26/01/13

isto podia ter sido um lugar decente

Por Miguel Vale de Almeida
http://wp.miguelvaledealmeida.net

Costumo dizer: este país tinha todas as condições para ser um lugar decente. Vejamos. Graças ao 25 de abril conseguimos coisas preciosas: voltar às fronteiras do país pequeno, sem o peso iníquo das colónias; recuperar a democracia; entrar no projeto europeu. Ficámos neste retângulo e ilhas, de fronteiras estáveis há muito tempo e um certo tipo de homogeneidade que é aquela que conta – a noção descansada de estar num sítio que não precisa de se afirmar constantemente. (A outra homogeneidade, a “étnica” ou linguística, pouco me interessa). Dez milhões de pessoas não é nada. É fácil de administrar. Ora, com dez milhões, um território pequeno, democracia, e o apoio europeu, o que costumo dizer é isto: não há desculpa para não ter feito disto um sítio mais decente.

O que é um sítio decente? Bem, um sítio onde reina a transparência democrática; onde reina o princípio da igualdade de oportunidades; onde se constrói e sustenta um estado social baseado na solidariedade; e onde se incentiva a liberdade e a criatividade nas e das pessoas. Convém dizer que avançámos muito nesse sentido: na qualidade de vida, na paz e democracia, na saúde, na qualificação das pessoas, na energia, na criação de nichos económicos virados para fora e para a criação de valor acrescentado. Temos mais recursos do que pensamos e mesmo aqueles que podem parecer desinteressantes, como o turismo, podem ser criativa e qualitativamente utilizados de outras formas. Quando alguém falava de Portugal como a possível West Coast da Europa até que nem estava a dizer disparate nenhum. Estava cá quase tudo para isso e o que faltava – por exemplo a aposta na ciência , na educação, na cultura – estava a ser feito, e basicamente bem.

Tivemos o vislumbre disto em alguns momentos, com alguns governos e, sobretudo, com a ação de algumas pessoas, empresas, universidades, meios, forças, movimentos. Em contracorrente disto tivemos sempre as forças da… reação. (Que outra expressão usar, sim, que outra?). As forças da canibalização do estado pelos interesses privados, do sistema da cunha e do compadrio, da drive do dinheiro fácil e não produtivo, do desprezo absoluto pelas desigualdades sociais, essas travaram a possibilidade que tínhamos. E essas forças podem ser designadas como “cavaquistas”, o universo da betoneira empreiteira, do diploma fácil, da especulação financeira, da trapaça. Forças que contaminaram também vastos sectores do PS, infelizmente.

[Um capanga da JSD dirige-se um dia a uma professora universitária e pergunta-lhe como teve ela o descaramento de lhe dar uma má nota naquela "porcaria de cadeira". O mesmo capanga inepto faz a sua carreira oportunista no partido e nos governos. Pavoneia-se alcoolizado, inchado e prematuramente envelhecido no Parlamento, onde diz alarvidades. É um infeliz, mas um infeliz enriquecido sem trabalho nem mérito. É o infeliz que ganhou]

E infelizmente a reação ganhou. Não lhe interessa a educação, o conhecimento, o ambiente, a solidariedade como criadores da decência que depois permite o crescimento económico enquanto preocupação política global e não mera acumulação estéril por alguns. A contracorrente ganhou e está feliz no seu novo projeto global, onde mistura narrativas grandiosas sobre a História nacional e a língua com os negócios com as novas oligarquias das ex-colónias. Está-se igualmente nas tintas para a Europa, para a participação ativa e crítica na renovação, bem precisa, do projeto europeu. Apenas apanha a boleia do pior que os piores setores europeus exigem: o plano da troika, exacerbado pelos executores nacionais, mais papistas que o papa, mais reacionários que a reação.

Esfrangalharam a hipótese de um local decente para 10 milhões de pessoas e para todos e todas que cá quisessem viver e contribuir com ideias, trabalho, crianças, vida. Nós sonhávamos com a West Coast, eles com um Katrina sobre New Orleans. Ganharam. They’re feasting on our souls.

