29/11/14

o linchamento de josé sócrates


Por Miguel Sousa Tavares
http://expresso.sapo.pt/

“Mal se anunciou a prisão de José Sócrates, o país saiu à rua em festa virtual... Fui testemunha, madrugada fora, da felicidade de milhares... O cidadão comum teme que José Sócrates acabe sem castigo. Eu também”.
Alberto Gonçalves, “DN”, 22.11.14

O “cidadão comum” e o Alberto Gonçalves podem estar descansados: pior castigo do que aquele que José Sócrates já teve é difícil. Tratando-se do cidadão José Sousa, os danos sofridos por ora ficariam no estrito conhecimento de alguns familiares e amigos íntimos, aguardando ele, quase de certeza em liberdade, que o julgamento os agravasse ou não. Mas tratando-se do cidadão José Sócrates Pinto de Sousa, os danos — pessoais, familiares, políticos e profissionais, agora e para sempre — são irreversíveis. E à prisão preventiva soma-se a condenação preventiva e definitiva. Se a vontade do “cidadão comum” fosse bastante, nem haveria necessidade de julgamento: ele já está feito.

Ninguém, absolutamente ninguém de boa-fé, pode dizer neste momento se José Sócrates é culpado ou inocente das gravíssimas acusações de que foi alvo. Pela simples razão de que um processo-crime se divide em várias fases — inquérito e acusação, defesa e contraprova, pronúncia ou arquivamento, e julgamento — e apenas estamos na primeira. Se a “prisão” (como sintomaticamente escreve Alberto Gonçalves, em lugar de “detenção”) tivesse já por si o valor de uma sentença condenatória, estaríamos de regresso à barbárie. Mas os magistrados não são o “cidadão comum” e a sua justiça é a do Estado de direito e não a da turba linchadora. A sua primeira tarefa é exactamente essa, a de tornar clara a diferença.

Pessoas que respeito têm argumentado que a insistência na crítica aos “pormenores” que envolveram a detenção, interrogatório e prisão preventiva de Sócrates desviam as atenções do essencial, que é a gravidade das acusações contra ele. Estão errados, por várias razões: primeiro, porque isso pressupõe o tal julgamento prévio de condenação; segundo, porque, não se conhecendo em toda a sua extensão a acusação e, em extensão alguma, a defesa, a única coisa que pode ser seriamente discutida é exactamente a parte processual relativa à detenção, interrogatório e medidas de coacção; e, em terceiro lugar e sobretudo, porque, ao contrário do que afirmam, não se trata de pormenores, mas justamente da marca de água onde se encontra ou não o rasto do respeito pelos direitos de cidadania, justamente quando ele é mais necessário. Os meus leitores far-me-ão o favor de lembrar que há muito escrevo sobre a Justiça, não ocultando todas as críticas que crescentemente me mereceu o que vejo como uma deriva justiceira, muitas vezes assente no atropelo de leis e princípios básicos de um Estado de direito, e fundada num especialíssimo regime de absoluta irresponsabilidade e ausência de controlo externo, como seria recomendável em democracia. As circunstâncias da “Operação Marquês” não fizeram senão cimentar as minhas razões. 

Para começar, não acho normal nem saudável que todos os principais crimes mediáticos ou envolvendo os chamados “poderosos” tenham a instrução a cargo de um único juiz e um único procurador. É assim há dez anos no TCIC e nem a nomeação de outro juiz, em Setembro passado, fez com que Carlos Alexandre deixasse de chamar a si todos os processos principais: Ricardo Salgado, vistos gold, José Sócrates. Ora, isto contraria um princípio fundamental da justiça que é o do “juiz natural”: não são os juízes que escolhem os processos, mas os processos que escolhem os juízes — por escala ou por sorteio. Mas quando só há um juiz (e um procurador), este princípio é espezinhado e, pela ordem natural das coisas, o juiz passa a fazer parte da equipa de acusação com o Ministério Público e a polícia criminal — o que é um grave desvirtuamento da sua posição, que deve ser de equidistância entre as partes. E, em termos práticos, um tribunal onde só há um juiz e um procurador, podendo haver vários, é um tribunal especial — coisa que a Constituição proíbe, por razões que qualquer democrata compreende.

Depois, e como já muitas vezes disse, não aceito a figura agora em voga da detenção para interrogatório ou para investigação. Considero-a uma interpretação abusiva e intolerável da lei. Respondem que havia o perigo de Sócrates, desembarcado em Lisboa, ir directo a casa destruir provas. Pois que tivessem feito a busca antes, quando ele cá estava: bastava tocar à campainha e mostrar o mandado. Ou então esperavam-no discretamente no aeroporto e perguntavam-lhe se ele consentia numa busca imediata, evitando a detenção.

Nós, os que ainda não votámos nas redes sociais, precisamos de saber se, no final de um processo justo, José Sócrates é culpado ou inocente. Mas a verdade é que não tenho grandes dúvidas de que a detenção prévia, as filmagens após comunicação interna, o aparato policial no tribunal, a saída em carrinha celular, tudo foi feito com a clara intenção de o humilhar, num ajuste de contas que vem bem de trás e que já conhecera dois episódios absolutamente lamentáveis para a justiça: a tentativa de o incriminar por “atentado ao Estado de direito” e o vergonhoso processo Freeport. 

