01/08/15

a pátria em acentuada decadência

Gastão de Brito e Silva/http://ruinarte.blogspot.pt/

Por Baptista-Bastos
Jornal de Negócios

A decadência portuguesa acentuou-se nos últimos quatro anos. O universo de embuste criado com o “empobrecimento” da população; a “austeridade” imposta por uma ideologia que ignora as características, a cultura e a História do país criaram uma apatia de desistência, já marcada anteriormente e acentuada agora. Não há debate político ou cultural; inculcou-se no português médio o fetiche do futebol; as revistas cor-de-rosa deram lugar a um universo fantasioso; e a imprensa, aquela que tinha por dever, obrigação e destino, está moribunda e pertence a grupos industriais com objectivos e funções especiais, que pouco têm a ver com a própria natureza do “produto.”

É penoso ler a imprensa dita de “referência”, estafada em desaforar o leitor dos grandes problemas nacionais e internacionais. A caso da Grécia, nos nossos jornais, foi e tem sido tratado com uma leviandade e uma displicência que brada aos céus. Nem nos tempos do fascismo, com censuras internas e externas, eram analisados temas como quem despacha um fardo enfadonho. Nem durante a guerra do Vietname, que seguimos com a atenção que o conflito justificava, a imprensa portuguesa desceu tão baixo. Então, como agora, tratava-se de um acto de beligerância, cuja natureza exprimia uma ideologia de supremacia, que conduzira a um embate sangrento. As pessoas, em todo o mundo, tomaram partido, na maioria dos casos com evidente simpatia pelos vietnamitas. Na contenda entre a Grécia, foi rapidamente percebido o que estava em causa, mesmo que os jornais, as rádios e as televisões fossem omissos em abordar a essência da beligerância, e a capitulação do Syriza não deixou de magoar muita gente, pela evidente humilhação de um povo, cercado pelas garras do capitalismo mais exacerbado.

No ponto da situação, há uma luta de classes e de poder que pode arrastar a Europa para um abismo profundíssimo. A questão é que deixou de existir analistas que, pedagogicamente, explicassem o que está em jogo, e os perigos decorrentes de uma Europa atrozmente desunida, que não passa de uma cabisbaixa serventuária da Alemanha. As coisas devem ser ditas pelo próprio carácter do enredo.

Na discórdia europeia, Passos Coelho colocou-se, obediente e sabujo, ao lado de Angela Merkel, tal como, anteriormente, o fizera José Sócrates. Nesta parada de serviçais, não o esqueçamos, o único partido que sempre recalcitrou foi, e tem sido, o PCP. Goste-se ou não, os comunistas portugueses têm pelejado contra a subserviência dos nossos governos e alertado para a urgente necessidade de Portugal sair desta Europa defeituosa. Nada desta problemática é tratada, com a seriedade exigida, pelos órgãos de comunicação sociais. Se quiser saber o que realmente ocorre tem de frequentar a imprensa estrangeira, tal como no fascismo.

Este reino cadaveroso está envolvido num lamaçal de condescendências e de cumplicidades, que afecta a própria alma do que somos. “Um fraco rei faz fraca as fortes gentes”, disse-o o Poeta, melhor do que ninguém.

31/07/15

o triste viver

Por Baptista-Bastos
http://www.cmjornal.xl.pt/

Será que deixámos de acreditar em nós próprios? Parece que Garrett escreveu: "O país é pequeno e não maior a gente que o habita." Digo ‘parece’ pois a frase tem sido, também, atribuída a Herculano. Não fica mal nem a um nem a outro, ambos severos e fúnebres com a moleza de espírito e a indolência moral dos nossos concidadãos. A verdade é que poucas vezes tivemos dirigentes à altura das nossas esperanças. Dirigentes que, segundo Saramago, não passam de "salafrários" que se revezam na partilha dos bens e das benesses públicas. Vem agora o dr. Passos, que esteve no Funchal e nos Açores, a dizer coisas, entre as quais: "Vamos dar uma nova alma a Portugal." E "Portugal tem direito a um futuro melhor." Estas frases possuem um nexo entre si, de que sobressai a admissão de culpa do primeiro-ministro. Afinal, nos quatro anos de poder, tirou-nos a alma e extorquiu-nos o direito a um futuro melhor. É uma conversa armadilhada, que não resiste à mais vulgar reflexão. E a nossa apatia, revelada com infinita tristeza pelos nossos maiores, parece endémica. 

Aborrece-me e fatiga-me ter de nomear constantemente o dr. Passos, mas ele é o único responsável de ser o sujeito e o objecto textual dessa constância. Acabe ele com as banalidades e suprima do discurso a mentira e a omissão e tudo (mas tudo mesmo) será diferente. Porém, o homem está viciado com viver nesta impostura. Nada diz acerca dos resultados malignos da experiência neo-liberal inculcada no País, e da calamidade moral que acentuou a nossa nefasta melancolia, transversal a todas as actividades. 

