01/02/14

papa pop

http://henricartoon.blogs.sapo.pt/

que é feito da inteligência portuguesa?


Por Baptista-Bastos
http://www.jornaldenegocios.pt

A política ausentou-se da vida portuguesa. Não é de agora; mas, agora, o caso acentuou-se. A culpa não é, somente, deste Governo exaurido de tudo, até da grandeza da política como actividade superior. O PS não discute, não debate, não provoca, não contende. Mesmo o PCP já não acicata o grande debate de que Portugal carece. O CDS não é. E isto chega para definir um partido rémora, sempre alapado nos lombos de outro, até do PS!, e cuja expressão eleitoral não justifica a importância que se lhe concede. De "partido táxi" passou a ser um atributo para o equilíbrio do PSD e para o exercício do poder da Direita. A democracia possui estes aleijões insanáveis, para gozo e proveito das classes possidentes. Não há memória de ter contribuído para uma discussão, para um valor acrescentado, para um esclarecimento da vida portuguesa. É tão cristão-democrata, como o PS é socialista e o PSD social-democrata. Creio, aliás, pela prática comum, que estas três agremiações são, com ligeiríssimas diferenças, neoliberais, segundo a corrente na moda.

Mas a verdade é que, na Europa, a querela que justifica, e até explica, o conflito, por natureza a essência da democracia desapareceu. Em França, onde Camus, Sartre, Merleau-Ponty, marcaram o pensamento europeu, deixou, por enquanto?, de haver nomes de referência que nos ajudavam a reflectir e a questionar o nosso tempo. A Itália de Cesare Pavese, Elio Vittorini, Alberto Morávia, Benedetto Croce, Palmiro Togliatti, secretário-geral do PCI (que chegou a polemicar com Vittorini, na revista "Il Politécnico", de que possuo alguns números), deixou de existir; deu lugar a Berlusconi e a uma trupe de "sevandijas intelectuais", para usar a expressão de Antonio Tabucchi.

A Europa culta cedeu lugar a um grupo de nefelibatas que trazem o "Financial Times" debaixo do braço, como expressão cultural maior. Quem governa pertence a uma corporação de "gestores" propensa aos negócios e pouco dada aos fascínios da leitura. Seria curioso fazer-se um inquérito sobre os hábitos de leitura dessa gente, que parece enraizada nos jogos malabares dos números, que pouco mais significam do que isso mesmo: números.

A era do vazio atingiu o seu máximo esplendor. A vacuidade e a frivolidade campeiam. Os jornais perderam a tradicional capacidade de fazer reflectir, e a modinha da "distanciação" afugentou leitores e transformou jornalistas em gravadores ambulantes. Os jornais perdem acentuadamente leitores, e as revistas cor-de-rosa aumentam as tiragens. Os grandes problemas nacionais não nos são explicados, e tudo é feito superficialmente. Um exemplo: a abertura do ano judicial. As televisões limitaram-se a transmitir, numa onda de preguiça que tem feito lei, os discursos monótonos e chatos dos que falam sempre, entre os quais o dilacerante texto do dr. Cavaco. Parece que estamos num mundo de irrealidades absolutas, no qual os verdadeiros assuntos nacionais (como o da Justiça) são tratados a polé.

Por outro lado, a ausência da cultura portuguesa nos debates que ela própria devia suscitar e incrementar, atingiu, já, o território da demissão moral. Repito o que já escrevi nesta coluna: apenas o filósofo José Gil faz ouvir a sua voz indignada e veemente. E, mesmo essa voz, é espaçada, quando devia constituir uma advertência permanente, por avisada e informada que é.

Há quem aceite esta paz podre e pobre. Pensar é perigoso e, habitualmente, interpela e põe em risco os poderosos e a sua ideologia. A frivolidade e o riso mais alvar tomaram conta das televisões, e alguns dos programas, quase todos, deste jaez e estilo, são verdadeiros atentados à inteligência comum. Não pelo riso que condena e critica; sim pela galhofa que encobre e se torna cúmplice. A sociedade portuguesa precisa de um sacolejão valente que a desperta desta trágica letargia. Estamos todos anestesiados? Não o creio.

