30/10/15

coitus interruptus


Nem nos meus tempos de ganapo, em que "ía ao peixe" com a minha mãe ao Poço dos Negros, assisti a tanta peixeirada junta. A direita, esta direita porque há outra que anda queda e muda, perdeu a cabeça e as estribeiras com a possibilidade das forças "estalinistas" tomarem o poder através de um PS que terá, nas exaltadas palavras das regateiras de serviço, abdicado da sua identidade e jorrado para o monturo 40 anos de cedências e compromissos tantas vezes molestos para Portugal e para o seu encornado povo. Agora, graças a António Costa, que quer "agarrar o poder a todo o custo", os comunistas voltaram a ter alguma, o mais certo muito pouca, influência nos destinos do País. E a direita, esta direita à direita da direita, não perdoa. Planeou, nos seus quartéis-generais, em gabinetes de guerra, a melhor forma de defrontar Costa e a besta comunista. E mais não conseguiu do que arregimentar uma dúzia de peixeirinhas de luxo que saltam de canal para canal, em horário nobre, a execrar a esquerda, a anunciar o apocalipse, a interromper o interlocutor, qualquer que ele seja, aos gritos, aos ais, aos ataques destemperados, de uma alarvidade e de um primarismo sem igual em tempos de democracia. Mas, neste festim de regateiras, não estão sós. Veja-se a triste figura que fazem os entrevistadores, cuja inclinação para a direita quase os faz cair da cadeira, interrogando sem querer saber a resposta, atacando, tentando abrir fissuras nesta "aliança" entre as esquerdas. Veja-se o papel dos comentadores, sempre os mesmos com os mesmos argumentos, a mesma verrina, o mesmo primitivismo antidemocrático. São dignos do presidente que admiram, do líder que seguem, dos Dias Loureiros e dos Duarte Limas que os precederam. São a nata da Nação. São as vendedeiras e vendilhões de mentiras, de falsas promessas, de ameaças de cataclismos iminentes se os comunistas, os social-fascistas em linguagem agora ressuscitada por uma certa "esquerda", conseguirem fazer de Portugal a Sibéria do Sul, um gigantesco gulag, um inferno na Terra. Por mim, se fosse a eles, já tinha chamado a NATO para uma invasão das nossas praias. Já tinha apelado ao Carlucci para se encontrar com Cavaco. Já tinha desenterrado as mocas de Rio Maior. Já tinha incendiado uns quantos centros de trabalho do PCP e do BE. Já tinha enchido a Alameda numa Marcha de Caçarolas perfumada a Chanel nº 5. Já tinha mandado, para um qualquer Tarrafal, Costa, Martins e Sousa. Já tinha abarrotado o Estádio Nacional de comunas, esquerdalhos e socialistas atrevidos. Já tinha ressuscitado Pinochet. Já tinha chamado, à minha divina presença, António de Oliveira Salazar. Já tinha recuado até aos anos gloriosos do Estado Novo. Mas, por enquanto, fiquemo-nos pelas regateiras. Em bacanal de arranhões, num doloroso coito finalmente interrompido. Agora sim, parece que sim, que vão sair de cima.

17/10/15

a fúria dos papagaios

Sócrates libertado quase ao fim de um ano, sem acusação mas com muitos, muitos indícios e, definitivamente, condenado pela populaça ao pelourinho, a arraia miúda e graúda que acorreu ao chamado do deus PAF e lá foi, cantando e rindo, levados, levados sim, entregar-lhes o voto porque o PS tem um ex-primeiro ministro preso e, de cada vez que governa, leva o País à falência para vir, depois, o PSD salvar a situação e livrar os portugueses, a ordem que se segue é puramente arbitrária, da fome, do desemprego, dos salários de merda e da merda de vida. Esse mesmo PS que sempre foi um partido altamente responsável mas que, dizem os endireitadores virando o bico ao prego com a cabeça ou com os cornos, mais uma vez a ordem é arbitrária, está desta feita a colocar o País na mão dos comunistas. Dos comunistas, vejam lá!, essas criaturas que nunca quiseram governar nem deixar governar, imobilistas e dogmáticos, estão a delapidar a sua longa tradição de partido de protesto para vir negociar com o PS. Que descaramento! Já não há honra! Já não há palavra! Já não há nada nem ninguém que se aproveite à esquerda do PSD, canhotos, trafulhas, trapaceiros esses do PS e mais quem os apoiar, que ora agora dizem uma coisa ora logo juram outra, matreiros, mentirosos, pulhas que o que querem é governar para repor os salários dos portugueses, atenuar a austeridade, tornar Portugal num país onde apeteça de novo viver, onde é que já se viu o despautério, a aleivosia, o atrevimento desta gente em vir escangalhar o trabalho de quatro anos de Passos e dos seus comparsas na reconstrução do País salazarento de outros tempos sem contratempos nem contras, que esses estavam no bom resguardo de calabouços e frigideiras. 

E os jornalistas, senhores? E os comentadores? Cheios de justa raiva, falam, falam, falam, atiram-se ao Costa como gato à posta, invocam o cherne e as xaputas e as prostitutas e os chulecos da Nação, os anjos e arcanjos da direita beata, purificada com incensos e águas-bentas, purificadora de pátrias, consolação de cabrões, e de poltrões e de aldrabões e de banqueiros em aflição. Entrevistam Costa como se lhe fossem bater, peroram horas sem contraditório, asfixiam, envenenam, rebuscam argumentos que repetem, repetem, repetem sempre com palavrotas astutamente pensadas pelos think tank e marketeers dos partidos que eles, senhores jornaleiros e doutos opineiros, apoiam e aprovam, a direita direitona, a direita endireitada, a direita putíssima, a direita dos endireitas de Portugal e das províncias ultramarinas, que o terror por comunistas, rebeliões e revoluções faz evocar as glórias de outros tempos no linguajar dos escrevinhadores da situação, fachos empoleirados, intelectuais encadernados e a santa padralhada que agora está com Francisco, o Papa, mas que dantes estava com Francisco, o Franco. Mais o António e o Benito, que tudo isto é muito bonito mas dantes é que era lindo, de negro se vestiam os padres e se cobria o País. 

Vivemos tempos de espanto. E de horror. Nunca tantos desceram tão baixo, tirando a máscara e mostrando as verdadeiras fuças, de assalariados contratados para papaguear o dono e incitar as massas à revolta, à ida à Alameda em salto alto e Chanel vociferar contra Costa, esse Cunhal disfarçado, esse esquerdista desalmado, esse "qué frô" despeitado.

Sempre que Portugal estiver em perigo, chamem os papagaios.

Resulta.

10/10/15

vamo-nos a eles!

