09/03/13

um zero à direita, um zero para a esquerda

Cavaco falou. Ou melhor, escreveu porque falar não é o seu forte e é para escrever que servem os ghost writers lá do palácio, o orçamento da presidência é generoso e dá para isso e muito mais. Cavaco escreveu. Para criticar o governo. Mas seria o governo de Coelho? Não, antes foi para criticar o governo de Sócrates, defunto já morto, enterrado e em processo final de putrefacção. Cavaco escreveu. Para dizer que Sócrates foi o responsável pela crise que vivemos actualmente, ou seja, insistindo na grosseira mentira com que Passos foi eleito, ignorando a crise financeira americana que está a pôr o mundo de pantanas, fechando os olhos à acção nefasta de Merkel ou Barroso e à sua própria actuação enquanto primeiro-ministro impulsionador, com gosto e sem arrependimentos, muito menos enganos ou dúvidas, da devastação dos sectores produtivos do País. Cavaco é Cavaco, escavaca o respeito que qualquer um deveria ter pela presidência da República. E tenta, arduamente, justificar o seu silêncio, o seu dolce fare niente em reuniões e conciliábulos pelos dourados salões de Belém, com os seus tapetes persas, jarrões da Companhia das Índias, serviços Vista Alegre, reposteiros de brocado e agora, felizmente, isento de microfones escondidos nos interstícios das paredes decoradas a trompe l'oeil e retratos de Carmona, Tomás e Spínola, três dos heróis de tempos idos. Cavaco é Cavaco. Escavaque-se Cavaco. Para que não continue a escavacar o País. Não merecemos um presidente assim. Não queremos um presidente assim. Passos e Cavaco, juntos até que a morte os separe, são um concubinato que nos está a sair caro. Fatal.

lisboa, minha

liberdade




antónio borges, um ser infecto

Por Samuel
http://samuel-cantigueiro.blogspot.pt

António Borges é um salafrário viveu toda a sua inútil vida de parasita como lacaio da pior escória do capitalismo selvagem e sem pátria. Recentemente, decidiu cravar os dentes nas veias dos trabalhadores portugueses. Só do seu “part-time” como consultor do governo, ganha cerca de vinte e cinco mil euros mensais pagos directamente pelos contribuintes. O salafrário acha que «o ideal era que os salários descessem», juntando assim a sua extremamente bem paga opinião à polémica sobre a descida, ou subida do Salário Mínimo Nacional.

Esta posição de António Borges pode querer dizer muita coisa... mas uma quer dizer de certeza: o grandecíssimo "filho da puta" que, evidentemente, sabe bem que são estes a quem quer baixar os salários que lhe pagam o estilo de vida milionário, mostra que para além de gostar que os "seus" euros corram como um rio, todos os meses em quantidades descomunais para a sua conta bancária... gosta também que eles venham a saber a sangue e a morte!

Façam-me o favor de não me perguntar o que é que eu desejaria que acontecesse a este tipo de bandalhos, caso os ventos da História, juntamente com o nosso esforço, nos proporcionassem uma nova Revolução. Receio que a minha resposta dê cabo do pouco que resta da minha antiga imagem de “boa pessoa”!

fujam portugueses que vai haver merda no beco


Um cartaz à entrada de um café algures no Brasil. E o nosso governo, que tanta merda tem feito e não paga nada? Antes pelo contrário, rouba todo um povo, quer transformá-lo numa vasta multidão de maltrapilhos para sustentar os Borges, os Salgueiros, os Catrogas, os Duarte Limas, os Dias Loureiro, os Ulrich, as Jonet da nossa praça, esses sim, todos eles, os verdadeiros cagões da Nação.

A semana que passou foi fértil em diarreias expulsas pelos cérebros destas criaturas. João Salgueiro quer os desempregados (todos eles, licenciados ou não) a limpar matas. Passos e Borges uniram-se para alvitrar, por enquanto só alvitrar, que o salário mínimo deveria descer para ajudar à criação de emprego (para uma multidão de maltrapilhos, está bom de ver). Os reformados da banca estão "indignados" porque, dos 40.000 euros que alguns recebiam agora só lhes vêm parar às mãos uns míseros 10.000. A Direcção Geral de Saúde vai publicar um livro que ensina o povoléu a substituir a carne, a comer sopinhas, a reduzir a conta do supermercado porque todo o dinheiro é pouco para o fisco, para a banca, para os luxos de um Estado pária que não abdica das grandes negociatas para os amigalhaços, das viaturas de luxo, dos milhentos assessores e secretários, dos costumeiros jobs for the boys. Álvaro Pereira anuncia o desvio de quase 4.000 milhões de euros para a construção civil, o mesmo que querem surripiar à Saúde, à Educação, às Prestações Sociais. Cavaco Silva, do alto do seu cadeirão presidencial, mantém-se firme e hirto na sua vontade de nada dizer, de não nos socorrer, um pusilânime general num labirinto de indecisões e cobardias.

