27/10/12

a puta da caridade


Desculpem lá o palavreado, mas o caso não é para menos. Vivi a minha infância e adolescência entre a pobreza, sei o que isso é, conheço o significado exacto da palavra caridade, uma bucha, um caldo, um tostãozinho, e eis umas quantas consciências apaziguadas enquanto a miséria grassa, humilha, mata. O governo, pela mão do ministro Mota Soares, tentou baixar o subsídio de desemprego, no entender dessa gente uma esmola, no meu entender um direito. Enquanto isso, promove o desvio de dinheiros públicos para instituições de solidariedade social, anunciando com orgulho que as cantinas (a sopa dos pobres) vão crescer em todo o País, por diligência do seu ministério que, claro, não quer ninguém a passar fome.

Embora não renegue a importância e o mérito dessas instituições, e as boas intenções e bom coração dos que nelas trabalham, não perdoo a Mota Soares nem ao seu chefe Coelho a vilania, mais esta entre tantas.

Um país que se preze não deveria precisar de cantinas sociais, de caridade. Num país que se preze, e não é o caso de Portugal, lugar de cada vez pior reputação e triste vivência, o Estado privilegia a criação de emprego e de riqueza para que ninguém, absolutamente ninguém, tenha que viver de esmolas.

Não aceito, não posso aceitar, que se reduzam pensões e subsídios - aos quais, repito, as pessoas têm direito porque para eles contribuíram tantas vezes uma vida inteira - e, ao mesmo tempo, se desvie esse mesmo dinheiro para instituições de caridade. A caridade que nenhum ser humano deveria precisar, mas de instrução, de educação, para que possa desbravar o seu próprio caminho para uma vida com dignidade.

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um filme que não vai ter final feliz

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que se refunda!


Muito se tem dito que é preciso rever o acordo com a troika. Ou renegociar, o vocábulo mais corrente. Mas Passos Coelho, o criativo da destruição de Portugal, inventou outro termo: refundar. O mesmo que disse que não era preciso nem mais tempo nem mais dinheiro, que sempre disse que íamos cumprir custasse o que custasse, mesmo que custasse empregos e empresas, vem agora dizer o mesmo que outros, muitos outros andam a dizer há muito. Ah! Mas com uma diferença: agora é para refundar. Que se refunda então. Ou Portugal afunda. Com um empurrão, entusiástico, do nosso bravo timoneiro.

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ainda não foi o natal e já estou desejoso de que o carnaval se acabe

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a publicidade enganosa não é punida por lei?



Cá para mim, era assim: os partidos deviam ser obrigados, por lei, a respeitar os programas com que se apresentaram ao eleitorado. Ao não cumprir pelo menos a maior parte do seu programa, os respectivos governos seriam demitidos. Ludibriaram os eleitores, fizeram publicidade enganosa, atentaram contra a boa-fé dos que neles confiaram.

Isto é a mesma coisa que propagandear os efeitos miraculosos da banha-da-cobra ou da pomada tigre. É aldrabice da pura, é um atentado contra os mais elementares princípios morais.

Vejam-se estes excertos, escolhidos ao acaso e sem a preocupação sequer de procurar, exaustivamente, as mentiras mais flagrantes. São mais do que suficientes para provar que o PSD é um partido indigno de estar no poder, um bando de tratantes que deveria responder, criminalmente, pelos seus actos contra a maioria dos portugueses, das nossas instituições e tecido económico.

PROGRAMA ELEITORAL DO PSD 2011


No domínio social, as nossas propostas visam a realização de um objectivo central: preservar o Estado Social, que tem sido objecto nos últimos anos de um ataque e um desmantelamento de enormes proporções ...... (página 6)

Desenganem-se aqueles que queiram ver neste documento um instrumento de populismo, uma cedência à demagogia ou uma listagem de promessas fáceis ...... (página 6)

O programa que agora deixamos à apreciação e ao escrutínio dos portugueses resiste a qualquer teste de avaliação ou credibilidade. Tudo o que nele se propõe foi estudado, testado e ponderado. Consequentemente, as propostas nele contidas são para levar a cabo e as medidas que nele se apontam são para cumprir ...... (página 6)

No plano da reforma do sistema político, o PSD considera importante consagrar (...) a redução, para 181, do número de Deputados da Assembleia da República ...... (página 9)

O PSD tem como objectivo reforçar o combate à corrupção que está progressivamente minando a confiança nas instituições e na economia ...... (página 19)

Nos últimos anos a fiscalidade portuguesa vem assumindo um papel negativo na economia, utilizada, como tem sido pelo poder executivo, como mero instrumento de aumento das receitas e de cobertura do despesismo e das ineficiências do Estado. Ao invés de favorecer uma actividade económica forte e sustentável, o actual sistema fiscal virou-se predominantemente para maximização da arrecadação de receita, ignorando os efeitos sobre a economia. Acabando por não servir nem a economia, nem as finanças públicas. As medidas fiscais que têm vindo a ser tomadas fazem de Portugal um País muito pouco competitivo na perspectiva quer dos investidores quer dos cidadãos nacionais ou dos residentes estrangeiros. E têm constituído um dos maiores incentivos à proliferação de uma economia paralela, que distorce a concorrência, penaliza as entidades cumpridoras e a própria arrecadação de receitas fiscais ...... (página 44)

O Governo do PSD executará, durante a próxima legislatura (2011-2015), o modelo de consolidação orçamental centrado na redução da despesa ...... (página 66)

Despolitizar a política de recrutamento dos cargos dirigentes mais importantes (atendendo às melhores praticas internacionais na matéria)...... (página 68)

O chamado Estado Social é uma conquista civilizacional europeia. O PSD é um defensor do Estado Social Sustentável. O PSD orgulha-se de ter contribuído para o seu desenvolvimento e consolidação em todos os governos em que participou ...... (página 87)

Diminuir o desemprego e promover verdadeiras políticas activas de emprego é um imperativo nacional. Ao longo dos últimos anos, os factos mais não fizeram do que desmentir um discurso vazio, demonstrando a total incapacidade em contrariar o agravamento das condições de vida dos portugueses, em especial dos mais desfavorecidos ...... (página 89)

E, porque uma mentira nunca vem só, deixo-os com o vídeo que já devo ter pespegado aqui uma boa meia-dúzia de vezes. Para as gentes de memória curta.

