09/11/13

comunismo, o mal do mundo

Por Tiago Mota Saraiva

Numa sociedade comunista os salários são mais baixos. Os impostos estão continuamente a aumentar, retirando aos trabalhadores o pouco rendimento que lhes sobra para alimentar um Estado gordo, gigante em despesas. Ao mesmo tempo, o Estado impõe normas e regras morais restritivas entrando na vida privada de cada um. No comunismo é muito provável que não se possa fumar no automóvel ou ter mais de dois cães ou quatro gatos num apartamento.

No Estado comunista o cidadão perde a sua individualidade. Vive e trabalha para alimentar o Estado. As famílias que não conseguem sobreviver com os seus rendimentos têm de entregar os seus filhos ao Estado. Quem não se consegue alimentar fica dependente das instituições que fornecem comida, fervorosas defensoras do sistema e que zelam pelo bom comportamento dentro da sociedade na condição de lhe ser cortado todo e qualquer subvenção de subsistência. Os mais velhos, quando incapazes de produzir e não pertencendo à oligarquia, são considerados excedentários da sociedade e colocados em locais dos quais não voltam a sair com vida.

No comunismo o trabalhador que tenta fazer algumas poupanças, guardando-as no banco ou em casa, está sempre sujeito a que o Estado tome a iniciativa de as resgatar para cobrir as suas decisões ou de ser considerado rico, e portanto inelegível para qualquer apoio - as oligarquias que defendem o sistema beneficiam de um estatuto especial.

Na verdade, parece que o capitalismo se entusiasmou com o que papagueava do comunismo e resolveu concretizá-lo. Agora que algumas organizações de esquerda em que participam comunistas se começam a constituir como uma séria alternativa eleitoral ao sistema em que vivemos, importa inventar mentiras novas.

protesto com nota máxima

Nos últimos dias, os espanhóis têm-se servido de notas de euro para fazer vingar o seu protesto contra as medidas de austeridade impostas pela comissão liquidatária do País, presidida pelo senhor Rajoy sob as ordens dos mercados, sacrossantos, omnipresentes, omnipotentes, os novos deuses na Terra. Se os povos não se revoltam enquanto é tempo, em uníssono, qualquer dia mais não seremos do que esfregonas na mão destes empregadotes, de Passos a Rajoy, que o capitalismo elegeu para fazerem a limpeza do sistema, sem solidariedade a não ser a imposta pela caridade dos cínicos. 








08/11/13

porto: um dia na vida da cidade

minha laranja amarga e doce, meu poema

http://lisboadiarios.blogspot.pt/

http://lisboadiarios.blogspot.pt/

http://lisboadiarios.blogspot.pt/

bardamerda ainda se escreve bardamerda?




Quem fez o inventário foi o Aventar (http://aventar.eu/): o guião para a reforma do Estado do irreversível, incontornável, irreparável, irrepreensível Paulo Portas não respeita o povo português, mas  também não respeita a ortografia, nem a "antiga" nem a "moderna". É assim uma espécie de sopa de letras azedada, uma caldeirada de pontapés no "bem falar, bem escrever". A Edite Estrela, apoiante do acordo ao que sei, não deve ter gostado nada de ler a sebenta sebenta do Estado melhor, mais pequeno, mais barato, mais pindérico para uns, mãos-largas para outros.

Ora vejamos, e passo à singela tarefa de copy e paste a partir do Aventar. Enquanto lê e dá pelos dislates, vá apreciando a ideologia neoliberal de que Portas, irreprimível, insubstituível, se tornou indefectível porta-voz e indesmentível paladino:

Efectivamente, fazendo um pequeno apanhado de co-ocorrências presentes neste Guião 

acção (p. 32) e ação (p. 39) 
adopção (p. 10) e adoção (p. 110) 
aspecto (p. 12) e aspeto (p. 72) 
activo (p. 55) e ativa (p. 84) 
actividade (p. 8 ) e atividade (p. 69) 
actual (p. 11) e atual (p. 81) 
actualmente (p. 47) e atualmente (p. 93) 
correcção (p. 21) e correção (p. 62) 
direcção (p. 14) e direção (p. 72) 
directa (p. 19) e direta (p. 37) 
electrónica (p. 109) e eletrónica (p. 110) 
exactamente (p. 10) e exatamente (p. 104) 
excepcional (p. 101) e excecional (p. 63) 
factor (p. 95) e fator (p. 96) 
inspecção (p.60) e inspeção (p. 60) — exactamente, p. 60; 
objectivo (p. 67) e objetivo (p. 63) 
percepção (p. 42) e perceção (p. 57) 
projecto (p. 73) e projetos (p. 73)— efectivamente, p. 73; 
protecção (p. 60) e proteção (p. 61) 
sector (p. 80) e setor (p. 87) 
trajectória (p. 40) e trajetória (p. 101), 

