12/10/13

pobres entre pobres



vidas marcadas





Fotografias de Renan Rosa
https://www.facebook.com/renan.rosa.31
http://www.renanrosa.viewbook.com/

por terras do dragão

Imagens do Butão.








ballet rose?

Por Ana Cristina Leonardo

A primeira coisa a dizer sobre as eleições autárquicas é que a palavra “autárquicas” é difícil de pronunciar. A segunda é que o chamado “arco da governação”, versão elegante do vernáculo “alterne”, foi castigado pelo voto. Sócrates falou em débâcle,palavra francesa para “desastre”, “fracasso” ou “queda”. Mas se falou em “queda” não falou em Albert Camus – tentou apenas citar de Gaulle. Note-se, en passant (de passagem), que dé-bâ-cle é um vocábulo cheio de potencialidades: Débâcle, light of my life, fire of my loins. My sin, my soul. Dé-bâ-cle. Nabokov não faria melhor. Literatura à parte, a terceira conclusão a tirar é que se na noite das eleições o PS tinha ganho, na manhã seguinte o PS tinha perdido. Portugal será por natureza um país dado aos paradoxos e isso explicará também que tenhamos como vice-primeiro-ministro o chefe de um partido cujas câmaras municipais se resumem a cinco num universo de 308. É o penta! É o penta! (estou a citar). Deixando de lado análises mais profundas – aos comentadores o que é dos comentadores –, que teriam de incluir a vitória do PCP (o Alentejo é vermelho, olarilas), de Rui Moreira no Porto (“não percebem nada disto”), de António Costa em Lisboa (os ciclistas deram uma abada aos taxistas), ou dos abstencionistas e demais vencidos da vida, o verdadeiro fenómeno foi o triunfo de Isaltino Morais em Oeiras, mesmo se por interposta pessoa, o que deu inclusive direito a fogo-de-artifício junto à cadeia de Caxias. Ficámos a saber que existem celas para fumadores, o que me parece bastante civilizado, e também que entre um ex-inspector da Judiciária e um condenado da Justiça, vence o segundo. Isto daria um romance que, esperamos, Moita Flores nunca escreva.

uma portinhola de esperança



Das feiras ao ministério, Portas é um mistério que a política tece. Portas é o grande pretendente a um cargo supimpa. Primeiro-ministro? Presidente da depauperada, da depenada República? O futuro o dirá, que o futuro a Portas pertence. Portas é um adaptável, é irreversível num dia e reversível, como colchão ou agasalho, no outro. Portas é como Pedro, tão mentiroso é um como aldrabão é outro. Mas fá-lo, mentir, com mais maquiavelismo, maior subtileza, um quase fenómeno nas artes malabares, um alquimista que doura a pílula enquanto o diabo esfrega o olho traseiro. Portugal sem Portas não era o mesmo. Portugal sem Portas era um relento. Portugal sem portas era um rebento, uma explosão, a derrocada. Portugal sem Portas era porta aberta ao saque. Com Portas estamos protegidos. Com Portas estamos abrigados. O que Portas quer, Portas tem. Depois de vice, faça-se primeiro ou, de Belém, menino d'ouro, bufarinheiro de fancaria, uma bufa, um bufão, um bufo. Escancaremos as portas a Portas. Para que, depois da reforma do Estado e da reforma das reformas a bem dos velhos e da Nação, Portas se reforme e se apresente ao eleitorado como novo, um amigo do povo, um benemérito, um santo. São Paulo. De Sacadura Cabral. Portas. Portas é o portador das boas novas. Portas é o porta-estandarte da raça. Portas é o portageiro dos impostos sacados à força, a portinhola da boa esperança. Portas é um porto de abrigo. Portas é Portugal.

Habemus Portas. Ad maiorem Dei gloriam.

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alegre não ficou alegre


Manuel Alegre não ficou contente com o anunciado corte das subvenções vitalícias. Alegre é dos que a recebem. E Alegre nem sequer é dos casos piores, foi deputado durante 30 anos e já tem idade mais do que suficiente para estar reformado. 

Qualquer um tem o direito de ver contados, para a reforma, os anos em que trabalhou para o Estado, seja como deputado, ministro ou outra coisa qualquer. Tal como qualquer outro funcionário. Nada mais, nada menos.

Não duvido do que Alegre diz, que esta é uma medida populista do governo, em especial do CDS, para fazer esquecer os atentados de Pedro e Paulo contra os reformados e, brada aos céus, os mortos por intermédio dos seus viúvos e viúvas. Mas isso não impede que se veja o quão injusto é, em tantos casos, este subsídio de que beneficiam, por atacado, deputados tanto com 10 como 30 anos de serviço, ministros de alguns meses, milionários de muitos anos e até, que nos valham Santo Ambrósio e Santo Eucarário, presidiários.