26/10/12

a cassete mudou de dono


Noutros tempos, ficou famosa a acusação ao PCP de que dizia sempre a mesma coisa, que usava sempre a mesma cassete. Mas, pelos vistos, o PSD/CDS é que comprou uma cassete que, coitados, talvez tesos pela crise e pelas suas dádivas a obras de caridade (elas são tantas), não cessam de pôr a tocar. No Parlamento, nas televisões, por todo o lado, os dirigentes e deputados do PSD/CDS não largam a dita: que, se estão a fazer o que fazem, as atrocidades que praticam, é porque o PS deixou o país à beira da bancarrota e eles aqui estão, quais cristos redentores, para nos salvar. Que o PS é que assinou o memorando da troika, como se o PSD e o CDS, os inocentes sem sombra de pecado, não o tivessem assinado também, com o maior dos prazeres aliás, gabando-se depois de irem mais longe do que a troika no roubo aos portugueses.

Por muitas culpas que o PS tenha, e tem, sejam honestos de uma vez por todas e ejectem a cassete que já enjoa de tanto a ouvir: quem, em grande parte, obrigou o PS a aceitar a entrada da troika foram o PSD e o CDS com os seus golpes palacianos e a sua sede de poder, mais os mercados e a sua gula por dinheiro, mais a Merkel e a sua ânsia de domínio imperial, mais o Durão e outras abencerragens europeias que, a bem dizer, não mandam nem saem lá de cima, aos assentos etéreos onde subiram sem saber ler nem escrever. Pior ainda, Passos faz o que faz com muito gosto, este é o seu momento de orgasmo político. É este o projecto que ele tem para o País, o do empobrecimento, o da descida de salários, o de menos Estado, melhor Estado (menos para os comparsas do costume, os que vivem e enriquecem à conta do Estado em fundações, parcerias, empresas públicas, assessorias, consultorias e demais aleivosias). 

Como tal, meus senhores e minhas senhoras, tirem a cassete e deitem-na fora de uma vez por todas. Tanta hipocrisia chateia. Digam ao que vêm. Digam que se estão nas tintas para a larga maioria dos portugueses e que apenas querem salvar, do naufrágio, os mais ricos dos ricos. Houve há dias alguém que lembrou, e com toda a razão, que quando o Titanic afundou, nem os mais ricos escaparam. O icebergue já está perto. Não é uma ameaça. É uma certeza.  E, nessa altura, não haverá bote que os salve.

tal e qual como gaspar bate no povo português, com estilo e garra

elogio aos ladrões

Por Jorge Fiel

Se forem ao YouTube e pesquisarem "Did you know" encontram diferentes versões de um vídeo maravilhoso, recheado de dados reveladores do frenético ritmo dos tempos em que vivemos. Uma das coisas que mais me impressionaram foi ficar a saber que as dez profissões mais procuradas em 2010, nos EUA, não existiam em 2004 - o que equivale a dizer que estamos a preparar estudantes para empregos que ainda não existem, em que usarão tecnologias ainda não inventadas para resolver problemas que ainda nem sequer foram colocados.

Estes tempos exponenciais, de novas novidades e desvairadas mudanças de vidas e de costumes (frase roubada ao cronista Rui de Pina), obrigam-nos a nunca parar de aprender e a habituar-nos a conviver com a incerteza e a precaridade.

Refletindo sobre esta matéria, cheguei à conclusão de que os pequenos e médios meliantes são um dos grupos que mais depressa atingiram a excelência na capacidade de adaptação a estes novos e difíceis tempos. Senão, vejamos.

Como as agências bancárias reduziram a um mínimo insignificante o dinheiro que têm em armazém e equipam os cofres com sofisticados sistemas de alarme e abertura retardada, os ladrões redefiniram como alvo os Multibanco, que é onde agora estão as tão desejadas notas.

Como a cotação do ouro não para de subir (é o valor refúgio em épocas de crise), os ourives passaram a figurar entre os alvos preferenciais dos assaltantes.

Como os carros que vale a pena roubar não são os Clio, Punto e Corsa, em que os deputados da nação não querem andar, mas sim os Audi, Mercedes e BMW que todos os "parvenus" adoram - e estão num patamar tecnológico que não vai em cantigas de ligações diretas - os gatunos inventaram o carjacking, o roubo de viatura com condutor para lhe extorquir a chave/cartão que aciona a ignição.

Como a trepidante industrialização chinesa inflacionou o mercado internacional de matérias-primas, os bandidos desataram a gamar tudo quanto lhe cheire a cobre, latão ou outro metal em alta - tampas de saneamento, placas de trânsito, campas, etc..

A quem possa ficar chocado com este elogio aos pequenos e médios ladrões, recordo que eles desenvolvem a sua atividade desprovidos do mínimo apoio do Estado e do QREN (ou qualquer outro financiamento comunitário), na mais estrita observação da mais pura das regras do mercado (a lei da oferta e da procura) e com todos os riscos por sua conta - ao contrário dos tipos das PPP que têm o lucro garantido pois nós, os palermas dos contribuintes, alombamos com o risco por eles.

Eu, que em 56 anos de vida tive mais problemas com polícias do que com ladrões, tenho mais simpatia pelos pequenos e médios ladrões, que roubam os ricos, do que pelos ladrões de impostos, que vivem à nossa custa, sejam eles banqueiros desonestos ou políticos corruptos. São gajos que dão mau nome à classe dos ladrões.

ser e não ser


fazer contas sem medo

Por Viriato Soromenho-Marques

A Grécia não vai cair. Mas não vai ser salva. Vai continuar em cuidados intensivos. Pior ainda, a interferência externa sobre a gestão orçamental vai transformá-la num protetorado. Sem disfarce. Será que a troika se comoveu com o sofrimento dos gregos? Nem remotamente. A Grécia vai ser mantida em coma assistido porque os custos da sua saída seriam incomportáveis para os credores. Os dados de outubro mostram que a austeridade imposta por Berlim já está a fazer efeito boomerang na própria economia alemã. Os valores abaixo de 50 significam contração económica. Num mês, o índice da produção industrial e dos serviços baixou de 49,2 (setembro) para 48,1. Na Zona Euro, caiu de 46,1 para 45,8. Em grande medida é a indústria automóvel que sofre com um Sul que já não compra. Há alguns dias, a fundação germânica Bertelsmann alertava para o efeito dominó da eventual saída da periferia da Zona Euro. O estudo apresentava diferentes cenários. O mínimo consistia na saída da Grécia. O máximo incluía também Portugal, Espanha e Itália. São números assustadores. Neste último cenário, a economia mundial perderia até 2020 a soma astronómica de 17,2 biliões de dólares (cerca de cem anos de PIB português!). Cada alemão perderia 21 mil euros. A China e os EUA ainda sofreriam mais do que a Alemanha. A lição é clara, também para nós: a crise europeia é sistémica. É preciso dizer aos nossos credores que ou nos salvamos juntos, ou empobrecemos juntos. É do interesse dos nossos credores que Portugal não sucumba, pois os mortos têm o perdão de dívida assegurado.