Só nos resta chamar, com urgência, os serviços de desentupimento de esgotos. A merda está a subir, transborda dos muros de Belém e São Bento, já nos está a chegar aos bolsos. Não tarda nada, vai-nos atingir as vidas.

se o governo não cai a bem é porque só cairá a mal?

Por Tiago Mota Saraiva
http://www.ionline.pt

E se, no passado sábado, depois de ter sido lida a moção de censura popular aos governos da troika, tivesse havido um apelo para que o povo tomasse o Palácio de Belém? Se tenho para mim que uma parte das pessoas teria regressado a casa, acho que a esmagadora maioria seguiria para Belém. Mais, seria possível que muitos, pelo país fora, decidissem acorrer a Lisboa nos dias subsequentes. Muito provavelmente os dias subsequentes seriam de enorme tensão, a que não faltariam actos de pessoas desesperadas, de quem nada tem a perder.

Mas se o apelo não aconteceu, também me parece que no plano das manifestações pacíficas pouco mais há a fazer. Os rios que Pacheco Pereira caracterizou já se juntaram e as suas margens estão largas como nunca.

O facto de, nem o governo nem o Presidente da República, retirarem as consequências políticas da onda de manifestações que varreu o país no dia 2 de Março, transforma Portugal num barril de pólvora. Cavaco Silva não pode tomar- -nos por parvos ao dizer que as manifestações devem ser escutadas quando o que se exige é uma matéria da sua exclusiva competência: a demissão deste governo. Para o evitar, a única resposta política que o governo podia ter dado era convocar uma manifestação em defesa da sua política, na tentativa de mostrar algum apoio popular, de que todos os governos em regimes democráticos dependem. Não o tendo feito, à beira de anunciar novos e violentos cortes e com um Presidente da República a insistir em tomar-nos por parvos, temo o pior.

Fotografia: Paulete Matos (http://www.esquerda.net)

lá vai lisboa






um sinal dos tempos

Por Constança Cunha e Sá
http://www.ionline.pt

Na ausência de qualquer política contra o desemprego, o primeiro-ministro decidiu informar o país de que afinal tinha uma solução na manga: nada mais nada menos do que baixar o ordenado mínimo para que as portas das empresas se abrissem, por milagre, aos milhares de desempregados que por aí deambulam, entupindo as ruas com manifestações e poluindo a paisagem que nos rodeia. Obviamente, e tendo em conta a miséria em causa, Pedro Passos Coelho achou por bem deixar esta sua “sensata” proposta para melhores dias. Confirma-se assim o vazio em que o governo se encontra nesta como noutras matérias. De acordo com os últimos sinais emitidos pelo primeiro-ministro, o desemprego vai continuar a subir, engrossando estatísticas e batendo recordes, até que um dia o crescimento económico nos caia em cima por obra e graça do Espírito Santo.

Até lá, o sempre prestimoso João Salgueiro encontrou uma forma brilhante de remover os ditos desempregados de cena: pô-los a trabalhar na mata para se manterem ocupados. A malandragem, supõe-se, não pode andar por aí à solta, de mãos a abanar e sem que ninguém a controle. Ao menos que vão limpar as matas, já que não sobreviveram à “selecção natural”, de que fala Passos Coelho, que apura as empresas fortes e destrói as que, segundo este darwinismo de pacotilha, não têm condições para existir. A selecção, no entanto, ainda deve estar longe de concluída, já que Miguel Relvas considera que andam por aí, sentadinhos no seu emprego, uma data de “instalados” que naturalmente necessitam de ir para a rua de forma a poderem ocupar o seu tempo nas matas de que fala João Salgueiro.

Deve ser por estas e por outras que o país está no rumo certo, como proclama orgulhosamente o primeiro- -ministro: está tudo a correr “em linha” com as previsões de um governo que, qual “engenheiro de almas”, pretende criar uma sociedade nova recheada de jovens empreendedores que vingaram nas juventudes partidárias e cresceram nas redes clientelares dos partidos. O país, em vez de se queixar e de choramingar, nas ruas ao som da “Grândola Vila Morena”, devia sim pôr os olhos em Miguel Relvas, um homem bem-sucedido que soube singrar na vida e nos negócios.