31/01/14

hollande tem outro amor

Hollande soma e segue e à terceira não foi de vez. Está na quarta amásia, esta mais madura, mais rubicunda, mais autoritária, mas Deus sabe como Hollande, o titubeante Hollande, ainda que atiradiço, precisa de quem mande nele, lhe arrume a casa, lhe trate das Finanças, lhe faça aumentar não aquilo em que está a pensar, mas sim a fé dos franceses neste Seguro do Eliseu, este pau-mandado da mandona alemã, esta esperança defraudada numa Europa sem botas cardadas nem "reichs" recauchutados. O Chiquinho e o Tozé estão bem um para o outro, deviam juntar os trapinhos. Mas o Chiquinho prefere a Merkel e, se calhar, o Tozé também. Que belo "ménage", que galheteiro, que troika badalhoca, que triunvirato de treta, que trio desafinado neste coro de escravos em que se transformou o Velho Mundo. A Hollande o que é de Hollande: um lugar no Bundestag. A limpar as retretes onde Merkel vomita ordens e defeca ódios aos judeus do Sul. Franceses incluídos.

uma cloaca a feder


Já todos demos por isso: Portugal está uma cloaca, um caneiro por onde correm, pujantes e nauseabundas, as águas podres da corrupção, da extorsão, da má governança em nome e em prol de uma classe de parasitas, alguns muito ricos, outros pobres de espírito. Coelho, o empresário tardio, governa Portugal como se fosse uma empresa em vias de falência, daquelas onde se aliena património por um punhado de dólares, se desmantelam sectores, se despede pessoal, mas onde a ganhunça  dos accionistas e gestores é cada vez maior, pataca aqui, pataca ali, lá vão fazendo pela vidinha porque a vida dos outros não vale um pataco.

Agora, disseram-no ontem com a pompa e a circunstância "transversal e recorrente" nestas coisas de Coelho, o empresário tardio, vão privatizar uma das empresas ligadas às Águas de Portugal. Nada de importante, dizem eles, apenas uma pequena parcela sem valor estratégico, juram a pés juntos a quem os quer ouvir e a quem já não os pode nem ouvir.

Não nos deixemos ludibriar, sejamos lúcidos ao menos uma vez na vida. Esta privatização não passa de uma espécie de teste à opinião pública. Se não levantar muita celeuma, se nos mantivermos calados como é nosso uso e costume, então o caminho está livre para a privatização total do sector. 

Não é Passos, o empresário tardio, quem mete água. Somos nós, com a nossa melancólica indolência. Que a rua se encha. Que as cloacas se esvaziem. A bem da saúde pública.

30/01/14

esquerda, to be or not to be

Por Daniel Oliveira
http://expresso.sapo.pt/

Se nada for feito a direita acabará, contra todas as previsões, por vencer as próximas eleições legislativas ou, mais provável, o PS governará com ela. Porquê? Porque o PS não tem que se preocupar com o seu flanco esquerdo, que se encarrega de se boicotar a si próprio. Pode continuar a desculpar-se com a impossibilidade de fazer alianças com aquele lado.

Que não haja confusão: acredito que, se depender apenas da vontade das suas direções, o PS está disposto a fazer, talvez com menos estardalhaço e dureza, o mesmo que este governo. E que a razão pela qual o fará não resulta apenas ou especialmente da falta de aliados à esquerda mas por ser para isso que o poder, o poder que conta, o empurra. Se não for por convicção, será por inércia. E a inércia é hoje o que sobra aos partidos socialistas e social-democratas da Europa.

É verdade que a cultura de cedência socialista não é propriamente nova. Ela teve, aliás, fortíssimas responsabilidades na desregulação financeira e na desastrosa arquitetura do euro e da atual União, dois factores fundamentais para explicar esta crise. Não eram todos iguais. Os socialistas lá iam distribuindo a riqueza de forma um pouco menos forreta. Só que agora, ao contrário do que acontecia no tempo das vacas gordas, para garantir os direitos dos de baixo será mesmo preciso aborrecer os de cima. E o que está a acontecer é, de forma pornográfica, o contrário. Não foi a direita que usou um décimo do que a Europa produz para salvar os bancos. Foi a direita e foi a esquerda. Não foi a direita que trouxe a troika e assinou um memorando que é um programa ideológico escrito por fanáticos. Foi a direita e foi a esquerda. Não foi a direita que aprovou um Tratado Orçamental que ilegaliza políticas keynesianas. Foi a direita e foi a esquerda. E este consenso na desgraça só terá um fim quando a extrema-direita puser em perigo as democracias europeias (risco que dispenso correr) ou quando a esquerda que não acompanha a "hollandização" dos socialistas os assustar a sério. Ou há uma força à esquerda dos socialistas capaz de os assustar - e capaz de assustar aqueles que vivem desta crise - ou estamos tramados. Seja porque seremos engolidos pela crise, seja porque os salvadores que vão surgir nos levarão para um inferno ainda pior.