espera-se, obviamente, uma elevada frequência de pérolas como

"A consagração de uma carta de missão para a CGD representa um passo em frente e o escrutínio anual dos seus objectivos permitirá assinalar o respetivo grau de cumprimento (p. 64)"

ou

"Uma nova geração de reformas no Estado tem de ser coerente com a trajectória de garantir que há consolidação orçamental. Temos, no horizonte, um défice de 2,5% em 2015; e temos objetivos de médio prazo plasmados tanto no Tratado, como no Documento de Estratégia Orçamental. Assinale-se, ainda, a necessidade de retornar a nossa dívida pública a valores aceitáveis nas próximas décadas (p. 40)"

ou

"A margem de manobra do nosso país é aquela que é conferida pelo facto de sermos globalmente um país cumpridor. Foi isso que já permitiu uma redução na taxa de juro praticada, a importante extensão de maturidades dos nossos empréstimos e correções nas metas orçamentais estabelecidas. A percepção sobre Portugal melhorou significativamente; o nosso país, como a Irlanda, pode e deve ser um caso de ajustamento com um final positivo (p. 42)"

ou ainda

"É conhecido, ainda, que as experiências de simplificação e de desmaterialização administrativas dos últimos anos já mudaram em muitos domínios a relação direta do Estado com os cidadãos e agentes económicos: são exemplos paradigmáticos os setores dos registos, da administração fiscal, da saúde (nomeadamente, a prescrição electrónica) ou dos licenciamentos das atividades económicas (licenciamento zero), onde a digitalização avançou (p. 109)"

e não esquecendo quer

"deve, ainda, ser seriamente equacionada a reforma da função inspectiva do Estado. Algumas Inspecções-Gerais têm demasiada especificidade para poderem ser integradas; outras não. Mas se é certo que um Estado menos pesado na economia deve acautelar devidamente, não apenas as funções reguladoras e de supervisão, como também as funções de inspecção, então fará sentido agregar inspeções e reforçar a sua autoridade e prestígio (p. 48)"

quer

"As falhas de supervisão muito sérias quanto a atividades criminais ou irregulares em parcelas do sistema financeiro, com elevado custo para o contribuinte; a dificuldade em detetar, a tempo, procedimentos de risco para lá do aceitável; a permissividade em relação a práticas abusivas no setor da concorrência; algum desinteresse pela qualificação das atividades inspectivas dos próprios Ministérios, resultaram, cumulativamente, numa diminuição da confiança necessária nestas funções de regulação, supervisão e inspeção (pp. 60-1)."

as cidades são livros que se lêem com os pés

https://www.facebook.com/lisbonlux
O Costa, aquele de que o povo gosta, a crer nos resultados das últimas autárquicas, teve a ideia - brilhante, como é seu apanágio - de querer arrancar a calçada portuguesa em algumas artérias de Lisboa. Para, alega-se, facilitar a vida aos peões, mormente as pessoas com dificuldades de locomoção.

A verdade é outra. Sai caro manter uma das imagens de marca de Lisboa. É difícil reparar o empedrado para que as pessoas não torçam os pés a cada passo e, ademais, temos que ser modernos, deixar-nos de maníacos caprichos próprios de novo-rico. Por isso se substituem pedras por cimento. Daí que grandes espaços públicos, de Norte a Sul de Portugal, sejam hoje desertos de cantaria onde nem uma árvore, nem uma planta, brotam da solidão. Mais ecológico, dirão os hipócritas de sempre, com a palavra verde na boca e a negrura no coração.

obama mad

na noite dos tempos

O número de milionários não pára de aumentar em Portugal. E os que já existiam estão agora cada vez mais ricos.

