13/04/13

abençoados juízes

Por Constança Cunha e Sá

Afinal, e como já era previsível, a tão desejada remodelação do governo acabou por se traduzir na simples substituição de Miguel Relvas - e, de passagem, de um secretário de Estado, a prazo, que tinha a seu cargo umas minudências como os fundos comunitários. Ao fim de uma semana, de intensa e pouco profícua reflexão, Pedro Passos Coelho conseguiu, por junto, arregimentar mais um prestigiado académico que vai dividir o melhor do seu tempo pelos mais desencontrados sectores: entre a coordenação política do governo, a tutela da comunicação social, a gestão dos fundos comunitários e o fabuloso dossiê das autarquias. Confesso que, independentemente das qualidades do nomeado, não me parece possível que esta florida acumulação de funções tenha condições mínimas para funcionar. Se este tipo de filosofia vingar, ainda vamos assistir, lá para as calendas gregas, a uma miscelânea de pastas que junte harmoniosamente o Emprego com os Assuntos Parlamentares e as Obras Públicas com a Justiça, com uma pequena abertura para a Educação e os Cuidados Intensivos. Depois da catástrofe, parece que podemos dar livremente largas à imaginação.

Independentemente destes acertos de última hora decorrentes do facto, em si mesmo simples, de Miguel Relvas não ter estado na feliz disposição de continuar a assombrar, por tempo indeterminado, um governo do qual já não fazia parte, o essencial (e o essencial é muito mau) mantém-se. Uma política autista e insustentável que ameaça enterrar o país num poço sem fundo e que tem como principais mentores o primeiro-ministro e o ministro das Finanças (a ordem, como se sabe, é reversível). Perante a decisão do Tribunal Constitucional, há muito esperada, diga-se de passagem, a dupla que nos governa, em vez de usar o chumbo de algumas normas do Orçamento para melhor renegociar com os parceiros europeus as condições do ajustamento português, decidiu, antes, em coordenação com os mesmos parceiros europeus, partir à desfilada contra o Tribunal Constitucional e os portugueses, que, por simples má vontade, não perceberam que não havia plano B mas sim, e apenas, um plano A de que o governo, apesar da realidade, não pretende abdicar.

Esta guerra, que ganhou foros de verdadeira epopeia com o discurso de Passos Coelho, no domingo, e o despacho do ministro das Finanças, no dia seguinte, só confirma que o governo já percebeu que não tem condições para aplicar a política de cortes de 4 mil milhões com que se comprometeu com a troika e que, aliás, devia ter sido apresentada ao país, em Fevereiro, caso ninguém se lembre. O discurso de dramatização e de chantagem de Pedro Passos Coelho, assacando ao Tribunal Constitucional todas as desgraças imagináveis, além de revelar à saciedade a irresponsabilidade do primeiro- -ministro, tenta desesperadamente transformar um órgão de soberania no bode expiatório de uma política que estrondosamente falhou. Felizmente nem tudo é mau: seguindo o discurso do governo, graças ao Tribunal Constitucional, Portugal conseguiu renegociar o prazo de pagamento dos empréstimos contraídos. Abençoados juízes!

Fotografia: Orlando Almeida/Global Imagens (http://www.dn.pt)

10/04/13

um país ao lixo

Temos lixo no poder. E os pobres, esses, revolvem o lixo em busca de salvação.

puto ruim


Era uma vez um puto. Mimado, mal formado, mal educado, ambicioso e imbecil. A sua frase favorita era: a vingança vai ser terrível! O pai, pobre pai, cortava-lhe na mesada, nas guloseimas, nas saídas, para ver se o puto aprendia a comportar-se, se se tornava menos sacana para os outros ganapos. O puto vingava-se: ia-lhe aos cigarros, fanava-lhe dinheiro da carteira, escondia-lhe o cachimbo, partia-lhe os óculos, trocava-lhe os comprimidos para o coração por simples mesinhas para a tosse. Matou-o. Fez-se justiça à maneira do puto. E o puto foi longe, na política, nas finanças, no empreendedorismo com que tanto enche a boca. Chamam-lhe filho da puta. É um puto. Ainda é um puto. Mimado, mal formado, mal educado, ambicioso e imbecil. E que, agora, já não rouba o papá mas um país inteiro. O pai está morto, vivam o país e os portugueses!

tudo para o galheiro

Por Luís Rainha

Andaram anos a dizer-nos que Portugal é uma família de moinantes que gastou muito mais do que podia. Acreditamos na fábula? Vamos então actualizá-la.