A política trata do poder. E eu quero uma esquerda mais firme que chegue ao poder, sozinha se alguma vez isso for possível (o que não me parece) ou aliada aos socialistas (se tiver que ser). Não porque essa esquerda agrade às direções socialistas mas sim porque agrada ao eleitorado socialista e, desse modo, assusta as suas direções. Eu quero uma esquerda que a direção do PS tema, porque entra bem fundo na sua base de apoio. Não quero uma esquerda que permita ao PS esvaziar o que está à sua esquerda para poder governar com um amigo dócil. Não quero uma esquerda que o PS apadrinhe porque lhe anda a preparar uma bengala. Quero uma esquerda que obrigue o PS a governar à esquerda e com a esquerda, caso contrário pagará por isso. E a verdade, hoje, é esta: ao contrário do que julgam PCP e BE, ao PS saem de borla as viragens à direita. Porque nenhum eleitor do PS acredita que PCP e BE alguma vez queiram realmente governar. E faz muitíssimo bem em não acreditar. Só que é exatamente isso que a maioria dos eleitores quer saber: quem quer governar e para quê? Quem não quer, ou só o quer daqui a umas décadas, não conta. Serve apenas de escape do sistema. Tem a sua utilidade. Mas parece-me que precisamos de mais.

Quando e se chegar ao governo, o PS só travará as privatizações, só baterá o pé à troika, só mudará de posição em relação ao Tratado Orçamental, só quererá renegociar a dívida, só travará a destruição do Estado Social que ajudou a construir se tiver medo. Na realidade, tem mesmo de ter muito medo. E se mesmo com medo não resistir aos apetites de quem quer ficar com os despojos desta tragédia económica e social, que ao menos haja uma força credível, representativa, socialista, reformista e realista em relação à reduzida capacidade de regeneração da União Europeia, para lhe ser alternativa, caso aconteça o que está a acontecer aos socialistas gregos e franceses. Mas não haja confusões: em Portugal não haverá um Syriza. Mais depressa os portugueses saltam para a abstenção do que radicalizam o seu voto e o levam para as margens. O que faz falta é uma força política que ocupe o espaço ideológico que os socialistas estão a deixar vago. E não uma força política que compita com o espaço que o PCP já ocupa.

Tenho escrito muito sobre o suicídio dos partidos socialistas e social-democratas europeus. Mas não tem sido menos perturbante ver o suicídio dos que estão à sua esquerda, em Portugal. Não o PCP, que continuará a crescer, com a sua estratégia inteligente e sem percalços, para depois festejar vitórias, gritar que "assim vê a força do PC" e pendurar tudo na parede para não a estragar com o uso. O que perturba é a outra esquerda, que supostamente tinha outros objectivos (teria?). Teve recentemente a oportunidade de encontrar aliados e fazer parte duma coisa maior. Não quis aproveitar. Nos meandros e responsabilidades neste desfecho não entrarei, por lealdade com todos e por não me querer envolver em polémicas inúteis. Mas sei que acabou por ficar na cabeça das pessoas, ainda mais do que antes, a ideia de que "não há como esta gente se entender". É a repetição da cena de "A Vida de Brian", dos Monty Python, em que os membros da Frente do Povo da Judeia explicam a um novo militantes que, pior do que os romanos, só a Frente Judaica do Povo, a Frente Popular do Povo da Judeia e a Frente Popular da Judeia (esta apenas com um membro). Todos divisionistas, claro. Como disse Ana Drago, numa entrevista à SIC Notícias, isto há de parecer "uma conversa bizantina" para a maioria das pessoas.