Imagem: Clipart by Andresr - http://clipartof.com/1088288

o que tu queres sei eu!


Faz parangona nos jornais de hoje, é debitado aos quatro ventos em todos os noticiários desta manhã: o ensino privado custa menos ao Estado do que o público. Olha a novidade! O contrário é que me escandalizaria, ou não fosse a escola privada, tendencialmente, dirigida às famílias com mais elevado poder de compra. Mas os serviços de contra-informação governamentais, acolhidos de bom grado por todos ou quase todos os órgãos de comunicação, fazem o seu trabalho de sapa, abrem alas para a solução final: se o ensino público sai mais caro, então porque é que não é todo ele privado agora que o Estado não tem dinheiro a não ser para os bancos e para (alguma) caridade? Os alunos com menos recursos que se lixem, sonhos e ambições são direitos dos mais afortunados de carteira!

Este país, definitivamente, não é para pobres. Que vivam debaixo das pontes, estudem só até à quarta classe, comecem a trabalhar aos 12 anos. Atentos, veneradores, obrigados e sempre, sempre a bem da Nação. Se há que haver retrocesso civilizacional (andamos a viver acima das nossas possibilidades, lembram-se?), então que assumamos de uma vez por todas a nossa condição de atrasados, de pobretes e alegretes, de pobrezinhos mas honrados.

Por mim, se mandasse, se estivesse eu em Belém e não para comer pastéis, chumbava estes senhores que nos (des)governam e que o fazem à canzana, salvo erro ou omissão. Pespegava-lhes orelhas de burro. Expulsava-os por mau comportamento. Pregava-lhes com a menina-dos-cinco-olhos no alto do toutiço. Dava-lhes zero, népia, nicles batatóides. Mas eu sou eu, que não sou doutor mas, apesar de tudo, dado a esta vilania de querer igualdade de oportunidades e justiça social. Um asno.

Adenda:
Depois de publicar este post, li esta notícia contraditória no JN online. Então, em que ficamos? Quem está a mentir? Com que intentos?

http://www.jn.pt/PaginaInicial/Sociedade/Educacao/Interior.aspx?content_id=2848492

alívio!

Muita gente já o deve conhecer, o blogue dos melhores "bonecos" de crítica política em Portugal, que eu roubo sempre com descaro e gula. Falo do http://wehavekaosinthegarden.wordpress.com/. Depois de alguns dias de ausência, para meu desespero, o autor voltou. Obrigado, "Mr. Kaos". O Quatro Almas sem Kaos não tem graça, não tem nada.


no campo da morte

Morreu, há dias, Wilhelm Brasse. Feito prisioneiro pelos nazis em Auschwitz, este polaco, fotógrafo profissional, teve por incumbência fotografar outros prisioneiros do campo de concentração. 





25/10/12

o fado que nos fada

das mãos das crianças é que saem as verdades


cá para mim é uma espécie de nazismo travestido


o bem comum

Por Sérgio Lavos

É uma maravilha ver todos os bancos portugueses a apresentar lucros brutais este ano. Fico feliz por mim, e por todos os portugueses, porque o esforço foi nosso, foi colectivo, em prol do bem comum (dos banqueiros): não só foram vários milhares de milhão de euros directamente para a recapitalização de algumas destas instituições, como estas estão a lucrar com a compra da dívida portuguesa (recebem dinheiro do BCE a 1% e emprestam ao Estado português, a 5, 6 e mais). Ver dois grupos de portugueses satisfeitos - os accionistas que recebem dividendos e os administradores que recebem bónus - deve encher de orgulho o povo português. Nós, os que sofremos na pele as medidas de austeridade, estamos cá para isso mesmo. Não queremos ver os bancos pelas ruas da amargura. E se tudo falhar, se nada sobrar depois de transferidos todos os lucros e dividendos para off-shores, também estaremos cá para vos salvar, como aconteceu com o BPN. Não têm nada de agradecer, não fazemos mais do que a nossa obrigação.

contra os senhores que ordenam, erga-se a ira de todo um povo!

Porque este orçamento de vergonha, este saque total, esta afronta a quem trabalha, a quem quer trabalhar, a quem trabalhou toda a vida, não vai, não pode passar. Dia 31, em frente da Assembleia. Todos.

lisboa, sempre lisboa

Tenho um tesouro. Podem empobrecê-lo, castigá-lo, esvaziá-lo de alegria, mas não o poderão roubar de mim. Os homúnculos, os da governação e os outros, gente a quem a vida roubou a vida, morrerão de feiura. Lisboa não.













glória a deus nas alturas


despojos humanos


cidadão castrado? não!