Por outro lado, parece que as sobras das nossas recriminações não encontram eco no discurso socialista. A ufania dos primeiros tempos cedeu o lugar a uma triste resignação, como uma nostalgia de um absoluto que não conseguem alcançar. Toda esta languidez é transversal à sociedade. Nada existe, a cultura desapareceu como intervenção, os escritores estão emasculados, e há jornais onde o processo de saneamento se transformou em medo e em cuidados com o que é dito e escrito. Vivemos num tempo de precaucionismo. 

Acaso duvidam desta manipulação social e ética? Acaso estão tão anestesiados que já não questionam a ‘irrefutabilidade’ do rumo para que a Portugal e a Europa se encaminham? Volto a Herculano: "Isto dá vontade de morrer." 

http://colombina.deviantart.com/

traque ser

Lá terá que ser. Lá terei que falar mais uma vez de futebol, das fortunas ganhas no "desporto-rei" por gente que ou é dotada de pernas ou de cérebro, raramente das duas coisas ao mesmo tempo. E mais uma vez serei, mais até do que quando falo de política, insultado pelos futeboleiros de serviço que me acusarão de inveja em vez de, como é o caso, ter, ao contrário deles, noções rudimentares de justiça social, igualdade, decência mínima.

O manager de Ronaldo vai casar. E vai ter tudo de bom, tudo aquilo que o dinheiro pode comprar. A casa e os jardins de Serralves foram alugados pelos noivos para o copo d'água, Estrelas do futebol mundial acorrerão ao Porto para as cerimóninas, muitas delas em avião particular.

Se isto não o enoja, a mim sim. A riqueza excessiva de alguns é a miséria de milhões.

Não me diga?! Ainda não tinha dado por isso?

Pedro Ferreira/http://www.cmjornal.xl.pt/

logro e malogro


Em cima, o logro. 

Em baixo, o malogro. 

Em cima, as promessas, as mentiras, o colossal embuste, a gigantesca propaganda, a supremacia dos ricos contra os pobres, a luta de classes em toda a sua vitoriosa pujança, o vil aproveitamento das funções de Estado para levar a cabo a mais descarada campanha eleitoral de que há memória em tempos de democracia. 

Em baixo, na mó de baixo, o desfile dos sem-abrigo, dos desempregados, dos precários, dos emigrados, dos desalentados, dos empobrecidos à força de fisco e de confisco.

Em cima, a glória de um Portugal mais atrás, mais triste, mais pobre, mais humilhado.

Em baixo, a derrota de todos nós, do contribuinte esmifrado, do eleitor enganado, do cidadão vencido, do jovem emigrado, do trabalhador sem direitos nem salário digno do nome, do doente maltratado, do estudante desaproveitado.

Não sei de quem é esta fotografia, não consegui identificar o autor. Mas guardo-a como um extraordinário testemunho do Portugal de 2015. A imagem da desesperança. Da agonia de um país moribundo, que alguns tentam manter vivo à força de estatísticas enviesadas, números retorcidos, tratamentos com efeitos secundários devastadores.

Votar nestes tipos é optar pela nossa própria eutanásia.

30/07/15

ai que saudades da caras, da flash, da VIP, da nova gente, até da ana e da maria!

A gente pára nos escaparates a mirar as capas das revistas do coração cá do burgo, pindéricas, patronas da bisbilhotice verdadeira ou inventada, da desgraça alheia, de quem casou com quem, de quem anda com quem, de quem veste e despe quem. E, a seguir, dá com esta capa, em que o tema não é menos intrusivo ou menos sórdido - as mulheres vítimas de assédio sexual por parte de Bill Cosby - e não deixa de a admirar e de fazer comparações. E já nem falo dos textos, nas revistas portuguesas meros textículos e nesta outra escritas por gente que os tem no sítio, talento e ... talento.


estreia hoje o filme que ninguém quer ver



Tirando um ou outro amigo do produtor e do realizador, os críticos são quase todos unânimes: já viram este filme há quatro anos e a sequela, ao que parece, ainda consegue ser pior do que a versão original. Um senhor muito bem posto e de boas falas, fadado para altos voos, com casa modesta em Massamá e mansão lá no bairro, é o principal protagonista desta pretensa comédia de enganos, mas os supporting actors não lhe ficam atrás em talento para a aldrabice, a mistificação, a pequena e grande vigarice. Ao que parece, pelo menos a crer na ante-estreia ontem realizada, o público não se riu, houve até uma ou outra lágrima furtiva perante este filme de autêntico horror que era suposto ser de humor. Há a menina da caixa que roubou a massa dos associados, há o professor primário que quer deitar fogo à escola, há o médico que se entretém a matar enfermos, há um dono de pensões mais forreta do que o Patinhas, há a fogosa advogada que se atira aos juízes como a gata se atira ao bofe, há o menino Paulinho fã de submarinos e, pam pam pam pam!, há o presidente da colectividade, o único homem sério em todo o filme porque mais nenhum outro conseguiu nascer duas vezes. Segundo as notícias desta manhã, nem o marreco aguentou, desligou a maquineta e pôs-se na alheta. Em exibição em qualquer televisão perto de si. Em sessões contínuas. Aguente, ai aguente, aguente!

