos também sabemos. Por toda esta situação que tanto nos revolta, devemos gritar bem alto que BASTA, que JÁ CHEGA, que JÁ NÃO TOLERAMOS MAIS. Nestes tempos, como noutros, a nossa voz tem de ser ouvida. Podemos pensar que não serve para nada, mas serve. Sou da opinião que eles estremecem de cada vez que saímos à rua, e eles não conseguem controlar ou atribuir a uma força política a reunião de tantas pessoas descontentes É a arma que temos, sair à rua e GRITAR JÁ CHEGA!
Zé Pedro (Xutos & Pontapés)

As manifestações são historicamente formas de «votar com os pés». Esta particularmente surge num momento em que a dívida pública se tornou um garrote sobre a vida de quem trabalha. Apoio-a pela suspensão do pagamento da dívida, que é uma renda privada, e a reboque da qual se está a destruir o Estado Social.
Raquel Varela

A manifestação de 15 de Setembro de 2012 mostrou com clareza a importância das manifestações de massas, abertas e apartidárias e, no contexto agravado pelo anúncio da medida da TSU, desempenhou um papel decisivo no recuo do governo nessa altura. Mas o governo tem vários outros recursos e, com algum cinismo pelo meio, pôs em prática novas medidas que acabam por conduzir, no essencial, ao mesmo projecto político de fundo em curso: a transferência de dinheiro dos mais pobres para o pequeno grupo dos mais ricos. Passa pelo empobrecimento generalizado das populações, por cargas brutais de impostos sobre a classe média e pensionistas, mesmo os de mais baixos rendimentos, e por um claro favorecimento dos bancos e grupos financeiros, locais ou globais. Este projecto global, que esmaga os vários países do Sul da Europa, sob a orientação dos países ricos do Norte e as suas instituições financeiras associadas às políticas neoliberais (que se transferiram parcialmente dos EUA para a Europa) deve ser combatido. As suas consequências são já devastadoras e serão difíceis de recuperar face ao enorme grau do retrocesso. A crise-pretexto aumenta as desigualdades, a pobreza, a dificuldade de viver com a mínima decência e dignidade para muitas pessoas, quebrou o contrato social e as bases de um Estado Social que caminhe na direcção da justiça e da igualdade. É um projecto político que divide a própria base social de apoio dos partidos do governo, capturados por um grupo radical de direita ultra-liberal na ideologia, interesseiro nos negócios e mesmo imoral na forma como trata os mais deserdados do mundo.
António Pinho Vargas

Textos recolhidos em: http://queselixeatroika15setembro.blogspot.pt

vamos à rua respirar



Por Luís Rainha
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Cada semana traz mais um roubo: ordenados, pensões, acesso à saúde, educação. Já nem sonhamos com qualidade de vida: é o próprio direito a uma vida com dignidade que nos está a ser negado.

Tudo em nome da austeridade “custe o que custar”. Em nome de “mercados” que nos vigiam e avaliam. Em nome de bancos que lucram com a crise enquanto gritam à boca cheia que só temos é de “aguentar”. Em nome de quem, amanhã, vai dar emprego aos governantes que sangram os reformados, mas poupam os lucros obscenos das PPP. E tudo para nada: a economia afunda-se, o desemprego cresce, as asneiras nas previsões multiplicam-se.

Querem que ignoremos os escândalos, o património público em saldo, as promessas eleitorais fraudulentas. Como se fôssemos todos cegos, surdos e impotentes. Mas não somos. E sabemos que nada disto é inevitável, que existem alternativas. E sabemos que a vontade do povo não entra em hibernação mal os votos são contados.

Não queremos viver assim. Não deixamos que nos tirem direitos como se fossem esmolas dos poderosos à populaça. Quando tudo seca e fecha à nossa volta, do comércio a escolas e empresas, quando o desespero sufoca os mais fracos e jovens, não podemos ficar em casa, calados, à espera que o pesadelo acabe.