A família Coelho teve de cortar nos gastos. O pai reduziu por decreto contas de supermercado, mesadas, livros e inutilidades similares; até o tempo dos banhos. Mas os megafones da fábula tinham- -se esquecido de algo: muito do rendimento da família vinha do que vendiam uns aos outros. Sem clientes, o ginásio da filha fechou, a mercearia do filho emagreceu e o estaminé de venda de gás do genro esvaziou-se. O dinheiro lá de casa seguiu o caminho do dodó. Do alto da sua clarividência, opater familias nada disto imaginara. Sai nova invenção: “Vamos gamar o cheque da pensão do avô. De caminho, obrigamos o inútil do primo desempregado a dar-me um bom bocado do subsídio, antes que o gaste em parvoíces. E como os funcionários públicos são uma cambada de madraços, saquemos uns euros valentes à tia Ana.”

Os abrangidos torceram o nariz e foram fazer queixa às autoridades competentes. Meses volvidos, a sentença chegou: é feio roubar, ainda por cima sem olhar a quem, portanto devolva-se o esbulho. Reacção: o Coelho pai entrou em casa furibundo, a pontapear tudo e a culpar os tribunais por não entenderem o seu “contexto”. Depois de maltratar o cão, já de serrote em punho, rosnou: “Ai é? Então vamos lá cortar um rim, um fígado e umas córneas a esta tribo de chupistas. Vende-se aos mercados. Com tudo estropiado ou morto é que isto vai.”

Fim?

a fraude e a barafunda

Por Baptista-Bastos

Para o dr. Pedro Passos Coelho a culpa das nossas desgraças é sempre do "outro". Ele nada tem a ver com isso. De tal forma a desvergonha atinge o desaforo que, pouco depois de tomar posse, pediu desculpa aos portugueses pelos erros de... José Sócrates! Passos é virtuoso, paladino denodado do "interesse nacional", patriota indefectível e cuidador infatigável dos mais desafortunados. Di-lo sem escrúpulo e sem pudor, obedecendo a um breviário ideológico que se refugia na invocação constante, para justificar a sua acção, dos temas da modernização, da revisão geral das políticas públicas, da competitividade da economia e da racionalização das escolhas orçamentais - custem o que custarem.

A última do cavalheiro foi a de, pela segunda vez, tripudiar sobre as decisões do Tribunal Constitucional, depois de ter exercido, com um par de asseclas e a colaboração de alguma Imprensa, descaradas pressões de sobreaviso e de ameaça. O discurso de "desculpabilização", proferido antes de ir a Belém, solicitar os améns do dr. Cavaco, é um texto desacreditante, por indecoroso. O dr. Cavaco, naturalmente, deu-lhos, com transporte e unção. Porém, foi uma espécie de fita-cola política: o Executivo já não executa nada: é um cadáver que se contorce.

Afiançar que a coligação tem legitimidade para governar é um ardil. O dr. Cavaco sabe, melhor do que ninguém, porque dispõe de informação privilegiada, que a base social do PSD-CDS já não corresponde à que elegeu o Governo, há dois anos. E que o perigo que corremos, como nação e como povo, é iminente: a hecatombe não se compadece com o desejo insano de um grupo tresloucado.

Toda esta farsa perdeu um átomo de decência: não passa de uma cegada, sem graça nem elevação. E que dizer da excruciante intervenção de António José Seguro, de resposta ao discurso de Passos? Uma patacoada mal cerzida; e, se a compararmos com o primeiro programa de Sócrates, na RTP, um desastre pessoal, a arrastar consigo o próprio PS. Que alternativa à vista? Nenhuma, seriamente credível. Falta a Seguro o que sobra a Sócrates: fibra, coragem, convicção e intrepidez. E os movimentos de incomodidade, registados no PS, começam a transfigurar-se em repulsa.