Fonte da imagem: https://www.facebook.com/silvestre.gago?fref=photo

este tipo inaudito e desavergonhado



Por Baptista-Bastos
http://www.jornaldenegocios.pt/

Não quero mais este tipo na minha casa, na minha rua, no meu bairro, na minha cidade, na minha pátria. Este tipo vendeu-nos, com um descaramento inacreditável. Este tipo parece um serventuário; parece, não: é um serventuário da alemã, e enxovalha-nos a todos quando, reverente e subalterno, caminha ao lado dela, atento ao que a alemã diz, e toma nota e fixa o que a alemã diz com reverente cerimónia. Este tipo disse que gastávamos demais, nós, os portugueses, que nunca soubemos o que era prosperidade, ter uns tostões a mais no bolso, satisfazermos os pedidos dos nossos filhos, por muito modestos que fossem. Eu, por exemplo, nunca consegui adquirir, nem em segunda mão, uma bicicleta para os meus filhos, embora tivéssemos feito, a minha mulher e eu, sacrifícios inauditos para os educar, sem a ajuda de ninguém. 

Já deixei de ouvir este tipo. E desligo logo a televisão, quando o vejo e ouço, sobretudo na SIC, que parece ter uma câmara sempre às ordens para filmar o mais desinteressante dos movimentos deste tipo. Este tipo é um mentiroso relapso e contumaz: toda a gente sabe e ele também, mas passa adiante. Este tipo disse, agora, que está em campanha, ter como prioridade o equilíbrio social entre os portugueses; mas foi ele que nos aplicou essa miserável doutrina do empobrecimento, mascarada de austeridade. 

Que fizemos para merecer tal provação? Foi este tipo, de olhar gelado, que nos atirou para o desemprego, para a emigração, para o desespero mais incontido, para uma vida sem esperança nem sonho. Foi este tipo que nos roubou os sonhos, não se esqueçam! 

Este tipo que despreza os velhos, que diz coisas imponderáveis, preso ao poder como uma lapa. Este tipo que está a pôr em causa a própria natureza da nacionalidade. Este tipo que, para seguir um nefando projecto capitalista, está a vender a pátria aos bocados e ainda há quem o aplauda. Os estipendiados de todas as profissões, os jornalistas venais, os políticos corruptos.

Este tipo desavergonhado, que diz que não disse o que disse, e diz o que não faz, com um impudor nunca visto. Este tipo, este tipo. 

Não quero mais este tipo na minha casa, na minha rua, no meu bairro. Não quero este tipo em nada do que me diga respeito. Escorracem este tipo do nosso viver quotidiano. Este tipo.

pornografia eleitoral

Eu sabia. Eu sabia que a campanha eleitoral ia ser suja. Mas tanto descaramento, meus amigos e amigas, é que estava longe dos meus receios mais pessimistas. Isto, este cartaz, é de um arrojo de meter nojo, de um desplante digno de meliante, de uma falsidade tão falsa como falsa é a felicidade das criaturas que lhes serviram de modelos, um avô a quem roubaram pensões, os netos a quem negaram o futuro. 

Eles prometem que não prometem. Mas prometem, claro, é tudo o que têm para dar, em promessas dão meças. Comprometem-se sem se comprometerem. Mentem sem nunca o admitirem. Juram em vão. Sorriem em vão. Falam em vão,  num qualquer vão de escada, associação recreativa, lugarejo onde vão inaugurar o Centro de Saúde que já funciona há dez anos e o chafariz que já deita água há três. E as televisões, pressurosas, atestam-lhes os microfones para que possam bolsar visões do paraíso que aí vem, para os ouvir condenar os malandros socialistas, perdulários até mais não, únicos agentes da corrupção que a outra gente, a da sua laia, é impoluta, mesmo quando lhes chamam filhos da puta, escroques, canalhas, gatunos, bons alunos da mestre-escola maldita. Eles agitam-se, agitam papões, bancarrotas, derrotas, terramotos, maremotos e até, se Costa galgar ao poder, e espero que sim embora não vote nele nem que Cristo desça à Terra e Marcelo Rebelo se cale, se Costa chegar a primeiro, atingir-nos-á o apocalipse e uma governação mais radical e mortífera do que a do Estado Islâmico, será uma bomba, sempre a bombar em despesas que pagamos e não bufamos. Medo, chantagem, mentiras, promessas, armas de uma coligação que, se não existisse, tinha que ser inventada. Por um cientista maluco ou um cérebrozinho malfazejo ou um qualquer sádico de bigodinho aparado e de braço esticado, enamorado das Portas por onde ressoam Passos de botas cardadas, hinos militares, bebedeiras descomunais e suásticas no coração e na ilusão.

Eu sabia. Faz calor. A ventoinha gira sem parar e os salpicos de lama atingem-nos, emporcalham-nos se não soubermos agir à viva força. Com a força que a razão tem.