que é feito da inteligência portuguesa?


Por Baptista-Bastos
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A política ausentou-se da vida portuguesa. Não é de agora; mas, agora, o caso acentuou-se. A culpa não é, somente, deste Governo exaurido de tudo, até da grandeza da política como actividade superior. O PS não discute, não debate, não provoca, não contende. Mesmo o PCP já não acicata o grande debate de que Portugal carece. O CDS não é. E isto chega para definir um partido rémora, sempre alapado nos lombos de outro, até do PS!, e cuja expressão eleitoral não justifica a importância que se lhe concede. De "partido táxi" passou a ser um atributo para o equilíbrio do PSD e para o exercício do poder da Direita. A democracia possui estes aleijões insanáveis, para gozo e proveito das classes possidentes. Não há memória de ter contribuído para uma discussão, para um valor acrescentado, para um esclarecimento da vida portuguesa. É tão cristão-democrata, como o PS é socialista e o PSD social-democrata. Creio, aliás, pela prática comum, que estas três agremiações são, com ligeiríssimas diferenças, neoliberais, segundo a corrente na moda.

Mas a verdade é que, na Europa, a querela que justifica, e até explica, o conflito, por natureza a essência da democracia desapareceu. Em França, onde Camus, Sartre, Merleau-Ponty, marcaram o pensamento europeu, deixou, por enquanto?, de haver nomes de referência que nos ajudavam a reflectir e a questionar o nosso tempo. A Itália de Cesare Pavese, Elio Vittorini, Alberto Morávia, Benedetto Croce, Palmiro Togliatti, secretário-geral do PCI (que chegou a polemicar com Vittorini, na revista "Il Politécnico", de que possuo alguns números), deixou de existir; deu lugar a Berlusconi e a uma trupe de "sevandijas intelectuais", para usar a expressão de Antonio Tabucchi.

A Europa culta cedeu lugar a um grupo de nefelibatas que trazem o "Financial Times" debaixo do braço, como expressão cultural maior. Quem governa pertence a uma corporação de "gestores" propensa aos negócios e pouco dada aos fascínios da leitura. Seria curioso fazer-se um inquérito sobre os hábitos de leitura dessa gente, que parece enraizada nos jogos malabares dos números, que pouco mais significam do que isso mesmo: números.

A era do vazio atingiu o seu máximo esplendor. A vacuidade e a frivolidade campeiam. Os jornais perderam a tradicional capacidade de fazer reflectir, e a modinha da "distanciação" afugentou leitores e transformou jornalistas em gravadores ambulantes. Os jornais perdem acentuadamente leitores, e as revistas cor-de-rosa aumentam as tiragens. Os grandes problemas nacionais não nos são explicados, e tudo é feito superficialmente. Um exemplo: a abertura do ano judicial. As televisões limitaram-se a transmitir, numa onda de preguiça que tem feito lei, os discursos monótonos e chatos dos que falam sempre, entre os quais o dilacerante texto do dr. Cavaco. Parece que estamos num mundo de irrealidades absolutas, no qual os verdadeiros assuntos nacionais (como o da Justiça) são tratados a polé.

Por outro lado, a ausência da cultura portuguesa nos debates que ela própria devia suscitar e incrementar, atingiu, já, o território da demissão moral. Repito o que já escrevi nesta coluna: apenas o filósofo José Gil faz ouvir a sua voz indignada e veemente. E, mesmo essa voz, é espaçada, quando devia constituir uma advertência permanente, por avisada e informada que é.

Há quem aceite esta paz podre e pobre. Pensar é perigoso e, habitualmente, interpela e põe em risco os poderosos e a sua ideologia. A frivolidade e o riso mais alvar tomaram conta das televisões, e alguns dos programas, quase todos, deste jaez e estilo, são verdadeiros atentados à inteligência comum. Não pelo riso que condena e critica; sim pela galhofa que encobre e se torna cúmplice. A sociedade portuguesa precisa de um sacolejão valente que a desperta desta trágica letargia. Estamos todos anestesiados? Não o creio.

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