Hoje, em simultâneo em todos os canais à hora dos telejornais, passa o filme "Vêm aí os Russos". Não perca. Momentos de grande dramatismo sobre a terrível ameaça que paira sobre toda a civilização cristã. E grave que o momento é grave e merece revisão. Da Constituição, das regras democráticas, da contabilidade dos votos porque há votos que valem por dois ou três e outros que nem deviam ser contados ou acatados, Deus nos livre e guarde de russos, bolcheviques, vermelhos, comunistas, comunas, sociais-fascistas, cubanos encapotados, norte-coreanos mascarados, comedores de crianças, matadores de velhos e de esperanças, ladrões de courelas e ai, ai, ai, mil vezes ai que agora é que são elas, é o PREC, é o PREC, vou-te devorar, crocodilo eu sou, lobo esfaimado, filho disto e daquilo, menos que um esquilo, uma perca do Nilo, enxofre ao quilo, é o diabo encarnado a cornear os abutres, a pontapear as hienas, cuidado que são perigosos, estão a dar à Costa, vão desembarcar e desgraçar-nos, salvem as crianças, as jóias, as pratas. Matem essas ratas! Não sejam pataratas, nem cobardes, muito menos cúmplices da seita invasora. Vamo-nos a eles!


o declínio dos alpinistas



Vitória de Pirro ou vitória do esbirro? A estrela de Passos, e a velinha de Portas, vão esmorecendo, bruxuleando cada vez menos por mais que as bruxas embruxem e as sereias cantem como eles, no domingo passado, cantaram de galo. Hoje, estão com um galo de Barcelos a Massarelos, um galarote para o Passos, um garnisé para o Portas de serviço, a bonne à tout faire, o pau para toda a obra, obra feita companhia desfeita enquanto o diabo esfrega um olho ou o traseiro que matreiro só há um, o Paulo e mais nenhum. 

O PS virou-lhes o Costa, não todo que ainda há por lá muita bosta Vital, muito Assis pouco santo, muita Vara em pocilga, muito Brilhante de pechisbeque, muitos direitinhas de esquerda quando calha ou lhes convém que a cobiça é como a velha da Piça ou o velho Matusalém, não morre nem sai de cima mas fornica quem encontra no seu caminho. Costa pode ser o bote de salvação ou a barcaça à deriva. Capitão da esperança ou um homem vulgar. Pode mudar o governo ou fechar os olhos ao desgoverno e os olhos a um PS qualquer dia moribundo de tanto vacilar, pactuar, negociar, ceder, conceder, dar o corpo ao manifesto que quanto mais a gente se agacha mais levamos na cornadura. Costa pode ficar na História ou ficar por aqui, sem honra nem glória nem vitória que se veja. Pode quebrar quatro anos de mau feitiço ou prolongar o enguiço. 

Que se calem as Ferreira Leite, os Pires de Lima, os pires de leite, os queques da linha, os pãozinhos sem sal, os aldrabões, os poltrões, os vendilhões e os sabujos, os cães de fila e os porcos sujos, os mandadores deste vira que não vira e nos tira anos de vida que as voltas do vira não têm sido boas de dar, ora agora viras tu, ora agora viro eu, ora agora viras tu, viras tu mais eu. Chegou o tempo do reviralho. Ou isso ou um saralho do carilho. Salvo seja. Salvos sejamos. Menos os alpinistas, que de tanto subirem de mais alto cairão. E não choraremos sobre leite derramado. Nem queimaremos vela com tão ruins defuntos. Assim Costa queira que a gente quer, a gente gosta.

08/10/15

"ai mana, estou tão fartinha da diligência" ou a síndrome das manas catatuas



Cá vai Cavaco, que me está a dar a filoxera. 

Cavaco já sabia o que havia de fazer antes das eleições fosse qual fosse o resultado. Mesmo assim, precisou do dia 5 inteirinho para reflectir. E deu nisto: não indigitou o chefe do seu partido para formar governo mas para providenciar diligências. Despromoveu Coelho de primeiro a carroceiro, fez dele reles timoneiro da mala-posta pejada de recados e de presentes envenenados para quem ele não gosta, de Costa à contracosta que o homem é azedo como sopa velha. Quem se mete com Cavaco leva, diria outro Coelho que não vem à colação. E se bem conhecemos Cavaco, mesquinho e vingativo, bem pode o PS arengar que talvez, por enquanto talvez aceite ser governo com o apoio da esquerda à sua esquerda. Cavaco escavacará Costa. Declarará o estado de sítio, decretará o recolher obrigatório, determinará o retiro aos desobedientes, a reclusão aos insubmissos. Pedirá ajuda à amada Merkel, ao abençoado Junker, à querida Lagarde, ao diabo que o carregue se preciso for, tudo o que for preciso para suster este Período Revolucionário em Curso com o concurso de toda a esquerda e a deriva de Costa que, em vez de lamber Silva e Coelho, carniça e erva fresca, fel sem mel, visita a sede do PCP e deixa-se fotografar ao lado de um cartaz que diz A Força do Povo. Cruzes credo, canhotos! Pois fiquem a saber, se não o sabem já, que força é o que Cavaco mais tem, sobretudo anímica, ao contrário de Relvas a quem esta faltou quando mais era precisa, que andou uns tempos a vitaminas e injecções de dinheiro no cu e na conta bancária e, agora, está de volta tal como o Marco António marco da lusopátria e, qualquer dia, o Dias Loureiro, esse paradigma do empresariado arguto que faz deste país o grande país que é, um paraíso para proxenetas e rameiras da política, dos negócios, da vidinha, que cada um faz por ela o que pode e é por isso que se juntam ali à Lapa, e no Caldas por arrasto, para fornicar Portugal e os portugueses com a tal força anímica que anima Cavaco e as cavacadelas, cavem cadelas de Passos agora ocupado a diligenciar diligências muito bem diligenciadas sob os auspícios do patrono da Pátria que vai fazer de Portugal um orgulhoso Cavacal onde procriaremos que nem Coelhos dos piores que há em nós, os egoístas encartados, os capitalistas desalmados, os pulhas desencabrestados, os merdas feitos deputados, directores disto, presidentes daquilo, oportunistas, chupistas do pirilau do Estado - menos o Rodrigues dos Santos que esse é muito homem! - e das tetas da Nação, badamecos, bardamerdas, palavrões com pernas, escarros com barriga, alforrecas, amibas, ratazanas, baratas tontas e tanta outra bicheza a que urge fazer limpeza, exterminar, expurgar, expulsar do governo e das instituições onde sendo já velhos são boys, bois de cobrição, vacas de estimação, alimárias sem perdão. Isto ainda pode dar a volta e, volta não volta, é preciso fazer as limpezas da Primavera. Nem que seja no tempo das castanhas, da água-pé, da jeropiga, dos cravos que não viraram cravas e não dos parvos que viraram escravos, dos homens e mulheres que querem ser isso, só isso, homens e mulheres e não vermes de encher, e não lesmas, e não avantesmas. Rua a Passos largos que Portas são para serventia da casa e a casa precisa de ser limpa e arrumada, chega de badalhoquice, arredem as diligências, comprem sabão-macaco, creolina, lixívia, palha d'aço e água, água a rodos que chegue para todos antes que seja privatizada.

01/10/15

queres estabilidade, filho?


Queres estabilidade, filho, queres?