Não acho aceitável que a PGR faça sair um comunicado após a detenção em que logo se diz que esta foi fundada na análise de “movimentos bancários sem justificação conhecida ou legalmente admissível” — justamente o que cabia provar à acusação e sobre o que o arguido ainda nem sequer se tinha podido justificar. E não quero acreditar que o despacho com as medidas de coacção tenha as 236 páginas que vi referidas, pois que isso levaria a pensar que, mesmo com abundante copy-paste, a decisão já estaria na cabeça do juiz antes mesmo de ele escutar as explicações dos arguidos e os argumentos da defesa.

Acima de tudo, porém, aquilo que não é possível aceitar, sob pena de total capitulação perante o abuso, é a habitual, mas desta vez absolutamente escabrosa, violação do segredo de justiça. E não me refiro aos jornais de estimação do Ministério Público ou ao ‘jornalismo do botox’, mas sim a um jornal como o “Público”, que, citando “fonte próxima do processo”, pespega com toda a acusação do MP no jornal, tratando-a como verdade definitiva e sem ter ao menos o cuidado de perguntar à fonte quais os elementos de prova concretos em que se fundava tal verdade. Não vale a pena alongarmo-nos em considerações sobre a intolerável prepotência que representam estas grosseiras e sistemáticas violações do segredo de Justiça por parte das entidades de investigação criminal: quem não percebe é porque só vai perceber se um dia lhe tocar. Mas é de uma imensa hipocrisia a vigência de um sistema de segredo de Justiça que permite que na fase da instrução (que, compreensivelmente, é aquela em que é excepcionado o princípio da igualdade entre partes), essa desigualdade legal seja acrescentada por uma desigualdade ilegal que faz com que a defesa esteja obrigada ao silêncio, enquanto a acusação litiga publicamente nos jornais, fazendo passar a sua versão, sem contraditório. Além de mais, é de uma cobardia sem remissão. E que serve dois fins: instigar o tal julgamento do “cidadão comum” e ficar bem na fotografia, quando todos, temerosamente, vêm dizer que “a Justiça funciona”. Como se a simples prisão de suspeitos e a divulgação pública das suspeitas, sem lugar a defesa, fosse sinal de que a Justiça funciona! Porque será então que os armários estão cheios de processos assim iniciados e que, uma vez promovido o julgamento popular, nunca mais chegaram a julgamento num tribunal?

Tudo isto são pormenores? Pois, talvez. Mas preparem-se para muitos mais pormenores destes, porque, como diz o povo, o que começa torto, raramente se endireita. E nós precisamos de saber, sem uma dúvida razoável, se, no final de um processo justo, José Sócrates é culpado ou inocente. Nós, isto é: os que ainda não votámos nas redes sociais nem celebrámos madrugada fora a sentença que queremos. Nós, os que ainda acreditamos que se fez um longo caminho desde os tempos em que o imperador consultava a turba para que ela decidisse a sorte dos condenados.

os limites e os constrangimentos que nos cercam

Luís Pardal/Global Imagens/http://www.dn.pt/
Por Baptista-Bastos
http://www.jornaldenegocios.pt/

O caso Sócrates (se, de facto, há "caso") inundou de perplexidade a perplexidade do viver português. As peripécias que envolveram a detenção do ex-primeiro-ministro e, depois, as declarações de Mário Soares, à entrada da prisão de Évora, irritaram meio mundo e o outro, e ambos esses meios têm a sua dose de razão. Soares é o que é, e nada a fazer para alterar o comportamento do velho político. Mas é comovedor que um homem à beira dos noventa anos se desloque de Lisboa, manhã cedo, para abraçar um amigo em dificuldades. Se as afirmações de Soares inquietaram outros, o mal será deles. Há que destruir a tese de conspiração, a começar pelo esclarecimento que é devido a quem não sabe o que se passa. Afinal, Sócrates é acusado de quê? Com fundamentos mais rigorosos e, acaso, mais consistentes, o dr. Ricardo Salgado beneficiou de um tratamento ameno, fazendo nós comparações nada apressadas, mas evidentes.

A verdade é que o País segue, arfante, o desenrolar destes acontecimentos. A Esquerda com a desconfiança que lhe é apropriada; a Direita asseverando que "a justiça está a trabalhar bem." O Governo rejubila com este "intermezzo" e continua a cometer as suas feias malfeitorias; os jornalistas e os comentadores estipendiados não alteram, um milímetro que seja, a linha tortuosa do seu pensamento, e entretanto, o País não pára de sofrer as inclemências de uma política que ninguém sabe aonde nos leva. O inestimável dr. Cavaco reafirma estarmos no bom caminho, a SIC parece paralisada e um pouco embrenhada na confusão dos seus articulistas encartados, e sem estímulos intelectuais, que reavivassem as nossas meninges, estamos à espera que o caso Sócrates tenha uma solução. O mal-estar é evidente. Aguarda-se outro escândalo à sobreposse, que apague ou diminua as ondas de choque por entre as quais vamos sobrevivendo.

Parece que atribuem pouca importância à medonha notícia, repetida nas televisões, segundo a qual uma em cada três crianças portuguesas vive na faixa da pobreza, quer dizer: da miséria. Secamente, a notícia é assim dada, seguindo-se o peditório sacramental para que as ajudemos. Não se esclarece que a teoria do empobrecimento foi um dos itens do programa do dr. Passos Coelho, imediatamente posto em prática com os despedimentos, os cortes nos salários, o desemprego em massa, a redução dos salários, das pensões e das reformas; a diminuição dos Orçamentos do Estado nos capítulos do financiamento social ao ensino, à saúde, à segurança.