É aguentar, meu caro, é aguentar e cara alegre. O povo aguenta, ai aguenta, aguenta. Porque não Alegre?

os mais necessitados


Registem nos vossos canhenhos e ponham de parte uns cêntimos para os que, de entre todos estes, se provar serem entes necessitados: Manuel Dias Loureiro, António Vitorino, Armando Vara, Rui Gomes da Silva, Ângelo Correia, Duarte Lima, Joaquim Ferreira do Amaral, Zita Seabra, Carlos Melancia. Todos estes indigentes que a Nação pariu recebem subvenções vitalícias, entre os 2.000 e os 9.000 euros mensais. E o governo, sempre tão lesto a ajudar os mais carenciados, vem dizer que vai manter a subvenção para os que dela precisam. Vai-se a ver, quando chegarem ao fim das indagações, e de examinarem minuciosamente os atestados de pobreza de cada um deles, vão chegar à conclusão de que, afinal de contas, todos têm precisão da dita subvenção. Uns porque estão engavetados, outros porque já o deviam ter sido há muito, outros, finalmente, porque têm empregos muito mal remunerados à frente de editoras, de aquários de tubarões, vulgo escritórios de advogados, ou da paupérrima Lusoponte.

Exponham-se, por hospícios e lupanares, caixas de esmolas destinadas a auxiliar os mendigos. Os idosos, os inválidos, os desvalidos, os desempregados, os milhares e milhares de portugueses subalimentados a salário mínimo e sopinhas da caridade que se lixem, são nada, não são gente que se veja ou a quem se acuda ao lado de tão augustos seres, que tanto deram a Portugal e que tão pouco recebem em troca. 

Vivem na miséria. Atiremos-lhes uma moedinha. Vá lá, duas. Eles merecem. Façamos colectas, quermesses, saraus de beneficência, espectáculos de solidariedade, vaquinhas, vasquinhas com que se possam cobrir. Não deixemos morrer à fome, nem de frio, tão nobres e leais serviçais da Pátria. Sejamos dignos de quem nos serviu sem se servir, empobreceu em nome de um povo que agora, nesta hora difícil, não lhe pode virar as costas.

Vamos, irmãos. Fazei-de o bem. Sem olhar a quem.

preservem o chico!



Autor: António

os tempos estão muito mudados

um animal ferido

Por Filomena Martins

Pior que um animal feroz é um animal ferido. O feroz, como se auto intitulou José Sócrates, agia por impulsos, achava-se o único dono da razão e nunca admitia o erro. Conhecemos os resultados. O ferido, situação em que se encontra agora Passos Coelho, como já nada mais tem a perder, age em desespero, esbraceja aleatória e automaticamente apenas para tentar sobreviver. Não sabemos o que fará a seguir e temos de temer o pior.

José Sócrates, conforme o espirro que desse ou o movimento que fizesse, tinha um comité de acólitos formado que pronta e imediatamente saltava para o terreno para o aplaudir. E, com a maior ou a menor gritaria que o assunto justificasse, de Silva Pereira a José Lello, alguém vinha fazer odes ao chefe.

Passos Coelho, pelo contrário, está cada vez mais sozinho, isolado. Sabe que o partido, do qual Marcelo o considera o pior líder de sempre, já só aguarda pelo seu sacrifício. Sabe que no Governo, ao permitir o adeus de Relvas acusando-o de ingratidão, a carta de Gaspar revelando a sua falta de liderança, e a subida de Portas a vice, cedendo à sua chantagem, perdeu toda a legitimidade. Dos ministros ditos políticos, que deveriam ser os seus guarda-costas, apenas já se ouve, e em murmúrio, Paula Teixeira da Cruz. Ficou sem apoios, não há quem não o critique e o futuro é um vazio completo.

Passos não tem futuro em nenhuma grande instituição europeia, como Durão ou Guterres. Não tem a arrogância disfarçada de carisma que permitiu a Sócrates o exílio filosófico em Paris e o regresso pela porta da RTP onde todas as semanas faz uma lavagem de cérebro ao passado. Nem sequer os dotes oratórios que lhe possam dar o palco do comentário político, onde proliferam os seus antecessores à frente do partido. Passos não tem nada. Passos sabe que está no corredor da morte política.

O que lhe resta então? Na sua bipolaridade cada vez mais evidente, que num dia o põe a alimentar todas as expectativas sobre o nosso crescimento económico e no outro a avisar para o choque de expectativas que teremos com o Orçamento, Passos é o tal animal ferido na sua dignidade. Fisicamente envelheceu séculos e é a imagem de alguém que parece carregar aos ombros todo o peso do mundo. Está verdadeiramente convencido de que está a salvar o país, apesar de todos sabermos que o País, tal como o conhecemos, pode não lhe sobreviver. De um líder assim, que sabe que perdido por cem, perdido por mil, pode esperar-se tudo. Há por isso que ter medo. Muito medo.

11/10/13

carta de meira soares aos deputados da nação

Senhores Deputados,

Sabemos que, só a partir de 2003, começaram a ser tomadas medidas no sentido de tornar sustentável o sistema de aposentações da função pública, numa clara e pública confissão da incompetência dos sucessivos governos para encarar um problema que já era previsível nos fins da década de 80 (ver adiante)! Desde 2003, o “ataque” aos aposentados intensificou-se, nalguns casos com justificações aceitáveis.

