10/08/13

serviço público

O Google, ou a Google, ou lá o que é, ganha rios de dinheiro mas vem provar, também, que a internet nos proporciona, basta queremos, conhecimento e deslumbramento. Para quem não conhece ainda o Google Art Project, saiba que pode ver, ao pormenor, de perto e de longe, de cima a baixo, muitas das mais belas pinturas do mundo. 

É só clicar:
http://www.google.com/culturalinstitute/project/art-project






Todas as imagens recolhidas em: http://www.boredpanda.com

09/08/13

a coelheira


Portugal está uma pocilga. Uma coelheira, melhor dito assim. Por mais que se tente limpar, os excrementos de alguns emporcalham todos. Nem vale a pena repetir, de tão sabidos que são, os atentados, a imoralidade, as injustiças, os crimes perpetrados contra todo um povo, infelizmente passivo, infelizmente pacífico, infelizmente afável. Só assim tem sido possível conspurcarem-nos, chularem-nos, martirizarem-nos sem que se ouça mais do que um queixume, um insulto inútil, um grito de revolta levado pelo vento na direcção do menosprezo. Não há crise, não há falta de dinheiro, não há plano que justifique tamanho empobrecimento, tanto vilipêndio, tanto enxovalho, tanto roubo, tanto exílio de gente capaz. Isto, meus senhores, quer queiram quer não, é fascismo mal encapotado, é a ditadura dos bem instalados, dos vencedores da vida. Há que destruir a coelheira. E deitar sal para que nada mais cresça em seu lugar. O nazismo, o fascismo, o franquismo, o salazarismo devem ficar, apenas, como páginas tristes de uma História feita de memórias trágicas. Eles, os fascistas e os sucedâneos, não podem voltar. Por mais que se troquem as fardas por fatos, os galões por gravatas, as armas por calculadoras. Não podem.

lúcido, consciente até ao fim

saltar para a morte





11 de setembro: que verdade nos escondem?





o poder é uma droga e passos que o diga

Imagem: Shahrokh Heidari (http://www.cartoonmovement.com)

o iníquo regime de castas









Por Ana Sá Lopes

Portugal tem duas classes sociais: o povo, que serve de carne para canhão para cobrir o défice – através de aumentos de impostos, cortes salariais e redução de prestações sociais –, e a nobreza, cujos benefícios serão protegidos ad aeternum.

República há mais de um século, 40 anos depois de uma revolução que prometia “igualdade entre os cidadãos”, Portugal continua a funcionar como uma monarquia tradicional, em que, por lei, o povo tem a obrigação de sustentar uma família por um acaso de nascimento. Infelizmente, ao contrário da nossa monarquia travestida, as monarquias de facto têm a vantagem de ser claras e mais escrutinadas. Se os direitos aristocráticos desta república menor também se transmitem pelo nascimento, eles reproduzem-se nos clubes de negócios, no centrão político, nos grupos financeiros, nos grandes escritórios de advogados, no incrível carrossel dos amigos políticos e dos amigos financeiros, das ligações de famílias ou do que uma boa carreira dentro do PS ou do PSD pode dar. Tudo isto converge na divisão de um país em duas grandes classes sociais: a nobreza e o povo (o clero oscila entre as duas, conforme os protagonistas e os momentos).

A ideia de que existe um “nós” e um “eles” já foi totalmente apreendida pelo povo e está na origem do quase irremediável divórcio entre a população normal e as instituições políticas. Existimos “nós”, – os remediados a quem a crise rapa as poupanças e manda para o desemprego a família – e “eles”, os que nunca vão à falência, os que nunca irão perder o emprego, os que continuarão a almoçar no Gambrinus à conta de uma empresa pública falida, aqueles que o Estado ajudará sempre por razões equívocas. O poder comporta-se – e isso é particularmente doloroso de ver em momentos como este – como Maria Antonieta antes da Revolução Francesa: “Se não têm pão, comam brioches.” É esse estado mental que permite ao governo fazer uma lei para cortar reformas, excluindo magistrados, militares ou trabalhadores da Caixa Geral de Depósitos. E, para escândalo geral, nem uma palavra diz sobre um corte proporcional nas famosas reformas dos políticos.

O comunicado da Secretaria de Estado é lapidar desta total incapacidade de perceber que o fosso entre cidadãos e poder é dramático: o senhor secretário de Estado Hélder Rosalino admite que, “caso se justifique”, o corte nas reformas dos políticos “será tratado em sede própria”. Caso se justifique, ouviram bem? Comam brioches.

