18/01/14

história de um homem como nós


Por Baptista-Bastos
http://www.jornaldenegocios.pt/

Álvaro Monte era uma montanha de homem, de alegria esfuziante, de ironia cáustica e de uma solidariedade exacta nascida de uma infância paupérrima. Conheci-o nos anos da brasa, apresentado por Manuel da Fonseca, seu conterrâneo, na cervejaria Solmar. O dia estava embatente de sol e de calor, o que não impedia o Álvaro de ir para uma manifestação, do Rossio a Belém. Ele tinha pouco mais de 20 anos, possuía a moral proletária do trabalho, era um metalomecânico aplicado e gostava, por igual, de Jesus e de Lenine.

O Manuel da Fonseca apreciava muito conversá-lo, entre umas e outras de canecas de cerveja, e nunca ouvi, como da boca deste alentejano sorridente, histórias de alentejanos como ele as contava. Pertencia a um coro de cante, organizado em Algés por alentejanos desenraizados, era grande leitor, sobretudo de escritores neo-realistas, afável e prestável, mas quando se zangava a ira transformava-o, e a imponência da estatura era intimidante.

Gostava muito deste homem sábio e pausado no falar, de sotaque carregado, e olhar guloso para as mulheres que passavam. Trabalhou durante muitos anos numa grande oficina, cujo proprietário, brasileiro de torna-viagem, astuto e forreta, acumulou enorme fortuna. Quando se cansou de contar o dinheiro, entregou a oficina a um sobrinho, gabiru do Alto do Pina, dado ao póquer e ao burro americano, que deu cabo da herança em três tempos.

Parece uma história de Camilo Castelo Branco, mas não é, não, senhor. Como tantas outras haverá. O vendaval do 25 de Abril, a impreparação de muitos e o oportunismo de outros, a revanche dos que sobrenadaram, aguardando o propósito, levou a que o gabiru do Alto de Pina promovesse a "rescisão amigável" dos contratos. Álvaro Monte foi à vida. A princípio, estar de licença permanente agradou-o, não muito mas um pouco. Os dias varam os dias, os meses e as semanas. Procurou trabalho e, claro!, não o encontrou. A época não era propícia ao companheirismo, e Álvaro dera muito a cara e o coração em acções sindicais e outras, de monta protestatária.

Na emergência, foi para trabalhador da Câmara, como "almeida", e, dizem os camaradas diários, era um homem incansável. Solteirão, encontrou mulher numa costureira de uma importante loja de roupas, e, durante uns tempos, parecia amainado no desgosto de não conseguir trabalho no ofício que adorava. Deu-se ao álcool e ao desleixo. Foi despedido, após desculpas e encobrimentos inverosímeis.

Já não tinha direito a subsídio ou a qualquer outro apoio social. Enquanto foi vivo, o Manuel da Fonseca e outros amigos ajudaram-no conforme podiam. A mulher deixara-o, cansada do desmazelo e do desamparo. Ele andava pela cidade, como um círio fúnebre, na caminhada de que mais gostava, entre o Rossio e o Terreiro do Paço. Sentava-se num dos bancos de pedra, a ver correr as águas do Tejo, numa solidão mais viva do que o sangue, envolvido em melancolias e pensamentos.

Como bebia em excesso, ocasionalmente tombava nas ruas, era objecto do escárnio de miúdos, e, por vezes, agredido por outros miseráveis. Foi arrancado a esse infortúnio por um dos editores de Manuel da Fonseca, também de Santiago do Cacém, que lhe arranjou um posto de embalador de livros. Mas as coisas não eram assim tão simples. Ele sonhava com o seu velho ofício, com os ruídos característicos da oficina, com as tardes passadas na Solmar, com os amigos, soltando enormes gargalhadas de uma felicidade completamente perdida.

Emagreceu, parecia um espeque, as pessoas mais conhecidas evitavam-no, ele percebia não ser estimado como outrora, tornou-se mendigo, foi preso duas vezes por indecoro e sujidade, dormia aqui e acolá, já nada o interessava. Impressionante a sua capacidade de resistência à fome, à miséria, à desgraça. Impediam-no de entrar, pelo mau cheiro e pelo descuido, nos locais que frequentara e onde fora recebido com agrado e estima, e envolvia-se em desordens que se tornaram constantes.