Fotografia: http://photography.nationalgeographic.com

gente fina

Por Fernanda Mestrinho
http://www.ionline.pt

José Luís Arnault passou o ano em Copacabana com Dias Loureiro e Miguel Relvas. Regressado a terras lusas, senta-se numa televisão, com sobranceria e enfado, para dizer que “os portugueses viveram acima das suas possibilidades”.

Ainda não recomposta, eis que Arnault acha que a conferência de Carlos Moedas devia ser à porta fechada para evitar a “chicana” e elevar o “nível intelectual” do debate. Arnault deve achar, pois, que o povo merece castigo e é ignorante… uma “choldra”.

Tudo se deve resolver “en petit comité” e nos corredores do poder, entre eles. Imagino o seu sofrimento quando foi secretário-geral do PSD e teve de aturar as distritais e as concelhias. Dias Loureiro e Relvas também foram.

Os ministros são criticados, às vezes maltratados. Pior é a “corte” à volta da manjedoura do poder. Almoços, pareceres, férias, privatizações, casamentos, nomeações. Vivem do Estado e dos grandes grupos económicos, em viagens de ida e volta. Vivem do rendimento – máximo. Nos últimos anos, e com a crise, esta gente fina perdeu a impunidade, até porque dantes eram menos e mais recatados. A justiça vai debicando, de vez em quando nesta “sociedá” (como dizia “Gabriela”). Faz que anda mas não mexe.

Com quem eu gostaria de ter passado o ano? Obama, Spielberg, etc., não fazia a coisa por menos. Mas tenho uma regra de ouro: não gosto de trabalhar na passagem do ano.

Fotografia: António Cotrim/Lusa

portugal volta aos mercados

25/01/13

miguel relvas visto e ouvisto e, se teve equivalências, não foi a português

coelho escondido com salazar de fora

Hoje, quando entrei na sala, dei de caras com a fronha do roedor na pantalha e, palavra de honra, assustei-me: agora que vai ficando sem cabelo e perdendo o ar de galã de Massamá, está cada vez mais parecido com Salazar. Mas, pelos vistos, não são só as feições de um e de outro que se assemelham. O aluno bebe as palavras do mestre, segue os passos do mestre, lê obras do mestre e sobre o mestre. Ambiciona copiar o mestre, obrar como o mestre.

Depois não digam que não avisei.


24/01/13

aleluia! aleluia! estamos de volta aos mercados!

Imagem: http://wehavekaosinthegarden.blogspot.pt/

portugal regressa aos mercados com carniça boa e barata


Ufanai-vos, senhores! Portugal está, para honra e glória de uns Passos e Gaspares quaisquer, de volta aos mercados com, qual supermercado de subúrbio, carne da mais alta qualidade aos mais baixos preços. Passámos a exportar médicos, enfermeiros, investigadores, engenheiros, arquitectos. E, no plano interno, a coisa também não está mal, as rezes humanas estão a perder valor a olhos vistos, para gáudio de empresários estrangeiros que, agora sim, em vez de implantarem as suas fábricas na China, o podem fazer por cá, fica mais perto e, diga-se de passagem, somos menos imprevisíveis do que os chineses. Tudo está bem quando acaba bem. Portugueses há que vêem partir os seus filhos ou não lhes podem dar futuro algum, que os tiram da escola ou não lhes podem dar de comer. Portugueses há que perdem o emprego e a casa, a esperança e até a vida. Danos colaterais apenas de uma guerra onde os mercados ficaram a ganhar e para onde regressámos com toda a pompa e propaganda. Passos é bom aluno. Gaspar é bom aluno. E Portas, não se esqueçam do Portas, é bom aluno. Passaram no exame. O chumbo, levamos nós com ele. E a caça ainda não acabou, o melhor está para vir.

Por aqui segue, em vídeo, uma singela homenagem aos nossos carniceiros:

Fotografia: http://www.123rf.com

23/01/13

o que lá vai, lá vai

1890

Cais de Gaia.

1891

Venda de perus pelo Natal, em pleno Rossio.






1904

Primeiro automóvel a circular na Madeira.

1906

Rei D. Carlos.

1907

Equipa de reportagem do jornal "O Século".

1909

Av. António Augusto de Aguiar, Lisboa.

1910

Cais de Gaia, carregamento de vinho do Porto.