A estabilidade do desemprego a alturas nunca vistas, não é isso, filho? E a dos desempregados sujeitos a liberdade condicional, à permanente humilhação das comparências quinzenais para mostrarem que estão vivos, que não estão a enganar o Estado, a passar-lhe a perna, a esmifrá-lo, porque essa coisa das roubalheiras é primazia e apanágio do Estado e não da vulgata, do cidadão anónimo e sem voz, aquele que, como tu filho, como tu, come e cala de cara alegre porque quem protesta ou é comunista ou mau português, anti-patriótico, um pária, um traidor. E a estabilidade propiciada aos desempregados obrigados a trabalhar de borla ou a frequentar cursilhos da treta para que, enquanto o pau vai e volta por uma côdea de pão, folguem as estatísticas douradas da propaganda governamental. Não é assim, filho?

Queres estabilidade, filho, queres?

A estabilidade de um emprego cada vez mais mal remunerado porque, se não aproveitares, "há mais quem queira". A estabilidade de um emprego precário. A estabilidade de um emprego de onde te podem despedir por dá cá aquela palha porque, graças à UGT também, os patrões podem agora despedir com toda a facilidade e por tuta-e-meia. E, diz o programa do PS, e diz-nos a prática do PAF, uma maior liberalização é ainda desejável a bem da economia, porque a economia não existe para as pessoas, existe para a alta finança acumular riqueza e tu, meu filho, andares a pão e água porque laranja é luxo de remediado. A estabilidade de um emprego onde cada vez trabalhas mais - substituis outros que se vão indo embora sem que o seu lugar seja ocupado -, e cada mais mais horas, porque o governo eliminou feriados e, na sua fúria estabilizadora, quer aumentar a carga laboral de cada um e roubar-lhe os poucos direitos que ainda tem. É bestial, não é filho?

Queres estabilidade, filho, queres?

A estabilidade dos impostos que, se já estão altos, não vão descer, tomáramos nós que não subam. A estabilidade de um IRS gourmet, que te come grande parte do teu salário ou da tua pensão acrescido de complementos extraordinários que passaram a ordinários, que seria de um comilão sem a sua sobremesazinha, o seu amuse-bouche? A estabilidade de um IVA máximo na electricidade, na água, no gás, que pagas mais caro do que a maioria dos europeus. Gostas disto, não gostas, filho? Do fisco que te persegue por uns cêntimos de dívida, que, por via das dúvidas porque se não és ainda podes vir a ser, te trata como um caloteiro do piorio, te ameaça, te leva a casa, o carro, a paz de espírito, a alegria de viver. Que bom, não é filho?

Queres estabilidade, filho, queres?

A estabilidade da caridadezinha, porque o governo cortou radicalmente nas prestações sociais, a torto e a direito, mas dá milhões para a sopa dos pobres, para gáudio das Jonet e dos Motas Soares, farinha do mesmo saco, matéria do mesmo monturo. A estabilidade dos sem-abrigo, cada vez mais acompanhados porque outros tantos se lhes juntam. A estabilidade das famílias que perderam empregos, rendimentos, a esperança.

Queres estabilidade, filho, queres?

A estabilidade de uma Justiça que persegue Sócrates, ainda estamos para ver se com razão ou sem ela, e esquece tantos e tantos vilões, alguns deles encaixados em altaneiros cargos desta Nação doente, berço de um povo capado, indolente. É fantástico, não é filho?

Queres estabilidade, filho, queres?

A estabilidade de um Estado tomado de assalto por uma despudorada élite de compadres e comadres, de negociatas de bastidores, de PPP, de fundações, de milhões entregues de mão-beijada a empresários que já foram ministros e ministros que já foram empresários, num proxenetismo que tem a estabilidade de uma cama de putas. Dá-te gozo só de pensar nisso, não dá filho?

Queres estabilidade, filho, queres?

A estabilidade dos bancos que vão à falência por falta de vigilância do regulador estatal, das grandes empresas que nos levam o nosso rico dinheirinho mas pagam os impostos lá fora, das pequenas e médias empresas asfixiadas por impostos e regras e decretos e demais imposições, fechando as portas e criando mais desemprego porque assim é preciso, é a selecção natural, que caiam os mais fracos e resistam os mais fortes, as tais empresas que estão na bolsa, no grande casino, na crista da onda e onde os seus directores, presidentes, vogais e demais arraia-grossa ganha o que ganha, 10, 20, 30, 50 vezes mais do que tu, um apologista da estabilidade, um devoto da evolução na continuidade, de um Estado novo com velhos vícios.

Queres estabilidade, filho, queres?

A estabilidade dos mortos por falta de assistência médica. A estabilidade dos teus filhos que emigram porque cá não conseguem viver. A estabilidade dos jovens que deixaram de poder aceder ao ensino universitário. A estabilidade das classes profissionais, todas eles, que se manifestam constantemente nas ruas contra o governo e a propagandeada estabilidade. 

Queres estabilidade, filho, queres?

Não há maior estabilidade do que a dos cemitérios. E este país está a morrer. Ajuda a acabar com ele. Pela estabilidade, por ti, pelos teus, vota PAF filho, vota PAF.

29/09/15

nem tudo está perdido, podem crer


Por Baptista-Bastos

Que vai restar daquilo que, apesar de tudo, conseguimos, nestes quarenta anos? Pouco. A mística que nos envolveu e nos fez agir, logo após Abril de 74, foi persistentemente esbatida, com a nossa total indolência. A vitória do capitalismo mais predador, da substituição do humanismo por uma ordem que minimiza a cultura e dá premência ao dinheiro, domina Portugal e o mundo. A União Europeia desmorona-se, porque, na realidade, nunca existiu. Os "mercados" deixaram de ser abstracções entediantes para se tornarem nos vampiros da canção: estão em todo o lado, tudo devoram e não deixam nada.

Portugal está à beira de qualquer coisa, e ninguém sabe bem de quê. Mas o panorama não augura nada de bom. Os partidos que se têm alternado no poder são uma miséria política, moral, social e filosófica. As vozes isoladas, que recalcitram contra este amorfismo, são perseguidas, saneadas, ou tidas como obsoletas. O dr. Passos Coelho, desabusado e sem pingo de vergonha, disse: "Nós nunca seremos oposição ao País!" Como o País somos todos nós, o que ele tem sido é exactamente o contrário do que afirma. Ouvimo-lo, naqueles comícios gritados, nas televisões e nos jornais caracterizados por uma docilidade comprada, e não acreditamos que ainda haja um tipo desta natureza.

Um imbecil dessa estirpe chamou aos velhos "peste grisalha" e ninguém da classe dirigente o exautorou e apontou à execração pública. Concordaram. Os velhos, são, aliás, o alvo preferencial de uma casta ignóbil, apoiada pelo dr. Cavaco e estimulada por Passos Coelho e os seus. A ignorância campeia alegremente. Os apedeutas, como os chamava um grande jornalista português, no tempo em que os havia, e que não eram "professores doutores". Quem sabe, faz; quem não sabe, ensina. Nunca o aforismo teve aplicação tão acertada e justa como hoje.