Foi assim que a idade da aposentação e o tempo para a atingir se foi alterando e aumentando, ao mesmo tempo que as regras de cálculo das pensões eram também alteradas. Acabou-se, e bem, com a possibilidade de um aposentado do Estado poder acumular a sua pensão com qualquer forma de remuneração atribuída por esse mesmo Estado. Chegou-se, porém, ao exagero de as gratificações, ou senhas de presença, por se ser membro de uma Comissão qualquer, prevista na lei, não poderem ser recebidas quando se é pensionista. Há, assim, aposentados a trabalhar em Comissões legalmente criadas, sem poderem sequer receber senhas de presença, por exemplo.

A irresponsabilidade dos sucessivos governos acabou por nos levar à situação de dependência em que nos encontramos, com a obrigação de cumprir um Memorando de Entendimento que tem trazido a miséria a muitos portugueses. A convergência dos sistemas, público e privado de pensões, estava entre as medidas previstas no Memorando, não dando, contudo, indicações específicas sobre o modo de o fazer.

ditadura democrática


A democracia é isto? A manutenção de um governo eleito à custa de mentiras e de um programa que nunca cumpriu? A eliminação de direitos básicos num país civilizado, enquanto os direitos de mordomia, os direitos de pernada dos poderosos permanecem invioláveis?

Será possível democracia com informação manipulada? 

Será o voto um passaporte garantido para a corrupção, o roubo, a mentira, o clientelismo, a fraude?

E permite a democracia que se afronte e se tente violar constantemente a Constituição? Que se coloquem em situação desesperada milhares de famílias? Que se ataquem, despudorada, cruelmente, milhares de idosos que o que queriam era viver em paz o resto das suas vidas?

É isto democracia? Ou será antes hipocrisia, trapaça, uma hedionda fantochada, uma tragédia onde somos todos protagonistas e cúmplices?

Tudo nestes dias me cheira a Estado Novo. As intervenções de Coelho, as cantinas sociais, a caridadezinha, as tentativas canhestras de proibir manifestações, o medo que invade o país como nuvem tóxica.

Nem para simulacro de democracia isto serve.

o sonho de passos coelho para o serviço nacional de saúde


para a pildra e é já!


rapazes modernaços

Por Tomás Vasques

Há por aí uns rapazes, armados em modernaços, que gritam, mais coisa, menos coisa: “reformados? Cortem nessa cambada de inúteis que andam a viver à custa do orçamento”; “viúvas? A tomarem chá das cinco e a receberem o dinheirinho ao fim do mês”; “greves? Lá vem essa seita de gente bem remunerada a dar cabo da economia do país. Vejam lá se os desempregados fazem greve?”; Tribunal Constitucional? Bando de socialistas e comunistas que não querem perceber que não há dinheiro para pagar luxos”. Estes rapazes nasceram fora do seu tempo. Se tivessem nascido há 60 ou 70 anos não precisavam de gritar, como gritam. Viviam na paz e no sossego do seu “ambiente natural”.

portugal, o suculento bife dos mercados


Quando me dizem que, se estamos como estamos, é porque andámos a viver acima das nossas possibilidades, dão-me vómitos, cefaleias, brotoeja. Quando nos obrigam a pagar a crise provocada por outros, as instituições financeiras que mais não são do que cóis de malfeitores, dá-me nojo, raiva, ódio. Os portugueses sempre estiveram entre os que, na Europa comunitária (boa comunidade, esta!) menores salários auferem. A desigualdade entre ricos e pobres toca, em Portugal, as raias do escândalo. No entanto, quando chega a hora de apertos, quando os bancos ficaram na merda que eles próprios criaram, quem paga? Quem não teve nada a ver com isso. Quem nunca alinhou na corrupção. Quem sempre viveu do seu trabalho. Quem cumpre a palavra dada. Quem honra os seus compromissos. Quem, com esforços por vezes titânicos, tenta libertar-se da pobreza e assegurar, aos filhos, um futuro melhor.

Para os mercados, Portugal é um bife suculento. E as regateiras de serviço tudo têm feito para o cozinhar a preceito, com muitas "gorduras", as nossas, com muito sal, o do nosso mau viver. Vivemos, há mais de dois anos, entre a espada e a parede, com a corda na garganta. Somos alvos de chantagem, de roubos, de abusos, de estupro, não poupemos as palavras.

É hora de agir. É hora do Sul da Europa se aliar contra a Europa do Norte, a que nos chama PIGGS, a que nos diz desorganizados e calaceiros, a que mais tem enriquecido à conta da crise, a que olha para nós como raças menores, de menor inteligência e força de vontade.

Estamos em crise, sim. E não é só económica. É de valores também. Nunca pensei que, nalgum dia da minha vida, pudesse alguma vez assistir a tanta miséria moral, tanta ganância, tanta abjecção por parte de quem manda e tanto conformismo e inacção por parte de quem obedece, tantas vezes revoltado mas sempre, quase sempre calado.