Imagens: pinturas de José Malhoa

eles a privatizar e nós a pagar

As privatizações são uma das maiores desgraças que vamos herdar deste não menos desgraçado desgoverno de Portugal para governo de magnates, investidores, ditadores, trafulhas e demais representantes menores e maiores do bas-fond endinheirado. 

Leia-se Nicolau Santos. E releia-se se for preciso. É preciso agir, reagir. Custe o que custar.

Por Nicolau Santos

O processo de privatizações em curso tem sido baseado, do ponto de vista teórico, na afirmação de que introduzem maior concorrência nos mercados, logo mais eficiência, e que os privados gerem sempre melhor que o público.

E a prová-lo em todo o seu esplendor aí está a privatização da EDP, em que os preços continuam a subir, apesar da empresa pública estatal chinesa China Three Gorges ser agora o dono maioritário da elétrica nacional. Explicação para a contradiçâo: é que os preços subiriam mais se não houvesse privatização.

A prová-lo em todo o seu esplendor está a privatização, feita à bruta e por imposição de António Borges, da Cimpor aos brasileiros da Camargo Côrrea. Como é óbvio, o centro da empresa já não está em Portugal, há menos emprego para os engenheiros nacionais e as suas equipas técnicas estão a ser desmembradas.

A prová-lo em todo o seu esplendor está a futura privatização das águas. Ora se os privados puderem aumentar os preços, claro que o negócio das águas vai passar a dar lucro, até porque ninguém consegue viver sem água, não é?

E finalmente a prová-lo em todo o seu esplendor está a privatização das infraestruturas aeroportuárias nacionais, através da venda da ANA aos franceses da Vinci, com muitas promessas à mistura de que as tarifas aplicadas nos aeroportos nacionais não só começariam a descer, como estavam garantidos os investimentos necessários nos vários aeroportos e, a prazo, a construção do novo aeroporto de Lisboa.

Ora hoje soube-se que para cumprir este plano a ANA decidiu aumentar desde já em 4,4% as tarifas aeroportuárias. Queixavam-se os operadores que as nossas tarifas não eram concorrenciais? Agora, como são geridas por privados, vão seguramente ficar muito mais concorrenciais, apesar deste aumento de preço.

É assim: eles a privatizar empresas que produzem bens públicos (excepção para a Cimpor) e nós, cidadãos, consumidores, clientes e contribuintes, a pagar. É fácil, é barato e dá milhões. A uns. E tira aos outros. A economia é uma ciência muito bonita.

ah, o tempo ...


Fotografia inferior: Andy Gotts (http://www.andygotts.com/)

08/08/13

tolos com artes de malvadez


Se o meu amigo, ou amiga, não anda a dormir na forma nem está entre os privilegiados da Nação, já devia ter adivinhado que, com estes governantes, o Sol, quando nasce, nunca é para todos. Tem sido assim desde sempre. Os grandes empresários ficam de fora da crise. Os banqueiros são imunes à austeridade. E os políticos, porque quem parte e reparte e não fica com a melhor parte ou é tolo ou não tem arte, também não são abrangidos pelos cortes nas reformas, agora anunciados como se de boa notícia se tratassem ("podia ser pior mas nós, os vossos beneméritos, conseguimos esta esmola que vos damos em troca de gratidão e do vosso voto"). Tal como os polícias e os militares não vão ser afectados pelos cortes, há que acalmar a fera, lançar-lhe um torrão de açúcar, um punhado de palha, carniça ensanguentada, qualquer engodo. Tal como os magistrados e os diplomatas, que se distinguem do resto da maralha pela sabedoria ou classe de primeira.