1910

Descarrilamento de eléctrico na Rua da Misericórdia.

1910

Teatro de marionetas.


1912

ambrósio

Por Paulo Morais
http://www.cmjornal.xl.pt

O sistema de Justiça absolveu Valentim Loureiro no caso da quinta do Ambrósio. Mesmo com provas evidentes, os tribunais não conseguem, mais uma vez, apanhar os poderosos.

Na Câmara de Gondomar, com a participação ou patrocínio de Valentim Loureiro, um terreno agrícola é adquirido por um milhão de euros. A classificação do solo é alterada e em seis dias o terreno é vendido pelos protegidos de Valentim por cerca de quatro milhões. Esta operação de tráfico de terrenos, caucionada pela câmara, gerou uma margem de lucro de 300 por cento.

Mas as vigarices não ficam por aqui. O terreno é adquirido a um preço exorbitante por uma empresa pública, a STCP, cujo presidente de então dependia organicamente de... Valentim Loureiro. Na posse do terreno, a STCP deixou-o ao abandono. Até hoje.

Chegado o caso a tribunal e ao fim de um longo processo com mais de dez anos (!), Valentim é absolvido.

Na leitura da sentença, o juiz veio declarar que a Câmara de Gondomar funciona como uma agência de intermediação imobiliária.

Mas não tira daí qualquer consequência. As razões da absolvição não se percebem. Mas serão uma de três: ou o crime julgado não foi bem identificado ou definido, o que será inadmissível; ou a acusação foi mal conduzida e estamos perante uma enorme incompetência do Ministério Público; ou o julgamento foi condicionado pela política.

Em suma: os amigos de Valentim compraram um terreno que Valentim, na câmara, valorizou; os amigos venderam a uma empresa pública gerida por outros amigos de Valentim e a um preço influenciado por este. Os amigalhaços ficaram milionários. "Foi sorte", diz ele. Sorte deles e azar nosso, dos contribuintes que pagamos esta fraude com o dinheiro dos nossos impostos.

Este caso tornou-se emblemático. Incorpora todos os ingredientes: autarcas, familiares destes, advogados ardilosos, fuga ao Fisco, empresas públicas mal geridas, urbanismo nada sério, tribunais incompetentes.

Perante esta política nauseabunda, Ambrósio, apetecia-me algo. Tomei a liberdade de pensar nisso. Talvez uma revolução.

Imagem: http://wehavekaosinthegarden.blogspot.pt

pontes de lisboa



aldeias de lisboa





este mundo não é para velhos

O ministro das Finanças do novo governo japonês é, valha a verdade, mais transparente do que o nosso Gaspar. Disse ele que os idosos doentes devem "morrer rapidamente", para aliviar o Estado do pagamento de cuidados médicos. Vem aí a velhanásia, a eutanásia dos que já não merecem viver. Mandêmo-los para o outro mundo, que este não é para velhos.

A notícia completa:
http://www.jornaldenegocios.pt/economia/Detalhe/ministro_japones_afirma_que_doentes_idosos_devem_morrer_para_poupar_o_estado.html

Imagem: http://www.visualphotos.com/

simplex i sem qompliqasõex, ixtu até satixfax aqeles xatux purixtax da língua qe goxtaum tantu de arqaíxmux

Nem sei quem foi o autor, corre agora na net, mas quero dar-lhe os parabéns e replicá-lo por aqui, com a devida vénia:

Tem-se falado muito do Acordo Ortográfico e da necessidade de a língua evoluir no sentido da simplificação, eliminando letras desnecessárias e acompanhando a forma como as pessoas realmente falam.

Sempre combati o dito Acordo mas, pensando bem, até começo a pensar que este peca por defeito. Acho que toda a escrita deveria ser repensada, tornando-a mais moderna, mais simples, mais fácil de aprender pelos estrangeiros.

Comecemos pelas consoantes mudas: deviam ser todas eliminadas . É um fato que não se pronunciam. Se não se pronunciam, porque ão-de escrever-se? O que estão lá a fazer? Aliás, o qe estão lá a fazer? Defendo qe todas as letras qe não se pronunciam devem ser, pura e simplesmente, eliminadas da escrita já qe não existem na oralidade.