Os nossos miúdos, às centenas, acaso aos milhares, vão para a escolas (as que reabriram) sem uma côdea de pão nos estômagos porque os pais estão desempregados e não há dinheiro em casa para pagar as rendas, quanto mais para uma sopa na mesa. O Portugal do dr. Passos e do dr. Cavaco não é a litografia pastoril que eles e os apaziguados apresentam. É esta miséria sórdida que, por exemplo, nos expõem as fotografias de Eduardo Gageiro, que recuperam a fome e a tristeza, quando julgávamos ter desaparecido do mapa da nossa melancolia.

Já suprimi dois jornais diários das minhas leituras e interesses. Já deixei de adquirir, há anos, o semanário do dr. Balsemão, e disse-lho porquê, num almoço para que me convidou. Não vejo quase todas as televisões, pelo enjoo das doses maciças de futebol, todos os dias, a todas as horas, com os habituais comentadores do óbvio, sem o mínimo respeito pelos telespectadores. "Se não quer ver e ouvir, desligue o aparelho, ou mude de canal", ouve-se dizer. Uma falácia de ignorantes, porque as imposições estão à vista, e a aldrabice das audiências não explica nem determina as "preferências" do público.

Estamos limitados pelas próprias limitações culturais de quem programa. Estamos mesmo?

eu cá p'ra mim, não há ai não, maior prazer do que o selim e a mulher


chamem-me antes carpideira

Porque não partilho do regozijo da direita (e, vá lá, de uma certa esquerda) com a prisão de Sócrates, porque tenho mais medo da reeleição de Passos Coelho do que de contrair uma doença maligna que me leve desta para pior, porque se Felícia Cabrita, O Sol, O Correio da Manhã andam metidos na estrangeirinha eu salto fora para não ser conspurcado pelos salpicos de imundícia, porque não me armo em juiz de meia-tigela, como tantos outros, e não arrasto Sócrates até ao pelourinho para o açoitar na praça pública, porque as malas com dinheiro, as escutas, o luxo de Paris e o mais que se conta por aí me fazem lembrar um filme policial de terceira categoria, porque a humilhação a que Sócrates foi sujeito me parece encenação maldosa, porque ainda não foi julgado, tenho-me manifestado contra a maledicência e o deleite dos canalhas, a favor de uma Justiça com menos circo e menos fuga de "informações", que investigue, apresente provas e, depois, condene se for caso disso. 

Porque assim é, porque não atiro a minha pazada para a cova de Sócrates, até já me chamaram uma das viúvas de Sócrates. Assim, sem tirar nem pôr.

Podem-me antes chamar carpideira? É mais castiço, gosto mais.

28/11/14

o que não querem que se saiba acerca da corrupção

Por Bruno Carvalho
http://manifesto74.blogspot.pt/


Há quem duvide de que não há um só banqueiro ou administrador de um grande grupo económico que não tenha o contacto de autarcas, deputados, ministros, primeiro-ministros e chefes-de-Estado nas agendas dos seus telemóveis? Há quem duvide de que a maioria dos escritórios de advogados em que trabalha uma parte dos deputados que exerce essa profissão não sobreviveria sem as empreitadas que os principais bancos e empresas lhes oferecem a troco de determinadas decisões políticas? Num Estado democrático, não pode ser normal que um ministro das Obras Públicas acabe como administrador da maior empresa de construção do país e também não pode ser normal que um administrador de uma companhia de seguros de saúde acabe como ministro da Saúde.

Entre o absurdo da cobertura noticiosa da detenção de José Sócrates, sobraram poucos artigos lúcidos sobre a corrupção. Em geral, procura-se individualizar o caso, lançando o ónus da prova sobre o ex-primeiro-ministro e, sobretudo, tenta-se excluir do debate a corrupção enquanto fenómeno do sistema político e económico em que vivemos. Há, inclusive, quem se atreva a garantir que a justiça portuguesa deve ser felicitada porque dá mostras de ser efectiva na luta contra a corrupção. No fundo, José Sócrates seria uma espécie de maçã podre numa árvore saudável e robusta. Mas não é assim. A corrupção não é uma simples doença que possa ser curada pelos tribunais. A corrupção é sistémica. É uma praga intrínseca ao sistema económico em que vivemos e alastra-se pelos corredores dos luxuosos escritórios bancários, empresariais e partidários. Também se arrasta pelas redacções, importante ferramenta de controlo mediático.

Não nos cabe dizer se Passos Coelho devia estar preso pela sua relação com a Tecnoforma, se Paulo Portas devia estar preso pela venda dos submarinos ou se Cavaco Silva devia estar preso pelas suas ligações ao BPN. A tragédia que vivemos há mais de três décadas tem culpados e sobre as cinzas da nossa pobreza decidiram construir o sistema em que vivemos. Independentemente de lhes poderem ser imputados crimes, Passos Coelho, Paulo Portas, Cavaco Silva, e os seus antecessores no poder, fossem do PS, PSD ou CDS-PP, são responsáveis pelo sequestro da política pelos grandes grupos económicos e financeiros. Se os escândalos de corrupção nos entram à bruta pelos ecrãs é também por culpa deles. O que eles queriam mas não podem seria fazê-lo às claras. Queriam fazê-lo como nos Estados Unidos em que o lobby é legal e o patrocínio de bancos e empresas a campanhas eleitorais é algo perfeitamente natural. Não há qualquer limite para as contribuições das grandes multinacionais que enchem os bolsos dos Democratas e Republicanos.