A intervenção do antigo primeiro-ministro suscitou uma espécie de erisipela na Direita e algumas angústias metafísicas em sectores socialistas. Comparando-a com as conhecidas, é mais contundente e menos hipócrita do que as de Marcelo e as do seu epígono Marques Mendes. Quanto ao programa do dr. Sarmento, a pequenez deste ficou no estado natural, aumentando, contudo, a índole do seu carácter ressentido e rancoroso. Transformá-lo no contraponto de José Sócrates é um disparate pegado.

Nestes equívocos e imbróglios, nestas fraudes e nestas barafundas Portugal vai, tristemente, sobrevivendo.

vítor gaspar e passos coelho enlouqueceram e sequestraram o país




Por Daniel Oliveira

O ministro das Finanças instaurou, desde hoje, o Estado de Exceção em Portugal. Como forma de punir o País, sequestrou todas as instituições, proibiu todas as despesas, por mais pequenas que sejam, deixando todo o Estado paralisado de um dia para o outro. António Nóvoa, Reitor da Universidade de Lisboa, deixou apenas três exemplos: "ficamos impedidos de comprar produtos correntes para os nossos laboratórios, de adquirir bens alimentares para as nossas cantinas ou de comprar papel para os diplomas dos nossos alunos." Agora multipliquem isto por milhares. Pelos centros de saúde (apenas os hospitais ficaram de fora), escolas, repartições públicas, centros de investigação. O homem ensandeceu de vez.

A decisão do ministro é de tal forma insensata e perigosa, e é de tal forma evidente que se trata de uma manobra política para criar o pânico no País e assim impor a sua vontade, que se exige uma imediata intervenção do Presidente da República para repor a normalidade. A ver se fica claro: Vítor Gaspar e Pedro Passos Coelho não são donos de Portugal nem são donos do Estado. Não o podem usar para cercar os cidadãos e impedir o regular funcionamento do País.Não há, por causa dos 1.200 milhões de euros que agora estão em causa, nenhuma razão financeira que justifique esta decisão. É um ato de prepotência e chantagem política, através de um inacreditável abuso de poder, que não pode ficar impune.

Desta vez, Vítor Gaspar e Passos Coelho ultrapassaram todas as marcas. Se não houver uma intervenção de Cavaco Silva quer dizer que deixámos de viver num Estado Democrático e estamos sujeitos a todas as arbitrariedades que a inacreditável birra do governo nos quiser impor. Não resta outra solução se não correr imediatamente com esta gente do poder. Quem é incapaz de aceitar uma decisão de um tribunal e usa o poder de Estado para se vingar do País não pode continuar a ocupar cargos governativos.

diga à gente, diga à gente, como vai este país

Os últimos bonecos de http://wehavekaosinthegarden.blogspot.pt/. Certeiros, como sempre.





09/04/13

a graça de kelly





Fotografias: http://life.time.com

primeiro-mentiroso

Por Paulo Morais

Passos Coelho, quando candidato nas últimas eleições, prometeu o céu. Mas remeteu-nos ao inferno. Em campanha, tinha garantido que jamais aumentaria impostos.

Afiançou também que não seria necessário baixar salários, pensões e reformas ou retirar subsídios. O equilíbrio das contas públicas far-se-ia com a redução de gorduras nos setores intermédios do estado, a diminuição das rendas das parcerias público-privadas e, a longo prazo, com uma profunda reforma da Administração. Dois anos volvidos, conclui-se que Passos Coelho aplicou medidas precisamente opostas às que tinha prometido. Mentiu-nos, numa atitude em que foi acompanhado pelo seu parceiro de coligação. O CDS defendia a diminuição da carga fiscal, até chegar ao governo e se tornar cúmplice do seu agravamento.

O antecessor de Passos, José Sócrates, fez o mesmo. Prometendo não aumentar impostos, não tardou em fazê-lo quando subiu ao poder. Mais um mentiroso. Da mesma forma, Durão Barroso tinha anunciado, na campanha de 2002, um choque fiscal, com uma brutal redução de impostos. Mal tomou posse, a primeira medida tomada pela sua ministra das finanças, Manuela Ferreira Leite foi… aumentar impostos.