Poiares Maduro diz que os sacrifícios impostos aos portugueses "estão estruturados com a maior equidade possível”, e que “incidem com particular peso naqueles que mais têm, com várias medidas dirigidas a vários sectores económicos protegidos”. No entanto, acrescenta a seguir que "por mais que penalizássemos os que mais têm, isso nunca seria suficiente para obter a redução orçamental”. E “é isso que nos força a termos de exigir” mais sacrifícios aos funcionários públicos e pensionistas.

António Costa aconselha mais diálogo entre o PS e o PSD. Um aviso para quem acha ainda que ele fará melhor do que Seguro.

Numa exposição em Paris, Joana Vasconcelos, a coqueluche do regime, a artista do efémero e da espampanância acéfala, exibe um laço gigante, cor de rosa como a sua vida de estrela cadente, feito de frascos de perfume. Cheira-me mal.

O BES foi alvo de buscas policiais. Mais uma a juntar a tantas do passado. Mas os seus dirigentes reagem como virgens ofendidas, com eles só negócios e contas limpas. É limpinho.

No teatro da Malaposta está em cena a peça "Matadouro Invisível". No Teatro Nacional D. Maria II passa "O Aldrabão". Nos cinemas, podemos ver "A Bicharada Contra-Ataca" e "Os Filhos da Meia-Noite". A "Gaiola Dourada" mantém-se em cartaz, os portugueses acorrem ao cinema para esquecer a outra gaiola, bem negra, onde nos enfiaram como gado a caminho do matadouro. Bem visível.

O governo ainda não caiu.

Cavaco ainda não se demitiu.

Foi o povo que os pariu.

07/11/13

e por falar em desonestidade intelectual

www.shutterstock.com
A direita agora no poder, sempre se soube, não prima pela honestidade. Nem intelectual nem outra. Hoje, foi a vez do ministro Mota Soares mostrar a sua índole. Embandeirou em arco, quase bateu palminhas com os números do desemprego apresentados pelo INE. O desemprego baixou! Isto demonstra que os apóstolos da desgraça nunca tiveram razão, nós estamos no bom caminho! Aqui está a prova! Um indicador de confiança! Um sinal de esperança!

O que não dizem, nem convém, é que essa redução de desemprego se deve ao maior emprego, meramente precário, durante o Verão, bem como ao aumento crescente do número de portugueses que procuram, no estrangeiro, a oportunidade de serem gente e não párias, e não simples números numa folha de excel, positivos pelo lado da receita, negativos pelo lado da despesa.

Sei que o jogo político leva a que ambas, esquerda e direita, usem tantas vezes, demasiadas vezes, argumentos enviesados para levarem a sua avante. Mas, nesta matéria, a direita, certa direita, a trauliteira, a que toma agora conta do PSD e do CDS, abusa no recurso ao estratagema.

Nem outra coisa seria de esperar de quem mentiu como mentiu para ganhar eleições. Há que continuar a mentir para tentar reconquistar o País. Há muito, no entanto, perdido. Pelo menos por alguns anos. 

um dó li tá

Por António Lobo Antunes

Perguntam-me muitas vezes por que motivo nunca falo do governo nestas crónicas e a pergunta surpreende-me sempre. Qual governo? É que não existe governo nenhum. Existe um bando de meninos, a quem os pais vestiram casaco como para um baptizado ou um casamento. Claro que as crianças lhes acrescentaram um pin na lapela, porque é giro

- Eh pá embora usar um pin?

que representa a bandeira nacional como podia representar o Rato Mickey

- Embora pôr o Rato Mickey?

mas um deles lembrou-se do Senhor Scolari que convenceu os portugueses a encherem tudo de bandeiras, sugeriu

- Mete-se antes a bandeira como o Obama

e, por estarem a brincar às pessoas crescidas e as play-stations virem da América, resolveram-se pela bandeirinha e aí andam, todos contentes, que engraçado, a mandarem na gente

- Agora mandamos em vocês durante quatro anos, está bem?

depois de prometerem que, no fim dos quatro anos, comem a sopa toda e estudam um bocadinho em lugar de verem os Simpsons. No meio dos meninos há um tio idoso, manifestamente diminuído, que as famílias dos meninos pediram que levassem com eles, a fim de não passar o tempo a maçar as pessoas nos bancos, de modo que o tio idoso, também de pin

- Ponha que é curtido, tio

para ali anda a fazer patetices e a dizer asneiras acerca de Angola, que os meninos acham divertidas e os adultos, os tontos, idiotas. Que mal faz? Isto é tudo a fazer de conta.