Esperemos um longo Inverno. Sem Sol. Ou há moral ou comem todos.

o farrobodó de paulo portas

Rubens, Coroação de Maria de Médici
A gente ainda ganha alguma coisa ao ler a imprensa pátria. Hoje, na Visão, relembraram-me a origem da palavra farrobodó. O 2º Barão de Quintela e 1º Conde de Farrobo, Joaquim Pedro de Quintela de seu augusto nome, era amigo da pândega - de putas e vinho verde, diríamos nós agora - e organizava luxuosas festanças no seu palácio às Laranjeiras. Esse mesmo, o palácio agora e em boa hora ocupado por Paulo Portas, vice primeiro-ministro, ex-ministro dos Negócios Estrangeiros, ex-ministro da Defesa, presidente do CDS, um submarino emergente numa terra de cegos onde quem tem olho é rei, nunca réu. Os alfacinhas, desde sempre dados ao escárnio sem consequências, e em alusão às festas de D. Farrobo, engendraram a expressão forrobodó, que ficou como sinónimo de foliada, folia, folguedo, farra, regabofe, galhofa. O D. Farrobo é que, coitado, não se aguentou nas canetas e, nessas festarolas abrilhantadas por reis e rainhas, cantores de ópera e a fina-flor da pelintrice lusitana, estoirou toda a fortuna da família.

Portas, que não se fica atrás de D. Farrobo em altivez, pergaminhos e propensão para a estróina, também não olha a gastos para satisfazer os seus caprichos. Para ocupar o palácio, teve que despejar o Arquivo Histórico do Ministério da Educação - que só lá estava há um ano fruto de elevado investimento -, tendo este regressado à 5 de Outubro de onde tinha saído por falta de condições.

Pois é, é isso mesmo, o farrobodó continua. Portas não olha a gastos quando se trata da Sua pessoa, do Seu prestígio, da Sua vaidadezinha de fidalgo gorado. Desde que, claro está, sejamos nós a pagar a conta. 

O que, de facto, vai acontecer. Pagaremos com gosto. Faz-nos falta um bacanal de quando em vez, quanto mais não seja de dinheiro.

quanto mais falam, mais se enterram


Já não sei a quantas andam com esta coisa dos swaps até porque, valha a verdade, ligo mais às medidas de latrocínio do governo do que às suas mentirolas, assim como assim estão a mentir desde 2011 quando Coelho prometeu mundos e fundos e o mais que fez foi atirar-nos para o fundo. Por isso, se a Maria Luís aldraba, se o seu secretário de Estado foge à verdade como o diabo da cruz, tanto se me dá como se me deu. Se falo disto é porque as últimas notícias são hilariantes. Contado tem graça, não sei é se alguém acredita. Vejamos: a SIC revelou um documento que parece comprovar as intrujices do dito secretário. O governo, lesto, afirmou logo a seguir que o documento tinha sido forjado. Sabe-se, agora, que o documento em causa foi emitido pelo próprio gabinete do primeiro ministro. A barafunda é de tal ordem que convém pedir a ajuda de Poirot, ou Marlowe, ou Sherlock, ou Maigret, para deslindar o caso. É que há tanta intrujice de tantas fontes, todas vindas do mesmo lado, que convém separar o trigo do joio.

07/08/13

imagem de sonho para que se acabe o pesadelo


troika que te pariu

Por António Costa Santos

Vão tirar 30 euros à pensão de viúva da tua mãe, pois vão. Não bastava a lei das rendas, pois é. O teu cunhado ficou sem subsídio e continua sem emprego, pois continua. Estás à rasca para pagar a luz, pois estás.

Olha, desculpa lá, mas não te queixes. Se não fazes nada, é mais elegante estares calado. Ou lhes dizes que se acabou a papa doce, ou não dizes e não fazes figuras tristes. Vai lá para a praia, para o futebol, vai lá pagar a conta da farmácia da tua mãe, morre e não bufes, vai bardamerda.

Nós não estamos a ser vergados, escorraçados, abusados, vilipendiados, gozados, espezinhados, condenados a uma vida quanto mais rápida, melhor - deixamo-nos vergar, escorraçar, abusar, vilipendiar, gozar, espezinhar, condenar. 

Não fomos invadidos - deixámo-nos invadir e não queremos saber. 

Não estamos a ser aniquilados - deixamo-nos aniquilar e não queremos saber. 

Estes bandalhos terroristas, estes fascistas (ri-te, pois, chamar fascista à corja dá sempre vontade de rir, o fascismo, ou nunca existiu, ou já não existe, faz parte da História; é um exagero, pois é, vivemos em democracia, não vivemos? podemos mandar vir no facebook, não podemos?), estes capachos de banqueiros e financeiros, onde nem os donos limpam os pés para não sujar de merda os sapatinhos, quem os pôs cá fomos nós, quem não os tira de lá somos nós.