Há um mundo de decência, de integridade e de consideração que está a ser sovado por oportunistas estipendiados pelas forças do mando e do comando. Repito o que tenho dito: os escritores portugueses que, nas épocas mais ignominiosas, mantiveram a honra do convento, sabendo que, para isso, desafiavam o poder absoluto, punham a vida em perigo e as funções em risco – calam-se; outro, menoríssimo, recebe das mãos do inimigo um penduricalho envergonhante; e aqueles, ainda, que se calam perante a indignidade. 

A pátria é o mais atroz lugar de exílio, para fazer uma paráfrase de um belo livro de Daniel Filipe: "Pátria, Lugar de Exílio." Os refugiados do nosso tempo, aos milhares de milhares, também somos nós. Vivemos na falsa prosperidade e mergulhamos numa infelicidade dolorosa. Não protestamos contra esta desdita, somos manipulados, indolentes e adormecidos por quem sabe o que quer, e o que quer são os novos escravos de uma civilização que o deixou de ser. 

A fatalidade parece que nos anatemiza. Falei no Daniel Filipe, parceiro, companheiro e amigo, grande poeta esquecido como tantos outros grandes. Morreu de desgosto, de mágoa infinita e de espanto. Eu estava no Brasil, quando soube da sua morte, por um artigo comovente de Miguel Urbano Rodrigues, no Estado de São Paulo: "Daniel Filipe, Cronista sem Coluna." Seria bom que um editor recuperasse as crónicas dele, "Discurso sobre a Cidade" e reeditasse a sua poesia. Assim digo porque gente desta estirpe faz falta e sempre rasga um pouco do véu que nos tolda. 

Mas o grau de futilidades e de indiferenças que nos cerca é demasiado poderoso, sei isso muito bem. Contudo, nem tudo será sempre assim. As pequenas possibilidades oferecidas serão, um dia, muito maiores. Nem tudo está definitivamente perdido. Podem crer.

In Jornal de Negócios

24/09/15

contra o medo

Por Baptista-Bastos

O medo é a inspiração e o respaldo dos tiranos. Nós, portugueses, temos sofrido, ao longo da História, doses substanciais de medo e é surpreendente que, mesmo assim, subsistimos como cultura e como força moral. O antifascismo é isso mesmo: uma força moral que congregou monárquicos, republicanos, comunistas, católicos, animados pelo singelo desejo de liberdade. A ideologia que os reuniu consistia nesse poder incomparável, talvez possível de sintetizar no verso admirável de Carlos de Oliveira: "Não há machado que corte a raiz ao pensamento". Nestes últimos quarenta anos, o medo tem sido um dos instrumentos daqueles dos nossos governantes que, para se manterem no poder, utilizam toda a utensilagem de que o medo dispõe. 

As ‘sondagens’, que pareciam credibilizar o rigor das informações, serviam como viático para a jornada do medo. Caíram por terra, no Reino Unido, e, agora, com fragor idêntico, na Grécia: davam empate técnico ao Syriza e à Nova Democracia, partido irmão do PSD português, e foi o que se viu. Uma agência de rating, a Standard and Poor’s, introduziu-se nas eleições portuguesas, e foi dizendo que Portugal está muitíssimo bem, e que o Governo a seguir a este não deve alterar o rumo. 

O ‘rumo’ é o que nos proporcionou a Coligação de Direita nos últimos quatro anos. O pavor que inspira é do conhecimento de todos nós: além da miséria, do êxodo, da ausência de razão crítica, das perseguições (sei muito bem do que falo), do favorecimento a factótuns e a ‘jornalistas’ estipendiados, conseguiu estiolar, pela espórtula ou pela intimidação obcecante, a força motriz do nosso destemor. 

"Nós nunca seremos oposição ao País", proclamou, há dias, o dr. Pedro Passos Coelho, tão inexaurível na mentira como na desfaçatez e no desdém por nós manifestado. Ele sabe que, por artes malabares, tem muito boa Imprensa e a docilidade untuosa de uma televisão, ávida de recolher as suas frases vulgares e os seus movimentos programados. Nada disto é normal numa sociedade desejada limpa e digna. E numa comunicação social que legou pergaminhos de honra em épocas onde o medo era, também, a componente do dia-a-dia.

Está na hora de travar este medo, de escorraçar a mentira que nos enreda, e de reconquistar a esperança que nos tem sido sonegada.

In Correio da Manhã, 23/09/2015

17/09/15

em plena indignidade

Por Baptista-Bastos
http://www.cmjornal.xl.pt/

Passos Coelho não deixa de me surpreender com a insistência no embuste e no desprezo pela verdade e pela clareza de propósito. Confrontado, no mercado municipal de Braga, por uma multidão de "lesados" do BES (roubados com descaro, diríamos apropriadamente), ofereceu-se para ser o primeiro de um hipotético abaixo-assinado que levasse os prevaricadores a tribunal. Estamos em plena indignidade ou no grau mais desprezível a que a política chegou. Passos sabe que a oferta é falaciosa, impossível de cumprir pela sua própria insustentabilidade: o Governo, todo o Governo, seria acusado, e não haveria cadeiras no tribunal para sentar número tão elevado de indiciados. Mas Pedro Passos Coelho tem este grave defeito de carácter: a verdade dos factos é, para ele, de somenos. Promete; depois, logo se vê. 

Agora, arrasta consigo, para os comícios, o pobre Paulo Portas, cada vez mais desamparado e trágico. Um, expõe dois dedos abertos da direita, para significar "vitória", e agita-a para cima e para baixo; o outro, ergue o polegar, também da direita (claro!), que simboliza não se sabe bem o quê. Mas é preciso levantar qualquer coisa, e tudo se afigura muito declinante, inclusive as "sondagens", cuja manipulação chega a ser afrontosa. Estas situações seriam grotescas não assumissem elas a dimensão da desgraça que nos assolou. Estes dois cavalheiros (há outros) fazem de nós os tolos da farsa com uma desfaçatez recostada na impunidade de que presumem gozar. Estamos sitiados por mentirosos profissionais, que já não conseguem separar o universo em que vivem da realidade circundante. 

Dizer, como dizem os dois comparsas da Coligação, que Portugal foi por eles salvo da bancarrota é uma aldrabice já desmontada por economistas de renome, sociólogos credenciadas e políticos sérios. Atribuir sempre as culpas ao "outro", o anterior, também já não cola. A pátria, que somos nós, merece respeito, e nem sempre a mentira repetida mil vezes dá resultado. Claro que o problema reside no sistema e na falência das coordenadas morais e éticas afectadas pela derrota da razão prática ante a avalancha do irracionalismo mais monstruoso. Veja-se o que acontece com a repulsa e a rejeição dos refugiados por já muitos países europeus e talvez consigamos descortinar a origem de todos os males.

14/09/15

detesto mijinhas

Os outros, vocês sabem quem, aumentaram o IVA e o IRS. Criaram contribuições extraordinárias, ora de sustentabilidade, ora de solidariedade. Retiraram quase todos os benefícios fiscais. Cortaram nas indemnizações por despedimento. Cortaram feriados. Reduziram ou eliminaram subsídios. Subiram as custas judiciais, os transportes, as despesas com Educação e Saúde. Pagamos mais caro do que a maior parte dos europeus a gasolina, o gás, a água, a electricidade.