Esta criançada é curiosa. Ensinaram-me que as pessoas não devem ser criticadas pelos nomes ou pelo aspecto físico mas os meninos exageram, e eu não sei se os nomes que usam são verdadeiros: existe um Aguiar Branco e um Poiares Maduro. Porque não juntar-lhes um Colares Tinto ou um Mateus Rosé? É que tenho a impressão de estar num jogo de índios e menos vinho não lhes fazia mal. No lugar deles arranjava outros pseudónimos: Touro Sentado, Nuvem Vermelha, Cavalo Louco. Também é giro, também é americano, pá, e, sinceramente, tanto álcool no jardim escola preocupa-me. A ASAE devia andar de olho na venda de espirituosas a menores. Outra coisa que me preocupa é a ignorância da língua portuguesa nos colégios. Desconhecem o significado de palavras como irrevogável. Irrevogável até compreendo, uma coisa torcida, e a gente conhece o amor dos pequerruchos pelos termos difíceis, coitadinhos, não têm culpa, mas quando, na Assembleia, um deles declarou

- Não pretendo esconder nem ocultar

apesar da palermice me enternecer alarmou-me um nadita, mau grado compreender que o termo sinónimo seja complicado para alminhas tão tenras. Espíritos tortuosos ou manifestamente mal formados insinuam, por pura maldade, que os garotos mentem muito, o que é injusto e cruel. Eles, por inevitável ingenuidade, não mentem nem faltam às promessas que fazem: temos de levar em conta a idade e o facto da estrutura mental não estar ainda formada, e entender que mudar constantemente de discurso, desdizer-se, aldrabar, não possui, na infância, um significado grave. A irrealidade faz parte dos cérebros em evolução e, com o tempo, hão-de tornar-se pessoas responsáveis: não podemos exigir-lhes que o sejam já, é necessário ser tolerante com os pequerruchos, afagá-los, perdoar-lhes. Merecem carinho, não crítica, uma festa na cabecinha do garoto que faz de primeiro-ministro, outra na menina que eles escolheram para as Finanças e por aí fora. Não é com dureza desnecessária e espírito exageradamente rígido que os educamos. No fundo limitam-se a obedecer a uns senhores estrangeiros, no fundo, tão amorosos, que mal fazem eles para além de empobrecerem a gente, tirarem-nos o emprego, estrangularem-nos, desrespeitarem-nos, trazerem-nos fominha, destruírem-nos? São miúdos queridos, cheios de boa vontade, qual o motivo de os não deixarmos estragar tudo à martelada? Somos demasiado severos com a infância, enervam-nos os impetuosos que correm no meio das mesas dos restaurantes, aos gritos, achamos que incomodam os clientes, a nossa impaciência é deslocada. Por trás deles há pessoas crescidas a orientarem-nos, a quem tentam agradar como podem à custa daqueles que não podem. Os portugueses, e é com mágoa que escrevo isto, têm sido injustos com a infância. Deixem-nos estragar, deixem-nos multiplicar argoladas, deixem-nos não falar verdade: faz parte da aprendizagem das mulheres e homens de amanhã. Sigam o exemplo do Senhor Presidente da República que paternalmente os protege, não do senhor Ex-Presidente da República, Mário Soares, que de forma tão violenta os ataca e, se vos sobrar algum dinheiro, carreguem-lhes os telemóveis para eles falarem uns com os outros acerca da melhor forma de nos deixarem de tanga. Qual o problema se há tanto sol neste País, mesmo que não esteja lá muito certo de o não haverem oferecido aos alemães? E, de pin no casaco que nos fanaram, isto é, de pin cravado na pele

(ao princípio dói um bocadinho, a seguir passa)

encorajemos estes minúsculos heróis com um beijinho, cheio de ternura, nas testazitas inocentes.

bruno nogueira à conversa com margarida rebelo pinto


a crueldade de ser

Angelo Meredino e Jennifer casaram. Cinco meses depois foi-lhe diagnosticado, a  ela, um cancro. Angelo decidiu fotografar os últimos meses da mulher. Dor e amor. Perpetuados.