Anteontem tropeçou, depois de cambalear como um sonâmbulo pela Avenida da Liberdade, um carro foi-lhe para cima, ele ainda encontrou forças para pedir: "Digam ao Manuel da Fonseca que está tudo bem!" Esta era sua única rescisão amigável.

17/01/14

ménage à deux



As promessas eleitorais de François Hollande foram parar ao mesmo sítio das de Coelho, a um qualquer monturo onde apodrecem entre vitualhas em decomposição e um insuportável fedor a falcatrua. Hollande claudicou de vez perante Merkel e os seus louros encantos. Afinal de contas deu o dito por não dito, vai apostar na austeridade, vai apostar no roubo, agora já não tem ideologia, deixou de ser socialista, é, disse-o ele com a retumbância, a veemência, a estridência de um bufão da corte, um ... tcham! tcham! tcham! tcham! ... PATRIOTA. Pateta mas patriota. Batoteiro mas patriota. Medroso mas patriota. Merdoso mas patriota. Filho de mãe sem cama certa, e quem sai aos seus não degenera, mas filho da pátria também.

É isto o que nos espera com José Seguro. Mais do mesmo. Com a agravante de, ao contrário de Coelho, ir botar uma pinguita lacrimosa pelo canto do olho de cada vez que nos for ao bolso, imitando assim na perfeição o "menino da lágrima" de cujo semblante choroso já tanto se assemelha.

Está mais do que claro: estamos entregues à lixarada. "Socialista", "social-democrata", "democrata-cristã", neoliberal, neofascista, sem ideologia nem pátria, pusilânime, acomodada, egoísta, oportunista, sabuja, trapaceira, aldrabona, ratoneira, chamem-lhe tudo o que quiserem, mas gente de bem é que não.

16/01/14

a carreira de um génio

Em boa companhia, com Santana Lopes, Mota Amaral, Dias Loureiro 
e Miguel Relvas. Fotografia de Daniel Rocha.
Para além do seu novel cargo na Goldman Sachs, o banco do bando que abandalha o mundo e onde serviu de "mediador" em negócios com o Estado português sob a alçada de Pedro Passos Coelho, José Luís Arnault continuará a exercer advocacia no seu escritório ligado à grande finança e manterá todos os seus cargos actuais, entre eles os de membro do Conselho de Administração da REN e do Conselho Consultivo da seguradora norte-americana AON, de presidente da Assembleia Geral da Ana, da Federação Portuguesa de Futebol e da Comissão Nacional da Auditoria Financeira do PSD. É ainda Mandatário Europeu de Marcas junto do Instituto de Harmonização do Mercado Interno da União Europeia, Agente Oficial da Propriedade Industrial junto do Instituto Nacional da Propriedade Industrial, membro da AIPLA - American Intellectual Property Law Association, da ASIPI – Asociación Interamericana de la Propiedad Intelectual, da AIPPI - Association Internationale pour la Protection de la Propriété Intellectuelle, da APRAM – Association des Praticiens du Droit des Marques et des Modèles, da ABPI - Associação Brasileira da Propriedade Intelectual, da CIPA – The Chartered Institute of Patent Agents, da ECTA - European Communities Trade Mark Association, da EPI - Institute of Professional Representatives before the European Patent Office, da FICPI - Fédération Internationale des Conseils en Propriété Industrielle, da ITMA - Institute of Trade Mark Attorneys, da INTA - International Trademark Association, da L.E.S. - Licensing Executives Society International, da LIDC - Ligue Internationale du Droit de la Concurrence, da MARQUES – Association of European Trade Mark Owners, da PTMG – Pharmaceutical Trade Marks Group, da UNION des Praticiens Européens en Propriété Industrielle e, talvez para matar o tempo que lhe sobra, da ABA - American Bar Association desde 1996. Mas não ficamos por aqui: é também membro do Conselho Assessor Português da BOGARIS, S.A, vogal do Conselho de Administração da MOP, S.A e presidente do Subcomité LIDE, Direito e Justiça.