O comportamento de dirigentes que, deliberadamente, enganam o povo em campanha não é admissível. A democracia só é autêntica quando se contrapõem, nas eleições, projetos alternativos. Os eleitos devem-se sentir obrigados a honrar e implementar o programa vencedor. Não há desculpas para não cumprir, nem mesmo o desconhecimento da realidade concreta. Quem se candidata a lugares desta importância não pode revelar tamanha incompetência.

Com estas práticas de mentira reiterada, desacredita-se todo o sistema democrático. Os deputados votam leis contrárias ao programa a que se vincularam em campanha, violando assim a lealdade que devem aos seus eleitores.

Os partidos do arco do poder transformaram os processos eleitorais, que deveriam servir para o debate de ideias e confronto de projetos políticos, em circos de sedução em que acaba por ganhar quem é mais eficaz a enganar os cidadãos. As eleições transformaram-se em concursos para a escolha do melhor mentiroso. O troféu em jogo é a chefia do governo.

paspás às suas almas

Por Samuel

Não me lembro de alguma vez ter feito festa pela morte de alguém... mesmo quando, pessoalmente, poderia considerar ter motivos para tal. Daí que as notícias sobre os festejos a propósito da morte de Margaret Thatcher não me agradem... excepto um pormenor de génio, terrível no seu silencioso simbolismo: alguém que foi deixar um ramo de flores e uma garrafa de leite à porta da falecida ex-primeira-ministra, lembrando o facto de ter sido ela a cortar o fornecimento de leite às escolas, deixando milhares de crianças pobres sem o seu leite gratuito.

Na verdade, aqueles que sofreram na pele a paranóia fanática da “dama de ferro” não esquecem que foi ela a precursora de uma trágica viragem na política europeia moderna. Uma viragem para o neoliberalismo mais canalha. Para o egoísmo cego. Para a insensibilidade social. Para o recrudescimento da exploração selvagem.

Na verdade, por mais que os “cavacos” e os “passos coelhos” desta vida a venerem, há quem não esqueça que a megera foi uma espécie de Ronald Reagan de saias que, embora sem o poder bélico dele, era tão ou mais perigosa, por ser infinitamente mais inteligente que o idiótico fantoche dos “boys de chicago”, a matilha neoliberal que o dominava a seu belo prazer.

"Plagiando" (e adaptando) um locutor da velha Emissora Nacional dos tempos de Salazar, numa famosa piada de improviso e em directo na chegada da rainha Isabel II a Lisboa, piada que lhe valeu uma suspensão...

“Vai descer à terra a ex-primeira-ministra da Ingladita!”

desculpa passos, a culpa é nossa


Desculpa lá qualquer coisinha, ó Passos. A culpa da crise, do descalabro, da austeridade, é nossa e muito nossa. A culpa é de quem andou a viver acima das suas possibilidades. A culpa é de quem, embora ganhando um salário muito inferior aos praticados na maior parte da Europa "comunitária", viveu faustosamente e achou que tinha a crescer no quintal, na varanda, na banheira, vigorosa e inesgotável, uma gigantesca árvore das patacas. A culpa é dos velhos, que teimam em não morrer e que recebem pensões demasiado generosas. A culpa é dos doentes, que teimam em tratar-se. A culpa é dos estudantes, que teimam em querer ser alguém na vida. A culpa é dos funcionários públicos, essa turba de madraços. A culpa, já se sabe, é do Sócrates que inaugurou, em 6 curtos anos, estradas para nenhures, centros culturais, pontes, estádios, rotundas, empresas públicas, empresas satélites do Estado, empresas autárquicas, fundações e demais instituições que sempre souberam vir comer à mesa do orçamento. A culpa é de quem anda a culpar Oliveira e Costa, Duarte Lima ou Dias Loureiro pela cratera do BPN. A culpa é de quem anda a culpar a banca, os especuladores financeiros, os mercados, as bolsas, os ricos que estão cada vez mais ricos para que os pobres, felizardos, fiquem cada vez mais pobres. A culpa é de quem anda a culpar a Alemanha que, como toda a gente sabe, e se não sabe devia saber, foi vítima de duas grandes guerras no século passado que se viu forçada, coitada, a provocar. A culpa é também do Tribunal Constitucional e, em última instância, das leis e da democracia, que vos não deixam governar à vontade, decretar o aumento de quaisquer impostos que vos dê na real gana, o roubo de quaisquer salários que queiram surripiar, a redução de quaisquer direitos que achem exagerados, o corte de quaisquer serviços dedicados à causa pública. A culpa não é - definitivamente, não é - nem tua, nem do Gaspar, nem do Portas, nem do Relvas, nem de nenhum dos santos desse altar a São Bento, onde milhões de velas bruxuleiam, tantas quantas os portugueses atingidos, muitos já de morte, pelas vossas medidas. Os vossos esforços para salvar o capital são meritórios. O povo que pague a crise. Ou não tivessemos andado, bem entendido, a viver como nababos, esbanjando o vosso rico dinheirinho, nunca o nosso, em bens supérfluos como supérflua é a nossa vida, somos gente reles e indolente, carne para canhão, meros parafusos da máquina de produzir dinheiro, os novos escravos do século XXI. Desculpa lá qualquer coisinha, ó Passos. Tens razão em desprezar-nos. As tuas mais-valias são outras. O teu futuro sorrirá. Fora de Portugal, esta eterna piolheira.