Que diz o PS a tudo isto? Promete repor um feriado aqui, reparar uma injustiça acolá, como se nos estivessem a conceder uma nova benesse a que até agora não tínhamos direito. Por outras palavras, quase tudo o que nos roubaram vai ficar onde está, nos cofres do Estado, para pagar ao FMI e ao BCE, para ajudar a banca em caso de novo "azar", para amealhar. Nunca se sabe o dia de amanhã. Nem as despesas a que é preciso fazer face, há swaps, há PPPs, há fundações, há frotas automóveis, há boys a precisar de jobs, há negócios gorados, fechados com prejuízo, há pareceres a pedir e amigos a acudir, 

Detesto mijinhas. Que me restituam o que é meu às pinguinhas. 

https://www.vectorstock.com

13/09/15

açaçinar a língua, os refujiados, os cumunas

love is in the air

Pedrito quer uma campanha eleitoral cheiinha de amor. Foi ele mesmo que disse. Assim mesmo: amor. Não foi cheia de verdade. Nem de realismo. Nem de lealdade para com os adversários políticos. Nem de aversão à demagogia. Foi amor. Pedrito pede, exige dos seus concidadãos o mesmo amor que lhes dedicou ao longo dos últimos quatro anos, aos pensionistas, aos reformados, aos professores, aos médicos, aos enfermeiros, às forças de segurança, aos trabalhadores em geral, aos desempregados, aos emigrados, a todos nós que não estamos na lista dos VIP do País. A Pedrito, chegou-lhe agora a pieguice. Lá bem no fundo, Pedrito tem bom fundo. Tão bom que até quer promover uma vaquinha para ajudar os lesados do BES a livrarem-se dos abrolhos com que o próprio Pedrito os flagelou. Pedrito é afinal uma santa alma. Um esmoler. Um sensível. Canonize-se Pedrito. Faça-se uma outra vaquinha, esta para erguer um santuário em honra e memória de Pedrito. Em Fátima. Em Santa Comba. No Portugal reconhecido a Pedrito Coelho e aos seus amigos, os Relvas, os Macedos, os Portas, os Duarte Limas, os Cavacos Silvas, os Dias Loureiro, os Ulrich, os Mexias, os chineses, os brasileiros, os angolanos, todos os que contribuiram para salvar o País da bancarrota, do descalabro, de Sócrates, sobretudo de Sócrates. Petrus Domine, miserere nobis!

03/09/15

a modernaça censura , o regresso dos coronéis, os demo cratos, barretos, coelhos e etc., etc., etc.

Por Paula Simões
https://paulasimoesblog.wordpress.com

Em Julho passado, a comunicação social fez saber que o Secretário de Estado da Cultura tinha promovido negociações entre a Inspecção Geral das Actividades Culturais (IGAC), Sociedades de Gestão Colectiva (SGC), representantes de titulares de direitos, Operadores de Telecomunicações (ISPs), entre outras entidades, das quais resultou um memorando de entendimento, em que as SGC enviariam à IGAC uma lista de sites, que a IGAC por sua vez remeteria aos ISPs para que estes bloqueassem os referidos sites.

Este processo é assim realizado entre entidades privadas e uma entidade pública (IGAC), que tenho vindo a perceber como parcial e com parco conhecimento nas questões de direito de autor, nos vários contactos que tenho tido com a IGAC.

É um processo extremamente perigoso. Não há um juiz, não há uma acusação, nem um processo em tribunal. O que significa que se o leitor tem um site ou um blog onde escreve regularmente e as SGC e a IGAC não gostarem da sua opinião, nada os impede de enviar o link do blog do leitor para os ISPs bloquearem no prazo máximo de 15 dias.

O blog/site é bloqueado e o autor nem sequer se pode defender. [Lembrem-se que é sempre boa ideia terem backups dos vossos sites e blogs]

Numa leitura rápida do memorando, podemos concluir que:
As SGC estão cheias de dinheiro (comprometem-se a compensar os custos que os ISPs tenham, bem como a indemnizá-los, caso as SGC decidam para além do bloqueio levar o caso a tribunal e sejam condenados);
Um site é considerado “pirata” se for possível aceder através dele a mais de 500 obras cuja disponibilização não foi autorizada, ou que permita o acesso a mais de dois terços de obras cuja disponibilização não foi autorizada;
A IGAC quer criminalizar os links, que são a base da Internet, uma vez que os sites serão bloqueados, mesmo que não disponibilizem as obras.

Há um mês atrás, tendo em conta que a comunicação social não disponibilizou o texto do memorando, solicitei à IGAC acesso ao documento. Responderam-me que iriam dar mais informação em breve, mas não disponibilizaram o memorando. Voltei a contactar a IGAC indicando que apesar de agradecer toda a informação que quisessem disponibilizar, queria era aceder à informação já existente (o texto do memorando). A IGAC não respondeu.

Em meados de Agosto, contactei a Comissão de Acesso aos Documentos Administrativos(CADA), explicando que tinha pedido à IGAC o referido memorando e que este não tinha sido disponibilizado no prazo de 10 dias como estipula a lei. Devo deixar aqui um agradecimento à CADA, que tratou desta questão com enorme eficiência, e alertar o leitor que é a esta comissão que se deve dirigir, se uma entidade pública lhe recusar o acesso a documentos administrativos.

Hoje, a IGAC enviou-me cópia do texto do Memorando de Entendimento [PDF 366Kb], que disponibilizo por saber que há várias pessoas interessadas.

Até agora, apenas o Bloco de Esquerda questionou o Secretário de Estado da Cultura sobre este memorando. As questões podem ser consultadas aqui.

Por último, no dia 4 de Outubro lembrem-se que este memorando foi promovido pelo Governo de PSD/CDS.

02/09/15

socorro, estou a ser bombardeado!

As boas notícias surgem em imparável catadupa: ora é o emprego que sobe, ora é o défice que desce.  Ele é a economia que está fulgurante e as exportações que somam e seguem espampanantes. E há os novel papás que já podem ficar mais tempo em casa assim que o rebento nascer. E os velhos que vão ficar mais amparados. E o IRS que vai em parte ser devolvido, todos os dias um nadinha mais. E a Justiça que pôs a casa em ordem e até já prende rivais políticos. E a Saúde. E a Educação. E a Segurança Social. Tudo boas notícias a chegarem-nos sempre que abrirmos a goela da rádio, folheamos um jornal, vemos um telejornal.

Antes de Abril, apesar da censura, muitos jornais e jornalistas mantinham a dignidade. Agora, entregues os jornais a angolanos e a escrita a tarefeiros, temos pior informação e a mais escandalosa e massiva propaganda.