Enquanto isso, mais de 1 milhão de portugueses, muitos tão ou mais qualificados do que ele, tão ou mais inteligentes do que ele, continuam no desemprego.

a exibicionista

http://henricartoon.blogs.sapo.pt/

um duo improvável

String e Robert Downey Jr.



que povo é este, que povo?


Uma investigação do sociólogo Lourenço Xavier de Carvalho demonstra que, quanto mais escolarizado e abonado é o português, maior o seu desprezo por valores como a justiça, a honra ou a solidariedade. Quanto aos demais, acrescento eu de minha lavra, na sua larga maioria sofrem calados, sem qualquer participação cívica, sem qualquer acto de protesto a não ser o inócuo desabafo ou insulto à mesa do café contra os governantes actuais ou contra Sócrates, o culpado de todos os nossos males, como lhes fizeram acreditar.

Pior ainda, temos a memória curta. Daqui a uns tempos, depois de umas migalhas atiradas, com estratégia e velhacaria, à cara dos portugueses, todos se esquecerão que esses "benfeitores" são os mesmos que os empobreceram metódica e friamente durante anos a fio.

E mesmo que, num assomo de lucidez difícil de acreditar, os portugueses elegessem finalmente um governo que zelasse pelos seus interesses, a chantagem dos "mercados", a imediata subida de juros para valores astronómicos, não iriam paralisar a sua actuação e fazê-lo soçobrar?

Num mundo que se diz globalizado, só uma solução global poderá evitar a tragédia final. Mas, para isso, é preciso que os povos acordem. Que derrubem o poder dos "mercados", esse ser anónimo que, ditatorialmente, substitui os governos e semeia a injustiça. É ele o nosso inimigo. Coelho, Rajoy, Hollande, Merkel, Cameron, Samaras, Letta, são apenas serventuários, pequenos mandaretes ao serviço dos seus amos, os senhores da Terra, os que põem e dispõem das vidas de biliões.

Não votamos neles. Não lhes conhecemos as caras. Mas são os mercados, e não o povo, quem mais ordena. O Absolutismo, que a História tinha derrubado, voltou e com mais força. Está em toda a parte. Omnipotente. Omnipresente. Como um deus da hecatombe.

15/01/14

vida privada louvada em público


le bon vivant



Ao contrário dos americanos e da sua hipocrisia, estou-me nas tintas se François Hollande tem uma amante, ou duas ou três. Se é adepto do ménage à trois ou de 69 posições do Kama Sutra. O poder, já se sabe, tem um perfume inebriante que exerce irresistível atracção e Hollande, sendo fogoso e não formoso, aproveita. É lá com ele.

O que me escandaliza, e muito, é o Hollande político, não é o Hollande homem. Como político tem-se revelado de assombrosa mediocridade e não menor falsidade. Como homem, vá lá, revela bom gosto.

Preferia o contrário. Preferia-o amarrado a um estafermo e a governar contra outro estafermo, a Frau a norte.

quer queiram, quer não, o mundo move-se

A  imprensa gasta o tempo dos telejornais e as páginas dos jornais com crimes de faca e alguidar, com intrigas palacianas, com as inaugurações, congressos, seminários e conferências onde quer que vá discursar um dos políticos empoleirados. Não têm tempo, nem convém, dizer e mostrar que o mundo está em convulsão, que, para além das guerras e genocídios, seja no Médio Oriente ou em África, para além do matricídio em Funcheira de Cima ou do parricídio em Espiçandeira de Baixo, há povos que se agitam, que não se conformam, que gritam pelas ruas a sua revolta.

Na Alemanha, soube-o hoje, tem havido graves refregas em Hamburgo entre a polícia e manifestantes. A recomendação, à comunicação social, foi a de, tanto quanto possível, apagar o acontecimento dos noticiários. Porque os governantes europeus, com Merkel à cabeça, são a favor do aborto. O que corte, cerce, o mínimo sinal de rebelião.