A crise do sistema capitalista não só aprofundou a pobreza mas também agudizou as contradições entre os próprios capitalistas e os seus representantes políticos. Esta guerra que se desatou contra os trabalhadores e os povos é a tradução de uma necessidade cada vez maior de acumular riqueza por parte de uma minoria da população. Aqueles que nos acusam de termos vivido acima das nossas possibilidades foram os que instigaram a especulação e o jogo financeiro. A explosão financeira, recordemo-lo uma vez mais, tem raízes em operações à margem das leis que os seus próprios deputados aprovaram. As limitações legais à corrupção são fruto da cedência dos capitalistas na batalha política em que a dialéctica expõe os avanços e recuos de exploradores e explorados. Agora, mais do que nunca, as relações entre o poder económico e o poder político são não só mais visíveis mas também as suas consequências. Curiosamente, era este mesmo ambiente que se vivia durante a grande crise capitalista dos anos 20. O ambiente das máfias, da corrupção, do tráfico de influências, da lavagem de dinheiro, do despudor absoluto entre oligarcas e políticos.

Claude Juncker, presidente da Comissão Europeia, foi acusado de beneficiar empresas através de um acordo secreto que permitiu a centenas de multinacionais não pagar milhões de euros em impostos, o ex-presidente francês Nicolas Sarkozy foi acusado de receber milhões da marca L'Oreal para financiar a sua campanha eleitoral, no Estado espanhol, dezenas de membros do PP e da Casa Real caíram nas malhas da justiça acusados de todo o tipo de crimes. Atentemos bem, de uma vez por todas, os fenómenos de corrupção a que assistimos não são um acidente de percurso, obra da falta de moral de uma pessoa, são consequência directa da relação entre os grandes grupos económicos e financeiros e os políticos que os representam. Só a luta por uma alternativa política e uma política alternativa podem resgatar o poder político das mãos dos que nos lixam a vida há demasiado tempo.

o julgamento paralelo de josé sócrates

http://www.libertynews.com/
Por Alberto Pinto Nogueira*
http://www.publico.pt/

As Escrituras narram a parábola de Maria Madalena. Os fariseus, em magote, trouxeram-na à presença do Senhor. Que a condenasse pelos seus muitos pecados. O Senhor atentou na dignidade humana de Maria Madalena. Ouviu-a. Depois, ditou sentença.

As questões da Justiça são políticas. Os tribunais exercem um poder soberano. O exercício dessas funções é, por natureza, político.

Se os políticos nos transmitem que se não intrometem com o poder soberano dos tribunais, teremos de responder que se trata de mera tautologia. Falam por falar. Não se quadram nem apreciam o silêncio.

Exigem e esperam decisões céleres e justas. Directa ou implicitamente, conforme interesses, também partidários e políticos, responsabilizam o que chamam “A Justiça” pelo processamento lento do sistema judicial. Desleixam a Justiça no investimento que não fazem no sistema. Tratam o poder judicial com displicência. Um poder soberano menor. Provocam, por confrangedora incompetência, sem consequências políticas, a paralisação do sistema. Só se lembram da Justiça quando ela lhes bate à porta.

O “país político”, dizem, fica longe da Justiça. Não devia ficar. Todos somos “país político”. A Justiça também. Vivemos na civitas. A Justiça diz respeito ao Estado de direito. A política também. Nelas, todos somos parte interessada com dever de participar.

O “país político” nada explica sobre a Justiça. É com outros.

O poder judicial pouco ou nada explica. A Justiça é para dentro. Com ele.

Está ainda colado a metodologias tradicionais e arcaicas. Subestima o direito à informação da comunidade. Não sabe comunicar. Defende-se. Fecha-se. O segredo de justiça alomba com todas as responsabilidades de um secretismo incompatível com a sociedade de informação que é a nossa. A “Justiça” não é capaz de informar a sociedade. Supõe-se viver fora e acima dela. Nos astros. Nem está preparada para comunicar. Vive para dentro. Ignora como separar sigilo do que deve ser público. Receia a comunicação social. Só interage às ocultas. “Julgar em nome do povo” transmuda-se em fraseologia gratuita. Retórica.

Os gabinetes de imprensa do Ministério Público produzem comunicados secos e irrelevantes.

Sacralizam o sistema. Separam-no da comunidade. Blindam-no.

A comunicação social apossa-se de toda a informação pública. É ostracizada pelo sistema judicial. Como um adversário temível. Transmite verdades e inverdades. Factos e aparência de factos. Massacra dias inteiros a reproduzir as mesmas coisas ad nauseam. Fomenta juízos de valor sobre pessoas e factos que ignora em toda a amplitude.

Os arguidos são sujeitos a julgamentos paralelos. O segredo de justiça, imposto pelas normas do julgamento legal, impede-os de usar o contraditório no julgamento da rua. Ninguém os leva, com o arrolamento dos “pecados”, à presença do Grande Júri. São apedrejados. Culpados. Não há direitos de defesa, nem presunção de inocência que lhes valham. Confunde-se Justiça com justicialismo. São condenados antes de julgados.

E depois? Depois, a ninguém assiste o direito de desrespeitar a dignidade da pessoa humana.

* Procurador-geral adjunto

é mais isso


alguém alguma vez ouviu falar da tecnoforma?


Não foi uma, nem duas, nem três vezes que Coelho fez insinuações sobre José Sócrates na entrevista que deu ontem à RTP.