Esta gente, a que nos governa e pretende continuar a governar, é capaz de tudo. Da mentira mais abjecta ao estratagema mais ignóbil. Tenho medo de viver num país assim, onde a ditadura voltou. Em pezinhos de lã. Matreira. Desumana. Com ares de marialva de subúrbio ao engate de matrafonas. Videirinho e sátrapa. Habilíssimo trapaceiro. Em enganar, o primeiro.


para quem ainda não percebeu no que está metido



Por Pacheco Pereira
http://abrupto.blogspot.pt/

Há uma parte da oposição a este Governo e à coligação que ainda não percebeu no que está metida. Nessa parte avulta o PS, que acha que isto é um filme para 6 anos, ou, vá lá, 12 e está num filme para adultos, ou como se dizia antes, "para adultos com sérias reservas". Não, não é o Bambi, é o Exorcista ou o Saw. 

Tenho um bom lugar de observação da linha da frente no combate político com a actual "situação". Sei disso porque há muito tempo que conheço o vale-tudo, de artigos caluniosos a comentários encomendados em massa, até ao célebre cartaz anónimo, que não se sabe quem fez, nem quem pagou. Mas a mensagem é clara: não o ouçam porque é um radical violento. Tenho um processo instaurado pela "massa falida da Tecnoforma". Não digo "tenho sido vítima", porque não sou vítima coisa nenhuma, estou onde quero e faço o que entendo dever fazer. Se chovem paus e pedras, são para mim como elogios. 

Mas vejo as coisas porque percebo do que, do lado da coligação, se é capaz de fazer quando se lhes toca nos interesses vitais, e estas eleições tocam em demasiadas coisas vitais para não serem travadas com todas as armas, e algumas são bem feias de se ver. Agressivos de um lado, frouxos do outro. 

E vejo os exércitos juntarem-se, com armas e bagagens, muito ódio social, porque é um combate social e político que se vai travar e o ódio mobiliza as hostes, e muita agressividade. Do outro lado, salamaleques, um medo pânico de falar de "mudança", a quase total ausência de críticas ao Governo, o emaranhar-se em explicações e desculpas. Sempre na defensiva, sempre ao lado, sempre a perder. 

Uma parte da oposição prefere objectivamente que tudo continue na mesma para manter o bastião da identidade, outra passa o tempo em actividades burocráticas e escolásticas, para o interior das suas contínuas divisões, enquanto o "maior partido da oposição" se entretém a mendigar "confiança" certamente porque não consegue lidar com os rabos de palha que vieram de 2011. 

O caso do PS é parecido com aqueles generais franceses de luvas de pelica a almoçar foie gras e champanhe, bem longe da frente, num castelo qualquer, com todo o tempo do mundo, enquanto os seus poilus morriam que nem tordos, ou fugiam para a retaguarda misturando-se com os civis, dependendo de que guerra se tratava. O modo como está o PS é devastador para toda a oposição, afecta as candidaturas presidenciais, permite o ascenso de candidaturas patrocinadas no seio do PS pela coligação, tem o duplo efeito de esmorecer e radicalizar, ambos processos de isolamento que abrem caminho para a assertividade e o espírito ofensivo da coligação. 

A propaganda da coligação, assente num castelo de cartas que ruirá ao mais pequeno vento, como aliás o ex-amigo próximo, o FMI, diz, não é desmontada com clareza e frontalidade, porque os compromissos nacionais e europeus do PS são demasiados. A maioria muito expressiva dos portugueses que recusam este Governo, um dado sempre constante nas sondagens, não encontra no sistema político uma resposta. E, mesmo que existissem novos partidos que dessem corpo a esse descontentamento, a maioria dos partidos representados no parlamento, não quer competição e encarrega-se de os calar na comunicação social, com a colaboração da comunicação social. 

Por seu lado, os portugueses que sofreram, sofrem e sofrerão a crise estão cada vez mais invisíveis. Não desapareceram, o seu sofrimento social aumenta com a passagem do tempo, mas não conseguem ultrapassar o ecrã do "sucesso" que 10 mil ministros e secretários de Estado fazem todos os dias. Num dia são as mulheres, noutro dia são as crianças, no terceiro dia são os velhinhos. É só caridade e bondade a rodos. Com a cumplicidade acrítica de muitos que na comunicação social andaram a louvar as virtudes do "ajustamento" e por isso selam o seu destino também com o destino da coligação. O PS, por sua vez, como andou estes anos todos a fugir da contestação social, continua a preferir os salões.

a velha mulher síria



Por Baptista-Bastos
http://www.cmjornal.xl.pt/

A velha mulher síria tenta escapar por uma fenda da cerca de arame farpado húngaro, que se estende ao longo de quilómetros. É uma velha mulher possante, e segue o caminho de centenas daqueles que fogem das misérias nacionais. Fica tomada numa pua e um familiar socorre-a, um pedaço de roupa prende-se, ela tenta reavê-lo, o familiar adverte-a de que não podem perder tempo, lá vêm os guardas, pressurosos e inclementes. Uma luz da tarde ilumina o rosto da velha mulher síria: um rosto sulcado por mil rugas, mil sóis e mil dores. Ela é um desses muitos milhares de seres humanos, velhos e velhas, homens, mulheres e miúdos sírios, afegãos, turcos, iraquianos, líbios, iranianos, outros, caminhantes de países hostis, afogados no Mediterrâneo, que todos temem ou desprezam, e que o discurso oficial orna de frases bonitas e intenções nobres. A Alemanha já disse que só recebe perseguidos políticos; perseguidos da fome e da miséria, não. Fogem de guerras que não provocaram, de terrores que não fomentaram, de infortúnios que não acenderam. Agora, passa um grupo de miúdos, e fazem, com os dedos, o V da vitória. Que vitória? Aquela, modesta e dramática, de passarem de um país para o outro? Os adultos, quase todos, desejam ir para a Alemanha, ou para o Reino Unido. Uns caminham num desespero que os não cansa nem estanca. Outros estacionam em Calais, na vã esperança de escapulirem pelo túnel da Mancha. São muitos milhares. Quem provocou esta miséria? Alguém é criminosamente responsável; isso sabe-se. E estou a rever Saddam Hussein a ser minuciosamente vistoriado, na boca, nos olhos, na nuca, nos sovacos, antes de ser enforcado à vista de todos. E revejo, também, W. Bush a sorrir muito feliz, e Donald Rumsfeld a negociar a reconstrução do Iraque, numa bandalheira sem recurso nem punição. E o Afeganistão com seu cortejo de mortos. E a Síria? E o resto do Mundo? A Operação Condor na América Latina, eu estava lá e assisti aos crimes cometidos em nome da liberdade. Mas que valem as palavras numa época que as perdeu porque nelas tripudiou, sem o mínimo pudor, sem o mais módico respeito pela dignidade humana pela verdade das coisas e dos sentimentos; que valem? Lá vai a velha mulher síria a correr e a fugir dos guardas húngaros, que a querem prender e recambiar. Lá vai ela, perseguida pelo ódio.

30/08/15

ou anjinhos de todo

Que, à primeira, as gentes conservadoras tenham votado no Coelho até consigo compreender. O homem apresentava-se com uma aura de integridade de fazer inveja ao Santo Padre, era um ser remediado com tenda humilde montada em Massamá, era um dos nossos, muitos acreditaram que iria limpar o país de maus costumes, combater o clientelismo, erradicar o despesismo, derreter para sempre as gorduras do Estado, as fundações, as PPP, as frotas de luxo, os fretes aos empresários amigos.