Em vez disso, os portugueses, dando razão a um dito qualquer romano, teimam em não se deixar reformar. São “piegas”, como o primeiro--ministro já explicou, que teimam em não abandonar “a zona de conforto” (o desemprego, claro) partindo ordeiramente para a sopa dos pobres de outros países europeus e, para cúmulo, não morrem, acumulando reformas de luxo, que aparentemente lhes caíram do céu sem que tivessem feito nada por isso. Por junto, um povo que se habituou a “viver acima das suas possibilidades” tem que amargar e arrepiar caminho sob pena de não estar à altura da utopia revolucionária que o primeiro-ministro generosamente lhe oferece. E, não, isto não é uma falha de comunicação do governo. É uma linguagem rudimentar, em que sobressai a ignorância e a prepotência que serve de suporte a um imenso vazio político. Um sinal dos tempos.

Imagem: http://wehavekaosinthegarden.blogspot.pt

08/03/13

mulheres cantoras







quando os lobos uivam

The War on Democracy 2007 legendado from olho.cósmico on Vimeo.

as mulheres estão em luta

na baía dos porcos

“O ideal era que os salários descessem como aconteceu noutros países como solução imediata para resolver o problema do desemprego" (António Borges, Março de 2012)

Divididos por 14 meses, estes 225.000 euros dão mais de 16.000 euros por mês. E é este o homem que acha que se deve baixar o salário de quem ganha menos de 500 por mês. Se Borges abdicasse do seu ordenado, ou se os portugueses corressem com ele como já deveriam ter feito há muito, o que o Tonico abocanha ao erário público daria para pagar o salário mínimo a, pelo menos, 30 trabalhadores. E, imagine-se, com o salário mínimo a subir para os 530 euros. 

Os porcos deveriam estar na pocilga, não em órgãos do Estado.

todos os dias, dias delas








às heroínas

Às que trabalham a vida inteira, de sol a sol. Às que fazem das tripas coração, das fraquezas força para criar os filhos, dar-lhes a vida melhor que elas nunca tiveram. Às que sofrem e, caladas, tratam dos seus como se nada fosse. Às mulheres do meu país a quem o País tanto deve mas que, desprezível, despreza, ignora, explora. Delas rezará a História.


choremos pelos contribuintes do norte da europa

Too Big to Jail
Por Daniel Oliveira
http://arrastao.org/

O Banco Central Europeu aumentou os seus lucros no ano passado. O lucro do BCE terá aumentado, em apenas um ano, 37%. Segundo o próprio e o "Wall Street Journal", isso deveu-se, em parte, ao resgate à Grécia. O seu excedente, por exemplo, que em 2011 já fora de 1,894 milhões de euros, passou, em 2012, para 2,164 milhões de euros .

Mas o BCE está longe de ser o único beneficiário público da desgraça das economias do sul da Europa. Recentemente, o governo da Holanda fez saber que, "no total, o Banco da Holanda irá lucrar 3,2 mil milhões no período 2013-2017 com a participação em operações relacionadas com a crise ". O Estado holandês, através de engenharia financeira, assumiu uma garantia de 5,7 mil milhões ao Banco da Holanda . Em contrapartida, o banco transferiu para o Estado os lucros resultantes das suas operações de ajuda a Estados e bancos. Esse dinheiro permitiu que o nacionalização do SNS Reaal (que se arruinou com operações imobiliárias em 2006, apostando em ativos tóxicos em Espanha) e o cumprimento das metas do défice. Vale a pena recordar que Jeroen Dijsselbloem, ministro das Finanças holandês, é presidente do Eurogrupo. E ele mesmo assumiu que, apesar dos riscos destas operações de ajuda às economias em aflição, a Holanda terá "ganhos substanciais".

Sabe-se também que, graças a turbulência na generalidade das economias europeias, a Alemanha, dos poucos portos seguros que restam para quem queira guardar o seu dinheiro - e nunca houve tanto dinheiro para guardar -, tem conseguido financiar-se sem custos ou mesmo com juros negativos.

Sempre que ouço os comentadores domésticos verterem lágrimas pelos contribuintes do norte da Europa, vítimas da irresponsabilidade grega, portuguesa e italiana, não consigo deixar de sorrir. Pelo contrário, enquanto a crise económica não chegar a sério a estes países, a situação aflitiva dos países do Sul e os resgates que têm sido obrigados a aceitar - e que têm tido como únicas consequências o agudizar das suas crises e aumento das suas dívidas -, têm sido excelentes notícia para os contribuintes do norte da Europa obrigados, como nós, a pagar as irresponsabilidades dos banqueiros.

Não, Alemanha, Holanda e outras economias europeias não estão a financiar a dívida dos países do Sul. Pelo contrário, as dívidas dos países do sul é que estão a financiar estes Estados. Os contribuintes dos países intervencionados têm pago a relativa estabilidade financeira dos países que financiam os resgates.