no enforcamento conjugal de relvas, dois coelhos e a falta que a cajadada fez

Relvas deu o nó. Não na garganta, credo!, que o homem não é desses, a vidinha corre-lhe de feição. Deu o nó com uma moçoila que, reza a maledicência lusa, também não é, como ele, flor que se cheire. Deram o nó e a fina-flor do entulho nacional acorreu à cerimónia, em peso. Foi de peso a gente que lá esteve, a que nos pesa na carteira e nos dias, amargos e sem festança. Desde Zainal Brava a Mira Amaral, da PT ao BIC pois então, que a gratidão é sentimento nobre, mais os políticos em voga, tantos que seria fastidioso nomeá-los todos, foram mais de 200 convidados numa festa que se quis discreta, os tempos são de austeridade e a luxúria deve quedar-se em bom recato, com os basbaques de longe a salivar menus, a admirar trajares. E estiveram lá, também, Passos Coelho e Jorge Coelho. Pena ter faltado a cajadada. Era o princípio do fim do centrão que tanto nos tem azucrinado a existência. 

Porque hoje me sinto fútil, sinónimo de inútil, deixo-lhe aqui algumas fotografias do opíparo casório para que sacie a alma de sopeira ou de sopeiro que há em si. Em mim também, que entre apertos e roubos é o que levo desta vida, ver a vida dos outros, o fausto dos outros, os roubos dos outros, a desfaçatez dos outros, a cupidez dos outros. 

Fique a saber: quando algum dos demais se casar, faça-se convidado e leve a moca. Nunca se sabe quantos coelhos sairão da toca. A quantos lhe toca dar com a cachaporra. Verbal, que somos gente de bem, mais dada a procissões do que a protestos.










tempos que voltam

pelos meus, pelos teus, há que mudar a história

negros vão os tempos


Durão Barroso disse com todos os dentes que tem na boca que "os eventuais chumbos do Tribunal Constitucional podem pôr em risco o regresso aos mercados". Ficamos portanto a saber que o ainda presidente da Comissão Europeia é pela violação da Constituição da República. Os portugueses que o querem em Presidente da República deviam lembrar-se disto antes de fazerem disparates. É só um aviso.
José Teófilo Duarte

A calinada de Cristas:

Através de meias palavras, ocultações e muita propaganda, o Governo vem dizendo ao que vem, ao que desde sempre veio: a destruição do Estado Social e a substituição deste modelo por uma sociedade, um novo Homem (à maneira das grandes revoluções totalitárias do passado), regido por valores como o materialismo, o individualismo e a caridade. Toda esta transformação beneficia uns poucos - a reforma do IRC, por exemplo, vai ajudar sobretudo as grandes empresas, deixando de fora e em desvantagem concorrencial as PME's - e perpetua clientelismos, amiguismos e a cultura do tacho, sobretudo em caso de posse do cartão dos dois partidos do Governo. Só assim se compreende que as despesas com os gabinetes ministeriais tenham aumentado, que o boys do PSD e do CDS neste momento ocupem a maioria dos cargos de nomeação política da administração pública, que milhares de assessores e adjuntos tenham sido arregimentados, vindos directamente da universidade de verão do PSD e dos meninos do Caldas, que várias figuras que diariamente regurgitam nas televisões a propaganda governamental estejam a ser recompensadas com cargos em empresas amigas - Arnaut, Catroga, etc. -, que na Saúde e na Educação se tenha vindo a cortar verbas para escolas, hospitais e centros de saúde públicos ao mesmo tempo que aumentam as transferências para hospitais em PPP e escolas com contrato de associação, e que se estejam a transferir recursos e a delegar competências nas IPSS's, reduzindo e estrangulando o financiamento à Segurança Social.
Sérgio Lavos

A sorridente Merkel parece não ter ainda percebido que a sua gestão egoísta e medíocre da crise da Zona Euro é acompanhada por toda a gente, fora da Alemanha, com angústia e apreensão, pois o que ela promete é uma continuada erosão que redundará em desastre. Merkel, usufrui, contudo, a doçura dos momentos em que tudo parece possível. A Alemanha é dona incontestável do futuro da Europa. É ao mesmo tempo réu e juiz em causa própria. Está acima das regras que obriga os outros a cumprir. 
Viriato Soromenho-Marques