Os senhores do poleiro, e os que estão em ânsias de vir a ser poleiro, gastam balúrdios em campanhas eleitorais, prometem, mentem, percorrem feiras e romarias para convencer os papalvos a neles votar. É a democracia no seu apogeu. Votar de quatro em quatro anos e, depois, meter a viola no saco e a opinião  na pia. Por isso mesmo, os senhores no poleiro e os que aguardam o poleiro próximo, vituperam todos aqueles que, como eu, protestam nas ruas e nas redes sociais. Está-se a cair no populismo e na demagogia, avisam. O poder não pode andar pelas ruas, alertam. O bom povo português, o melhor povo do mundo, quer-se a votar de quando em vez. Depois, que se cale e que deixe governar. Se não o fizer, é anarquista, comunista, esquerdista, populista e demagogo. Serei tudo isso mas, parafraseando Ary dos Santos, cidadão castrado NÃO!

um gaspar de rosto humano

Imagem: http://henricartoon.blogs.sapo.pt/

o puto manteigueiro


Passos Coelho orgulha-se de ser o bom aluno, bem comportado perante a troika e a Merkel. Mas Passos Coelho não é bom aluno. É antes como aqueles meninos que todos conhecemos na primária, graxistas e mesureiros perante os professores, impiedosos perante os outros rapazes, alvos das suas queixinhas, intrigas, pequenas e grandes pulhices. Passos Coelho é como aqueles alunos sempre prontos a cantar esganiçadamente o hino da mocidade pela manhã, a rezar o terço pela tardinha,  a desprezar os fracos resultados dos seus estudos e a invejar o brilho dos bons estudantes. Os seus pecadilhos e fraquezas eram sempre perdoados, meninos assim são um regalo para os maus professores. Há que recompensá-los, dar-lhes boa nota, promovê-los a chefes de turma, de lusitos a comissários nacionais.

portugal de perdição

"o meu sonho era passar o natal num quartinho com casa de banho"


Este casal de desempregados, o Luís e a Alexandra, deixaram o filho entregue a familiares e vivem, há seis meses, debaixo de uma ponte em Braga. Podiam ser outros. O Artur e a Teresa. A Conceição e o Elias. O João e a Odete. Tantos. Entretanto, os governantes desde desgraçado país, impassíveis, sensíveis apenas aos cifrões e à troika, assanham-se contra os contribuintes, os poucos que ainda trabalham, e preparam-se para reduzir as prestações sociais até à insanidade, à infâmia. O que conta, para esta gente, não é a gente que sofre, como o Luís e a Alexandra, o Artur e a Teresa, a Conceição e o Elias, o João e a Odete. Quem conta são os Ulrich, os Mello, os Espírito Santo, os Ricciardi, os mesmos de há 50 anos, os donos de Portugal, os que somam e seguem com o rei na barriga e a república nas mãos. Nós, os cidadãos comuns, estamos reduzidos à condição de pagadores de impostos ou então de rebotalho, de nomes a abater nos livros do deve e haver de um Estado pária e brutal, desgraçadamente dominado por um governo de abjecções indignas da sua condição de seres humanos. Este está a ser um Inverno prolongado e triste. Para quando a Primavera?

Foto: Paulo Jorge Magalhães/Global Imagens
https://globalimagens.pt

24/10/12

os judas


Em nome do partido dos desvalidos, dos pagadores de impostos, dos agricultores, dos reformados, Paulo Portas esteve amuado durante uns dias. Pura hipocrisia, já se sabia e aqui temos nova prova: o ministro Mota Soares, dirigente do CDS, veio hoje propor cortes em várias prestações sociais que, a serem aprovadas, atingirão, é claro, os mais desvalidos, os tais que diz defender e pelos quais Paulo sofreu calado tantos dias e noites até à rendição final, sem glória nem vergonha. Tão depressa se apanham pulhas como trafulhas.

gaspar diz que os portugueses pagam pouco para o que exigem do estado

 Ideia roubada ao http://trespassaopassos.tumblr.com/

fujam, fujam, que são das finanças!







teoria geral do desprezo

Por Fernando Alves

A proposta de redução do valor mínimo do subsídio de desemprego em 42 euros, enviada pelo governo aos parceiros sociais é a mais chocante e a mais desconcertante de todas as novas medidas previstas de corte nas prestações sociais. A severidade dos cortes leva, por exemplo, o Jornal de Negócios, a usar a palavra "razia" na manchete desta manhã. Dói, assusta, indigna, mas já não espanta, tamanha tem sido a frieza e a insensibilidade das decisões.Mas aquela concreta proposta de redução do valor mínimo do subsídio de desemprego para os 377 euros provoca ainda estupefacção, é ainda desconcertante na medida em que configura uma ofensa gratuita à própria ideia de concertação. Já não revela apenas insensibilidade social, mas desprezo pelos mais desamparados. É uma seringa que procura a veia onde corre já, apenas um fio ténue, não para injectar um sopro de vida, mas para sangrar ainda mais o desvalido, para provocar o seu desfalecimento.O ministro Mota Soares explicou entretanto que se trata apenas de uma proposta e as habituais fontes próximas sugerem que o governo pode deixar cair a medida. Trata-se de uma prática já sucessivamente ensaiada, a do barro à parede. Uma medida esconde outra, ainda mais gravosa. Ou aquela tão escandalosa serve de pretexto a um recuo. Mas deixe ou não cair a medida, o governo deixou cair, irremediavelmente, a máscara da preocupação social. Deve o actor politico com responsabilidades governativas atender à noção de limite. Saber os limites razoáveis da sua acção.Ora esta é uma área em que o governante não lida apenas com os limites do cálculo diferencial ou qualquer outro da formulação matemática. Por mais que pareça ser esse o único limite da visão gaspariana, há limites éticos. Há limites impostos pela sensibilidade social, pela compaixão diante do sofrimento.Mota Soares fala em documento preliminar. Mas esse é um assunto em que devia dispensar os preliminares. Quem vai ser brutalizado, dispensa carícias e falas mansas.

agarrem-me que vou vomitar!


As damas e cavalheiros da situação, vulgo PSD/CDS, insistem em repetir a torpe mentira de que o governo tem políticas de emergência para socorrer os mais desfavorecidos. Políticas essas que se resumem a reinstalar as práticas de caridadezinha tão caras às senhoras dos saraus de beneficência de tempos que julgava extintos, mortos e enterrados para nunca mais voltarem. Por outro lado, soube-se hoje, o valor mais baixo do subsídio de desemprego vai ser reduzido ainda mais, o rendimento social de inserção vai sofrer novos cortes e outras malfeitorias virão, anunciadas a conta-gotas à medida que Gaspar vê os seus cálculos inteligentíssimos, especializadíssimos, encaminharem-se inexoravelmente para a cloaca da alta finança de onde nunca deviam ter saído. Falemos claramente: a hipocrisia, a desfaçatez, a imoralidade, a insensibilidade desta gentalha - mascarada com as mesmas roupagens das beatas de outrora - não têm limites. O IVA aumenta, o IRS aumenta mesmo para os rendimentos mais baixos, a electricidade, a água, o gás, as rendas de casa, a saúde, os transportes aumentam, o povo é esmifrado até ficar exangue, até fazer sangue, e que nos dizem eles, do alto das suas cátedras onde cagam de alto e de repuxo? Que os pobrezinhos, tão engraçados, tão castiços, tão deliciosamente esfomeados e maltrapilhos, estão protegidos, as palavras são deles, não minhas, como nenhum outro governo logrou fazer até hoje. Vou ali e já venho. Vou vomitar. Há coisas que nem o estômago mais forte aguenta sem claudicar. É que esta gentalha, gente não é certamente porque gente não se comporta assim, mete nojo e cheira mal.