08/04/13

a exploração está na moda


Esta reportagem passou há dias num dos nossos canais de notícias. Armando Ortega, o homem mais rico de Espanha e um dos mais ricos do mundo, é o dono da Inditex (leia-se Zara, Pull & Bear, Massimo Dutti, Bershka, Stradivarius, Oysho, etc.). Vende barato porque produz barato. Recorrendo a trabalho infantil, longuíssimas jornadas de trabalho em antros onde nem os ratos deviam viver, abusos contra uma população disposta a tudo por um pedaço de pão, até a morrer lentamente. 

atirem-lhes bolos


Desde que começou a crise provocada pela banca - e as consequentes medidas de austeridade para roubar ao povo o dinheiro que faltava ao capital - a Europa já produziu 26 milhões de desempregados, o equivalente a quase três países com a população de Portugal atirados para a indigência.

a passos e ao cambalacho, põe cavaco a mão por baixo


Cavaco é desta opinião e da contrária se preciso for. Ora é contra o governo ora o protege desde Belém, com frémitos de mãe babosa. Ora diz umas coisas acertadas (poucas) ora titubeia dislates (muitos). E é assim que este povo, e não será desta que aprenderá a lição, entrega de mão beijada o poder a pequeninos seres entretidos com os seus afazeres, os seus prazeres, os seus interesses sempre mesquinhos, os interesses da classe que os pariu. Assim seja. Que pague o justo pelo pecador. 

a um passos do abismo

Imagem: http://henricartoon.blogs.sapo.pt/

après moi, le déluge


Erguem-se mais e mais vozes indignadas com a forma como Passos Coelho, querendo virar o feitiço contra o feiticeiro, está a culpar o Tribunal Constitucional por reprovar medidas ... inconstitucionais, ameaçando com mais cortes no Estado Social (leia-se: cortes aos depenados) e com o apocalipse. Não sei qual é a surpresa. Do homem que mentiu como mentiu e que tem governado contra o povo, sempre contra o povo, em favor do grande capital internacional, espera-se tudo. Até tirar olhos. Pedro Passos Coelho é um ser insignificante, como político e governante. E como ser insignificante deixará a sua marca em Portugal. Trágica. Relvas já se foi. Coelho quererá alimento, seguir-lhe-á os passos. Mas só depois da obra feita, aquela para a qual, com estratagemas, mentiras, intrigas, engodos vários, foi eleito. Que venha o dilúvio.