Ao invés, nada disso aconteceu. As gorduras cresceram - é preciso engordar amigos e apaniguados -, e enquanto o emprego desceu colossalmente, os jobs para os boys aumentaram exponencialmente, As promessas viraram mentiras, as gorduras que disse ir combater transformaram-se na venda dos últimos anéis, os salários foram cortados, as pensões reduzidas, os impostos aumentados, o Estado Social destruído.

Assim sendo, palavra de honra que não entendo como as mesmas almas conservadoras, se gente de bem, possam sequer considerar a renovação do voto em tão má rês.

A não ser que sejam masoquistas. Ou tão imorais como o santinho da sua devoção. Ou anjinhos de todo.

29/08/15

range, rangel!

Do alto da altaneira estatura de deputado do Parlamento Europeu - que, como toda a gente sabe, tanto jeito dá a Portugal e à maior parte dos países do continente enfermo -, Rangel rangeu a esplendorosa cremalheira para nos dizer que nunca, num governo PS, estaria um antigo primeiro-ministro sob investigação ou o maior banqueiro do país em prisão domiciliária.

Então e a separação de poderes, Rangel? São os governos que decidem quem é preso e quem é investigado? Ou, descaindo-se, terá vindo Rangel confirmar que alguns dos processos em curso foram levados a cabo sob batuta, inspiração ou decisão governamental?

Muitos já suspeitavam. Eu tinha quase a certeza e agora não tenho dúvidas, a exemplo do Presidente residente em Belém. Tal como sei que, sob os governos PS, as gentes do PSD ligadas ao BPN, algumas bem gradas, escaparam incólumes. E que outros processos, muitos, envolvendo figuras do antigo PPD e do CDS actual PP, nunca passaram de águas de bacalhau. Continuam aliás a cheirar mal, a peixe podre, a caneiro, a cloaca.


má sorte a de ser professor

Não sou professor. Mas sou-lhes totalmente solidário. Que triste sina a de, todos os anos, muitos serem condenados a leccionar a dezenas, quando não centenas de quilómetros de casa enquanto outros nem sequer conseguem colocação. Há dinheiro para escolas privadas, nunca para escolas públicas. Essas devem fechar, a bem de uma educação de "qualidade" para os felizardos que a podem pagar. Atolados em porcaria até mais não, vamos insistir na receita de sempre, em alternar os que andam no alterne, prostituindo o País, violando-nos direitos e conquistas. 

Abril vai longe. O Inverno chegou para durar. Assim escolhemos, ainda que roubados, mesmo que profanados.

ALAMY/The Telegraph

25/08/15

campanha orquestrada ou simples coincidência?




Vou tentar acreditar que tudo não passa de coincidência, que o recato familiar não se compadece com a visibilidade inerente às funções de Estado, que a Lolita é uma mulher de força e o marido um homem de inesgotável bondade. Vou crer em tudo. Até no Pai Natal, no Gato das Botas, na reencarnação, na Nossa Senhora da Conceição.

21/08/15

de cartaz em cartaz, CATRAPÁS!

Este post é uma homenagem a alguém, Luís Vargas de seu nome, que vem demonstrar que quem "milita" nas redes sociais não luta em vão. A voz de cada um de nós vai fazendo eco, multiplicando-se, desdobrando-se por amigos, conhecidos, simpatizantes virtuais. A denunciar a pose de Estado de alguns labregos que, sem a muleta da política, não seriam nem ricos nem famosos. A ridicularizar a intrujice, cada vez mais alarve, mais detectável, descarada. As imagens que se seguem foram todas recolhidas da sua página no Twitter (https://twitter.com/varguizm/media). Partilhe. Tem que acontecer ao PAF o mesmo que ao balão nas mãos de um qualquer energúmeno: inchar até rebentar. 

Pífio PAF. Pum!



















18/08/15

a besiché a belém!

Não sei se lhe chamam Besiché ou Beliché e para o caso tanto se me dá como se me deu. É a alcunha que lhe dão em alguns sectores do PS que não a gramam nem com creme de pastel de Belém a cobrir-lhe as ricas vestes porque o PS não é um saco de gatos, é um covil de feras, umas amansadas, outras prontas a mostrar as garras e a exercitar o dente. E eis que Besiché, ou Beliché que para o caso tanto faz, quer ser presidenta. Não. Sampaio da Nóvoa está demasiado à esquerda, representa a ala "radical" dos socialistas, António Costa incluído no pacote. Era preciso encontrar uma espécie de Durão Barroso de saias, disposta a, qual Cavaco, fechar os olhos a todas as aleivosias e desmandos do governo PS, se o PS for governo, coisa que duvido tal a imagem que o Partido tem dado de si, partido e repartido em facções, interesses, convicções tão diferentes e silêncios vários. Do alto da sua obra, que inclui uma passagem pelo BES ora falido, Besiché quer mas Besiché não terá. Por mim, estou farto de engolir sapos até à congestão. Voto Sampaio da Nóvoa na primeira volta. Se o candidado de direita, mais à direita que Besiché bem entendido, não ganhar logo e houver uma segunda, não votarei se a opção "de esquerda" for a Besiché. Será a minha primeira abstenção em eleições presidenciais. Mas chega de Belenzadas, Cavacadas, jogadas de bastidores para que, mudando a figura de Belém como manda o figurino, tudo fique na mesma. Um país falhado. Uma classe política, não toda mas uma grande parte, encostada à bananeira de uma República de faz de conta que lhes engorda a conta. 

Chega. O PS fez a cama. Não serei eu a lavar-lhes os lençóis depois de os emporcalharem com as suas proezas asininas. Ou assisinas. De assis. E quem diz assis diz vitorino, diz lello, diz brilhante, diz seguro, tudo gente minúscula à espreita do grande assento.


muralhados!

De postiço no toutiço, para melhor acondicionar a trampa, Trump anda por aí, à rédea-solta, a arengar contra os mexicanos, na sua opinião criaturas patibulares que não deveriam conviver com os americanos, nem sequer para os servir em regime de escravidão. Trump-trampa quer um muro a separar o México da gloriosa pátria que tal filho pariu. Do lado de cá, na Hungria, já se está a construir um muro para impedir a entrada de refugiados no país da novel ditadura sobre a qual a UE nada diz a respeito, porque os ratos não falam. Na Bulgária, também se projecta a construção de um muro para que a gentalha, fugida à morte, não encontre melhor sorte. Nas leis do trabalho, na política salarial, na prática desumana dos governos, na crueldade de costumes, os tempos medievais estão de volta, a era das trevas repete-se para gáudio de Trumps e governantes de trampa dominados por uma elite financeira cuja moralidade está ao nível do esgoto.

As novas muralhas ficarão para a História como símbolos da nossa vergonha. Para quando o século das luzes?

14/08/15

arfai, arfai, damas do meu país!

Coelho foi eleito o sétimo político mais sexy do mundo. Deve ser por nos andar a fornicar a todos desde há quatro anos. Há quem goste. Quem peça mais. Quem vá votar para ter mais. Umas doidivanas. Ou assim.

