"para serem mais honestos do que eu têm que nascer três vezes!"



Por Jacinto Furtado
http://www.noticiasonline.eu

A frase que dá título a este texto não é da autoria do individuo retratado, pertence a um outro individuo que dá pelo nome de Aníbal Cavaco Silva. Já lá vamos!

Antes de mais uma declaração de interesses. Não tenho particular simpatia por José Sócrates, é-me indiferente se o futuro dele é com vista para a Torre Eiffel ou com vista para o pátio da penitenciária.

Tenho esperança que, caso se confirmem os crimes pelos quais é indiciado, seja condenado. Confirmem-se sem margem para dúvidas, sem recurso aquela nova figura jurídica a ressonância da verdade. Confirmando-se os crimes e sendo condenado se a moldura penal para os crimes for de doze anos espero que seja condenado a vinte e quatro. Termino por aqui os temas que me são indiferentes em relação a José Sócrates.

Não sou indiferente, mas não me incomoda, o aproveitamento que ao longo dos últimos três anos foi feito do seu nome numa tentativa propagandista de esconder a incompetência e o total falhanço das medidas adoptados pelo actual (des)governo.

Igualmente não fico indiferente, mas incomoda-me muito, o circo que se está a montar à volta da sua detenção. É uma estranha sensação de déjà vu, estou certo outros sentiram a sensação de “já vi este filme há 11 anos e não gostei”. Vamos às coincidências:

* Como há 11 anos, ao contrário do que é normal, deitei-me cedo. Como há 11 anos sou acordado pelo telefone que me diz “fulano tal foi preso”;

* Meio estremunhado lá me levanto e começo a ler as mensagens que entretanto tinha recebido. Pois, parece que sim, uma figura mediática tinha sido presa;

* Enquanto começo a procurar informação envio uma mensagem onde pergunto a uma pessoa se está a ver as notícias, a resposta não se fez esperar “…sim estou a ver!!!!!”. Tantos pontos de exclamação fizeram-me acordar mais depressa, ooppsss já deixei alguém irritado, a coisa é mesmo grave, vou desculpar-me com a minha sinusite e fugir da conversa;

* Ligo a televisão e descubro que havia televisões em directo a filmarem “a detenção”, desta vez parece que não houve perseguição feita por um Fiat Punto a 220 Km/hora. Pensando bem era difícil, talvez a perseguição tenha sido feita com recurso a um dos novos drones da PSP;

* Há uma diferença importante, há 11 anos a figura mediática ia, alegadamente, a fugir para Espanha, ontem a figura mediática vinha a fugir para Portugal;

* Começo a “folhear” as páginas dos jornais na sua versão online e deparo-me com peças completas, longas, mas não fundamentadas, a contarem a história toda. Foi preso, o que fez, como fez, com quem fez etc etc etc;

* Ainda dei o benefício da dúvida, pensei que tinha adormecido e a biógrafa do líder do regime tinha, entretanto, feito o trabalho de casa, investigado, estudado e escrito as peças que publicou. Engano meu, quando fui confirmar as horas verifiquei que entre a hora das publicações e a hora da detenção havia uma variação de poucos minutos;

* Pensei solidariamente com os botões do pijama “&$#*-»* esta &%$#* já estava escrita, só faltava carregar no botão para publicar”;

* Mais uma coincidência, hoje pela manhã tomo conhecimento que, tal como aconteceu no passado, a figura mediática detida não tinha sido objecto duma busca à sua residência, busca que só foi feita ao final da manhã. Uma atitude sempre útil para no futuro ser possível afirmar que nada se encontrou porque entre o momento da detenção e o momento em que foram efectuadas as buscas “alguém” fez desaparecer as preciosas provas;

Como há 11 anos as televisões chegam primeiro, chegam antes dos detidos, chegam antes dos policias, escrevem as peças antes dos factos, escrevem-nas com o julgamento popular e mediático feito e transitado em julgado. Como há 11 anos, a cirúrgica fuga de informação voltou a ser o mote, com a manipulação da opinião pública que já nos vai sendo habitual.