tribunal constitucional - o bode expiatório

Por Tomás Vasques

O governo colheu, em três dias, a grande tempestade formada pelos ventos que andou a semear durante quase dois anos. Na quarta-feira, o PS formalizou, através da apresentação de uma moção de censura, a ruptura completa com o rumo escolhido por Vítor Gaspar e Passos Coelho para o país tirar o pé da lama. Para trás, ficaram os tempos, não muitos distantes, da “abstenção violenta” com que o maior partido da oposição votou o Orçamento do Estado de 2012 ou a recusa de António José Seguro em envolver-se no pedido de inconstitucionalidade de normas do orçamento do ano anterior. Este distanciamento do PS foi, em grande parte, motivado pela arrogância do governo. Na quinta-feira, Miguel Relvas, o homem que transportou ao colo Passos Coelho até à liderança do PSD e, depois, até primeiro-ministro, como o próprio afirmou, e que tinha por missão coordenar o governo, foi obrigado, literalmente, a demitir-se por causa das irregularidades da “sua vida académica”, apesar das patéticas justificações que engendrou numa conferência de imprensa. Foi Passos Coelho que deixou arrastar, até apodrecer, o “caso Relvas”. Finalmente, na sexta-feira, como era previsível, para a generalidade da opinião pública e publicada, sobretudo tendo em conta decisões anteriores, o Tribunal Constitucional declarou a inconstitucionalidade de algumas normas do Orçamento do Estado em vigor. O Orçamento é da competência do governo, o Tribunal apenas verifica a sua conformidade com a lei, aliás a pedido, entre outros, pelo próprio Presidente da República. Se o governo já estava moribundo, sobrevivendo com a respiração boca a boca feita por Paulo Portas e ligação ao ventilador de Belém, a partir de sábado entrou em estado de coma.

A declaração de inconstitucionalidade de algumas normas do Orçamento do Estado, que paradoxalmente, parece ter apanhado o governo desprevenido, tem vários méritos, sobretudo na situação em que vivemos e no estado em que a Europa se encontra. Primeiro, revela uma prova de vida da nossa democracia, apesar das suas debilidades estruturais, que tanto se devem a governantes, que tomam o freio nos dentes como se o acto eleitoral legitimasse todos os desmandos, como a governados que abdicam dos seus direitos e deveres de participação democrática na vida pública; segundo, é uma excelente oportunidade para o governo mudar a política da “austeridade custe a quem custar”, que nos pauperiza em vão, afastando-nos cada vez mais do cumprimento dos nossos compromissos internacionais; terceiro, mostra à Alemanha (e ao FMI) que não chega ter uma duquesa de Mântua do agrado de Berlim para fazer da lei alemã a nossa cartilha; é preciso, também, que a medida do ajustamento que nos é exigido se conforme com a legalidade democrática e com a Constituição da República portuguesa, com o mesmo respeito que o governo alemão tem pela sua Constituição. Só assim é possível a difícil situação em que nos encontramos.

Contudo, é preocupante que um governo - este ou qualquer outro - num Estado democrático, perante uma decisão do Tribunal Constitucional, em linha com jurisprudência já firmada, sacuda a água do capote e atribua a outros responsabilidades que só ao governo cabem, como se o Orçamento tivesse sido elaborado no Palácio Ratton ou como se a nossa Carta Magna fosse alinhavada nas reuniões da troika com o ministro das Finanças. A encenação dramática feita pelo governo, no sábado, correndo para Belém, e a declaração do primeiro-ministro, no Domingo à tarde, atribuindo ao Tribunal Constitucional todos os males dos insucessos do governo, revelam bem a incapacidade do governo reconhecer o falhanço das suas políticas e de ter ignorado, com arrogância, por mais de uma vez, a Constituição da República, numa tentativa de a alterar por “facto consumado”.

Este governo está esgotado, mas vai manter a mesma linha de afundamento do país, com custos pesados para Portugal. Nesta situação, o que de pior nos pode acontecer é o líder do maior partido da oposição cair na tentação de repetir a fábula que Passos Coelho contou ao país, em 2011: que eleições antecipadas e um novo governo seriam suficientes para resolver a crise financeira e económica em que nos encontramos. Portugal precisa de um novo governo, mas sobretudo de soluções realistas e consistentes.

Fotografia de Patrícia de Melo Moreira/AFP (http://www.jn.pt)

o pré-aviso de demissão do governo

Por Ana Sá Lopes

A “narrativa” já está pronta para o dia em que o primeiro-ministro anunciar ter chegado “ao limite das suas forças” o que, a avaliar pela comunicação de ontem, não deve faltar muito. O governo estava a fazer tudo bem, cumpria os compromissos com “os nossos credores”, não falhava um número, um objectivo e uma estratégia, estava cheio de cuidados a atravessar a floresta, e depois veio o lobo mau e comeu-o.