E que dizer de Cavaco Silva que, numa lista de 200, ficou em 72º lugar? Ou a política mundial anda pelas ruas da amargura ou o voto foi pedido a senhoras para cima de 90 anos e com falta de vista.

Eu acho.

Correio da Manhã


as armas dos canalhas

Lembro-me da tentativa de liquidar politicamente Lurdes Pintasilgo, quando esta concorreu à presidência. Que era lésbica, diziam uns. Que era da Opus Dei, diziam outros. Sócrates também não escapou, andava "metido" com um actor. Agora é Sampaio da Nóvoa. Que se trata de um desertor, não podendo por isso ser o chefe supremo das Forças Armadas. Todas as armas são úteis para combater o inimigo. Os fins justificam todos os meios.

Mesmo que seja verdade, que Sampaio da Nóvoa tenha "fugido à tropa", terá sido antes ou depois do 25 de Abril? Faz toda a diferença. Se antes, merece ainda mais o meu voto.





quando a política mete nojo

A gente sabe como os detentores do poder, e os aspirantes ao mesmo, mentem, intrigam, deixam cair suspeitas sobre gente tantas vezes impoluta. Agora, é Sampaio da Nóvoa que está na corda-bamba, tal como Lurdes Pintasilgo o esteve há anos quando se candidatou à presidência da República, de beatona a lésbica tudo lhe chamaram, ou, mais recentemente, Sócrates, de quem correu o boato (feito circular propositadamente, soube-se sem que os culpados tivessem sido beliscados) de que teria juntado os trapinhos com um actor da nossa praça. Agora, repito, o alvo é Sampaio da Nóvoa. Ainda lhe hão-de descobrir um arranjinho com o diabo em pessoa, um passado comprometedor, um antepassado condenável, que prefere bifes mal passados, que gosta de sangue, seja o que for. Por agora, à falta de melhor, andam pelas redes sociais, a mando sabe-se lá de quem, a chamar-lhe desertor e a negar que o homem seja de esquerda, de esquerda será Maria de Belém ou até, os milagres acontecem, Marcelo Rebelo de Sousa. A prova? Então ele não aceitou ser presidente da comissão organizadora das comemorações do 10 de Junho de 2012? Então ele não é unha com carne com o Cavaco?

Agora pergunto eu: e o discurso que fez, demolidor para os senhores que mais ordenam? Reproduzo-o aqui. Para repor a verdade. Para calar os trapaceiros, os envenenadores, os boateiros, os intriguistas, sejam eles de direita ou ... de esquerda. No melhor pano cai a nódoa. Nóvoa merece respeito. Quanto mais não seja.

13/08/15

esta cachola não pára, nem no samouco para meter água!


A criatividade de Passos e da sua trupe não tem limites, as cachimónias fervilham de ideias, trabalham a mata-cavalos para se salvarem do naufrágio iminente. E sabem da poda como ninguém. Maquiavel, se fosse vivo, não desdenharia tê-los como discípulos. Ah canudo!, eles sabem o que fazem, tiro-lhes o chapéu. Sempre disse, e continuo a dizer, que Coelho não vai largar o poder sem dar luta. Agora, para lá das mentiras, das promessas, da propaganda que fazem aos partidos respectivos enquanto governantes, da sua omnipresença nas televisões, da comunicação social que lhes está engajada, eis que inventaram uma nova modalidade de campanha eleitoral: fazer leis benéficas para um ou mais grupos de eleitores ... a serem aprovadas depois das eleições, neste caso os velhinhos que tanto fizeram penar estes quatro anos.

Como quem diz:

Está tudo prontinho, a lei que o vai favorecer está escrita, pronta a ser publicada em Diário da República, mas como deverá compreender agora só depois das eleições. Vote em nós se quiser garantir esta benesse. Não seja lorpa, ouviu?

Como é que a política pode ser tão nobre nuns casos, tão pobre noutros tantos? De elevados princípios ou de uma baixeza atroz? 

Quem nos tira da lama? Quem desfaz a cama que só alguns fizeram mas onde todos temos de nos deitar?

venho dar uma mãozinha ao PS

Eu quero lá saber se o PS produziu cartazes a fazer lembrar o divino espírito santo ou se o PAF - vulgo PSD/CDS - recorreu a bancos de imagem estrangeiros para a sua campanha eleitoral. Estou-me nas tintas. Borrifando e andando para não cheirar mal. O que devia estar a ser discutido, e em força, eram as propostas políticas (e não as promessas, as mentiras e as promessas mentirosas), eram os projectos para o País de cada um e, diz-me o que fizeste dir-te-ei o que és, o que se fez de muito errado, de erradíssimo, de pecaminoso, de criminosamente errado durante o consulado do PSD/CDS, agora PAF como quem bate leve, levemente.

Não faço grande questão em que o PS ganhe as eleições, mas tenho todo o empenho em que o PAF as perca. Como os portugueses ainda não descobriram uma alternativa ao alterne, então que ganhe o PS, e e é por isso que lhe venho dar uma mãozinha.

O PS não tem criativos à altura para fazer "passar a mensagem"? Edson Athaíde está em baixo de forma? Os copywriters emigraram todos? As agências de publicidade e de imagem em Portugal cobram preços exorbitantes por maus serviços?

Eis o meu conselho: esperem que o PAF deite cá para fora os seus cartazes; depois, o mais rápido possível e nunca mais de uma semana depois, coloquem vocês os vossos cartazes desmentindo os mentirosos, por palavras e números. Dados estatísticos que não deixem margem para dúvidas sobre a grosseira mistificação da nossa, no dizer do PAF, luminosa realidade.

Eles dizem que criaram emprego? Atirem-lhes com os números do desemprego, da emigração, dos trabalhadores precários, dos pornográficos salários de 500 e 600 euros aplicados agora a licenciados, porque "mais vale um mau trabalho do que trabalho nenhum".

Eles publicitam a melhoria da economia? Apontem-lhes com as falências, com o difícil acesso ao crédito, com as complicações burocráticas, com os impostos de agiota, com o empobrecimento de milhões para enriquecimento de uns tantos.

Taco a taco, ponto por ponto, rebatam-nos, desmintam-nos, ponham-nos KO. OK?


12/08/15

os agarrados ao tacho também curtem panelas

Foi o panelaço. Manifestação contra a presidenta do Brasil e o seu governo. Damas e cavalheiros ostentaram panelas que fizeram ribombar com ódio.

Isto trouxe-me à memória as senhoritas e senhoritos chilenos que, no início dos anos 70, protestavam contra Allende recorrendo ao trem de cozinha, Tempos depois, Pinochet mergulharia o país num banho de sangue e governaria sob a égide do terror e das teses neoliberais que depauperaram o Chile, embora alguns prefiram chamar-lhe milagre económico. 

O mesmo milagre económico que estamos a viver em Portugal. Privatizações tresloucadas, cortes de salários, destruição da Escola e Saúde públicas, aumento substancial da pobreza e uma elite cada vez mais rica.

Que o Brasil resista à má onda. Que os brasileiros saibam escutar os avisos da História.