perigosa futilidade

Por Gabriel Leite Mota
http://p3.publico.pt

Vivemos tempos fúteis… Apesar de mergulhados numa crise financeira e económica profunda ainda se vive sob a égide do clima da futilidade que nos tem acompanhado desde o fim das grandes guerras.

Adam Smith já sabia, no séc. XVIII, que só do supérfluo as economias se podiam alimentar para sustentar crescimentos continuados, uma vez que as necessidades básicas e fundamentais dos seres humanos rapidamente se satisfazem. É do brilho das lantejoulas que a economia se alimenta…

Infelizmente não foi só a economia que se alimentou do fútil: também muitas pessoas encheram os seus cérebros com lixo superficial privando estes de produzir qualquer pensamento profundo. Com isso criou-se uma cultura do supérfluo onde o material e o instantâneo esmagam a reflexão, a profundidade, a crítica.

Muitas pessoas apenas se motivam para discutir futebol, crimes e escândalos mediáticos, ouvir música pimba, passar tardes inteiras nos centros comerciais, ver telenovelas e “reality shows” pela noite fora e ir beber para bares e discotecas ao som de músicas ensurdecedoras, ao mesmo tempo que não têm participação política e não fazem trabalho cívico ou comunitário…

Pensar e dizer que estas pessoas não são perigosas demonstra um profundo desconhecimento do mundo. É que a agressividade passiva destas pessoas tem uma força que não podemos desprezar…

Quando, por exemplo, Britney Spears (um paradigma da futilidade) vota G. W. Bush, ela está a colaborar com as guerras e mortes injustificáveis que o seu presidente desencadeou ao mesmo tempo que canta alegremente o quão tóxicos outros são e se enche de cocaína importada de uma qualquer Colômbia, patrocinando o sangue que esse pó branco originou… Pensar que alguém como Spears é inócua, não perigosa, porque se limita a ser fútil é de uma ingenuidade, ou ignorância, assustadora…

E as mentes pensantes bem nos avisam que a passividade, a ingenuidade ou a futilidade são perigosas: Pedro Abrunhosa canta que “o conformismo é sempre o poder de alguém” e Gonçalo M. Tavares nota que lhe “agrada mais uma pessoa que está atenta ao possível aparecimento da maldade e está disponível para a bondade do que uma pessoa que está completamente disponível para a bondade. Porque uma pessoa que está completamente disponível para a bondade deixa de ser uma sentinela, alguém que está de vigia…,…normalmente as pessoas mais ingénuas são perigosas no sentido em que, muitas vezes, não têm noção, precisamente, da prática da maldade, da sua própria prática. A pessoa ingénua é a pessoa que não vê a maldade nos outros e que não vê a maldade em si próprio, está a pisar a cabeça de alguém e não tem a noção que está a pisar a cabeça de alguém.”

As personagens fúteis das nossas vidas só alimentam este sistema que ainda preserva tantas iniquidades: das crianças que na China trabalham para as crianças das outras paragens brincarem ou para tantos de nós nos entretermos com os gadgets electrónicos ou com os acessórios de moda… As pessoas fúteis são as primeiras a nada fazer perante o mal e a deixarem-se enterrar na passividade do deixar passar dos tempos… Essa gente não nos protege do mal e nem nos ajuda a melhorar. Colaboracionistas, tão passivamente agressivos, que são tão perigosos como os que perpetram o mal…

O que precisamos é de pessoas activas, despertas, pensantes, críticas, que se opõem à maldade, que votam, que se organizam, que protestam, que criam novas soluções, que rejeitam o consumo desenfreado e o tele-lixo, que não se corrompem nem toleram os que se deixam corromper. Que se indignam com a pobreza, as guerras económicas, os fanatismos, os genocídios e que praticam a honestidade, o respeito, a ponderação e o civismo.

Enfim, precisamos de cidadãos activos com pensamento crítico que dêem à futilidade o seu devido espaço residual e não a deixem transformar-se no óleo dos motores do mundo mal ordenado…

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