Dizem eles que os da esquerda (e, heresia, metem o PS no lote dessa raça a exterminar), se estivessem no governo, agravariam o défice com medidas solidárias tendentes a eliminar a pobreza e a preservar o "carérrimo" Estado Social. Antes assim fosse. Antes isso do que desviar os dinheiros públicos para alguns dos mais ricos e, não por coincidência, os mais corruptos da sociedade, moral e economicamente falando, do que desviar os dinheiros públicos para "ajudar" bancos e empresas multimilionárias, do que viver à grande e à portuguesa à custa do erário público e da desgraça de milhões. Uma família que se salva da indigência, uma criança pobre que consegue tirar um curso, um mendigo que consegue emprego, um sem-abrigo que consegue uma casa, são factores de riqueza para qualquer país decente, mas não para Portugal. Porque esta maralha não é humana. É egoísta. E desregradamente estúpida.

23/10/12

quem não quer ser pinóquio não lhe usurpa o nariz


não se A. Ponte que é feio!


A nova administração da RTP, da qual o Sr. A. Ponte das cervejas é agora o manda-chuva, contratou uma agência de comunicação, daquelas que dão uma mãozinha em campanhas eleitorais e no mais que dê pilim e do grosso. Uma agência de comunicação na RTP é, mal comparado, tão baril como eu ser dono de um restaurante, famoso pelos seus pitéus, e encomendar todos os dias o almoço à Telepizza.

O Sr. A. Ponte é que sabe, ou não tivesse sido posto lá pelo clarividente Relvas cujas ramificações no mundo político-empresarial parecem ser, tal como os desígnios de Deus, insondáveis. E de certeza que o Sr. A. Ponte não conhece o patrão da agência de lado nenhum e, mais do que isso, a RTP está com um superavit que urge reduzir a qualquer preço pelo que convém gastar alguns patacos em servicinhos extra, que promovam a imagem da RTP junto de investidores estrangeiros, quanto mais angolanos melhor que desse mercado sabe o Sr. A. Ponte como ninguém.

Mas isto, claro, sou eu a falar que, de negócios, pouco sei. Só me cheiram. Neste caso, mal. Fazendo-me lembrar até, a mente tem destas coisas, aquelas relvas onde os cães vão dar largas à sua digestão.

nem tudo está perdido em portugal



Um discurso, imperdível, do reitor da Universidade de Coimbra.

petição contra a proposta de orçamento de estado para 2013

Exmo. Senhor Presidente da República,
Exmos. Senhores Deputados da Assembleia da República,

Os signatários apelam à vossa responsabilidade política e institucional perante o país e perante todos os cidadãos, para que seja rejeitada a proposta de Orçamento de Estado para 2013 apresentada pelo Governo. A sua aprovação constituiria certamente um mal maior para o país e os portugueses comparativamente com as consequências da sua rejeição.

Esta proposta de OE, já contestada pela opinião pública e pela grande maioria dos especialistas, significa o prosseguimento e agravamento do caminho para uma austeridade ainda mais recessiva, com mais desemprego, mais destruição da economia, mais empobrecimento, mais desigualdade social e menos justiça fiscal. Em nome dos credores, rouba o futuro e a esperança ao país e aos portugueses. Ofende princípios constitucionais relevantes, designadamente o princípio da confiança (dimensão importante do princípio democrático), os direitos do trabalho, os direitos sociais e a progressividade e equidade fiscais.

Aos Deputados, apelamos para que rejeitem esta proposta governamental de Orçamento de Estado, assumindo plenamente a vossa condição de representantes eleitos do povo e de todo o País, que é superior a quaisquer outras fidelidades ou compromissos;

Ao Presidente da República, na qualidade de supremo representante da República, garante da independência nacional, da unidade do Estado e do regular funcionamento das instituições democráticas, obrigado a respeitar e a fazer cumprir a Constituição, apelamos a que exerça o seu direito de veto sobre este Orçamento de Estado, no caso de ele ter aprovação parlamentar ou, no mínimo, que o submeta, no exercício das suas competências, à fiscalização preventiva do Tribunal Constitucional.

Lisboa, 22 de Outubro de 2012.

toda a cupidez será castigada


Era uma vez um canhestro rei medieval, adulado pelos seus próximos, odiado pelos seus súbditos. Um rei que, pouco calhado para as lides da reinação - a não ser quando reina connosco -, deposita toda a confiança e confere todos os poderes ao seu xerife, um ser soturno de lentas falas, que se atiça sem dó nem piedade contra os mais pobres e os seus depauperados recursos para os entregar, de mão beijada, aos mais ricos. Para que o seu amo e senhor possa manter castelos e riquezas. Para que a corte continue a exibir o seu fausto e a arrecadar regalias, indiferente à miséria que a rodeia. 

Em qualquer história de capa e espada, esta era a altura de surgir o nosso herói, um bravo salteador que reporia a justiça, deporia o rei e aliviaria o povo do malvado cobrador de impostos. Fico à espera. Há quem diga, e eu acredito, que a realidade, mais tarde ou mais cedo, supera a ficção. 

22/10/12

cada jornalista despedido é mais um prego no caixão da democracia

Por Daniel Oliveira

Ontem a Lusa esteve em greve. Os despedimentos põem em causa um serviço público que apenas esta agência noticiosa pode garantir. O País sabe qualquer coisa sobre regiões onde, para além da imprensa local, ninguém tem correspondentes. Depois desta razia a ideia de que "Portugal é Lisboa e o resto é paisagem" estará mais próxima da verdade. Uma parte de Portugal será invisível. Mais: a Lusa é responsável por cerca de 70% das notícias que se publicam em Portugal. O corte em 31% do seu orçamento é uma machadada do Estado na já tão frágil comunicação social portuguesa. E as primeiras vítimas do silenciamento serão seguramente as já isoladas populações do interior.