Dirão que as coisas são assim mesmo e que só nós somos responsáveis pela nossa situação. Não é bem assim, mas guardo esse debate para a próxima semana, mostrando aqui como a moeda única acentuou os desequilíbrios estruturais já existentes na Europa. Mas mesmo que isso fosse verdade, seria talvez altura de abandonar tanta gratidão para com os nossos credores, sobretudo pelos pobres contribuintes alemães e holandeses. Às vezes, e sobretudo na finança e na política, um pouco de cinismo não é mau conselheiro.

Imagem: http://www.rollingstone.com

o admirável 2040

Por Viriato Soromenho-Marques
http://www.dn.pt

O secretário de Estado do Orçamento veio tranquilizar a nação. Portugal irá regressar ao redil das boas finanças públicas, em 2040! Afinal, são só mais 27 anos de austeras correntes nos tornozelos, e depois o Sol voltará a brilhar com uma dívida pública abaixo dos 60% do PIB, como manda a lei. Só ficou por explicar como é que um país que tem perto de 20% da sua população abaixo do limiar da pobreza, e 43% em risco de nela cair se as prestações sociais forem interrompidas, irá aguentar 27 anos de apneia económica. Este Governo dominado por economistas que não conseguem acertar em nenhum indicador, e que falham todas as previsões, é uma caricatura dos ideólogos que criaram a tragédia que está a envenenar os alicerces da União Europeia. Trata-se de uma aliança de aparelhos partidários, dominados por arrivistas e aventureiros, que abusaram do monopólio da representação que as constituições lhes concedem, com burocratas medíocres mas insuflados de pretensões académicas. Os veteranos - como o atual ministro das Finanças, ou o anterior governador do Banco de Portugal (promovido a n.º 2 do BCE, depois do seu desastre como supervisor nacional, numa distorção grosseira do conceito de mérito) - são cúmplices do pequeno grupo de "engenheiros" falhados desta união monetária - sem orçamento, sem governo, sem um verdadeiro banco central - que nos lançou no abismo dos "mercados autorregulados". A sua incompetência criou a crise, de que, sem vergonha, querem agora ser os redentores. Depois de nos terem imposto o seu delírio conceptual, promovem agora a alucinação coletiva. Querem que vislumbremos luzes providenciais em 2040. Como se fossem pequenos deuses, senhores do tempo. Donos daquilo que não lhes pertence. Do tempo que lhes escapa debaixo dos pés.

aníbal escavacado silva

Por Tiago Mesquita
http://expresso.sapo.pt

Desta feita, a intervenção não foi à porta de uma fábrica de moer cereais. Foi através da única coisa que une verdadeiramente o Presidente da República Cavaco Silva à nação: a internet. Ou melhor, a página oficial de facebook do Presidente Emérito. Rezava assim, no dia de ontem:

"No próximo dia 9 de Março, data em que completo o segundo ano do meu segundo mandato, divulgarei, na página da Presidência da República na Internet, o texto do Prefácio do livro "Roteiros VII", que reúne as intervenções mais significativas que produzi naquele período. Este ano, o Prefácio diz respeito ao modo como deve actuar um Presidente da República em tempos de grave crise económica e financeira, como aquela em que Portugal tem estado mergulhado nos últimos anos."

Em primeiro lugar, percebe-se agora a vida de reclusão do Presidente - estava a escrever e, provavelmente, não queria desconcentrar-se. E um país a afundar pode ser inconveniente. Uma distração à criação literária. De destacar ainda que o Presidente vai finalmente elucidar-nos sobre a forma como deveria ter actuado e não actuou. Vai explicar-nos como deveria ter limitado a actuação de sucessivos governos incompetentes, evitando, talvez, o ponto de ruptura financeira, económica e social a que chegámos. Estou certo de que fará um mea culpa. Assistiu, impávido e sereno, à destruição de um país graças à livre e lesiva actuação de fracos políticos, escavacando-se também ele no processo. É, por isso, corresponsável pelo "escavacanço" generalizado. Das instituições, da política, dos valores, da vida das pessoas. 

Majestaticamente aninhado no seu palácio, viu muitos dos seus acólitos, alguns amigos pessoais, destruírem uma nação. Nunca lhe ouvimos uma palavra sobre o assunto. Fez exactamente o contrário. Há sarcófagos, espalhados em museus por esse mundo fora, com "intervenções [bem] mais significativas" do que as produz Cavaco Silva.

Cavaco praticou uma magistratura passiva. A actividade presidencial pode ser medida pelas aparições sua página oficial no Facebook. Enquanto o país ardia política e socialmente e este se encontrava no estrangeiro, dizia que não falava de assuntos de política interna durante as deslocações ao exterior. Quando, em Portugal, ia visitar as Minas da Panasqueira, mesmo que no Parlamento andasse tudo ao estalo, respondia que durante esse dia só falava de volfrâmio e outros minerais. Enfim...