Veja-se o que aconteceu nas eleições autárquicas. Não deveria a dupla CDS/PPD ter desaparecido do mapa? Não foi isso que aconteceu. A derrota que sofreram foi pequena para tanto crime contra os portugueses, tanta mentira, tanto truque mesquinho, tanta extorsão, tanto menosprezo por um povo que não merecia nada disto. Que não merecia nem Passos nem Cavaco, nem Portas nem os lambe-botas que, pelos jornais, pela comunicação social, alimentam, encorajam a besta fera.

Se querem bife, o governo e os mercados, alimentem-se de vacas gordas, há-as pela Alemanha com fartura a começar pela sucessora de Hitler. Por aqui, a teta ressequiu. Acabou-se a mama. Vão bifar para o inferno, a pata que os pôs, o raio que os parta.

Imagem: http://www.revistarubra.org

a armadilha diabólica do euro


Por Ana Sá Lopes

Quando entrámos na União Monetária, um euro valia menos de um dólar. Em Janeiro de 2002, a nova moeda equivalia a 0,9456 de dólar americano. Ontem, com os governos do sul a desmantelarem a coesão social e a mandarem uma elevada percentagem da população para a sopa dos pobres (“as cantinas sociais” enaltecidas pelo primeiro-ministro na sessão de “O país pergunta”) o mesmo euro vale bastante mais do que um dólar. 1,352 dólares a preços de ontem.

Não é preciso ser um economista fulgurante para perceber que há qualquer coisa anormal nisto. O país cujo governo manda atropelar velhinhas viúvas é o mesmo país que faz uso de uma moeda superior aos Estados Unidos (sem nunca ter tido qualquer capacidade de produzir riqueza equivalente).

A armadilha do euro foi a mais grave mistificação em que os europeus dos países do sul alinharam para alimentarem as exportações alemãs a troco de juros baixos. É verdade que em Portugal o PCP alertou a tempo, mas ninguém o ouviu porque, por definição, ninguém ouve o PCP exclusivamente por ser, como diz o ex-ministro Luís Amado, “uma força revolucionária instalada na Assembleia da República”.

Como o i noticiou esta semana, o fosso entre Portugal e o resto da Europa aumentou desde que aderimos à moeda única. E desde a crise de 2008 enquanto o euro engordava (chegou a valer no auge da crise americana 1,470 dólares), os europeus iniciaram uma depressão que recorda a América dos anos 20 – e também da Alemanha dos anos 20 com as consequências que todos sabemos. A propósito, o partido mais bem colocado para vencer as eleições europeias em França é a Frente Nacional de Marine le Pen.

É penoso ouvir as fantásticas narrativas da crise do governo e dos economistas de serviço – o “gastámos o que não podíamos” – que servem bem para gerir uma casa ou uma mercearia mas não servem para gerir nem um país nem uma zona monetária. Infelizmente, com este euro, esta política e este discurso, Portugal está condenado a não pagar dívida nenhuma, a não ter nenhuma “confiança dos credores” e muito menos o famoso “crescimento” cujos sinais de vez em quando o governo avista. O único consenso fundamental para a sociedade portuguesa é defender uma aliança dos países do sul martirizados contra as imposições da Comissão Europeia e do Banco Central Europeu. O sul tem muito mais força negocial do que a que tem utilizado até agora.

a ponte é uma miragem?


Não se a-ponte que é feio, vocifera Macedo com o conluio das polícias e de um Observatório que não se sabe muito bem para o que serve mas que, para isto, serve muito bem. Vamos corrê-los a ponte-a-pé, respondemos nós, que já é tempo de nos deixarmos de palavras mansas e de sermos tansos. Com esta gente não se brinca, contra esta gente briga-se. Porque querem dar cabo do que Abril nos trouxe. Dar cabo de Abril. São perigosos, são ferozes, são traiçoeiros. Estão acobertados pelo poder do dinheiro e o dinheiro compra tudo, almas, consciências, sentimentos, poder. O dinheiro aprisionou a democracia. É preciso ir à ponte. Esquecendo diferenças, diferendos, politiquices de pacotilha. O que está em causa é muito grave para que tudo isso possa e deva ser ignorado. O que está em causa são as nossas vidas.


A ponte não é uma miragem. É uma passagem para a outra margem. O lado do bem, do justo, do honesto. Tudo o que este governo não é.

os desafinados



Não, no peito dos desafinados não bate um coração. Pelo menos não destes, penetras no regabofe dos milionários. Desafinam que se fartam. Desafinam sempre que agridem os reformados, os funcionários públicos, os desempregados, os precários, os doentes e os estudantes, todos os que não são solistas na sua orquestra, não sejam cabeças de cartaz nesta grande ópera-bufa a que, muitos impávidos, outros tantos serenos, assistem em Portugal.

Afino com os desafinados. Dão-nos música, mas não alegram. É precise gritar-lhes que não vamos em cantigas, é preciso atacá-los com os metais, as cordas, o que tivermos à mão. Até ficarem sem conserto. São um desconcerto, uma tocata e fuga, um dó maior, uma cacofonia, cacaria e caca. Cantemos-lhes um requiem.