Na sexta-feira, o "Público" esteve em greve. Em causa está um despedimento colectivo de 43 pessoas e 36 jornalistas que torna virtualmente impossível que ali se continue a fazer um jornal de referência, com uma edição em papel e online. Anteriores despedimentos tiveram já efeitos visíveis na qualidade média do jornal. Com mais este, não é sequer sério pensar que quem fica pode garantir o mínimo de qualidade e de rigor que a profissão exige. Será um enorme passo para a tabloidização definitiva da imprensa portuguesa.

Continua, sem se saber ao certo do que se trata, a falar-se da compra da Controlinveste por um grupo angolano, muito provavelmente próximo do regime de Luanda. "Diário de Notícias", "Jornal de Notícias" e TSF nas mãos de uma ditadura. Como já aconteceu noutros casos, não sabe ao certo quem são estes compradores, o que não deixa de ser preocupante quando falamos da compra de órgãos de comunicação social, que em princípio devem garantir a transparência, não apenas na vida política mas também na vida empresarial.

A RTP vive um clima de incerteza, sempre na iminência de ver um dos seus canais em mãos angolanas. O clima de pressão sente-se. A semana passada, o canal ARTE, que realizava uma reportagem sobre a situação da televisão pública portuguesa, foi impedido pela administração da empresa de entrar nas instalações. Um excelente cartão de visita para quem deve defender a liberdade de informar. Mas é natural que alguém que nunca trabalhou neste ramo e se tem dedicado mais aos finos e às imperiais não perceba a especificidade deste "negócio". E a importância da sua transparência e credibilidade.

Isto são apenas as situações mais visíveis. Na generalidade das redações de jornais, televisões e rádios trabalha-se sem meios, no fio da navalha, à beira do abismo. E todos fazem contas a quanto tempo durará o título que fazem chegar às bancas e a rádio que nós podemos ouvir. A crise profunda da comunicação social, que é internacional e resulta, antes de tudo, do acesso gratuito, via Internet, a informação produzida com custos, agravou-se muito desde 2008. E em Portugal, onde a situação já era mais precária, agravou-se ainda mais desde que a austeridade assentou arraiais. Se as coisas continuarem como estão não sobreviverá quase nenhuma informação que mereça ser lida. Seremos cegos, surdos e mudos.

Nada do que aqui escrevo é específico das empresas de comunicação social. Milhares de empresas vivem situações dramáticas. Os jornalistas não merecem de mim mais solidariedade do que um empregado de balcão, um carpiteiro ou um enfermeiro. Mas as consequências da crise nos media vão muito para além das sociais e económicas. É a democracia que está em perigo. E sem ela não há futuro para nós.

Um País em crise e desagregação, com um poder político sem autoridade moral e uma população descrente nas instituições, a ser vendido ao desbarato em negócios pouco transparentes, é terreno fértil para o populismo e para a corrupção. E uma população mal informada é a vítima ideal para os oportunistas da crise. Os que ganham dinheiro com ela e os que esperam com ela ganhar votos.

Imaginem este país informado quase exclusivamente pelo "Correio da Manhã" e sucedâneos. Imaginem um canal de televisão, uma rádio e vários jornais (DN, JN, I, Sol) nas mãos dos homens de negócios próximos da ditadura angolana. Imaginem jornais feitos por meia dúzia de estagiários, impreparados e indefesos perante todas as pressões. Imaginem jornais sem meios para investigar e jornalistas com medo de investigar. Diretores com medo de administradores e administradores com medo de anunciantes e políticos. Imaginem que tudo o que sobra são as notícias encomendadas e as investigações entregues ao domicílio. Não precisam de imaginar. Estamos praticamente lá.

O País discute a corrupção, os abusos, a prepotência. Mas é com a situação dramática em que está a comunicação social que tudo isto pode florescer. Na obscuridade. Não se indignarão os portugueses. Porque não saberão de nada.

A luta que os jornalistas da Lusa, do "Público" e de outros órgãos de comunicação social estão a travar não é apenas uma luta pelo seu emprego. É uma luta pela democracia. Não é apenas uma luta deles. É nossa. Se a perderem, bem podemos arrumar as botas. É que o Facebook não faz investigações, os blogues não pagam reportagens e os comentários nos sites não têm código deontológico. Até haver uma alternativa, não há jornalismo sem jornalistas. E sem jornalismo não há democracia.

Ninguém pode obrigar homens de negócios a manter jornais, televisões e rádios que são deficitárias. Mas podemos impedir que seja o Estado um dos motores da destruição de um pilar fundamental da democracia. E podemos todos, e não apenas os jornalistas, a começar um debate urgente: como vamos, como comunidade, garantir uma imprensa livre? É que mais do que um negócio, ela é condição para a nossa democracia. Se os homens de negócios não a querem, temos nós todos que encontrar uma solução. Ou aceitar viver na ignorância. Roubados no poder de decidir o nosso futuro, só falta mesmo robarem-nos o poder de saber o que fazem os que decidem o nosso futuro. Seremos então uma ditadura perfeita: todos os direitos democráticos formais garantidos, nenhum instrumento para os usar.

votados ao desprezo, votamos


É público: em 10 anos, o IRS extorquido aos portugueses aumentou 54%. E, para o ano, há mais e pior. Pagamos a má governança, a cagança dos políticos que nos couberam em sorte. Trabalhamos - quem consegue a esmola de um emprego - para, durante uma boa parte do ano, sustentarmos o Estado e a corrupção, os banqueiros e as empresas públicas, as parcerias com o Estado, as frotas automóveis e os assessores, os doutores e especialistas, as secretárias e motoristas, os advogados e os pareceres jurídicos, as rotundas e estradas para nenhures, os delírios e as negociatas, as passeatas, as pensões indevidas e as vidas de nababos encostados à árvore das patacas, à sombra da bananeira. Não temos governantes. Temos chicos-espertos, temos artistas do proxenetismo, temos vendedores de banha-da-cobra, temos vendilhões do templo, temos maus pagadores de promessas nunca cumpridas. Mas é desses que é o reino dos céus, são esses que ganham eleições, que constituem governos, que esvaziam os cofres do Estado e os nossos bolsos onde só resta cotão e desespero. A culpa é nossa. Não nos queixemos e, de boa vontade, alegremente, paguemos. Votando neles. Hoje nuns. Amanhã noutros. Façamos crescer o monturo, para que as moscas floresçam. 