Na verdade, ninguém está interessado em saber como Cavaco acha que deve actuar um Presidente em tempos de crise. E pela simples razão de que ninguém acha que ele actue, tenha actuado ou vá actuar alguma vez na vida. E quanto maior a crise, mais inanimado fica. Escavacado que está, mais ou menos escavacado ficará. Conseguiu, contudo, provar algo aos portugueses: é possível sobrevivermos sem um Presidente da República.

Imagem: http://henricartoon.blogs.sapo.pt/

os coelhinhos, tão engraçados, são tão pobrezinhos, os desgraçados


Em nome da boa saúde das empresas, Coelho acha uma insensatez que se aumente nesta altura o valor do salário mínimo (esquecendo-se que, sem rendimentos, as famílias não podem consumir, sem consumir as empresas não vendem, se não vendem vão à falência, mas essa é outra conversa, porque Coelho aposta forte e feio nas exportações, a partir de agora exportaremos tudo, parafusos, porcas e dobradiças, minérios e cortiças, baldes de plástico e esfregonas, batatas e hortaliças, azeite e alho, galos de Barcelos e até, como se sabe, carne humana da mais alta qualidade aos preços mais competitivos). 

Proponho a Coelho o que para Coelho é impensável: que a família Coelho viva, durante um ano, com menos de 500 euros por mês. É claro que a família Coelho contará com muitas ajudas, sem precisar de recorrer à sopa dos pobres nem de estender a mão à caridade. Se quiser, tem casa paga e não é uma casa qualquer, é um palacete com todos os confortos e toda a criadagem, serviçais atentos, veneradores e obrigados que também não precisará de pagar. Em trabalho, se é que se pode chamar trabalho ao trabalho que o trambolho faz, Coelho tem a maior parte das refeições à borla, regadas por vinhos, como se costuma dizer, das melhores proveniências. Não precisa igualmente de se preocupar com o passe social, o preço da gasolina, a manutenção da viatura, os seguros, o imposto de circulação, porque tudo isso o Estado lhe providenciará de mão beijada. Não tem que se atormentar com as contas da água, do gás, da electricidade, com a certeza de que alguém as pagará, e esse alguém somos todos nós, parvos que somos. Mesmo assim, com todas estas alcavalas e ajudas de custo, gostava de ver a família Coelho a viver com menos de 500 euros por mês, durante 12 meses inteirinhos. Fartava-me de rir. Sentir-me-ia vingado. Mas isso nunca vai acontecer. Posso tirar os cavalinhos da chuva e guardar os arreios. As bestas continuarão à rédea solta. A escoicinhar no pagode.

Fotografia: http://www.lux.iol.pt

07/03/13

esta vida de presidente está a dar cabo de mim, lá lará lará lalá lará lalá lalá lará

Imagem: http://wehavekaosinthegarden.blogspot.pt/

descobrir chávez

Um documentário de Oliver Stone.

isto cheira mal, como sempre


A Standard & Poor's manteve-nos no lixo mas, vá lá, vá lá, decidiu considerar-nos um lixo "estável". Vai daí, o lixo que nos governa embandeirou em arco, proclama que os sacrifícios valeram a pena e quase agradece de joelhos tão elevada distinção a essa "credível agência de notação". Palavras de Frasquilho, não minhas. Tão credível que, recordo aos mais esquecidos, o governo dos Estados Unidos, a pátria que os pariu, interpôs um processo judicial contra a agência por fraude. Por outras palavras, as palavras de Frasquilho são tão credíveis como as previsões de Gaspar ou as promessas de Coelho. Lixo. Não nos deixemos enganar, por vontade deste governo o assalto às nossas bolsas é para continuar. Quando milhares desertarem e outros tantos morrerem, quando milhares estiverem na miséria e outros tantos na merda, aí sim, a S&P tirará Portugal do lixo e, aí sim, Passos Coelho, Gaspar, Borges e toda a trupe de malfeitores que se apoderou da pátria terá lugar assegurado, e ordenados principescos, em qualquer holding financeiro ou agência de notação. Assim como assim, já sabem o que têm que fazer para encher o cu a gulosos (leia-se: os cofres dos especuladores) e destruir a economia de cada país onde meterão o bedelho, com a benção do FMI e da máfia capitalista. Afinal de contas, será só repetir a receita experimentada na Grécia ou em Portugal. Não tem ciência, não tem mérito, não tem nada que saber. Se Gaspar consegue, todos conseguirão. E o mundo ficará melhor.