Imagens: http://wehavekaosinthegarden.blogspot.pt/

10/10/13

aqui há marosca!


Todos os partidos com assento no parlamento estão de acordo: é preciso cortar 15% nas subvenções vitalícias dos ex-deputados, ministros, etc. A seguir em frente, esta seria a primeira medida decente a entrar em vigor durante o reinado de Coelho, O Imprescindível, e de Portas, O Irreversível.

Mas o CDS quer ir mais longe e eliminar, pura e simplesmente, esses pagamentos vergonhosos. Pela primeira vez na vida, estou de acordo com o CDS.

A não ser que ...

Quando a esmola é grande, o pobre desconfia. Esta gente não dá ponto sem nó. Que pretende o CDS? Mitigar a insatisfação dos portugueses para com Paulo Portas, tantos os trambolhões que o trambolho tem dado ultimamente? Encalacrar o PSD?

Fico à espera que alguém, mais habilitado do que eu nestes meandros da baixa política, venha dar uma explicação.

Mas que aqui há marosca, há. E da grossa.

Mais em:
http://expresso.sapo.pt/pensoes-vitalicias-quem-ganha-e-quanto-ganha=f682879

monte-se a tenda, que comece o espectáculo!

Algumas das muitas reacções ao programa "O País Pergunta", da RTP:

"Será que recomeçaram, após tantos anos, as noites de teatro na RTP?? Realmente a representação esteve à altura daquilo que o Sr. 1º Ministro e todo o seu governo nos têm presenteado dia após dia e o papel parece que estava bem estudado. Veremos se as declarações feitas ontem se alteram completamente hoje, o que já não é de admirar!!"

"Eu não comento. estive demasiadamente ocupada a trabalhar, aproveitando assim uma oportunidade depois de estar praticamente sem trabalho de maio até meados de setembro. Ah! Já agora aproveito para dizer que sou formadora (trabalhadora independente) e, enquanto ele estava na TV a responder a perguntas trabalhadas à anteriori, eu estava a descontar pelo menos 55% do dinheiro que ganhei ontem."

"Tive muitas saudades da série Bem-Vindos a Beirais."

"Acho engraçado que não tenha ido lá ninguém perguntar porque não corta ele na frota automóvel dos governantes, nas mordomias dele e seus ministros assim como dos deputados, só por aí havia muito para cortar..."

"Voltámos ao tempo das conversas em família. Nem para distracção serviu."

"Porque será que me "cheirou" a combate de wrestling?"

"Não perco tempo com pessoas que estão a destruir Portugal e o povo português."

"Se eu falhar é o país que falha"......COELHO"
O Estado sou eu".......LUIS não sei quantos"

"Não respondeu à pergunta que realmente interessa aos portugueses: quando se demite????"

"Pela vossa saudinha tirem-me este gajo, e quejandos, da frente... já estou com uma carrada de brotoeja que nem imaginam..."

"A minha sogra quase que me substituía por este tal a capacidade que o"rapaz" demonstrou."

"Prefiro rever a Conversa da Treta!"

"Parecia mais o big brother político, neste pais movido por novelas, futebol, colarinhos brancos, clientelismo, povo amnésico, políticos corruptos..."

Lido aqui:
https://www.facebook.com/hashtag/opa%C3%ADspergunta

a RTP lava mais branco!


A RTP foi ao facebook perguntar aos portugueses o que pensam do programa "O País Responde", ontem transmitido e que constituiu um acto de propaganda destinado a adoçar a imagem de Sua Excelência, assim mesmo que respeito as instituições e quem as representa, Dr. Pedro Mamede Passos Coelho, para uns o primeiro-ministro, para outros uma quantidade de vitupérios que não vêm agora à colação porque a pide, não tarda nada, anda por aí outra vez.

Eis um dos comentários que, numa consulta apressada (muitos outros haverá de igual calibre), tive ocasião de ler, com repulsa e espanto:

"Cada vez mais tenho ORGULHO em PEDRO PASSOS COELHO. A sua honestidade, humildade e serenidade estiveram bem presentes". 


Excelência, Dr. Passos para uns e (complete o leitor por favor) para outros: ainda tem quem goste de si! Força! Enquanto houver um português a gramá-lo a si e à sua vasta obra (de obrar, evidentemente) não ceda, não desista, não se demita, não dê de frosques como o fizeram Guterres e Durão Barroso. Os mercados, os bancos, os agiotas do poder e das finanças, a Merkel, o FMI, o BCE, Mexia, Catroga, Mira Amaral, Cavaco Silva, Duarte Lima, Manuel Dias Loureiro, Oliveira e Costa e muitos outros precisam tanto, mas tanto, de si. O polvo está consigo, doutor! 