Outra complicação decorre da leitura igual qe se faz de letras diferentes e das leituras diferentes qe pode ter a mesma letra. Porqe é qe "assunção" se escreve com "ç" "ascensão" se escreve com "s"? Seria muito mais fácil para as nossas crianças atribuír um som único a cada letra até porqe, quando aprendem o alfabeto, lhes atribuem um único nome.

Além disso, os teclados portugueses deixariam de ser diferentes se eliminássemos liminarmente o "ç". Por isso, proponho qe o próximo acordo ortográfico elimine o "ç" e o substitua por um simples "s" o qual passaria a ter um único som. Como consequência, também os "ss" deixariam de ser nesesários já qe um "s" se pasará a ler sempre e apenas "s".

Esta é uma enorme simplificasão com amplas consequências económicas, designadamente ao nível da redusão do número de carateres a uzar. Claro, "uzar", é isso mesmo, se o "s" pasar a ter sempre o som de "s" o som "z" pasará a ser sempre reprezentado por um "z". Simples não é? Se o som é "s", escreve-se sempre com s. Se o som é "z" escreve-se sempre com "z". 

Quanto ao "c" (que se diz "cê" mas qe, na maior parte dos casos, tem valor de "q") pode, com vantagem, ser substituído pelo "q". Sou patriota e defendo a língua portugueza, não qonqordo qom a introdusão de letras estrangeiras. Nada de "k" .Ponha um q.

Não pensem qe me esqesi do som "ch" . O som "ch" será reprezentado pela letra "x". Alguém dix "csix" para dezinar o "x"? Ninguém, pois não? O "x" xama-se "xis". Poix é iso mexmo qe fiqa .

Qomo podem ver, já eliminámox o "c", o "h", o "p" e o "u" inúteix, a tripla leitura da letra "s" e também a tripla leitura da letra "x". Reparem qomo, gradualmente, a exqrita se torna menox eqívoca, maix fluida, maix qursiva, maix expontânea, maix simplex. Não, não leiam "simpléqs", leiam simplex.

O som "qs" pasa a ser exqrito "qs" u qe é muito maix qonforme à leitura natural. No entanto, ax mudansax na ortografia podem ainda ir maix longe, melhorar qonsideravelmente. Vejamox o qaso do som "j". Umax vezex excrevemox exte som qom "j" outrax vezex qom "g"- ixtu é lójiqu? Para qê qomplicar?!? Se uzarmox sempre o "j" para o som "j" não presizamox do "u" a segir à letra "g" poix exta terá, sempre, o som "g" e nunqa o som "j". Serto ? Maix uma letra mud a qe eliminamox .

É impresionante a quantidade de ambivalênsiax e de letras inuteix qe a língua portugesa tem! Uma língua qe tem pretensõex a ser a qinta língua maix falada do planeta, qomo pode impôr-se qom tantax qompliqasõex ?

Qomo pode expalhar-se pelo mundo, qomo póde tornar-se realmente impurtante se não aqompanha a evolusão natural da oralidade?

Outro problema é o dox asentox. Ox asentox só qompliqam! Se qada vogal tiver sempre o mexmo som, ox asentox tornam-se dexnesesáriox. A qextão a qoloqar é: á alternativa? Se não ouver alternativa, pasiênsia. É o qazo da letra "a". Umax vezex lê-se "á", aberto, outrax vezex lê-se "â", fexado. Nada a fazer. Max, em outrox qazos, á alternativax. Vejamox o "o": umax vezex lê-se "ó", outrax lê-se "u" e outrax, lê-se "ô". Seria tão maix fásil se aqabásemox qom isso! qe é qe temux o "u"? Se u som "u" pasar a ser sempre reprezentado pela letra "u" fiqa tudo tão maix fásil ! Pur seu lado, u "o" pasa a suar sempre "ó", tornandu até dexnesesáriu u asentu.