Queres defender-te e defender quem não pode defender-se - os velhos, as crianças, os miseráveis, os doentes -, defende-te. Se não queres, troika que te pariu, mereces tudo.

haja quem lhe corte o pio ou outra coisa qualquer


Ontem um secretário de Estado qualquer, não sei se aquele com ar de azeiteiro, veio descansar a populaça timorata: o corte nas pensões não ultrapassaria os 10%. Viva, viva o governo e quem o apoiar! Afinal, não nos cortam a vida, só 10% dela! Os reformados, muitos dos quais mal têm dinheiro para comer, que vão à farmácia aviar apenas uma parte dos remédios da receita, os que lhes são vitais, afinal de contas levam só um golpe de 10%, uma ninharia, coisa sem importância, de lana caprina. Claro que o secretário de Estado, não sei se o azeiteiro mas deve ter sido, aliviou os portugueses até aqui em sobressalto permanente. Ficámos mais descansados. À espera, já à espera, do que virá a seguir.

Portas, aquele mesmo que jurou que nunca aceitaria a TSU dos reformados, é o mesmo que, agora, aceita (e apoia, a poia apoia) os mesmíssimos cortes com outro nome.

Haja quem lhe corte o pio. Para que não minta, não ludibrie, não engane o pagode. Que assustadiço seguirá. Até que o governo se reforme. 

mundo feio

Por Rosa Maria Martelo

Não sei dizer “até que ponto” as redes sociais amplificam as “frases menos felizes” das figuras públicas, embora me pareça que fazem ecoar de maneira significativa a irritação e a revolta que essas frases provocam. E também não saberia quantificar a desqualificação a que terá chegado a imagem das “elites” financeiras e políticas, ou o grau de tensão entre as classes sociais. Não sei quantificar, mas sei que tudo isso existe – e acima de tudo sei que as desigualdades aumentam todos os dias em Portugal. E sei que nessas frases, apontadas como “menos felizes” (não serão simplesmente “infelizes”?), ou pelo menos em muitas delas, o que revolta é precisamente a indiferença perante a desigualdade crescente da nossa sociedade. Desse ponto de vista, Fernando Ulrich foi paradigmático quando inquiriu: “Se os sem-abrigo aguentam porque é que nós não aguentamos?” Apetecia logo perguntar: “Nós, quem?” É que, gramaticalmente, aquele “nós” incluía o locutor, isto é, desdobrava-se num “eu+vós”; mas, simultaneamente, a condição socioprofissional de Ulrich excluía-o de “aguentar” o que quer que fosse de comparável com a vida de um sem-abrigo. É claro que seria possível pensar que o “nós” pretendia englobar os portugueses e Portugal, mas mesmo isso não invalidaria o que acabo de descrever – e a indiferença perante o aumento da desigualdade em Portugal manter-se-ia claramente audível naquela pergunta. Ou seja, o que o pronome “nós” nivelava, mas só gramaticalmente, era precisamente o que a financeirização da economia e o decorrente protagonismo da banca tem vindo a desnivelar: as classes sociais, que estão cada vez mais afastadas pela (má) distribuição da riqueza.

Portanto, as palavras não são irrelevantes na criação de desigualdade. Todavia, mais que criticar as “frases infelizes” de alguns protagonistas, interessa entender que, como mostra Doreen Massey, palavras como “cliente”, “consumidor”, “mercado” modelam quer a nossa visão de nós próprios quer a nossa visão do mundo e criam a ilusão de que o mundo é “isto” porque não pode ser outra coisa (o tal TINA neoliberal, o inefável “there is no alternative”). Parece-me bem mais grave a modelização que estes novos vocabulários estão a gerar do que propriamente haver uma senhora que fala das suas férias como “brincar aos pobrezinhos”. De resto, a senhora em causa pediu publicamente desculpa.

Vivemos cada vez mais numa sociedade concebida como uma espécie de arquimercado, no qual a transacção seria o paradigma de todas as relações humanas. As “frases infelizes” são um sintoma disto mesmo, e muitas vezes também resultam da ignorância cultural de quem supõe que só a economia e a técnica importam. Nos últimos tempos, os chamados pontapés na gramática por parte de figuras importantes da política nacional têm sido de bradar aos céus.

Em síntese, não são propriamente os pobres dizeres das frases infelizes que geram a revolta; é o mundo feio, desigual, ignorante, opressivo e inumano de que eles são o sintoma. Esse mundo desigual e injusto é que está a gerar cada vez mais revolta.