A página é esta:

miss angola 2013

Recolhido em: http://oourico.blogs.sapo.pt

um parecer

Por Ricardo Araújo Pereira

Caro sr. primeiro-ministro,

O conjunto de medidas que me enviou para apreciação parece-me extraordinário. Confiscar as pensões dos idosos é muito inteligente. Em 2015, ano das próximas eleições legislativas, muitos velhotes já não estarão cá para votar. Tem-se observado que uma coisa que os idosos fazem muito é falecer. É uma espécie de passatempo, competindo em popularidade com o dominó. E, se lhes cortarmos na pensão, essa tendência agrava-se bastante. Ora, gente defunta não penaliza o governo nas urnas. Essa tem sido uma vantagem da democracia bastante descurada por vários governos, mas não pelo seu. Por outro lado, mesmo que cheguem vivos às eleições, há uma probabilidade forte de os velhotes não se lembrarem de quem lhes cortou o dinheiro da reforma.

O grande problema das sociedades modernas são os velhos. Trabalham pouco e gastam demais. Entregam-se a um consumo desenfreado, sobretudo no que toca a drogas. São compradas na farmácia, mas não deixam de ser drogas. A culpa é da medicina, que lhes prolonga a vida muito para além da data da reforma. Chegam a passar dois ou três anos repimpados a desfrutar das suas pensões. A esperança de vida destrói a nossa esperança numa boa vida, uma vez que o dinheiro gasto em pensões poderia estar a ser aplicado onde realmente interessa, como os swaps, as PPP e o BPN.

Se me permite, gostaria de acrescentar algumas ideias para ajudar a minimizar o efeito negativo dos velhos na sociedade portuguesa:

1. Aumento da idade de reforma para os 85 anos. Os contestatários do costume dirão que se trata de uma barbaridade, e que acrescentar 20 anos à idade da reforma é muito. Perguntem aos próprios velhos. Estão sempre a queixar-se de que a vida passa a correr e que 20 anos não são nada. É verdade: 20 anos não são nada. Respeitemos a opinião dos idosos, pois é neles que está a sabedoria.

2. Exportação dos velhos. O velho português é típico e pitoresco. Bem promovido, pode ter aceitação lá fora, quer para fazer pequenos trabalhos, quer apenas para enfeitar um alpendre, um jardim.

3. Convencer a artista Joana Vasconcelos a assinar 2.500 velhos e pô-los em exposição no MoMa de Nova Iorque.

Creio que são propostas valiosas para o melhoramento da sociedade portuguesa, mantendo o espírito humanista que tem norteado as suas políticas.

Cordialmente,

Nicolau Maquiável

Imagem: http://www.gerard-fourel.com

o último altar

Por Fernando Dacosta

Nós que temos, como disse Agustina Bessa Luís, “a cultura da afectuosidade como outros povos têm a da matemática e a da filosofia”, estamos a sofrer, através dos governantes que nos saíram ao caminho, uma destruição identitária só comparável com a imposta pelo Santo Ofício.

Trata-se da destruição da nossa natureza afectiva, aquela de que falava Agustina, de consequências arrepiantes. O que está em curso é, na verdade, um crime metódico, faseado contra a essência, a dignidade que nos ergueu vai para mil anos.

O esmagamento dos idosos fez-se, por exemplo, a investida mais aviltante (porque mais covarde) desse plano, abatida sobre reformados e pensionistas, doentes e diminuídos, com devastações simultâneas em desempregados e jovens (estes expulsos do território como os judeus de outrora), visando liquefazer o húmus agregador do país. Lançar novos contra velhos, trabalhadores contra excedentários, privados contra públicos, faz parte dessa subterrânea canalhice.

Os economicistas de serviço fazem contabilidade de tudo, e ficam sorridentes com os balancetes apurados, e brindam a eles sem estremecimento pela dor, pela hecatombe que provocam em milhões de caídos na miséria, na doença, no abandono, na destruição.

Quando se reerguer, Portugal logo atirará para o fosso da história, como sempre fez, os que o mancham de nojo e terror – ante a conivência de quem devia impedi-los.

Presidência da República, eleições antecipadas, partidos opositores bloquearam-se, bloqueando-nos, adiando-nos.

Será que só nos resta acender velas ao Tribunal Constitucional, o último altar que, entre tantas e caras (e inúteis) expressões de soberania democrática, nos pode valer?

vai dizer isso a quem tiraste o RSI e outros subsídios, a quem aumentaste a renda de casa, o IVA, os transportes, etc., etc., etc., etc., etc., etc.

e tinha que ser o kuwait?


O Kuwait, a que se seguirão outros países árabes, vai começar a efectuar testes médicos nos aeroportos, para detectar quem é homossexual e impedir-lhe a entrada no país.

Não dizem de que constarão esses testes. Toque rectal? Raios-X à espera que, por trás da pilinha, se esconda algo mais feminino? Análises aos cromossomas, se é que os cromossomas se podem analisar? Testes psicológicos? Testes pouco lógicos?