Já nu qazu da letra "e", também pudemux fazer alguma qoiza : quandu soa "é", abertu, pudemux usar u "e". U mexmu para u som "ê". Max quandu u "e" se lê "i", deverá ser subxtituídu pelu "i". I naqelex qazux em qe u "e" se lê "â" deve ser subxtituidu pelu "a". Sempre. Simplex i sem qompliqasõex. Pudemux ainda melhurar maix alguma qoiza: eliminamux u "til" subxtituindu, nus ditongux, "ão" pur "aum", "ães" - ou melhor "ãix" - pur "ainx" i "õix" pur "oinx". 

Ixtu até satixfax aqeles xatux purixtax da língua qe goxtaum tantu de arqaíxmux. Pensu qe ainda puderiamux prupor maix algumax melhuriax max parese-me qe exte breve ezersísiu já e sufisiente para todux perseberem qomu a simplifiqasaum i a aprosimasaum da ortografia à oralidade so pode trazer vantajainx qompetitivax para a língua purtugeza i para a sua aixpansaum nu mundu .

Será qe algum dia xegaremux a exta perfaisaum ?... I porqe naum?...

E, se teve a paciência de ler isto até ao fim, de certeza que também a vai ter para assinar a carta ao Crato, contra o acordo ortográfico, que pode encontrar aqui:
https://www.facebook.com/events/245646798901343/
Ou aqui:
https://docs.google.com/spreadsheet/viewform?formkey=dG13TnlWRk10UXd0cDJvZTViS0picWc6MQ#gid=0

Imagem: http://www.stephankinsella.com

21/01/13

enganados e mal pagos

meninos dos olhos tristes








não passarão!

O fascismo, mascarado ou não, está de regresso. Um pouco por todo o mundo, começa a luta contra a Aurora Dourada e em solidariedade para com o povo grego. É tempo de ressuscitar velhas palavras de ordem que julgávamos nunca mais vir a precisar. Como esta: não passarão!

Paris

 Atenas

 Chicago





Colónia

Copenhaga

Dublin

Londres

 Leipzig

Montreal

Todas as fotografias recolhidas em:
https://www.facebook.com/internationalriot

afagar o instrumento diante do presidente e da primeira dama da nossa circunspecta nação

quando as imagens valem tanto como mil palavrões

Os últimos bonecos de http://wehavekaosinthegarden.wordpress.com/. Para que os alienados, os adormecidos, os indiferentes, acordem de vez e não deixem para amanhã o que tem de ser feito hoje: derrubar Passos e não eleger Seguro para o seu lugar, para fazer o mesmo entre lágrimas, suspiros, actos de contrição e, o mais provável, alianças com a direita que agora tanto "parecem" criticar. Não, mais não.





perigosa futilidade

Por Gabriel Leite Mota
http://p3.publico.pt

Vivemos tempos fúteis… Apesar de mergulhados numa crise financeira e económica profunda ainda se vive sob a égide do clima da futilidade que nos tem acompanhado desde o fim das grandes guerras.

Adam Smith já sabia, no séc. XVIII, que só do supérfluo as economias se podiam alimentar para sustentar crescimentos continuados, uma vez que as necessidades básicas e fundamentais dos seres humanos rapidamente se satisfazem. É do brilho das lantejoulas que a economia se alimenta…

Infelizmente não foi só a economia que se alimentou do fútil: também muitas pessoas encheram os seus cérebros com lixo superficial privando estes de produzir qualquer pensamento profundo. Com isso criou-se uma cultura do supérfluo onde o material e o instantâneo esmagam a reflexão, a profundidade, a crítica.

Muitas pessoas apenas se motivam para discutir futebol, crimes e escândalos mediáticos, ouvir música pimba, passar tardes inteiras nos centros comerciais, ver telenovelas e “reality shows” pela noite fora e ir beber para bares e discotecas ao som de músicas ensurdecedoras, ao mesmo tempo que não têm participação política e não fazem trabalho cívico ou comunitário…

Pensar e dizer que estas pessoas não são perigosas demonstra um profundo desconhecimento do mundo. É que a agressividade passiva destas pessoas tem uma força que não podemos desprezar…

Quando, por exemplo, Britney Spears (um paradigma da futilidade) vota G. W. Bush, ela está a colaborar com as guerras e mortes injustificáveis que o seu presidente desencadeou ao mesmo tempo que canta alegremente o quão tóxicos outros são e se enche de cocaína importada de uma qualquer Colômbia, patrocinando o sangue que esse pó branco originou… Pensar que alguém como Spears é inócua, não perigosa, porque se limita a ser fútil é de uma ingenuidade, ou ignorância, assustadora…