Agora que as eleições podem não estar perdidas de todo (deus nos livre e guarde!), apresenta-se calmo, confiante, seguro (ai que falta lhe faz o Seguro!).

E o entrevistador, claro, nada de incómodo lhe perguntou. A Tecnoforma não passou, essa sim!, de uma cabala contra ele. O melhor será esquecê-la, enterrá-la, decretar-lhe prisão preventiva e mandá-la para Évora ou Patagónia, tanto faz.

O que Coelho quer, disse ele ontem, é que se façam leis que combatam o enriquecimento ilícito.

É lícito falar assim. Tem lógica levantar este assunto numa altura destas. Sócrates, estão a ver a coisa como ela é? Enriquecimento ilícito, topam? Sabem somar um mais um, seus lorpas?

Coelho é um homem sério. A sério. Os outros vão precisar de ser presos duas vezes, pelo menos, para serem tão sérios quanto ele.

Olarilas!

27/11/14

rouba e não faz

http://www.ps4site.com/
Por Ricardo Araújo Pereira
http://visao.sapo.pt/

Se José Sócrates for culpado do que o acusam é o maior génio do crime desde o professor Moriarty. Aquilo a que se costuma chamar um mestre da dissimulação. Eu já vi vários advogados de indivíduos que possuem 25 milhões de euros e não se parecem em nada com o patusco causídico que o antigo primeiro-ministro contratou. Estamos  perante um nível de patusquicidade mesmo muito elevado. É o advogado ideal para milionários que desejam esconder a fortuna.

As outras aplicações do alegado dinheiro alegadamente obtido através de alegada corrupção também são desconcertantes. Gostava de propor um teste aos leitores. Coloquem-se no alegado lugar de José Sócrates e completem a seguinte frase: "Bom, agora tenho 50 anos, vou aproveitar os vários milhões de euros que obtive ilegalmente para ...". Quantos preencheram o espaço vazio com a expressão "... escrever uma aborrecida tese de 200 páginas sobre a prática de tortura no âmbito das sociedades democráticas"? Que repugnante corrupção é esta que desperdiça o dinheiro sujo na academia? Onde estão as jovens bailarinas de clubes nocturnos, o barco, o champanhe, os charutos acendidos com notas de banco? Que diabo, eu ganhei muito menos dinheiro muito mais honradamente e mesmo assim levo uma vida bastante mais dissoluta. Hoje em dia, com o acesso que temos ao que se passa pelo mundo, não há razão nenhuma para não se praticar uma corrupção bonita, moderna, com um investimento consistente em devassidão e álcool. Esbanjar dinheiro ilícito no desenvolvimento pessoal é francamente decepcionante.

O próprio alegado esquema é triste, na medida em que envolve um motorista que funciona como multibanco, um amigo que funciona como offshore e uma mãe que funciona como agente imobiliária.

Se é para continuarmos a precisar de pedir dinheiro à mãe e aos amigos, mais vale não entrar no mundo do crime. A criminalidade costuma ter a virtude de garantir ao criminoso uma certa independência financeira, que sempre enobrece. Não é o caso, aqui.

Tudo isto faz com que, se o ex-primeiro-ministro for culpado, o regime não esteja em perigo, ao contrário do que se tem dito. A confirmar-se a acusação, José Sócrates tem 25 milhões de euros e, no entanto, vive da caridade dos amigos e viaja em económica. 

Afinal, sempre há um português que vive em baixo das suas possibilidades.

Um exemplo a seguir, portanto.

estivemos nas mãos de um estúpido?

http://www.zastavki.com/
A Sábado faz hoje parangona sobre as escutas de que Sócrates foi alvo durante 11 meses e que terão sido decisivas para a sua detenção.

Está bem, abelha! Ou Sócrates não tem, nunca teve, a inteligência necessária para ser primeiro-ministro da lusa pátria deixando-se "apanhar" tão facilmente ou, hipótese para a qual mais me inclino, continuam a querer-nos endrominar sugerindo indícios, fazendo acusações subreptícias, largando, como quem não quer a coisa, uma ou outra deixa que deixe na mente de cada um uma única conclusão: CULPADO!

Acho que desta vez se meteram por caminhos de abrolhos. Sócrates, já hoje, enviou um comunicado à imprensa. Menosprezaram as garras e a fúria do animal feroz.

26/11/14

a ressurreição da estrela

A RTP deu-lhe nova vida, passou de jornalista a comentadora política. Com um único tema: Sócrates. Os seus argumentos são de taberna, tão primários como os de um velho legionário em dia não com saudades de Salazar e da menina-dos-cinco-olhos. Jornalismo de sarjeta, razão tinha o Marinho Pinto e olhem que não é todos os dias que dou razão ao Marinho Pinto. Quem tem visto A Barca do Inferno sabe do que falo, da intempestiva Moura Guedes, das acusações de Moura Guedes, das bocas de Moura Guedes, rainha e senhora naquele programa porque ai de Raquel Varela, ai de Isabel Moreira que ousem contrariar a ex-apresentadora, ex-locutora, ex-deputada, ex-cantora, ex-jornalista, alcandorada agora e em má hora ao estatuto de "comentadeira".

Como já vem sendo hábito, também neste caso a culpa é toda do Sócrates: foi por causa dele, para melhor o enterrar, que desenterraram Moura Guedes. 

Serviço público, é o que é.

"para serem mais honestos do que eu têm que nascer três vezes!"