Seja como for, acho mal que o primeiro país a implementar a medida tivesse logo que ser o ... Kuwait.

se me dão licença, não, não foi em marte

Por Ferreira Fernandes

Quatro tipos sobem para o tejadilho do carro, põem-se nus e dançam. Outro filma-os e o vídeo aparece na Net. Calculem o sofrimento horrível do capô, espezinhado pelos brutos. Felizmente há leis na Arábia Saudita e os energúmenos foram condenados, cada um, a 2000 chibatadas e a dez anos de prisão. Por seu lado, Fayhan al-Ghamdi, predicador islâmico muito popular pelas suas aparições televisivas, andando preocupado com a virgindade da sua filha Lama, de cinco anos, partiu-lhe costelas, esmagou-lhe o crânio, queimou-lhe o ânus e matou-a. Segundo a notícia da CNN, exames médicos comprovaram o horror no tribunal e Fayhan al-Ghamdi confessou. Não ficamos a saber, porém, se a menina se arrependeu por ter atormentado o pai, único refrigério em toda esta triste história, já que o pobre homem quando predicava insistia nos prémios a que conduz o arrependimento perante Deus. Adiante. O tribunal decidiu: 600 chibatadas e oito anos de prisão. Não me cabe tentar fazer Direito Comparado, cada povo é um povo e os outros são geralmente estranhos. Mas por mera cultura geral é bom saber que, algures, um capô amolgado vale mais dois anos de prisão e 1400 chibatadas do que uma menina torturada. O predicador já o devia saber e por isso não praticou as sevícias em cima do carro. Mas, na verdade, não tiro grande conclusão sobre ele, malucos há em todos os lugares. Já os critérios daqueles tribunais, há muito que os tomei como assunto pessoal.

coelho foi à lavagem


Coelho foi à lavagem. Sem sabão-macaco, sem Quitoso, sem pedra-pomes, mas com o creme da demagogia, o sabonete das falsas verdades e o pó-de-talco dos amanhãs que cantam, como é aliás seu apanágio nuns dias porque, noutros, lá vem ele ameaçar-nos com Sua Graça ou a desgraça, o falso ou o cadafalso, a batota ou a bancarrota, o ladrão ou o aluvião.

Num tempo que promete vir a ser de grande agitação social, em que será apresentado o Orçamento de Estado e anunciados os consequentes crimes "extraordinários" a praticar sobre a população, até agora indefesa porque é assim que ela quer estar, Coelho precisava de um branqueamento, de ser olhado como um ser humano, que não é, próximo do cidadão, que não está, um dos nossos, que nunca será. A RTP fez-lhe o jeitinho. Esse ser abaixo de qualquer classificação - e a de cão não cabe aqui, prezo-os muito, aos cães, para lhes fazer a desfeita - frio, arrogante, que vê números em vez de portugueses e que tem pelos portugueses um desprezo imenso, madraços e piegas, pouco alemães afinal, e ele que tanto adora a mamã Merkel, teve a oportunidade, sem o contraditório que o cidadão comum seria de qualquer maneira incapaz de fazer, mesmo que a tal estivesse autorizado, teve a oportunidade, dizia, de ter a sua sessão de propaganda que, acrescente-se de passagem, custou zero ao PSD e onde se mostrou, para quem gosta de se deixar enganar, gostos não se discutem, tão simpático que deve ter havido por aí muita velhinha, viúva ou não, a sentir compaixão por tão afável senhor, elegante e bem falante, um ai-jesus, um menino na mão das bruxas, esses socialistas, comunistas e os masoquistas de que falava Cavaco.

Coelho não foi ele, foi outro por ele, tão lavado e enxuto que até parecia novo. Levou a lição bem estudada (as perguntas foram de surpresa ou, coisa que não me espanta, teve conhecimento delas antes do programa?), papagueou o que quis e como quis, sem ninguém que o obrigasse a não torpedear as questões, respondendo a alhos quando lhe falavam em bugalhos, parecem mas não são iguais.

Agradeçam ao Ponte. Vender primeiros-ministros, a sua honra, a sua palavra, o acerto das suas políticas é, prova-se, tão fácil como vender cerveja.

Para isso está lá o Ponte. Um dos grandes serviços que Relvas prestou a Passos, abençoado seja esse grande mestre da língua portuguesa e negócios afins.

A gasolina está cara? É bom que esteja que é para preservar o ambiente.

O aumento do IVA não tem nada a ver com a falta de clientes nos restaurantes.

Não tem dinheiro para pôr os seus filhos a estudar? Peça subsídios.

Comigo, o SNS tem prestado um excelente serviço aos portugueses.

A situação dos aposentados não será pior em 2014 do que foi em 2012.

Nós não queremos que os jovens emigrem.

Chegam estas pérolas ou quer mais, para arrumar de vez com a figadeira?

Coelho só foi ele mesmo quando disse, já no fim e sintomaticamente respondendo a uma pergunta do jornalista e não do público, que Machete não fez nada de recriminável. Na óptica do primeiro-ministro, para quem o roubo não é um crime mas um alto desígnio nacional, em que ele se considera arauto, profeta e deus todo poderoso, os pequenos pecadilhos de Machete são questões de lana-caprina, arremessos de uma oposição, essa sim, criminosa.

Pois. Isso. E assim. Mas que também.