Um apagão democrático em que já não há vergonha de se dizer bem alto ao que se vem. O conflito ideológico e de classe é marcante nestes tempos: um ministro da defesa que afirma querer rever a Constituição com medo de um Estado Social totalitário, Durão Barroso que avisa a Europa sobre o perigo das decisões do Tribunal Constitucional, Crato que por vingança inclui como serviços sociais impreteríveis em caso de greve os exames nacionais, Portas que escreve uma composição digna de reparos até no ensino básico e que, subscrita em Conselho de Ministros, arredada que está a sua inacreditável redacção, representa talvez o documento mais perigoso e preconceituoso dos últimos tempos: uma receita conducente à reconfiguração do Estado e mudança de regime.
Lúcia Gomes

«O ministro da Defesa Nacional, José Pedro Aguiar-Branco, defendeu hoje a revisão da Constituição, argumentando que existe em Portugal a "tentação de um Estado totalitário" provocado por um "Estado social absorvente" que cria "promiscuidades", "clientelas" e "dependências".»

Senhoras e senhores, madames e monsieurs, ladies and gentlemans, bem-vindos à lei da selva.
José Simões

Somos ricos, financiemos as máfias do ensino secundário privado!

Os juízes decidem.

que vá pregar para outra freguesia


meninos-escravos

06/11/13

joão jardim acerta contas

http://www.record.xl.pt
Um ser mesquinho, um verme de encher, Alberto João Jardim mandou executar dívidas de electricidade a sete Câmaras da Madeira.

E que Câmaras são essas, perguntará o leitor já a topar marosca?

São as Câmaras que o PSD perdeu nas últimas eleições autárquicas.

Esta criatura não se consegue descrever com palavras. Vingativo, anti-democrata, psicopata? Tudo isso e os demais insultos que é imprudência elencar aqui já que os tribunais, contra o que é seu costume, podem vir a ser lestos em matérias de difamação dos "grandes" da Nação, consulte-se o processo "Aníbal Cavaco Silva/gatuno/vai trabalhar" para ver se tenho ou não motivos de sobra para andar de pé atrás.

O homúnculo (pronto, não consegui resistir, foi só desta vez), que tanto ajudou a desequilibrar as contas dos cubanos do continente, é o primeiro a querer acertar contas com os opositores que mais o incomodam na sua, até agora, monarquia absoluta da Madeira.

É um golpe demasiado baixo. Até vindo de alguém como Alberto João que, como se sabe, não deve nada à elegância de linguajar ou refinamento de costumes.

Uma besta. Isso sim.

pinto galinhola

Nuno Miguel Sousa/http://caras.sapo.pt/
No vídeo, Margarida Rebelo Pinto em todo o seu esplendor político e intelectual.

Diga-me Guidinha: em que consistiram os cortes no seu orçamento? Qual é o seu rendimento médio mensal? Pode ser comparado ao de um desempregado? Ao de um casal de desempregados? Ao de um assalariado recompensado com o ordenado mínimo? Aos dos idosos que passam fome para que as suas pensões, violentamente cortadas, cheguem para acudir aos filhos e netos?

Ora abóbora, Guidinha. A rica revela-se. Defensora do neoliberalismo de pacotilha, privilegiada, mimada, ferozmente reaccionária, de vidinha mais do que confortável ao lado dos que pouco ou nada têm, nem para pagar as taxas moderadoras nos hospitais. Esta é uma realidade que não vem nos seus livros. Desconhece-a. Não sabe nem da vida a metade.

Escreva. Escreva a metro. Escreva para encher prateleiras. Escreva para quem goste de a ler. Mas não cague sentenças nem arrote postas de pescada. Isso deve emagrecer e a rica já é fuinha que baste, não se deixe definhar. E, acima de tudo, deixe protestar quem quer protestar. A isso, chama-se liberdade. Se não sabe o que é, vá ao dicionário. Vá pelas passerelles do possidónio jet set lusitano, vá às vernissages dos criadores seus amigos, aos cocktails dos ricos e famosos, aos concertos na Gulbenkian para alardear cultura e joie de vivre.