06/08/13

dos barões da alta roda


Diz-me a Wikipédia que o fundador do clã Espírito Santo foi abandonado na roda, recolhido por freiras que o criaram, lhe deram o apelido e, pelos vistos, os atributos necessários para vencer na vida e fazer fortuna no mundo da finança, império que, teimosamente, contra ventos e marés, revoluções e bancarrotas, persiste até hoje. Ao longo de décadas, para aprimorar a raça, os Espírito Santo foram-se cruzando com outras castas de origem demarcada, os Ricciardi, os Abecassis, os Cohen, os Moniz Galvão, os Orey, os Bustorff, os Mello, os Brito e Cunha, os Barão da Veiga, os Castelo-Branco, os Borges Coutinho, os Mayer, os Pereira Coutinho, os Simões de Almeida, os Drummond, os Whele, os Ekman, os Pinto Basto, os Mello Breyner, tantos e tão sonoros nomes estrangeirados para dourar um apelido doado pelas irmãzinhas em hora de caridade. Um ou uma Espírito Santo não se casa com um Almeida, com um Sousa, com um Carvalho, com um Ferreira. Casa-se com um conjunto de apelidos de estridente ressonância, com dinheiros e influências, com sangues pretensamente azuis.

questionário da mulher de césar

Por Artur Portela

1) Foi?
2) Não foi?
3) Era?
4) Não era?
5) Nunca foi?
6) Nunca teria sido?
7) Não é?
8) Não será?
9) Nunca será?
10) Esteve?
11) Não esteve?
12) Nunca estaria?
13) Aconselhou?
14) Não aconselhou?
15) Nunca aconselharia?
16) Apresentou?
17) Não apresentou?
18) Nunca apresentaria?
19) Vendeu?
20) Não vendeu?
21) Nunca venderia?
22) Ajudou a vender?
23) Não ajudou a vender?
24) Nunca ajudaria a vender?
25) Se tivesse estado, lembrar-se-ia?
26) Se, mesmo não tendo funcionalmente estado, tivesse estado infuncionalmente, de que é que se lembraria?
27) E de quem é que se lembraria?
28) E de quem é que não se lembraria de certeza?
29) Não se lembra se se lembra?
30) Lembra-se perfeitamente de que se lembra que não se lembra?
31) Lembra-se perfeitamente, não apenas de que se lembra de que não se lembra, mas também de que não tem de que se lembrar, dado que a memória não é da sua competência, tanto que, para se lembrar, tem de consultar o seu cv oficial?
32) Lembrar-se-ia se se lembrasse ou, porventura, se se lembrasse, muito possivelmente não se lembraria?
33) Não se lembra de quem estava?
34) Não se lembra de quem não estava?
35) Não se lembra de quem, embora não estando, poderia e até deveria ter estado?
36) Não se lembra de quem teria, entreaberta a porta, assomado a ela?
37) Não se lembra de quem chegou depois e saiu antes?
38) E antes de quê?
39) E onde?
40) Onde?
41) Onde?
42) E a fazer o quê?
43) A que horas?
44) De que horas a que horas?
45) Com quem?
46) Com quem?
47) E com que objectivo evidenciado?
48) E com que objectivo inevidenciado?
49) E com que subjectivo?
50) Com que quê e com que quem?

Com que quê e com que quem, senhor secretário de Estado?

a vida é perigosa

Por Nuno Ramos de Almeida

O real primeiro-ministro para além de Massamá, o doutor Paulo Portas, produziu alguns considerandos sobre o papel pernicioso da utopia na história. Nada que assuste muito a dita cuja, que certamente fará, como qualquer ideia séria, orelhas moucas a sound bites parlamentares, mas não deixa de ser matéria-prima para um diário, que, como notava Manuel António Pina, estará amanhã, como todos os jornais, a embrulhar o peixe.

Portas defendeu que as utopias eram perigosas e que em política a falta de adesão à realidade sai cara.

Em geral, os dignitários da direita embirram com o desejo dos povos de não aceitarem aquilo que lhes é dado como inevitável, isto apesar de o nosso actual Presidente ter feito encomiásticos elogios a Thomas Mann pela escrita da "Utopia" de Thomas Moore.