09/10/13

cobras e lagartos


Hoje tem sido um dia aziago. Passos voltou a ameaçar com mais austeridade "para lá da troika"; a Associação Industrial Portuguesa pede aos políticos que mudem a Constituição, um entrave ao crescimento económico do País; o FMI vem dizer que o governo tem sido demasiado brando em matéria de redução salarial; a PSP também não quer que a marcha da CGTP se realize na ponte 25 de Abril, apesar do seu porta-voz ter dito há pouco, na RTP, que "estão asseguradas todas as condições de segurança"; Poiares Maduro diz que a reestruturação da RTP, com despedimentos incluídos, não almeja mais do que a valorização dos trabalhadores da empresa; Luís Amado, um socialista de gema e um baronete da nação que, depois de ministro, passou a presidente do Banif, queixa-se que o parlamento português está poluído com revolucionários, subentendendo-se que estaria melhor com bancadas do PS para a direita, tudo em família, amigalhaços, abraços e pancadinhas nas costas.

E, como se estes e outros factos já não fossem tão maus, temos Coelho a perorar na televisão.


Sim, hoje tem sido um dia mau.

os assassinos de machete

Imagem: http://henricartoon.blogs.sapo.pt/

um choque de invectivas


Mais um excelente artigo de Baptista-Bastos. Mas o autor escreveu isto antes da última investida de Passos contra a democracia. Recomendou ontem o cavalheiro que não se critique o abjecto governo nem as suas medidas abjectas - repita-se a abjecção com gosto e raiva -, sob pena de criar nos portugueses "um choque de expectativas". Por outras palavras, os portugueses devem silenciar-se, os blogues e redes sociais devem apagar-se, os jornais e televisões serem entregues à rede de abencerragens que lhes são fiéis, a Passos e aos que lhe seguem os passos a caminho da maldição, a deles, ou da perdição, a nossa. Baptista-Bastos escreve muito melhor do que eu o que me vai pela alma, o horror, a indignação, o nojo por esta gente que de gente nada tem. As palavras que me ocorrem são um choque de invectivas, das de alto coturno linguístico, de alhos e bugalhos para cima, tudo para cima. E não convém. Porque qualquer dia está cá a pide outra vez. Assim os portugueses deixem. Silenciando-se. Apagando-se. 

A tirania à espreita

Por Baptista-Bastos
http://www.dn.pt

O ataque ao Tribunal Constitucional atingiu aspectos indecorosos. Dos sectores da Direita mais radical e asinina, até à colaboração de articulistas indignos, ou ao silêncio ordenado da maioria da "comunicação social", a execração ultrapassa tudo o que seria previsível. Até a troika, agora, em comunicado tão absurdo como abusivo, alude às decisões do Tribunal, interferindo, gravíssimamente, na estrutura jurídica de um Estado, apesar de tudo ainda soberano e democrático. O dr. Cavaco, ante esta acometida, calou-se de modo abjecto. E o enfadonho Durão Barroso também não se eximiu de admoestar os juízes do Constitucional, com aquela leveza paquidérmica habitual no seu estilo.

Parafraseando um velho amigo meu, Rui Cunha, socialista e homem de bem, não se dera o facto de aquele Tribunal se portar à altura dos legados morais, a ditadura já estaria aí, "reorganizada" em moldes "democráticos" e actualizada pelas circunstâncias europeias.

Há algo de podre e de dissoluto num Governo que estabelece leis e impõe métodos ilegítimos e se apoia numa falsa legalidade do voto. Na realidade, o voto permite ir até certo ponto, e impede que esse ponto seja tripudiado pelos caprichos de um grupo. Neste caso, de um grupo celerado. A partir da altura em que a lei é atolada, a rebelião patriótica torna-se exigência suprema.

Assisti, há dias, entre indignado e colérico, às declarações de Passos Coelho, num fórum de patrões. Foi muito aplaudido, porque se deslocara ao Algarve unicamente para fazer genuflexões de servilismo. O rol de iniquidades que aí vem, entre as quais a diminuição do subsídio de viuvez, torna as leis de Salazar uma piedosa litografia. Pior ainda: o tirano apoiava-se na repressão; este que tal, agora, sustenta-se na falsa "legitimidade" do voto "democrático." Ao patronato foi garantir a intocabilidade dos seus processos e o apoio político aos seus rumos. Aos outros, a nós, caucionou e parafraseou a frase sinistra do banqueiro Ulrich: aguentam, aguentam.

Temos necessidade de que os grandes problemas portugueses sejam estudados e dilucidados por homens que possuam e defendam valores morais partilhados. A partilha desses valores não me parece seja comum, não só entre os governantes como naqueles que se esticam para os substituir. A doença é endémica, e o paradigma que se nos pretende impor simplifica ou rejeita os princípios e os padrões de solidariedade e de compaixão que construíram a Europa do pós-guerra.

A questão central é a de que o capitalismo não tem emenda nem reforma, e de que estamos a ser apanhados por uma pertença de egoísmo e de violência sem paralelo, aliás, na génese do sistema. E quase sem possibilidade de nos defendermos. O desaparecimento da relação social é um projecto imperial de novo tipo, escorado na desagregação do próprio conceito de condição humana.