em novembro, a tempestade

de escombro em escombro

a ressurreição do nazismo

um dia, os pais vingarão os seus filhos

Imagem: http://ministeriodacontrapropaganda.wordpress.com

com um governo surdo, temos que ir gritar para a rua


o triste fim do CDS

Por Pedro Marques Lopes

1. Quinta-feira de manhã, o líder do CDS informou-nos que o seu partido iria viabilizar o Orçamento de Estado. Têm razão os que dizem que há um problema de comunicação no Governo: levou três dias para que o ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros comunicasse ao presidente do CDS o que tinha sido aprovado por ele no Conselho de Ministros.

Um ministro de Estado que também é presidente dum partido da coligação escrever uma carta em que anuncia que apoia o Governo é um episódio que fica para sempre no anedotário da política nacional. Se fosse a primeira vez em que Paulo Portas nos brindava com este tipo de cenas dava para um cidadão se indignar. Agora, já não. É só mais uma na opereta que está a encenar em que nos tenta convencer que está no Governo mas não está, em que apoia o Executivo mas não apoia, que concorda com as medidas mas não concorda. Para dar colorido a este triste espectáculo ainda temos Vítor Gaspar a fazer "enormes" piadas de mau gosto com ele e Miguel Relvas - que renasceu, provavelmente convencido de que está tudo esquecido - a dar indirectas sobre estados de alma. Patético.

2. O CDS, segundo o comunicado do seu presidente, não confundir com o ministro dos Negócios Estrangeiros, afirma que "todos têm um contributo a dar para assegurar a estabilidade política, o consenso nacional e a coesão social em Portugal". É por isto e por ser um partido responsável que votará favoravelmente o Orçamento para 2013. Ora, ou Vítor Gaspar, Passos Coelho e, agora, Paulo Portas são os únicos cidadãos a viver em Portugal, e nesse caso há consenso em redor do Orçamento, ou o líder do CDS deve estar a falar de outro país qualquer. E só pode ser piada de mau gosto dizer, num mesmo documento, que se aprova o Orçamento e que se está a contribuir para a estabilidade política e a coesão social. Falências, desemprego em massa, miséria, destruição da classe média, instituições em colapso não serão propriamente a imagem dum país estável e coeso socialmente. E só estes três senhores é que pensam que executar este Orçamento rima com responsabilidade. A esmagadora maioria dos portugueses, as principais figuras do PSD e do CDS, todos os ex-presidentes da República - o actual Presidente está escondido no Facebook, demasiado assustado com a dimensão do problema que vai ter de resolver -, os nossos credores e até as agências de rating, sempre ávidas de mais e mais austeridade, acham este Orçamento uma criminosa irresponsabilidade, um projecto inaplicável, um insulto aos portugueses, uma loucura dum cientista alucinado. Portas quer evitar uma crise política. Ainda não percebeu que está no meio duma. E não é só governativa, é uma que abana os próprios alicerces da democracia. E ele está a colaborar activamente no aprofundamento dessa crise.

3. O CDS, alinhando com este Orçamento, perde toda a credibilidade, sobretudo face ao seu eleitorado tradicional. O partido do contribuinte perde todo o seu capital político (fica para mais tarde falar do projecto de destruição em curso do mais importante partido português, o PSD).

O CDS depende da sua capacidade de condicionar políticas, de mostrar ao seu potencial eleitorado que consegue impor parte da sua agenda. Se não o consegue fazer, particularmente num momento como este, deixa de fazer sentido. Que dirá Paulo Portas aos seus eleitores quando daqui a uns meses o País estiver no caos e Portugal estiver a pedir o segundo resgate? Que foi forçado a assinar o Orçamento? Que se enganou? Ninguém acreditará nele, nem os seus mais fervorosos seguidores. O CDS não tem implantação autárquica, não está ligado a movimentos sociais como sindicatos ou organizações cívicas. Responde apenas pelos seus actos, não tem esses, digamos, mantos protectores. Portugal cedo ou tarde levantar-se-á, o CDS assinou a sua certidão de óbito. E da maneira mais infeliz de todas: colaborando num Orçamento que, implementado, destruirá o País por muitos anos.

4. Convinha acabar duma vez por todas com a conversa da falta de alternativa. Desde quando o suicídio colectivo é o único caminho possível? É bom que os deputados, aquando da votação do Orçamento, se lembrem disso. Em última análise serão eles os responsáveis por tudo o que se irá passar dentro de pouco tempo.

21/10/12

manifesto "pelo jornalismo, pela democracia"



A crise que abala a maioria dos órgãos de informação em Portugal pode parecer aos mais desprevenidos uma mera questão laboral ou mesmo empresarial. Trata-se, contudo, de um problema mais largo e mais profundo, e que, ao afectar um sector estratégico, se reflecte de forma negativa e preocupante na organização da sociedade democrática.

O jornalismo não se resume à produção de notícias e muito menos à reprodução de informações que chegam à redacção. Assenta na verificação e na validação da informação, na atribuição de relevância às fontes e acontecimentos, na fiscalização dos diferentes poderes e na oferta de uma pluralidade de olhares e de pontos de vista que dêem aos cidadãos um conhecimento informado do que é do interesse público, estimulem o debate e o confronto de ideias e permitam a multiplicidade de escolhas que caracteriza as democracias. O exercício destas funções centrais exige competências, recursos, tempo e condições de independência e de autonomia dos jornalistas. E não se pode fazer sem jornalistas ou com redacções reduzidas à sua ínfima expressão.