“mais grave do que roubarem-nos o futuro é roubarem-nos o presente”

a vida está acima da dívida

Por Boaventura de Sousa Santos
http://visao.sapo.pt/

A mãe de todas as mensagens das manifestações do passado fim de semana foi a afirmação da vida contra a morte. Uma afirmação com três nomes: dignidade, democracia e patriotismo. E uma canção, onde coube todo país exceto o governo. Sentindo um perigo e uma ameaça viscerais, os portugueses recusam-se a deixar de gostar de si e do seu país. Vivem um momento de intensa inteligência intuitiva que está além e aquém do que os discursos e representações oficiais dizem deles. Recusam-se a aceitar que uma vida honesta feita de muito trabalho e estudo possa ser apelidada de preguiçosa, leviana e aventureira, que os impostos e os descontos pagos ao longo da vida tenham sido em vão, que quem menos pagou seja quem é mais protegido num momento de dificuldade coletiva. Recusam-se a aceitar que a democracia seja uma máquina de triturar a esperança, um moinho que só sabe moer o moleiro, uma farsa onde só são reais os fios que sustentam as marionetas, uma engrenagem encalhada num parlamento à beira-mar enterrado. Recusam-se a aceitar que os representantes eleitos pelo povo representem exclusivamente os interesses de credores predadores, que os governantes tenham outra pátria que não a dos governados, que a riqueza do país e o bem-estar dos cidadãos se transformem em penhora de um futuro hipotecado, que o roubo deixe de o ser apenas por estar institucionalizado e cotado internacionalmente. Recusam-se a aceitar que um governo nacional se comporte como a comissão liquidatária do país, reduza a história e a cultura a números, de que aliás retira tantas previsões quantas imprevisões, viaje às escondidas pelo país e só fale em público quando o público é estrangeiro.

Esta inteligência intuitiva, que afirma a dignidade, a democracia e o patriotismo, permite entender o que parece inexplicável: que o governo seja indigno, apesar de ocupar instituições dignas; antidemocrático, apesar de ter sido eleito democraticamente; e antipatriótico, apesar de se dizer nosso ante outros países. A inteligência intuitiva não dispensa razões nem desconhece riscos, mas tem com umas e outros uma relação indireta ou fractal. Tem assim uma leveza traiçoeira que torna o seu tratamento político complexo. Eis algumas das razões. Cerca de 20% da receita fiscal vai para pagar juros (por cada 100 euros, 20 vão para os credores); pagamos em juros mais do que gastamos com a educação (108%) e 86% do que gastamos com a saúde; os juros representam 15% da despesa efetiva total do Estado; a política de austeridade aniquila os devedores até ao ponto de nada mais lhes poder tirar senão a vida nua que ainda lhes restar; se propuséssemos uma renegociação da dívida e não pagássemos juros durante o período de negociação (moratória), o nosso orçamento estaria equilibrado e seria possível libertar recursos para investimento e criação de emprego.

Quais os riscos? Se a política atual se mantiver, os portugueses passarão os próximos trinta anos a transferir a sua poupança para o exterior; com o ritmo migratório de 40.000 pessoas por ano, na grande maioria jovens e muitos deles altamente qualificados, daqui a dez anos Portugal será um imenso deserto com balões Google de resorts para turistas. Mais do que riscos, estas são certezas. Contra elas, há que ponderar os riscos da moratória. Portugal ficará sem acesso aos mercados? Mas não é esta a situação atual? O que aconteceu com a Islândia? Os credores, confrontados com uma ameaça credível de moratória, serão rígidos ou negociarão receber alguma coisa em vez de nada? A UE deixará cair definitivamente a periferia, como tem vindo a fazer, ou entenderá finalmente que a crise do sul da Europa só é grave porque há um norte que se alimenta dela e dispõe de uma moeda apenas coerente com a sua economia? Ante riscos de desastre e certezas desastrosas, a inteligência intuitiva não hesita.

O hino à vida que se ouviu pelo país inteiro foi uma moção popular pela demissão do governo. Parafraseando o que Humberto Delgado disse sobre o que faria de Salazar se ganhasse as eleições: obviamente, demitam-se!

Fotografia: Cláudia Lima da Costa (http://www.tvi24.iol.pt)

por chávez



enquanto salazar vivia




lá ao fundo, o tejo






chávez morreu, cavaco faz de morto

Por Tiago Mesquita
http://expresso.sapo.pt

O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, morreu. O presidente português, Aníbal Cavaco Silva, continua a fazer-se de morto. Nada de novo, pelo menos por cá. Bem vistas as coisas, à imagem do Papa Ratzinger, Cavaco devia ser um Presidente Emérito. Entretanto elegíamos alguém para desempenhar o seu cargo. Se Ratzinger escolheu Castel Gandolfo, não seria má ideia Cavaco recolher a Boliqueime. Com Cavaco em Belém vivemos em constanteSede Vacante, com o Presidente, sozinho, em permanente conclave. Mesmo nunca tendo apreciado o estilo, sou obrigado a reconhecer que um Hugo Chávez morto mexe muito mais com os destinos de um país, com as políticas e com os sentimentos do cidadãos que um Aníbal Cavaco vivinho da Silva.