Acho bem que toda a gente seja paciente. Que todos fiquem à espera para ver se, depois das próximas eleições europeias, alguém acorda. Mas se ninguém acordar parece-me que a postura que resta para quem quer construir uma alternativa política credível e representativa, à esquerda, terá de ser a de arregaçar as mangas e meter mãos à obra. Não dá para continuar a esperar que a esquerda vença os seus mais mesquinhos sectarismos, os seus ódios a hordas de traidores e proscritos, enquanto este país se afunda. Não dá para repetir tentativas falhadas de vencer esta cultura e que acabam em frustração e descrédito, motivo natural de chacota e piada. De uma coisa não tenho dúvidas: basta aparecer à esquerda uma força digna de algum respeito e credibilidade para que aconteça um terramoto político em Portugal. E quem não estiver disposto a ser apenas uma parte de uma coisa maior deixará provavelmente de ter existência política digna de nota.

o esteves fala melhor!

Assunção Esteves a debitar lugares-comuns num português, ela própria o diz, "abstracto". Ao lado da Esteves, que bem que fala o Esteves! E o Jesus também!



29/01/14

quem passos derrotou?

Por Baptista-Bastos
http://www.dn.pt/

Consta por aí, e eu propendo a acreditar, que o Dr. Pedro Passos Coelho foi reconduzido no lugar de presidente do PSD. O número de seus apoiantes é menor do que na votação anterior. Mesmo assim obteve 15 524 votos nos 17 662 mil votantes, num universo de 46 430 potenciais eleitores. Temos, pois, que mais de 15 mil militantes do PSD apoiam a política do Dr. Passos contra os velhos, os reformados, os pensionistas, os jovens, os desempregados, os estudantes, os funcionários públicos, os investigadores. Não se pode fugir a esta aritmética. Sendo a conclusão de que o PSD de Passos é mais, muito mais liberal do que "social-democrata", se, de facto, alguma vez o foi, no sentido adjudicado por Olof Palme ou Willy Brandt verbi gratia.

A vitória de Passos é a derrota de quem? Não, apenas, do grupo, aliás já numeroso que se lhe opõe. Quem foi vencido nos valores e nos padrões, e que padrões e valores defendem Passos e os seus? Temos de nos entender quanto ao significado das palavras, e, sobretudo, dos conceitos nela incluídos e que o poder no-lo tem escamoteado. Há uma identidade, e uma procura de outra, que se perdeu com a ascensão da insignificância e da coacção, consubstanciadas pela prática deste PSD. "Nada será como dantes", ameaçou o recém-reeleito presidente do partido. A escassa margem da sua vantagem não o impediu de reiterar que a "austeridade" vai continuar, sem, sequer, alvitrar uma política mais amena e uma descompressão mais calma na sociedade portuguesa. Quando os seus prosélitos dizem ser ele "muito determinado", essa eloquência básica oculta, por conveniência política do momento, o carácter autoritário e, amiúde, antidemocrático do sujeito. E essa prepotência não tem sido analisada pelaesquerda, que até a menospreza com negligente desdém.

Salvo as devidas proporções e as obrigatórias distâncias históricas, este desprezo faz lembrar a imprevidência do grupo da Seara Nova, que, nos anos 1920, não tomou a sério o conteúdo de três artigos de Salazar, no jornal Novidades, nos quais o candidato a ditador expunha, claramente, as suas ideias políticas para Portugal.

Claro que as coisas são outras, mas os perigos, mascarados ou não de "legalidade", são reais, e o que este Executivo tem praticado, para depredar os testamentos legados, atinge, por vezes, os níveis da afronta.

Não vi, não li nada que se ocupasse, seriamente, da "vitória" de Passos, embora tenhamos em consideração que se trata de uma vitória de Pirro. Mesmo assim, não descansou em considerar o Marcelo fora da corrida presidencial, sob a alegação de que é um cata-vento, sem perfil para as funções. A atmosfera, no PSD, é irrespirável, diz quem sabe. E os grupos subdividem-se, porém com as prudências determinadas pelos perigos decorrentes de um ambiente de receio. Fala-se, em surdina, de retaliações a Pacheco Pereira e a Manuela Ferreira Leite. Esperemos pelos próximos parágrafos.