Por Jacinto Furtado
http://www.noticiasonline.eu

A frase que dá título a este texto não é da autoria do individuo retratado, pertence a um outro individuo que dá pelo nome de Aníbal Cavaco Silva. Já lá vamos!

Antes de mais uma declaração de interesses. Não tenho particular simpatia por José Sócrates, é-me indiferente se o futuro dele é com vista para a Torre Eiffel ou com vista para o pátio da penitenciária.

Tenho esperança que, caso se confirmem os crimes pelos quais é indiciado, seja condenado. Confirmem-se sem margem para dúvidas, sem recurso aquela nova figura jurídica a ressonância da verdade. Confirmando-se os crimes e sendo condenado se a moldura penal para os crimes for de doze anos espero que seja condenado a vinte e quatro. Termino por aqui os temas que me são indiferentes em relação a José Sócrates.

Não sou indiferente, mas não me incomoda, o aproveitamento que ao longo dos últimos três anos foi feito do seu nome numa tentativa propagandista de esconder a incompetência e o total falhanço das medidas adoptados pelo actual (des)governo.

Igualmente não fico indiferente, mas incomoda-me muito, o circo que se está a montar à volta da sua detenção. É uma estranha sensação de déjà vu, estou certo outros sentiram a sensação de “já vi este filme há 11 anos e não gostei”. Vamos às coincidências:

* Como há 11 anos, ao contrário do que é normal, deitei-me cedo. Como há 11 anos sou acordado pelo telefone que me diz “fulano tal foi preso”;

* Meio estremunhado lá me levanto e começo a ler as mensagens que entretanto tinha recebido. Pois, parece que sim, uma figura mediática tinha sido presa;

* Enquanto começo a procurar informação envio uma mensagem onde pergunto a uma pessoa se está a ver as notícias, a resposta não se fez esperar “…sim estou a ver!!!!!”. Tantos pontos de exclamação fizeram-me acordar mais depressa, ooppsss já deixei alguém irritado, a coisa é mesmo grave, vou desculpar-me com a minha sinusite e fugir da conversa;

* Ligo a televisão e descubro que havia televisões em directo a filmarem “a detenção”, desta vez parece que não houve perseguição feita por um Fiat Punto a 220 Km/hora. Pensando bem era difícil, talvez a perseguição tenha sido feita com recurso a um dos novos drones da PSP;

* Há uma diferença importante, há 11 anos a figura mediática ia, alegadamente, a fugir para Espanha, ontem a figura mediática vinha a fugir para Portugal;

* Começo a “folhear” as páginas dos jornais na sua versão online e deparo-me com peças completas, longas, mas não fundamentadas, a contarem a história toda. Foi preso, o que fez, como fez, com quem fez etc etc etc;

* Ainda dei o benefício da dúvida, pensei que tinha adormecido e a biógrafa do líder do regime tinha, entretanto, feito o trabalho de casa, investigado, estudado e escrito as peças que publicou. Engano meu, quando fui confirmar as horas verifiquei que entre a hora das publicações e a hora da detenção havia uma variação de poucos minutos;

* Pensei solidariamente com os botões do pijama “&$#*-»* esta &%$#* já estava escrita, só faltava carregar no botão para publicar”;

* Mais uma coincidência, hoje pela manhã tomo conhecimento que, tal como aconteceu no passado, a figura mediática detida não tinha sido objecto duma busca à sua residência, busca que só foi feita ao final da manhã. Uma atitude sempre útil para no futuro ser possível afirmar que nada se encontrou porque entre o momento da detenção e o momento em que foram efectuadas as buscas “alguém” fez desaparecer as preciosas provas;

Como há 11 anos as televisões chegam primeiro, chegam antes dos detidos, chegam antes dos policias, escrevem as peças antes dos factos, escrevem-nas com o julgamento popular e mediático feito e transitado em julgado. Como há 11 anos, a cirúrgica fuga de informação voltou a ser o mote, com a manipulação da opinião pública que já nos vai sendo habitual.

Alguns puristas, ou interessados na manipulação da opinião pública, vão certamente dizer que não houve fuga de informação, houve trabalho jornalístico. Hoje comentava um jornalista sediado em Paris que ontem, de manhã, recebeu um telefonema dum outro jornalista que o informou que José Sócrates ia ser preso quando chegasse a Lisboa. Isto não é fuga de informação e mediatização da justiça? Não, deve ser espiritismo!

A biógrafa do líder do regime publica minutos depois da detenção várias peças sobre o assunto. Isto não é fuga de informação e mediatização da justiça? Não, deve ser rapidez a teclar e ainda maior rapidez a investigar!

As televisões estavam a postos no aeroporto. Isto não é fuga de informação e mediatização da justiça? Não, devia ser uma convenção de jornalistas que aproveitavam a noite quente de Lisboa para se reunirem no parque do aeroporto!

João Soares excede-se ao afirmar que Sócrates só devia ser preso em caso de crime de sangue ou flagrante delito. Obviamente o excesso de João Soares desculpa-se por uma questão de amizade mas não deixa de parcialmente ter razão. Os factos de que Sócrates vai ser acusado remontam a 2006, a suposta investigação tem anos, nada, aparentemente, justifica a montagem do Alexandrino Circo duma detenção a meio da noite com cobertura jornalística.

Perigo de fuga? o homem vinha em sentido contrário, estava a fugir para dentro. Perturbação do inquérito? Se ao fim de tanto tempo de investigação ainda há o risco do inquérito ser perturbado cheira-me que não fizeram grande trabalho.