As lutas a que assistimos num sector afectado por despedimentos colectivos, cortes nos orçamentos de funcionamento e precarização profissional extravasa, pois, fronteiras corporativas. Sendo global, a crise do sector exige um empenhamento de todos - empresários, profissionais, Estado, cidadãos - na descoberta de soluções. A redução de efectivos, a precariedade profissional e o desinvestimento nas redacções podem parecer uma solução no curto prazo, mas não vão garantir a sobrevivência das empresas jornalísticas. Conduzem, pelo contrário, a uma perda de rigor, de qualidade e de fiabilidade, que terá como consequência, numa espiral recessiva de cidadania, a desinformação da sociedade, a falta de exigência cívica e um enfraquecimento da democracia.

Porque existe uma componente de serviço público em todo o exercício do jornalismo, privado ou público; 

Porque este último, por maioria de razão, não pode ser transformado, como faz a proposta do Governo para o OE de 2013, numa “repartição de activos em função da especialização de diversas áreas de negócios” por parte do “accionista Estado”;

Porque o jornalismo não é apenas mais um serviço entre os muitos que o mercado nos oferece;
Porque o jornalismo é um serviço que está no coração da democracia;

Porque a crise dos média e as medidas erradas e perigosas com que vem sendo combatida ocorrem num tempo de aguda crise nacional, que torna mais imperiosa ainda a função da imprensa;

Porque o jornalismo é um património colectivo;

Os subscritores entendem que a luta das redacções e dos jornalistas, hoje, é uma luta de todos nós, cidadãos. 

Por isso nela nos envolvemos.

Por isso manifestamos a nossa solidariedade activa com todos os que, na imprensa escrita e online, na rádio e na televisão, lutando pelo direito à dignidade profissional contra a degradação das condições de trabalho, lutam por um jornalismo independente, plural, exigente e de qualidade, esteio de uma sociedade livre e democrática.

Por isso desafiamos todos os cidadãos a empenhar-se nesta defesa de uma imprensa livre e de qualidade e a colocar os seus esforços e a sua imaginação ao serviço da sua sustentabilidade.

Proponentes:
Adelino Gomes - Jornalista
Agostinho Leite - Lusa
Alexandre Manuel - Jornalista e Professor Universitário
Alfredo Maia - JN (Presidente do Sindicato de Jornalistas)
Ana Cáceres Monteiro - Media Capital
Ana Goulart - Seara Nova
Ana Romeu - RTP
Ana Sofia Fonseca - Expresso
Anabela Fino - Avante
António Granado - RTP; Professor Universitário
António Navarro - Lusa
António Louçã - RTP
Avelino Rodrigues - Jornalista
Camilo Azevedo - RTP
Carla Baptista - Jornalista e Professora Universitária
Catarina Almeida Pereira - Jornal de Negócios
Cecília Malheiro - Lusa
Cesário Borga - Jornalista
Cristina Margato - Expresso
Cristina Martins - Expresso
Daniel Ricardo - Visão
Diana Andringa - Jornalista
Diana Ramos - Correio da Manhã
Elisabete Miranda - Jornal de Negócios
Fernando Correia - Jornalista e Professor Universitário
Filipa Subtil - Professora Universitária
Filipe Silveira - SIC
Filomena Lança - Jornal de Negócios
Francisco Bélard - Jornalista
Frederico Pinheiro - Sol
Hermínia Saraiva - Diário Económico
João Carvalho Pina - Kameraphoto
João d’Espiney - Público
João Paulo Vieira - Visão
Joaquim Fidalgo - Jornalista e Professor Universitário
Joaquim Furtado - Jornalista
Jorge Araújo - Expresso
Jorge Wemans - Jornalista
José Luís Garcia - Docente e Investigador (ICS-UL)
José Luiz Fernandes - Casa da Imprensa
J.-M. Nobre-Correia - Professor Universitário
José M. Paquete de Oliveira - Docente, cronista, ex-provedor do telespectador (RTP)
José Manuel Rosendo - RDP
José Mário Silva - Jornalista freelancer
José Milhazes - SIC / Lusa (Moscovo)
José Rebelo - Professor Universitário e ex-jornalista
José Vitor Malheiros - Cronista, consultor
Leonete Botelho - Público
Liliana Pacheco - Jornalista (investigadora)
Luciana Liederfard - Expresso
Luis Andrade Sá - Lusa (Delegação de Moçambique)
Luis Reis Ribeiro - I
Luísa Meireles - Expresso
Manuel Esteves - Jornal de Negócios
Manuel Menezes - RTP
Manuel Pinto - Professor Universitário
Margarida Metelo - RTP
Margarida Pinto - Lusa
Maria de Deus Rodrigues - Lusa
Maria Flor Pedroso - RDP
Maria José Oliveira - Jornalista
Maria Júlia Fernandes - RTP
Mário Mesquita - Jornalista e Professor Universitário
Mário Nicolau - Revista C
Martins Morim - A Bola
Miguel Marujo- DN
Miguel Sousa Pinto - Lusa
Mónica Santos - O Jogo
Nuno Aguiar - Jornal de Negócios
Nuno Martins - Lusa
Nuno Pêgas - Lusa
Oscar Mascarenhas - Jornalista
Patrícia Fonseca - Visão
Paulo Pena - Visão
Pedro Caldeira Rodrigues - Lusa
Pedro Manuel Coutinho Diniz de Sousa - Professor Universitário
Pedro Pinheiro - TSF
Pedro Rosa Mendes - Jornalista e escritor
Pedro Sousa Pereira - Lusa
Raquel Martins - Público
Ricardo Alexandre - Antena 1
Rosária Rato - Lusa
Rui Cardoso Martins - Jornalista e escritor
Rui Nunes - Lusa
Rui Peres Jorge - Jornal de Negócios
Rui Zink - Escritor e Professor Universitário
Sandra Monteiro - Le Monde diplomatique (edição portuguesa)
São José Almeida - Jornalista
Sara Meireles - Docente Universitária e Investigadora (ESEC-Coimbra) 
Sofia Branco - Lusa
Susana Venceslau - Lusa
Tiago Dias - Lusa
Tiago Petinga - Lusa
Tomás Quental - Lusa
Vitor Costa - Lusa 

Este é apenas o primeiro passo duma iniciativa que pretende ser mais ampla.
Nos próximos dias todos os jornalistas, bem como todos os cidadãos vão ser convidados a assinar e a participar.

Pelo jornalismo, Pela democracia