Este governo julga-nos comodistas. Mas não vamos entrar no matadouro de cabeça baixa. É hora de lhes fazer frente, de lhes provar que não somos mercadoria para sacrificar e vender. Sábado vamos à rua lutar pela vida. Resistir, gritar, desfilar para correr com eles.

o mito encalhado

Por Baptista-Bastos
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Tudo indica que o Grande Manitu das finanças portuguesas não passa de uma fraude. O homem, tido e havido como um génio sem par, não lhe acerta uma. De cada vez que se põe a prever, a projectar números e concepções, sai tudo errado; pior: acontece o contrário, com a consequência nefasta de afectar milhões de nós. Só agora, as indignações e os vitupérios começaram a surgir. E posta em causa a competência de Vítor Gaspar. Não se lhe exige que seja uma pitonisa de Delfos, dispondo de poderes premonitórios quase divinos. Mas pede-se-lhe, unicamente, que faça bem o seu trabalho: analise, compare, estatua as previsibilidades do mercado. A experiência ideológica aplicada a Portugal, de que ele é um obediente serventuário, conduz a um esvaziamento do próprio animus colectivo, resultado de um empreendimento de sujeição baseado no medo, na violência e na unilateralidade de pensamento.

No domingo, durante o programa Prós e Contras, de Fátima Campos Ferreira, um dos melhores que vimos, o general Loureiro dos Santos referiu que, nas Forças Armadas, um oficial superior que se enganasse tanto e tantas vezes, já tinha sido despedido. Aliás, durante a sessão, as críticas às definições e às decisões do Governo foram das mais lúcidas interpretações que tenho ouvido acerca da maneira e do modo como estamos a ser conduzidos e governados. Todo o poder encontra sempre uma resistência, sobretudo quando actua admitindo não haver possibilidade de escolha e de alternativa. As decisões são aceitas e tomadas em conjunto.

É, pois, preciso não esquecer de que a desgraça que nos atinge estende-se, na sua imperiosa e grave crueldade, à culpa de todos os membros do Executivo. Nenhum é inocente e cada um e todos terão de ser punidos, para lá do que as urnas disserem. A correlação entre acção e indulgência, que se tornou uma absurda normalidade, tem de ser interrompida, e os governantes responsabilizados. Recordo que a França, após a Libertação, criou a figura jurídica de "indignidade nacional" aplicável aos que haviam tripudiado sobre "a honra da pátria e os direitos de cidadania."

O lado "punitivo e ideológico", de que fala a eurodeputada socialista Elisa Ferreira, foi por eles criado e desenvolvido com inclemência e zelo. Resgatar a tragédia aplicando-lhes o mesmo remédio é uma tese que faz caminho, como resposta de justiça, nunca como retaliação ou vingança. Justiça, pura e simplesmente

O que este Governo nos tem feito representa a mais grave contraconduta social, política, cultural e humana verificada em Portugal desde o salazarismo. O discurso oposicionista não pode, somente, ser "diverso" e incidir, apenas, na "actualidade" portuguesa. Os sicários deste projecto encontram-se espalhados transver- salmente por todos os sectores da actividade europeia, mas não há batalhas inúteis, nem lutas sem sofrimento.

Fotografia: Enric Vives-Rubio (http://www.publico.pt)

populista é a tua tia e casou-se, pá!


Aqui d'el-rei que Beppe Grillo é populista e quem anda por aí a cantar a Grândola a ministros-sombra é antidemocrata de gema, retinto, assanhado e façanhudo, com barbas à Rasputine e os instintos sanguinários de um Hitler ou de um Estaline. Acudam, a democracia está em perigo!, gritam as virgens ofendidas do alto dos seus pedestais políticos e jornalísticos enquanto eu cá, mas quem sou eu?, acha o contrário, que, a pouco e pouco, os povos vão abrindo os olhos e exigem mais e melhor democracia. Sou dos que pensam que votar só não chega, que votar no mal e no mal menor ainda pior. Sou dos que querem mais, querem políticos sim, mas dos que lutem pela coisa pública e não pelos seus interesses ou pelos interesses dos seus partidos (claro que há excepções, nunca ninguém disse o contrário, só que as excepções são literalmente cilindradas dentro dos seus próprios partidos, não têm futuro, não nos garantem o futuro). 