6 de Janeiro - Amiens, França
6 de Janeiro - Livorno, Itália
7 de Janeiro - Hamburgo, Alemanha
7 de Janeiro - Puerto Angamos, Chile
8 de Janeiro - Atenas, Grécia
9 de Janeiro - Cidade do México
11 de Janeiro - Burgos, Espanha
11 de Janeiro - Burgos, Espanha
11 de Janeiro - Burgos, Espanha
11 de Janeiro - Michoacan, México
Todas as fotografias recolhidas em:
https://www.facebook.com/internationalriot

os aproveitamentos e as sobras


Bingo! E lá vieram os governantes, em fila, apregoar loas a Ronaldo, como seria de esperar. A popularidade tanto se ganha com promessas de manás caídos do céu, o milagre económico anunciado lá para 2015, ano de eleições, como com a colagem a mortes ou glórias de futebolistas.

E, mais uma vez, a comunicação social ajuda à festa e cai no ridículo. Todos temos um bocadinho de Cristiano Ronaldo dentro de nós, sabiam? Todos nós, tal como Ronaldo, somos perseverantes e fazemos sacrifícios por uma causa maior, estão cientes disso?

Só que Ronaldo está cada vez mais rico e, a nós, restam-nos as sobras. Só que Ronaldo é acarinhado e, nós, desprezados. Só que Ronaldo é compensado com a bola de ouro e milhões na conta bancária e, nós, com uma bota cardada nas nalgas escanzeladas e sucessivas extorsões.

Desde o tempo do Botas que assim tem sido. Por que carga d'água é que havia de mudar agora?

o congresso do eu

Por Baptista-Bastos

De repente tive a singular sensação de que estava num subúrbio de Pyongyang. O terreno, um pouco desolado, dava poiso a um imenso pavilhão, de onde saíam vozes, aplausos e gritos estridentes. No interior, o espaço estava organizado em função do que se pretendia ser magno acontecimento. Um palco dividido em patamares; em cada patamar sentava-se a importância de cada um e dos grupos de cada um; em baixo, os prosélitos. Tal como nas reuniões do Comité Central do Partido Comunista da Coreia do Norte. E, tal como Kim Jong-Un, o chefe distribuíra, a seu bel-prazer, os cargos e as funções, consoante as simpatias e as intimidades. Um dos escolhidos abraçou-o com grata emoção e indizível ternura. Foi um instante tão comovente que o chefe não ocultou uma furtiva lágrima e um estremecimento de amorosa simpatia.

Paulo Portas, tal Kim Jong-Un, passeou o olhar soberbo e altaneiro pelos circunstantes, tratou, com displicente desdém, Filipe Anacoreta Correia, que ousara opor-se-lhe, e aquele olhar eram balas de um fuzilamento que, por ser metafórico, não deixou de causar arrepios de terror. Quase de seguida disse: se Luís Nobre Guedes o desejar, pode sentar-se num dos lugares do Conselho Nacional. O nomeado (a quem o Marcelo chama, apenas, Luís Guedes, porque diz que Nobre é um apêndice postiço, uma espécie de pseudónimo inseguro) aparecera em Oliveira do Bairro como um círio fúnebre, desamparado e trágico. Fora, há anos, da convivência de Portas, amigos de peito e de fadário, mas uma zanga tão absurda como fatal lançara Guedes no infortúnio do ostracismo. Nunca se ressarciu do imenso desgosto, e pensa-se que o seu reaparecimento em Oliveira do Bairro se deve a um pedido de misericórdia. Tristíssimo, solitário apareceu no conclave quase com o baraço ao pescoço, até que ouviu o indulto de Portas.

Se Nobre Guedes pareceu um fantasma, movendo-se com as cautelas de um neófito, temendo as iras do chefe, Paulo Portas não está melhor. Gordo, cheio de rugas, falsa desenvoltura no andar, penteado à escova calvície mal dissimulada, o homem despencou-se, a seguir, nos discursos atrapalhados, sem o brilho de outrora, nem a firmeza costumeira do adjectivo e da sinédoque.