E as mentes pensantes bem nos avisam que a passividade, a ingenuidade ou a futilidade são perigosas: Pedro Abrunhosa canta que “o conformismo é sempre o poder de alguém” e Gonçalo M. Tavares nota que lhe “agrada mais uma pessoa que está atenta ao possível aparecimento da maldade e está disponível para a bondade do que uma pessoa que está completamente disponível para a bondade. Porque uma pessoa que está completamente disponível para a bondade deixa de ser uma sentinela, alguém que está de vigia…,…normalmente as pessoas mais ingénuas são perigosas no sentido em que, muitas vezes, não têm noção, precisamente, da prática da maldade, da sua própria prática. A pessoa ingénua é a pessoa que não vê a maldade nos outros e que não vê a maldade em si próprio, está a pisar a cabeça de alguém e não tem a noção que está a pisar a cabeça de alguém.”

As personagens fúteis das nossas vidas só alimentam este sistema que ainda preserva tantas iniquidades: das crianças que na China trabalham para as crianças das outras paragens brincarem ou para tantos de nós nos entretermos com os gadgets electrónicos ou com os acessórios de moda… As pessoas fúteis são as primeiras a nada fazer perante o mal e a deixarem-se enterrar na passividade do deixar passar dos tempos… Essa gente não nos protege do mal e nem nos ajuda a melhorar. Colaboracionistas, tão passivamente agressivos, que são tão perigosos como os que perpetram o mal…

O que precisamos é de pessoas activas, despertas, pensantes, críticas, que se opõem à maldade, que votam, que se organizam, que protestam, que criam novas soluções, que rejeitam o consumo desenfreado e o tele-lixo, que não se corrompem nem toleram os que se deixam corromper. Que se indignam com a pobreza, as guerras económicas, os fanatismos, os genocídios e que praticam a honestidade, o respeito, a ponderação e o civismo.

Enfim, precisamos de cidadãos activos com pensamento crítico que dêem à futilidade o seu devido espaço residual e não a deixem transformar-se no óleo dos motores do mundo mal ordenado…

uma onda de optimismo

Por Viriato Soromenho-Marques
http://www.dn.pt

Na visita de Merkel a Lisboa ficou no ar uma tese psicológica sobre a crise. A importância da atitude. Desde aí, dando mais uma vez mostras sobre quem é que manda na desarrumada casa europeia, tem havido uma corrida para saber quem se mostra mais optimista. Primeiro foi Hollande, logo a seguir Monti, depois Lagarde. Agora até parece que são os técnicos da OCDE a trocar as sóbrias técnicas de previsão pela consulta dos gurus da "New Age", vendo sinais de crescimento para Portugal, Grécia, Irlanda e Espanha, já em 2013. O que fica por explicar é como será isso possível numa Europa dominada por políticas de austeridade, e onde a locomotiva alemã perdeu mais de dois pontos percentuais em relação ao crescimento de 2011, vítima da contração dos mercados da periferia europeia e chinês? Para onde vai exportar Portugal, quando a Espanha recua nas suas importações? Onde é que estará a alavanca financeira da retoma quando a banca está paralisada a lamber as suas próprias feridas? Como é que se poderá crescer em países esmagados por níveis brutais e crescentes de desemprego (15%, na Irlanda, 16%, em Portugal, 25%, na Grécia, 26%, em Espanha)? Como é que irão reagir as pessoas, abandonadas pelos seus Estados, quando nem sobrarem migalhas para suportar o desemprego de longa duração, em sociedades devastadas pela "desvalorização interna"? Nada mudou de substancial na crise europeia. Numa metáfora bélica, passámos da guerra de movimento, quando os mercados pareciam estar prestes a varrer a Zona Euro, para uma guerra de atrito, onde os europeus vão continuar, lentamente, a destruir-se a si próprios. O que permanece é o défice de conhecimento e de ética pública da elite sem merecimento que nos arrasta neste pântano. Esta gente está otimista com o quê?