Um perigoso subversivo, com a característica simpática de viver com duas gémeas, defendia que a prova do pudim está no pudim. De alguma forma, podemos ajuizar as vantagens do "realismo" contra a utopia vendo os resultados que esta política nos deu. Depois de mais de 30 anos de "realismo", temos Paulo Portas no governo, tivemos Miguel Relvas no executivo e fomos realisticamente comandados pelos políticos do centrão. Podemos dizer que, em resumo, uma quantidade de gente fez excelentes negócios, mas os portugueses só ficaram a perder: temos o país mais desigual e dos mais atrasados da União Europeia, com os gestores das grandes empresas mais bem pagos da dita cuja.

No final dos governos Cavaco Silva, ele próprio, olhando para o vale do Ave, reparou que "tínhamos empresários milionários com empresas falidas".

Os grandes frutos de décadas de "realismo" estão inscritos nas promissoras carreiras dos ministros que transitam alegremente dos governos para os grandes grupos económicos, com os quais negociaram chorudos contratos à conta dos netos dos contribuintes, dos filhos, netos e bisnetos destes.

O "realismo" de Paulo Portas significa pregar a aceitação daquilo que está, que tanto jeito lhe tem dado a si e aos seus.

No outro prato da balança temos a utopia e o irrealismo. Foram gerações de pessoas que eram pouco realistas que combateram durante 48 anos pela liberdade em Portugal. Seria para eles muito mais cómodo calar e comer. Mas assumiram decisões perigosas, foram irrealistas e ajudaram a conquistar a liberdade que hoje temos. No meio da noite da ditadura a liberdade não passava de uma utopia.

Dizem-nos os mercadores do templo em geral e os "realistas" portugueses em particular que tudo isso é metade da questão: a história está cheia de utopias sangrentas. Verdade. Mas foi dessa massa que nasceu tudo aquilo que de transcendentemente humano conquistámos. Sem excessos, paixões e entrega seríamos escravos. Foi de uma história generosa e por vezes sangrenta que se fizeram as revoluções, como a Francesa, que nos permitiram sonhar em liberdade, querer mais igualdade e fraternidade.

Orson Welles tem um diálogo fantástico, no início do filme "O Terceiro Homem", em que nos diz: os italianos tiveram guerras civis, os Bórgias e uma série de catástrofes, mas produziram artistas como Leonardo da Vinci, Botticelli, Rafael, Miguel Ângelo, Bellini e Tintoretto. Os suíços tiveram 500 anos de paz e inventaram o relógio de cuco.

uma pequeníssima amostra da podridão política


Rui Machete falava há uns dias sobre a podridão da política. Eu hoje quero falar dos políticos podres de ricos graças à podridão da política. A breve resenha que se segue está, forçosamente, por falta de tempo e de paciência, bastante incompleta, mas ainda assim é reveladora. Recolhida no livro OS PRIVILEGIADOS, de Gustavo Sampaio (que recomendo vivamente a quem tiver nervos de aço, coração de betão e estômago à prova de bala), esta lista mostra em que empresas alguns dos nossos políticos, ex-políticos e, sobretudo, ex-governantes exercem actualmente os seus elevados cargos, recompensados a peso de ouro. Isto sem falar das reformas que muitos recebem por cima dos honorários, além das subvenções vitalícias pagas por todos nós. E sem falar, também, das inúmeras Inspecções-Gerais, Direcções Gerais, Direcções Regionais, Comissões de Coordenação, Institutos, Agências, Programas Operacionais, etc., etc., etc., tomados de assalto pelas hostes do PSD e do CDS, agora que os seus chefes estão no poder. E sem falar, ainda, do número de deputados que acumulam com cargos no exterior, muitas vezes, pelo menos eticamente, incompatíveis com os interesses do Estado, e só esses, que deveriam defender no hemiciclo.

Foram estas as portas que Abril abriu? As do tráfico de influências, dos jogos de interesses, do compadrio, da rapacidade, da imoralidade transversal, incontornável e recorrente, para usar três palavrotas da moda?