Alguns puristas, ou interessados na manipulação da opinião pública, vão certamente dizer que não houve fuga de informação, houve trabalho jornalístico. Hoje comentava um jornalista sediado em Paris que ontem, de manhã, recebeu um telefonema dum outro jornalista que o informou que José Sócrates ia ser preso quando chegasse a Lisboa. Isto não é fuga de informação e mediatização da justiça? Não, deve ser espiritismo!

A biógrafa do líder do regime publica minutos depois da detenção várias peças sobre o assunto. Isto não é fuga de informação e mediatização da justiça? Não, deve ser rapidez a teclar e ainda maior rapidez a investigar!

As televisões estavam a postos no aeroporto. Isto não é fuga de informação e mediatização da justiça? Não, devia ser uma convenção de jornalistas que aproveitavam a noite quente de Lisboa para se reunirem no parque do aeroporto!

João Soares excede-se ao afirmar que Sócrates só devia ser preso em caso de crime de sangue ou flagrante delito. Obviamente o excesso de João Soares desculpa-se por uma questão de amizade mas não deixa de parcialmente ter razão. Os factos de que Sócrates vai ser acusado remontam a 2006, a suposta investigação tem anos, nada, aparentemente, justifica a montagem do Alexandrino Circo duma detenção a meio da noite com cobertura jornalística.

Perigo de fuga? o homem vinha em sentido contrário, estava a fugir para dentro. Perturbação do inquérito? Se ao fim de tanto tempo de investigação ainda há o risco do inquérito ser perturbado cheira-me que não fizeram grande trabalho.

Alarme social? Não, não me parece que a sociedade portuguesa ainda tenha capacidade de se alarmar!

Temos um presidente da república que ganhou bom dinheiro com as acções do BPN que nos custou 9 mil milhões, que me recorde não houve com isso alarme social.

Temos um presidente da república que se esqueceu do local onde fez a escritura de permuta da sua casa de férias por um terreno que, por acaso e por surpresa, tinha lá no meio um casarão, que me recorde não houve alarme social.

Temos um genro do mesmo presidente da república, ao que consta carregado de dívidas, a comprar o pavilhão atlântico, que me recorde não houve alarme social.

Temos um primeiro ministro que não se recorda se recebeu vencimento duma empresa, mais tarde recorda-se de ter recebido despesas de representação, quantas e como não disse, que me recorde não houve alarme social.

Temos um vice-primeiro ministro que anda há anos a ser apontado como envolvido no escândalo dos submarinos, recordemos na Alemanha já houve condenados, por cá não se passa nada, que me recorde não houve alarme social.

A lista dos “não alarmes sociais” ligados a estes membros do regime e a outros que até foram conselheiros do regime é tão extensa que não vale a pena continuar.

Há duas perguntas que ficam no ar:

Primeira pergunta. Porquê esta pressa de prender e julgar mediaticamente José Sócrates, a quem interessa?

Segunda pergunta, porque motivo foram antecipadas as prisões no caso Labirinto (vulgo caso dos vistos dourados) evitando desta forma que fosse concretizado um negócio de “olhos em bico” com um terreno muito apetecível em Lisboa que, caso não tivesse sido abortado pela antecipação das prisões, teria arrastado figuras de peso do regime?

Última pergunta, esta é bónus, têm a certeza que há separação de poderes e que a justiça não vai sacando processos da gaveta e actuando consoante os obscuros interesses de quem puxa os cordelinhos do regime?

Termino da mesma forma que comecei, caso se confirmem os crimes pelos quais José Sócrates é indiciado, espero que seja condenado. Confirmem-se os crimes sem margem para dúvidas e sem recurso aquela nova figura jurídica a ressonância da verdade. Confirmando-se os crimes e sendo condenado se a moldura penal para os crimes for de doze anos espero que seja condenado a vinte e quatro.

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