Vá para aquela parte. Para isso, deve ter arte.

no tempo dos salafrários

Os juízes do Tribunal Constitucional hão-de ser de forte têmpera para conseguiram suportar todas as pressões a que têm sido sujeitos. Desde a Comissão Europeia às agências de rating e ao descabelado desgoverno da Pátria, apátridas sem lei nem grei, todos exercem chantagem sobre as criaturas de toga com o mais desavergonhado dos descaramentos. E, last but not least, há a chantagem sobre os portugueses, todos: ou nós ou o caos, ou nós ou a hecatombe. Passos Coelho tem sido useiro e vezeiro nessa prática, olhem que os mercados estão de olhos postos em nós, eles não confiam no PS, muito menos no PCP ou no BE, vejam se se portam bem, se não fazem ondas nem votam nessa maralha, quando não os nossos credores sobem-nos os juros e, depois, lá terei que vir eu, o salvador da Pátria, o iluminado da Nação, cortar-vos os salários e as pensões, subir-vos os impostos, acabar-vos com a mama da saúde e da educação tendencialmente gratuitas. Ou têm cuidado ou, já sabem, levam no costado.

Ontem, foi a vez do gestor cervejeiro feito ministro da Economia desta República em fim de vida. Disse a criatura que "o maior adversário da retoma económica é a crispação política". 

Por outras palavras, quedemo-nos em sossego, mansos como cordeiros, pelos nossos redis caseiros. Aceitemos o roubo, a humilhação, o vilipêndio constante como fatalidades do destino, castigos divinos. Porque, afinal de contas, fomos nós que andámos a gastar demais, acima das nossas parcas possibilidades.

Por mim falo que, desde há muitos anos, sou dono de meia-dúzia de PPPs, fujo com o pilim para o estrangeiro, vivo à grande e à alemã. Ainda ontem, perdi a cabeça: comprei uns enfeites manhosos numa quitanda chinesa. É que as crianças, ao menos essas, merecem um Natal feliz. Sem salafrários a assombrar-lhes a existência.

não deixem que vos roubem os sonhos

Gérard Castello-Lopes
Por Baptista-Bastos

Poucas circunstâncias fazem prever o que nos pode acontecer. No entanto, há sinais, porventura escassos e pouco nítidos, que ajudam quem estiver atento. Sei umas coisas destas coisas, e aprendi que não há nada que se consiga sem luta, e que não há luta sem sofrimento. Venho dos bairros pobres e do tempo em que os miúdos como eu jogavam à bola descalços, ou com umas sandálias que os nossos pais mandavam capear com restos de pneus. Os pés feriam-se com pedaços de vidros de garrafa, com puas ou com pregos enferrujados; as sandálias tinham de durar pelo menos dois anos. Havia apenas magras formas de enfrentar o destino: resistir ou abdicar dos sonhos. Resistir seria tentar aprender com leituras nas bibliotecas operárias ou escolares; abdicar era seguir o fadário das oficinas, das fábricas, do trabalho penoso de oito, dez e mais horas, ou entrar na gandulagem: roubar, assaltar, agredir para sobreviver.

Recordo-me de o meu pai a avisar: não permitas que te roubem os sonhos. Quis ser toureiro, pugilista, aviador. No fundo desejava fugir da tristeza viscosa daquela miséria. Dei nisto: num curador de frases, num cuidador de palavras que serão sempre as dos outros. O meu pai morreu à minha espera, assim como a minha avó, conhecida pela Palhaça. Um dia destes hei-de contar a história destas esperas, que contêm algo de sobressaltante e de misterioso. Um dia destes. Os meus filhos sabem--nas. Os meus netos têm de as conhecer.

O Velho Bastos era tipógrafo, construtor de jornais, levemente anarquista, grande jogador de póquer e de burro americano. Amava o ofício, com a paixão de quem não sabe fazer outra coisa. Na oficina do Diário Popular colocava um rolo de papel atado no abdómen, para não sujar as calças de tinta, e transformava os caracteres tipográficos em qualquer coisa de grandioso. Suava em bica e era um homem feliz, porque sabia a importância gloriosa do seu trabalho. Aos sábados ia com os seus camaradas beber e petiscar nas tabernas da Mouraria, onde o vinho procedia directamente do lavrador. Numa dessas tabernas, um papagaio gritava: já pagaste, sacana?, quando os clientes saíam.

