o triunfo do cansaço

Por Viriato Soromenho-Marques

Numa célebre conferência sobre o inquietante destino da Europa, proferida em 1935, o grande filósofo judeu Edmund Husserl advertia: "O maior perigo da Europa é o cansaço." Ontem, o discurso do primeiro-ministro (PM) espelhou uma zangada fadiga. Em vez de usar a independência do Tribunal Constitucional (TC), traduzido no seu acórdão contra o OE, como um argumento de legitimidade democrática perante os credores, o Governo prefere transformar o TC no bode expiatório dos resultados negativos de uma governação que assumiu com alma e coração o ultimato dos credores em vez do interesse nacional. Ao recusar reconhecer que os maus resultados dos indicadores económicos se devem à falta de lucidez política e ao improviso técnico do programa de ajustamento, o PM mostra bem como o risco de falência que ameaça Portugal envolve não só as finanças públicas, mas as próprias instituições e valores democráticos. Ao longo dos últimos dois anos, este Governo desperdiçou todas as oportunidades de participar com voz própria no debate sobre o futuro da Zona Euro, tentando contribuir para uma frente de países capazes de fazer face à Alemanha e seus aliados. O Governo Merkel já mostrou que não percebe a força das razões. Seria necessário mostrar-lhe as razões da força em favor dos interesses europeus comuns. Mas nada disto acontece. Em Lisboa, mas também em Madrid, Paris e Roma, parece não existir um único estadista. O PM pede, ameaçadoramente, um consenso para continuar numa rota que consiste em colocar Portugal a fingir- -se de morto, sem pestanejar, perante as abomináveis exigências do diretório. Na fadiga da política, alimenta-se a crise com um novo e perigoso vigor.

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