Depois de 33 dias em cativeiro, qual eremita de Belém, Cavaco Silva reapareceu. Enquanto se discutia na AR o futuro do país, Cavaco foi assistir à inauguração de uma unidade de moagem na fábrica Cerealis (enfim, sem comentários...). E, não deixando créditos por mãos alheias, fez o que sabe fazer tão bem: disparou meia dúzia de lugares comuns aos jornalistas, sem que nada de verdadeiramente útil possa ser retirado das suas palavras. O Presidente da República portuguesa é, ao nível da retórica, uma desgraça, à qual se junta o nível de actuação de um ser embalsamado.

"O Presidente da República quebrou assim o silêncio pelo qual vinha a ser criticado, insistindo que não deseja "protagonismos mediáticos", por saber que são "inversamente proporcionais" à capacidade de um Presidente " influenciar as decisões tomadas para o país". "Ninguém tem a experiência que eu tenho". Questionado sobre a manifestação do último fim de semana, o Presidente da República defendeu que "as vozes que se fizeram ouvir não podem deixar de ser escutadas"." Expresso

Convém alguém dizer a Cavaco que não é um actor da Globo que procura tranquilidade e repouso entre a gravação de duas novelas. E de novelas a envolver amigos do senhor Presidente estamos nós, cidadãos, fartos. Se não quer protagonismo, se quer gozar a reforma antecipadamente (não o faz?) sugiro que renuncie, está na moda. Ouvi muita gente pedir a sua demissão e a do governo e, se acha mesmo que devem ser escutadas estas vozes, faça-lhes a vontade.

Estou certo de que não faltarão pretendentes para o cargo, ávidos de protagonismo e dispostos a participar activamente na mudança do estado de coisas. A falta de protagonismo de V. Exa. é inversamente proporcional à paciência dos portugueses. E quanto à vasta experiência de que se gaba, se calhar é melhor não falarmos no assunto. Serviu-nos de quê? Fez-me lembrar aquela do "Eu nunca me engano e raramente tenho dúvidas".

Depois de mais esta triste aparição, sou obrigado a concordar com a opção de Cavaco viver como a irmã Lúcia, uma espécie de monge sitiado num país à beira de um ataque de nervos. É que o silêncio dele é mesmo de ouro, pois de cada vez que abre a boca apercebemo-nos que o garante da democracia em que vivemos é, ele próprio, uma nulidade democrática.

Imagem: http://wehavekaosinthegarden.blogspot.pt/

06/03/13

a solução final


O objectivo do governo é claro: as empresas que não conseguirem sobreviver à crise devem desaparecer, não servem nesse novo modelo de economia e nesse novo Portugal que estão a construir com o denodo, a crueldade dos déspotas iluminados. A talhe de foice, pergunto: será que querem proceder à mesma selecção natural entre os portugueses? Será que os que não aguentam a crise, que ficaram desempregados, que vivem nas ruas, que passam fome, devem morrer? A frieza com que encaram a situação do País, a indiferença com que assistem ao sofrimento de milhares de pessoas, a vontade férrea de ir ainda mais longe na destruição de emprego e de vidas leva-me a acreditar que sim, que estamos perante uma nova forma de nacional-socialismo sob o manto diáfano da democracia. Lamento se nunca vierem a ter o seu Nuremberga.

podres de ricos, os pobres

Claro que não gosto que um governo, abusivamente, selvaticamente, roube salários e pensões ou suba impostos como lhe dá na real gana, sempre que lhe dá na real gana, quando gasta os nossos carcanhóis mal gastos e precisa de mais para sustentar vícios privados. Mas caiu mal a acção dos Reformados Indignados. Numa altura destas, em que  os outros reformados (a imensa maioria) não têm dinheiro para os medicamentos, em que os desempregados não conseguem alimentar os filhos, em que os portugueses que encontram trabalho se sujeitam a salários cada vez mais miseráveis, em que a pobreza e o suicídio aumentam assustadoramente, estes senhores deviam ter o bom senso de não tornar públicas as suas reivindicações.

