a liberdade está a passar por aqui

Por Nuno Ramos de Almeida
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O maior filósofo de origem portuguesa viveu em Amesterdão. Bento Espinosa e a família fugiram aos archotes da inquisição numa época em que a liberdade não existia em Portugal. Na sua obra defendeu que a soberania não tinha origem nas instituições, que a origem dessa estranha potência residia no povo em movimento. O povo não aprisionado em instituições era o excesso que estava na base do poder constituinte da liberdade. Diríamos hoje que a democracia tem de ser o regime em que o sujeito é o povo. Algo que é muito diferente da ditadura dos governantes. Os poderosos e os seus acólitos esqueceram convenientemente que a democracia não é apenas o acto de eleger um parlamento: só há democracia a sério se as pessoas tiverem a liberdade de se opor a políticas e governos injustos. A democracia mede-se pela possibilidade de dizer “não”.

O actual governo foi a eleições defender que baixava os impostos, não cortava nos subsídios e nos salários dos trabalhadores, não extorquia as reformas dos pensionistas e não ia despedir funcionários públicos e muito menos aumentar o desemprego.

Um dia depois de a troika aterrar para a sua sétima avaliação, sabemos que governo e troika mentiram e fizeram tudo ao contrário do que prometeram. As suas medidas estão a levar o país à ruína. No final de 2013 haverá cerca de 17,5% de desempregados nas estatísticas, mas o número real de pessoas que estarão no desemprego tocará os 25%. A maioria das pessoas estarão mais pobres e muitas serão obrigadas a deixar Portugal. A dívida externa será superior a 122% do produto interno bruto (PIB) e desde que os homens da troika aterraram em Portugal esse mesmo PIB terá descido mais de 7%.

Basta viver e trabalhar em Portugal para saber que esta política tem sido uma catástrofe. Um relógio parado acerta mais vezes nas horas que o governo de Vítor Gaspar nas projecções económicas. Chegou o momento de recusarmos um caminho que não votámos, que não discutimos e que vai hipotecar o futuro de muitas gerações.

A manifestação de 2 de Março, que está marcada para mais de 40 cidades, em Portugal e no estrangeiro, é esse momento. Se formos muitos os que sairmos à rua, vamos mostrar que a maioria das pessoas não quer este caminho. Há um governo, um parlamento e um Presidente da República da mesma cor política e que querem ser cegos e surdos à vontade dos portugueses, mas eles só conseguem governar se nós quisermos e se a nossa rejeição for invisível. A 2 de Março, do que se trata é de mostrar que não queremos mais esta situação e esta política.

Quando conquistámos a nossa liberdade, há mais de três décadas, fizemo-lo com um símbolo que era uma canção que nos lembrava que “o povo é quem mais ordena”. Neste momento é preciso relembrar àqueles que servem outros interesses que não os da população que em democracia o poder é do povo. E em momentos determinantes é preciso dar a voz ao povo.

Num belo texto de apoio à manifestação de 2 de Março, o poeta Manuel Gusmão escreveu que nós somos “a esperança que não fica à espera”:

“Quem pode ser no mundo tão quieto/Que o não movem nem o clamor do dia/Nem a cólera dos homens desabitados/Nem o diamante da noite que se estilhaça e voa/Nem a ira, o grito ininterrupto e suspenso/Que golpeia aqueles a quem a voz cegaram/Quem pode ser no mundo tão quieto/que o não mova o próprio mundo nele.”

A 2 de Março somos todos precisos para mover Portugal.

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