o triste viver

Por Baptista-Bastos
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Será que deixámos de acreditar em nós próprios? Parece que Garrett escreveu: "O país é pequeno e não maior a gente que o habita." Digo ‘parece’ pois a frase tem sido, também, atribuída a Herculano. Não fica mal nem a um nem a outro, ambos severos e fúnebres com a moleza de espírito e a indolência moral dos nossos concidadãos. A verdade é que poucas vezes tivemos dirigentes à altura das nossas esperanças. Dirigentes que, segundo Saramago, não passam de "salafrários" que se revezam na partilha dos bens e das benesses públicas. Vem agora o dr. Passos, que esteve no Funchal e nos Açores, a dizer coisas, entre as quais: "Vamos dar uma nova alma a Portugal." E "Portugal tem direito a um futuro melhor." Estas frases possuem um nexo entre si, de que sobressai a admissão de culpa do primeiro-ministro. Afinal, nos quatro anos de poder, tirou-nos a alma e extorquiu-nos o direito a um futuro melhor. É uma conversa armadilhada, que não resiste à mais vulgar reflexão. E a nossa apatia, revelada com infinita tristeza pelos nossos maiores, parece endémica. 

Aborrece-me e fatiga-me ter de nomear constantemente o dr. Passos, mas ele é o único responsável de ser o sujeito e o objecto textual dessa constância. Acabe ele com as banalidades e suprima do discurso a mentira e a omissão e tudo (mas tudo mesmo) será diferente. Porém, o homem está viciado com viver nesta impostura. Nada diz acerca dos resultados malignos da experiência neo-liberal inculcada no País, e da calamidade moral que acentuou a nossa nefasta melancolia, transversal a todas as actividades. 

Por outro lado, parece que as sobras das nossas recriminações não encontram eco no discurso socialista. A ufania dos primeiros tempos cedeu o lugar a uma triste resignação, como uma nostalgia de um absoluto que não conseguem alcançar. Toda esta languidez é transversal à sociedade. Nada existe, a cultura desapareceu como intervenção, os escritores estão emasculados, e há jornais onde o processo de saneamento se transformou em medo e em cuidados com o que é dito e escrito. Vivemos num tempo de precaucionismo. 

Acaso duvidam desta manipulação social e ética? Acaso estão tão anestesiados que já não questionam a ‘irrefutabilidade’ do rumo para que a Portugal e a Europa se encaminham? Volto a Herculano: "Isto dá vontade de morrer." 

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