Alarme social? Não, não me parece que a sociedade portuguesa ainda tenha capacidade de se alarmar!

Temos um presidente da república que ganhou bom dinheiro com as acções do BPN que nos custou 9 mil milhões, que me recorde não houve com isso alarme social.

Temos um presidente da república que se esqueceu do local onde fez a escritura de permuta da sua casa de férias por um terreno que, por acaso e por surpresa, tinha lá no meio um casarão, que me recorde não houve alarme social.

Temos um genro do mesmo presidente da república, ao que consta carregado de dívidas, a comprar o pavilhão atlântico, que me recorde não houve alarme social.

Temos um primeiro ministro que não se recorda se recebeu vencimento duma empresa, mais tarde recorda-se de ter recebido despesas de representação, quantas e como não disse, que me recorde não houve alarme social.

Temos um vice-primeiro ministro que anda há anos a ser apontado como envolvido no escândalo dos submarinos, recordemos na Alemanha já houve condenados, por cá não se passa nada, que me recorde não houve alarme social.

A lista dos “não alarmes sociais” ligados a estes membros do regime e a outros que até foram conselheiros do regime é tão extensa que não vale a pena continuar.

Há duas perguntas que ficam no ar:

Primeira pergunta. Porquê esta pressa de prender e julgar mediaticamente José Sócrates, a quem interessa?

Segunda pergunta, porque motivo foram antecipadas as prisões no caso Labirinto (vulgo caso dos vistos dourados) evitando desta forma que fosse concretizado um negócio de “olhos em bico” com um terreno muito apetecível em Lisboa que, caso não tivesse sido abortado pela antecipação das prisões, teria arrastado figuras de peso do regime?

Última pergunta, esta é bónus, têm a certeza que há separação de poderes e que a justiça não vai sacando processos da gaveta e actuando consoante os obscuros interesses de quem puxa os cordelinhos do regime?

Termino da mesma forma que comecei, caso se confirmem os crimes pelos quais José Sócrates é indiciado, espero que seja condenado. Confirmem-se os crimes sem margem para dúvidas e sem recurso aquela nova figura jurídica a ressonância da verdade. Confirmando-se os crimes e sendo condenado se a moldura penal para os crimes for de doze anos espero que seja condenado a vinte e quatro.

pinto & pinto, responsabilidade ilimitada

Pinto está feito com Pinto, são unha com carne, carne fraca, carniça para atirar aos lobos, sempre famintos, sempre vorazes.

Eu explico. Explico tudo, tintim por tintim.

Pinto Monteiro, ex-Procurador Geral da República, foi almoçar com José Sócrates Pinto de Sousa, ex-primeiro ministro. Parvos, atoleimados, foram almoçar em público, como se nada tivessem a esconder, em vez de se refugiarem na casa de um ou do outro ou, então, num qualquer recanto de Monsanto onde não pudessem ser vistos. Muito menos ouvidos.

Segundo parece, pelo menos é o que diz o Correio da Manhã, e toda a gente sabe quão credível é o Correio da Manhã, o Pinto magistrado terá dado conselhos ao Pinto político sobre a melhor forma de preparar a sua defesa.

O Pinto magistrado é incómodo, diz alto e bom som aquilo que eu penso, anónimo cidadão dado a descrer da Justiça à portuguesa, que o Freeport não passou de uma fraude, uma inventona para atingir Sócrates e o PS.

Se Pinto é amigo de Pinto desacredite-se Pinto também.

Se eu, como tantos outros, acredita na inocência do Pinto político até prova irrefutável em contrário, diga-se de mim, e de tantos outros, que não passamos de miseráveis socratistas, mesmo que, como é o meu caso e o de tantos outros, tenhamos dito e escrito cobras e lagartos de Pinto e das bicadas que deu aos portugueses durante os últimos meses de governação.

Pinto quis poleiro, Pinto está a ser assado no espeto, em lume brando, pelos galarotes que lhe queriam entrar na capoeira para ficar com os ovos de ouro. Para chupar a carne e os ossos da galinha poedeira.

É isso que eu penso. Do Pinto político. Ilimitado responsável por tudo o que, de mau, nos está a acontecer, a bancarrota, a falência das instituições, a austeridade, o empobrecimento, o desemprego, a emigração, o espectáculo obsceno de um país à beira merda plantado.

E, já agora, do BPN, do Portucale, da Tecnoforma, das falcatruas no BES, dos Vistos Gold, do assassinato de Rosalina Machado, dos submarinos, da pequena e grande corrupção que corrói os alicerces da Nação.

A culpa é toda, todinha do Pinto. Que fique na grelha. Para sempre!

25/11/14

ritos satânicos



Excomungem-se os blasfemos, os pedreiros-livres e os livre-pensadores, os Anticristos, os desordeiros, os renegados, os conspiradores e os amotinados, os subversivos, os pobres e mal-agradecidos, os escravos encapotados, os esbulhados e os indignados, os revoltados e os detractores dos donos do poder, conquistado à custa de tão duras penas, tantos esquemas e estratagemas.

Reponham-se os autos-de-fé, os linchamentos, o garrote e a forca. Arraste-se o cadáver pela via pública para gáudio da turba ensandecida, para exemplo dos insubmissos. Nomeie-se, à laia de Torquemada, o magistrado com nome de cantor pimba. Regressemos à época medieval, a nossa idade das luzes. Façamos do feudalismo a nossa ideologia, do absolutismo o nosso modo de vida. Idolatremos a intriga, a incompetência, a ganância, a mentira, o ódio, o suborno, a fraude. Promovamos a caridadezinha e o desprezo pelos desvalidos, legalizemos o confisco, instituamos de novo o direito de pernada, a vassalagem, a servidão.