A "explicação" pretendida acerca da famosa "decisão irrevogável" não apagou a falta de carácter que o dito pelo não dito divulgara à puridade. Portas é o que é: o Portas que há, o Portas que se arranja.

O episódio com Filipe Anacoreta Correia, ao que me dizem pessoa estimável, é denunciador das características totalitárias de um homem que apenas deseja o poder, e não desdenha a prática da insídia e da sacanice. Na lista das perfídias estão, entre outros, Marcelo Rebelo de Sousa e Manuel Monteiro.

A desdenhosa complacência com que aceitou o pedido de indulto do pobre Luís Nobre Guedes só não tem a marca de Kim Jong-Un porque este manda logo executar quem o contradiga, e Portas apenas o envia para o purgatório do esquecimento. A reunião do CDS-PP foi isto e nada mais.

14/01/14

a solução final

As empresas fracas devem falir e dar lugar a outras, mais empreendedoras, mais inovadoras, mais tenazes na busca do lucro. O mundo do trabalho deve ser dos mais ambiciosos, dos que não olham a meios para subir na vida. Há que separar o trigo do joio, distinguir os fracos dos fortes, deitar fora os velhos, os doentes, os desempregados que nada produzem, que vivem do erário público, da chulice, da divina providência em que o Estado se transformou.

É este, e só este, o pensamento, a crença, a bíblia que rege todas as acções dos homens de negro que nos governam. O mundo é dos capazes. O mundo é dos audazes. Dos insaciáveis e dos menos escrupulosos. Os que assim não agirem devem ser excluídos, esmagados, triturados pela máquina brutal do fisco, do confisco, do desemprego, se do suicídio tanto melhor. Palavras como solidariedade, equidade, justiça social, humanismo, igualdade de oportunidades, não fazem parte do vocabulário desta gente. O sofrimento alheio em nada lhes diz respeito. Não governam para pessoas, mas para mercados onde mais não somos do que gado a abater. O País é uma empresa que deve gerar lucro. Os salários, a não ser os daqueles que primam pela excelência da arrogância e da rapacidade, devem ser reduzidos para que possamos ser competitivos. A Saúde e a Educação devem ser geridos por empresas privadas, têm que dar dinheiro "custe o que custar". Temos que empobrecer, para que uns poucos enriqueçam, os que fazem mover a Terra. A esmola, a caridade, a sopa dos pobres são os bálsamos com que apaziguam as consciências. 

Quais judeus em Auschwitz, encaminhamo-nos para as câmaras de gás sem um protesto, um gesto de revolta.  Os fornos crematórios, alimentados pelos nossos corpos inúteis, irão aquecer o Inverno desta gente sem alma e sem vida digna desse nome.

É a solução final.

ladrão que rouba a ladrão merece-me consideração


Eles não comem só Leitões. Eles comem Silvas, Mendonças, Cardosos, Carvalhos, Oliveiras, Santos, Simões, Teixeiras, comem todos os portugueses com algumas excepções. Os porcos, por exemplo, têm escapado ilesos e anafados.

Imagem surripiada a Sérgio Lavos através do:
http://arrastao.org/

13/01/14

parabéns, cristiano ronaldo!

http://sicnoticias.sapo.pt
Ronaldo acaba de ganhar a Bola de Ouro. Gostei da sua emotividade, gostei que referisse no seu discurso de agradecimento Eusébio e, sobretudo, Nelson Mandela, mostrando que não é o ser frívolo que muitos pensavam. 