Poucos conseguiram escapar àquele crisol de infortúnio. Que foi feito do Descasca Milho? E do Asdrúbal, cujo nome tínhamos dificuldade em soletrar? E do enfermeiro Baltazar que tratava das doenças venéreas que contraímos nos bordéis de Alcântara, do Bairro Alto e do Benformoso? Já foram, adiantando-se? O tempo revoluteia, e nada, ou quase nada é o que foi. A não ser a fome, o desespero, a desventura de viver que regressaram, num tumulto inclemente e perseverante. Reconheço que sou um senhor caturra, um pouco chato e invadido por múltiplas incertezas. Mas não deixo, não posso deixar de repetir as recomendações do Velho Bastos: não permitam que vos roubem os sonhos. Podem roubar-vos tudo. Os sonhos é que não.

ah, valentes! (pacheco pereira outra vez e não, não me digam que estou a ficar social-democrata)

http://michaelkutsche.com/
Por Pacheco Pereira

Caladinhos com Angola, caladinhos com a troika, confortáveis no "protectorado", eis que nosso bravo governo exprime um "forte sentimento de revolta" "total repúdio" pela "triste figura" do presidente da FIFA, Joseph Blatter, nas declarações sobre o futebolista Cristiano Ronaldo... Onde nós chegamos.

o desprezo pelos manifestantes do PCP (dou a palavra, com uma vénia, a josé pacheco pereira)

Por Pacheco Pereira

Uma coisa que mostra como quem está do lado do poder não percebe (ou melhor não quer perceber), o que está a acontecer em Portugal, é o modo como exibem um racismo social com os manifestantes da CGTP, tão patente nos comentários à saga da ponte. Pode não ser deliberado, mas sai-lhes do fundo, naturalmente. Os filhos dos comentadores e opinadores podem ir às manifestações dos “indignados”, que são aceitáveis, engraçadas e chiques, e que tem muita cultura e imaginação, mas nenhum irá às da CGTP. Eles “são sempre o mesmo”, ou “mais do mesmo”, eles são “pouco criativos” que insistem em fazer manifestações “que não adiantam nada”. Eles são “os feios, os porcos e os maus”. 

Os manifestantes da CGTP não são da classe social certa, não ambicionam ir tomar chá com Ricardo Salgado, ou ir comer aos restaurantes da moda, não são frequentáveis e, ainda pior, não se deixam frequentar. Têm, muitos deles, uma vida inteira de trabalho e de muitas dificuldades. Tem um curso, uma pós-graduação e um doutoramento em dificuldades. São velhos, um anátema nos nossos dias. Tiveram ou tem profissões sobre as quais os jornalistas da capital não sabem nada, foram corticeiros, mineiros, soldadores, torneiros, mecânicos, condutores de máquinas, pedreiros, ensacadores, motoristas, afinadores, estivadores, marinheiros, operários têxteis, ourives, estofadores, cortadores de carnes, empregados de mesa, auxiliares educativos, empregadas de limpeza, etc., etc. Foram e são cozinheiros e cozinheiras em cantinas, e nãochefs. E foram ou são, professores, funcionários públicos, enfermeiros, contabilistas. 

Este desprezo social é chocante quando é feito por quem tem acesso ao espaço público e que trata os portugueses que se manifestam, - e, seja por que critério, são muitos, pelo menos muitos mais, muitíssimos mais dos que estariam dispostos a vir para rua pelo governo, – como uma “massa de manobra” do PCP, que merece uma espécie de enjoo distanciado, umas ironias de mau gosto e um gueto intelectual. Façam vocês o que fizerem, “não contam”. Vocês são umas centenas de milhares, vocês são “activistas” e por isso se vêem muito (quem não se vê nada são os do “outro lado”), mas “não contam” para nada. Existirem ou desaparecerem é a mesma coisa, nenhum dos “de cima” se pode ou deve preocupar convosco. Votam em partidos anacrónicos, têm hábitos plebeus, vão fazer campismo de férias, fazem excursões organizadas pelas autarquias, jogam a sueca, as mulheres passam-se pelo Tony Carreira e todos acham que tem direitos. Vejam lá, imaginem lá o abuso, acham que tem direitos… Eles são os maus portugueses, os que estão de fora do “arco governativo”, os que não percebem o "estado de emergência financeira", aqueles cujos "interesses" bloqueiam o nosso radioso empreendedorismo.

Tudo isso é verdade, e tudo isso é mentira. Estes portugueses fora de moda e fora das modas, pelo menos tem o enorme mérito de sentirem um agudo sentimento de injustiça, eles que sabem mais da vida real, concreta, vivida do que todos os seus críticos juntos. Não é a eles que se pode dar lições de trabalho, nem de esbanjamento, nem de perseverança, nem de sacrifício. Pode-se discordar deles, mas merecem respeito. Pelo que foram, pelo que são e porque não se ficam.