Se a crise nos maltrata a cada dia que passa, também nos ensinou - a duras penas, é verdade - que já chega de compadrio e clientelismo, já basta de Cavacos dos centros culturais, de Guterres das pontes e estádios, de Sócrates dos Magalhães e da demagogia barata, de Santanas de ópera-bufa e de Coelhos dos roubos e impiedades e mentiras e humilhantes subserviências a pensar nos amanhãs que lhes cantarão em cargos de estadão. Queremos políticos, de direita ou de esquerda estão no seu direito de pensar diferente, que sejam sérios e encarem a sério a sua missão de servir o País e não de se servirem ou servirem os senhores do dinheiro, os donos do mundo. Sou pela implosão do actual sistema, lá isso sou. E a favor da democracia plena, não da fingida, deste simulacro assente em mentiras, logros, atentados à nossa inteligência e assaltos à nossa bolsa. Sou como milhares de portugueses que vão andar sábado pelas ruas. Os malandros cantarão a Grândola. Deus nos acuda que a democracia, nesse dia, vai ficar enclausurada no parlamento, nas sedes partidárias, no conselho de ministros, no palácio de Belém. À solta, andarão os apologistas da ditadura, do caos, da hecatombe. Aqui d'el-rei. Acudam-se.

26/02/13

voando sobre nova iorque

Fotografia: http://www.sergesemenov.com/

a liberdade está a passar por aqui

Por Nuno Ramos de Almeida
http://www.ionline.pt

O maior filósofo de origem portuguesa viveu em Amesterdão. Bento Espinosa e a família fugiram aos archotes da inquisição numa época em que a liberdade não existia em Portugal. Na sua obra defendeu que a soberania não tinha origem nas instituições, que a origem dessa estranha potência residia no povo em movimento. O povo não aprisionado em instituições era o excesso que estava na base do poder constituinte da liberdade. Diríamos hoje que a democracia tem de ser o regime em que o sujeito é o povo. Algo que é muito diferente da ditadura dos governantes. Os poderosos e os seus acólitos esqueceram convenientemente que a democracia não é apenas o acto de eleger um parlamento: só há democracia a sério se as pessoas tiverem a liberdade de se opor a políticas e governos injustos. A democracia mede-se pela possibilidade de dizer “não”.

O actual governo foi a eleições defender que baixava os impostos, não cortava nos subsídios e nos salários dos trabalhadores, não extorquia as reformas dos pensionistas e não ia despedir funcionários públicos e muito menos aumentar o desemprego.

Um dia depois de a troika aterrar para a sua sétima avaliação, sabemos que governo e troika mentiram e fizeram tudo ao contrário do que prometeram. As suas medidas estão a levar o país à ruína. No final de 2013 haverá cerca de 17,5% de desempregados nas estatísticas, mas o número real de pessoas que estarão no desemprego tocará os 25%. A maioria das pessoas estarão mais pobres e muitas serão obrigadas a deixar Portugal. A dívida externa será superior a 122% do produto interno bruto (PIB) e desde que os homens da troika aterraram em Portugal esse mesmo PIB terá descido mais de 7%.

Basta viver e trabalhar em Portugal para saber que esta política tem sido uma catástrofe. Um relógio parado acerta mais vezes nas horas que o governo de Vítor Gaspar nas projecções económicas. Chegou o momento de recusarmos um caminho que não votámos, que não discutimos e que vai hipotecar o futuro de muitas gerações.

A manifestação de 2 de Março, que está marcada para mais de 40 cidades, em Portugal e no estrangeiro, é esse momento. Se formos muitos os que sairmos à rua, vamos mostrar que a maioria das pessoas não quer este caminho. Há um governo, um parlamento e um Presidente da República da mesma cor política e que querem ser cegos e surdos à vontade dos portugueses, mas eles só conseguem governar se nós quisermos e se a nossa rejeição for invisível. A 2 de Março, do que se trata é de mostrar que não queremos mais esta situação e esta política.

Quando conquistámos a nossa liberdade, há mais de três décadas, fizemo-lo com um símbolo que era uma canção que nos lembrava que “o povo é quem mais ordena”. Neste momento é preciso relembrar àqueles que servem outros interesses que não os da população que em democracia o poder é do povo. E em momentos determinantes é preciso dar a voz ao povo.

Num belo texto de apoio à manifestação de 2 de Março, o poeta Manuel Gusmão escreveu que nós somos “a esperança que não fica à espera”:

“Quem pode ser no mundo tão quieto/Que o não movem nem o clamor do dia/Nem a cólera dos homens desabitados/Nem o diamante da noite que se estilhaça e voa/Nem a ira, o grito ininterrupto e suspenso/Que golpeia aqueles a quem a voz cegaram/Quem pode ser no mundo tão quieto/que o não mova o próprio mundo nele.”

A 2 de Março somos todos precisos para mover Portugal.