Não vou gostar, contudo, do aproveitamento que os políticos no poleiro vão fazer desta vitória, como o fizeram com a morte de Eusébio. Mas é o que vai acontecer. Nem todos podem ser grandes.

portugal arruinado

Conhece o blogue Ruin'Arte? Se a resposta é negativa, corra a clicar no link abaixo. A incúria dos mandantes e mandatados deste país espelhada nas obras belíssimas da nossa arquitectura que vão decaindo em ruína. As outras, as que sossobraram ao camartelo e à voracidade do "nacional-patobravismo", já cá não estão para nos envergonhar.







uma voz clara contra os embustes

Por Baptista-Bastos

Há quem diga por aí que a troika vai embora dentro de pouco tempo, parece que em Maio. Claro que a afirmação não passa de uma tosca fraude política. A tutela económico-financeira faz parte do todo ideológico com que a Direita europeia (leia-se Alemanha) tende a estender os seus tentáculos. Vai embora, estando, através dos meios, dos mecanismos e dos sicários que vão mantendo a situação. Aliás, o próprio primeiro-ministro já advertiu que as "dificuldades vão continuar" e que a austeridade é um processo longo. As "incongruências problemáticas", a frase imortal do jurista Pedro Lomba, constituem uma endemia nascida dessa incompatibilidade total entre o espírito de missão e o aventureirismo político, de que o próprio jurista Lomba é exemplo liminar. A recente "remodelação" governamental, além de ser uma farsa chilra, é a continuação do jardim-de-infância em que o poder se foi transformando. A manifesta falta de experiência de vida, a ausência de cultura democrática, a carência de leituras e o afastamento da reflexão em favor do tró-la-ró, espelham-se nas próprias frases descosidas e titubeantes dos escolhidos. Repete-se a evidência de que as "jotas" têm sido um manancial de ociosos espevitados que vai "formar" o grosso dos sucessivos governos.

O ano não promete nada de bom. E Paulo Portas, esfuziante de injustificado regozijo, garante que estamos no melhor dos mundos, amparando a aldrabice que Passos Coelho propaga, e a que, inevitavelmente, será chamado a responder. Detesto escrever sobre o mal, a arteirice, a incompetência e o oportunismo. Mas eles aí estão e são as evidências do nosso infortúnio. Lamento é que a esmagadora maioria dos preopinantes na Imprensa, nas rádios e nas televisões vivam de um precaucionismo colaborante, que os encharca de nojo e de vilipêndio. As técnicas de sedução pelo dinheiro e pelo favor têm resultado, lamentavelmente. E é com desolação que assisto às quebras de compromisso moral, com que jornalistas, comentadores e afins soçobram, a troco do estipêndio ou de uma falaciosa por efémera "consideração" do poder.

Mas nem tudo está definitivamente perdido. De vez em quando lá surge uma voz esparsa a contestar as mentiras com que esta gentalha enreda o País. Ainda na quarta-feira, no programa Opinião Pública, da SIC Notícias, o filósofo José Gil, reprovou, com serena veemência, o Executivo e as políticas que têm levado o País ao descalabro. José Gil é um dos mais respeitados intelectuais portugueses, indicado como um dos maiores filósofos europeus e uma das pessoas que não se desvia das responsabilidades inerentes à proeminência do seu estatuto. Ouviu, com manifesta atenção, o que os teleouvintes diziam e, seguidamente, com extrema clareza e um domínio absoluto do pensamento, esclarecia e comentava as opiniões, não deixando nunca de as conectar com a realidade presente. Um grande momento de televisão, sobretudo devido a um intelectual que nunca foi atrás do canto das sereias. Pena é que José Gil não seja mais vezes chamado a participar nos debates sobre o País. José Gil resgata, com grandeza e extrema imperturbabilidade, o silêncio onde a cultura portuguesa se tem resguardado, com cautela a cobardia. Há semanas, na TVI, num programa de Paulo Magalhães, ele foi o desassombro que desassossegou a mansa quietude dos conformados e resignados. Ouvi-o, agora e de novo, com Marta Atalaya, na SIC Notícias, foi um regalo de inteligência e de pedagogia. A antagonizar-se com os peralvilhas habituais que nada dizem, mas dizem-no com a soberba de quem sabe estar no púlpito. Gil arriscou a opinião e, ao fazê-lo, formou opiniões, facto cada vez mais raro nos meios de comunicação portugueses. Uma voz clara e firme contra os embustes e as omissões que por aí circulam.