Alfredo Navio (PSD)
STCP
Álvaro Barreto (PSD)
BCP
Álvaro Castello-Branco (CDS)
Águas de Portugal
Álvaro Pinto Correia (PSD)
BES, Portugal Telecom
António Borges (PSD)
Jerónimo Martins, consultor especial do governo para as privatizações
António Cardão (PSD)
BCP
António Ferreira de Lemos (CDS)
ANA
António Lobo Xavier (CDS)
BPI, Mota-Engil, Sonaecom
António Mexia (PSD)
EDP, EDP Renováveis, BCP
António Nogueira Leite (PSD)
EDP Renováveis, Caixa Banco de Investimentos
António Vitorino (PS)
Novabase, Brisa, Finpro (grupo Amorim), Santander Totta, Siemens Portugal
Armando Vara (PS)
Camargo Corrêa
Artur Santos Silva
Fundação Gulbenkian, BPI
Carlos Costa Pina (PS)
GALP Energia
Celeste Cardona (CDS)
EDP
Daniel Bessa
GALP Energia, Sonae Indústria
Daniel Proença de Carvalho
ZON Multimédia, BES, GALP Energia, Cimpor/Camargo Corrêa, Socitrel, Edifer, Renova
Eduardo Catroga (PSD)
EDP
Emílio Rui Vilar
REN
Fernando Angleu (PSD)
SIMAB
Fernando Faria de Oliveira (PSD)
CGD
Fernando Gomes (PS)
GALP Energia
Fernando Teixeira de Almeida (PSD)
Banif
Francisco Murteira Nabo (PS)
Novabase
Gonçalo Martins Barata (CDS)
Águas de Portugal
João Rebelo (PSD)
Metro-Mondego
Joaquim Coimbra (PSD)
Galilei
Joaquim Ferreira do Amaral (PSD)
Semapa, Lusoponte, LVT
Joaquim Pina Moura (PS)
Iberdrola
John Souto Antunes (CDS)
Parque Expo
Jorge Braga de Macedo (PSD)
EDP
José Lamego (PS)
Portugal Telecom
José Luís Arnaut (PSD)
REN
José Luís Ribeiro dos Santos (PSD)
REFER
José Oliveira e Costa (PSD)
Galilei
José Rui Roque (CDS)
REFER
Júlio Castro Caldas (PSD)
ZON  Multimédia
Luís Amado (PS)
Banif
Luís Campos e Cunha
GALP Energia
Luís Mira Amaral (PSD)
BIC, Novabase
Luís Palha da Silva (PSD)
GALP Energia
Luís Valente de Oliveira (PSD)
Mota-Engil
Manuel Cabral Castelo-Branco (CDS)
CTT
Manuel Frexes (PSD)
Águas de Portugal
Manuel Queiró (CDS)
CP
Miguel Luís de Sousa (PSD)
Banif
Miguel Veiga (PSD)
BPI
Nuno Fernandes Thomaz (CDS)
CGD
Paulo Mota Pinto (PSD)
ZON Multimédia
Paulo Pitta e Cunha
BES
Paulo Teixeira Pinto (PSD)
EDP
Rui Machete (PSD)
CGD
Rui Pena (CDS)
EDP

que seria de nós sem o amor?

Este é o Leão. Pelo segundo dia consecutivo, permanece junto do túmulo do dono, morto após um aluimento de terras, no Rio de Janeiro, em Janeiro de 2011.

 Um soldado alemão, libertado pelos soviéticos, reencontra-se com a filha, que não via desde que esta tinha 1 ano de idade.

 Christian, um menino de 8 anos, chora numa cerimónia de homenagem ao seu pai, morto no Iraque.


Uma mãe conforta o filho, após terem perdido a casa onde viviam, devastada por um tornado, em Abril de 2011, em Concord, Alabama.

 O dono abraça o seu cão, salvo do interior de sua casa, destruída por um tornado, também no Alabama, em Março de 2012.


 No décimo aniversário do 11 de Setembro, um pai presta tributo ao filho, morto nos atentados.

Depois de 7 meses em missão no Iraque, uma mãe reencontra a filha.

Ao quarto dia após o tsunami que abalou o Japão, esta menina de 4 meses foi miraculosamente resgatada por entre os destroços.


Durante os motins em Vancouver, no Canadá, dois manifestantes beijam-se depois da rapariga ter sido derrubada pela polícia.

Uma tem 76 anos. A outra 84. Foram o primeiro casal lésbico a oficializar a sua união, através do casamento, em Manhattan, Nova Iorque.

Durante as comemorações do Dia dos Veteranos, em Dallas, um sobrevivente de Pearl Harbor abraça-se a um marine que, ferido no Iraque, perdeu uma mão, uma perna e um olho.

Fotografias recolhidas em: http://www.buzzfeed.com