Oremos a um só deus e senhor todo poderoso, agora e na hora da nossa morte.

24/11/14

há coisas que não batem certo


Foi a CGD, com sede em Lisboa, quem denunciou movimentações "estranhas" na conta de Sócrates. Mas foi a PSP de Braga quem iniciou as investigações. Quem é de Braga, quem é?

Podem apontar a Sócrates muitos defeitos, mas mesmo os que o odeiam visceralmente não o acusam de estupidez. Assim sendo, porque terá ele mantido uma conta "suspeita" na CGD, sabendo que o banco está tomado por apoderados do seu maior inimigo?

O motorista de Sócrates, o senhor Pernas, viajava até Paris para levar ao engenheiro malas cheias de dinheiro. De carro. Ou seria malaposta? Quem escreveu o argumento disto? Conan Doyle?

O caso Casa Pia foi, em grande parte, suscitado para derrubar gradas figuras do PS ao mesmo tempo em que ocorriam certos escândalos relacionados com  a Universidade Moderna, Portucale e os submarinos. O caso Sócrates poderá diminuir o impacto da eleição de António Costa como líder do PS, ajudar a manter a actual coligação no poder e, claro, fazer passar os Vistos Gold, as Tecnoformas, os BES e BPN para um secundaríssimo plano. Ambos os casos, da Casa Pia e de Sócrates, surgiram na imprensa, pela primeira vez, pela mão e pluma de Felícia Cabrita que, lembro, é a biógrafa oficial de Pedro Passos Coelho com  quem manterá, digo eu que não sou de intrigas, laços de amizade ou, no mínimo, de simpatia.

Eu sei. Eu sei. Tudo isto não passa de mais uma teoria da conspiração, desta feita inventada por socratistas empedernidos. Como eu, já se vê.

rir para não chorar


este país não é p'ra mim


Como não posso emigrar, vou hibernar. Acordem-me quando tudo isto acabar. Andam demasiados crápulas à solta, e dos mais perigosos, dos mais perversos. Conspiram, minam, intrigam, surripiam, derrubam, estilhaçam, conspurcam, envenenam, extorquem, enlameiam, mentem, transformam este país, o meu país, num caneiro infecto, num lamaçal onde ganham viço, sustentam vícios.

D. Corleone, ao lado deles, era um anjo benfazejo.

23/11/14

isto, com jeitinho, vai lá

Tal como já escrevi hoje, foram precipitados os elogios dos comentadores à forma como a classe política se comportou em reacção à detenção de Sócrates.

Hoje, já o primeiro-ministro, esse, o da Tecnoforma, deu um pequeno lamiré, dizendo que os políticos não são todos iguais, deixando assim cair a insinuação de que ele, virginalmente impoluto, não é como Sócrates, o detido, o detestado, o desalmado.

Prevejo que, durante os próximos meses, vou sofrer de incontroláveis vómitos.

E, em resposta aos que me acusam de ser um reles socrático, aconselho-os a que me leiam como deve ser. Se souberem, claro. 


a grande vitória PSD/CDS


Não sendo exactamente um indefectível admirador de Sócrates, cuja acção governativa tantas vezes reprovei por aqui, não acolhi nunca nem fiz ressonância dos "escândalos" que se criaram à sua volta, desde os rumores de que tinha juntado os trapinhos com um conhecido actor da nossa praça, fama de que nunca se livrou, até às acusações nunca provadas no caso Freeport.

Tenho para mim, e cada um é livre de pensar o que quiser, que, paulatinamente, sabiamente, com científico rigor, os seus inimigos políticos lhe souberam fazer a cama ao longo dos tempos.

Tal como estou ciente de quão glorioso foi o dia de ontem para as hostes do PSD/CDS. Nada poderia ter dado tanto jeito à até aqui depauperada turba de direitíssimos como a prisão de Sócrates. A vitória nas próximas eleições está cada vez menos distante, a meta parece cada vez menos inatingível. Depois da governação selvagem, é essa a palavra, em nome de um capitalismo não menos selvagem, dos sacrifícios, das mentiras, das artimanhas, dos cortes e dos roubos, eis que uma luz tremelica, bruxuleia ao fim do túnel onde o PSD/CDS de bom grado nos enfiou.

Acho por isso totalmente despropositados os elogios que ontem foram feitos, por muitos comentadores, à contenção, à sobriedade com que a classe política reagiu à prisão de Sócrates. Porque Sócrates, que até agora já era o culpado pela crise, a bancarrota, a derrocada financeira dos grandes bancos, a gestão europeia, imperial e fria, de Merkel, a pusilanimidade de Barroso, a voracidade dos mercados, vai ser agora a melhor arma de arremesso com que o PSD/CDS poderia sonhar contra António Costa e contra o PS.

Não votarei PS. A não ser que entretanto fique balhelhas ou se tal for necessário, em últimas instâncias, para ajudar a suster o avanço da actual ditadura, porque de ditadura se trata. Mas, devo confessar, nesta matéria serei sempre solidário com Costa e condenarei os linchamentos na praça pública, os oportunismos políticos, as cabalas e os cambalachos de uma casta política que não me merece a mínima confiança. Cheira a azedo. Sabe a mijo em vez de mosto.

a verdade em boas mãos