Queixam-se eles, com o grande alarido que as televisões acorrem a ouvir diligentemente, que há pessoas que tinham 40.000 euros mensais de reforma e que, agora, com os cortes, ficam só com 10.000 euros. Esquecem-se, com o egoísmo e a rapacidade por que devem ter pautado as suas vidas, que há milhares de reformados com pensões de 200, 300 e 400 euros. 

Defendo que cada um tem o direito de receber uma reforma correspondente aos descontos que o Estado lhe fez para esse efeito. Mas ... 40.000 euros por mês não serão um exagero? As contas estarão bem feitas? 

Ao meter a boca no trombone, vindo para a praça pública armados em revolucionários (em causa própria, está bom de ver), os pobres dos ricos mais não fizeram do que chamar a atenção para as suas elevadíssimas pensões. Um governo justo revê-las-ia. Em baixa. Em nome da sustentabilidade da Segurança Social. Em nome da equidade. Em nome da decência, da moral, dos bons costumes. Porque 40.000 euros não são uma pensão, são pornografia.

Aqui fica um vídeo com o meu herói do dia, que pôs o dedo na ferida gangrenada. Grande homem!

05/03/13

ilegal, imoral, irracional

Pedro Passos Coelho foi eleito com base em mentiras e num programa nunca cumprido, antes virado do avesso. Isto seria mais do que suficiente, numa democracia sã, para demitir um governo. Eis um tema que devia ser mais falado, a indignação mais ouvida. Para que nunca, nunca mais volte a acontecer.


cardeal português com boas hipóteses


morreu hugo chavez

Os lobos dançam contentes.


Fotografia: Reuters/Carlos Garcia Rawlings (http://www.dn.pt)

contar cabeças

Andam a contar-nos as cabeças, como se fossemos peças de gado. Teríamos sido um milhão? Ou só 500.000? Não, se calhar foram só 5.000. É fazer as contas. O mais importante é que fomos muitos, invulgarmente muitos. Zangados. Tristes. Revoltados. Novos. Velhos. Aos gritos. Silenciosos. Todos juntos, dissemos não. Haja quem nos escute.




o pior da manifestação é o dia seguinte

Por Pedro Tadeu
http://www.dn.pt

O problema das enormes manifestações, como a de sábado passado, é o dia seguinte, quando se exige um pouco mais de nós do que uma pueril discussão sobre o alegado milhão ou os supostos 500 mil que realmente protestaram nas ruas.

No dia seguinte, dizem os defensores do Governo, ninguém apresenta alternativas às políticas de Pedro Passos Coelho. Isso não é, simplesmente, verdade. PS, PCP e Bloco, inúmeros economistas (independentes, de esquerda, do "centrão", gente biograficamente ligada ao PSD e ao PP), jornalistas, vários académicos, todos os parceiros sociais e até intelectuais estrangeiros têm listado, com maior ou menor arrojo, com maior ou menor dissonância em relação ao programa vigente, inúmeras ideias diferentes, de pormenor ou de fundo, para tentar melhorar a situação. Só por desonestidade intelectual se pode dizer que todas elas são irrealismo radical impraticável, demagogia populista ou ilusão revolucionária anacrónica.

Não chega. A verdade é que no dia seguinte a estas manifestações nada junta num projeto de poder os que se uniram para cantar a Grândola. Reconheço isto, por muito que me entristeça. Nem sequer uma bandeira, pois até o lema usado sábado, "Que se Lixe a Troika", não é consensual.

Limitou-se aquela participação cívica, notavelmente pacífica, a ser uma mera libertação coletiva de bílis? Foi apenas uma catarse inconsequente? Se houvesse amanhã eleições, em que votaria a maioria dos manifestantes? Será que iria, sequer, votar ?...

Com a perspetiva de suceder à atual coligação do poder uma aliança PS/PP e uma austeridade semelhante à atual, quantos dos que escreveram em cartão canelado palavras de amargura e desespero, para mostrar ao País a sua indignação, estão dispostos a alinhar, de novo, no jogo da alternância, da roleta "mais do mesmo", onde perdemos, suavemente, as fichas de democracia?

Numa situação semelhante, em eleições ensombradas por esta crise louca, apareceu um dia seguinte ao dia do protesto. Foi o Syriza na Grécia. Foi o MoVimento 5 Estrelas na Itália. Têm a uni-los apenas uma única coisa, prática: mandaram o consenso oposicionista às malvas e tentaram um projeto próprio, viável, de conquista do poder.

Todo o sistema dominante, político/jornalístico, tratou de os nivelar, de os igualar, com arrogância ou com ignorância, na área da loucura política. Tentam, pelo medo, afastá-los do eleitorado. Tentam, pelo medo, que a situação não se repita aqui...

Em Portugal haverá alguém capaz de nos dar um dia seguinte ao dia do protesto? Alguém sem medo?