O lobo mau tem diferentes personalidades: o que foi mais directamente visado foi o Tribunal Constitucional, que se recusou a suspender a Constituição em nome do mandamento de que “em tempo de excepção as nações podem precisar de respostas excepcionais” [sic]. Falando a partir de um Olimpo imaginário, Passos Coelho decidiu tomar-nos a todos por parvos e desfiou um rosário de bondades e sucessos do programa da troika, apenas posto agora em causa por causa do famigerado Tribunal Constitucional.

Mas há também o lobo mau de Belém que cometeu a indelicadeza de utilizar um dos seus poderes - aliás, cheio de timidez, porque o deveria ter feito previamente - que foi o de enviar o Orçamento do Estado para fiscalização sucessiva. O lobo mau de Belém também não esteve à altura das “circunstâncias excepcionais”, pelos vistos, e Passos decidiu fazer-lhe uma visita inopinada num sábado à tarde para obter um comunicado gélido onde o lobo mau de Belém escreveu o óbvio ululante: o governo mantém legitimidade política. Ao ameaçar ontem que o programa da troika vai para o espaço sem o “compromisso duradouro” dos “órgãos de soberania” e dos “partidos do arco da governabilidade”, o chefe de um governo detentor de maioria absoluta traça o seu destino e escreve a narrativa a apresentar depois. A culpa da queda do governo - e do segundo resgate, que não precisava dos juízes para se fazer anunciar - é do Tribunal Constitucional, do Presidente da República e do maior partido da oposição que assinou o Memorando e recentemente descolou.

A vitimização de Passos Coelho foi um espectáculo pouco edificante. O primeiro-ministro já só está em funções em corpo - o espírito já voou para outras paragens. Aliás, do ponto de vista do interesse meramente partidário, é mais útil ao PSD demitir- -se já, desencadeando eleições antecipadas - enquanto o PS não está suficientemente forte - do que daqui a dois anos, com tudo de pantanas, Portugal igual à Grécia e o risco de pasokização nas urnas. Já ninguém precisa de gritar “demissão já”. O primeiro-ministro já a interiorizou.

Fotografia: Mário Cruz/Lusa (http://www.ionline.pt)

o triunfo do cansaço

Por Viriato Soromenho-Marques

Numa célebre conferência sobre o inquietante destino da Europa, proferida em 1935, o grande filósofo judeu Edmund Husserl advertia: "O maior perigo da Europa é o cansaço." Ontem, o discurso do primeiro-ministro (PM) espelhou uma zangada fadiga. Em vez de usar a independência do Tribunal Constitucional (TC), traduzido no seu acórdão contra o OE, como um argumento de legitimidade democrática perante os credores, o Governo prefere transformar o TC no bode expiatório dos resultados negativos de uma governação que assumiu com alma e coração o ultimato dos credores em vez do interesse nacional. Ao recusar reconhecer que os maus resultados dos indicadores económicos se devem à falta de lucidez política e ao improviso técnico do programa de ajustamento, o PM mostra bem como o risco de falência que ameaça Portugal envolve não só as finanças públicas, mas as próprias instituições e valores democráticos. Ao longo dos últimos dois anos, este Governo desperdiçou todas as oportunidades de participar com voz própria no debate sobre o futuro da Zona Euro, tentando contribuir para uma frente de países capazes de fazer face à Alemanha e seus aliados. O Governo Merkel já mostrou que não percebe a força das razões. Seria necessário mostrar-lhe as razões da força em favor dos interesses europeus comuns. Mas nada disto acontece. Em Lisboa, mas também em Madrid, Paris e Roma, parece não existir um único estadista. O PM pede, ameaçadoramente, um consenso para continuar numa rota que consiste em colocar Portugal a fingir- -se de morto, sem pestanejar, perante as abomináveis exigências do diretório. Na fadiga da política, alimenta-se a crise com um novo e perigoso vigor.