20/02/16

da imprevisibilidade do mundo

Imagens esquecidas da National Geographic.

GILBERT H. GROSVENOR, NATIONAL GEOGRAPHIC
LACK STAR, NATIONAL GEOGRAPHIC
LUIS MARDEN, NATIONAL GEOGRAPHIC

os deleites de anália

A Dona Anália é, dizem-me, boa pessoa. Vai à missa, confessa-se, persigna-se por tudo e por nada, por dá cá aquela palha, leva uma vida regrada, foi mulher de um só homem, nunca o encornou nem em pensamento. E a Dona Anália é profundamente do contra, o que só lhe fica bem segundo o marido que Deus tem. Casamento gay? É contra. Interrupção Voluntária da Gravidez? É contra. Eutanásia? É contra. Aumento do salário mínimo? É contra, ela que não tem onde cair morta e cuja pensão tem vindo a diminuir a olhos vistos, os remédios que devia tomar quedam-se pela farmácia, os vegetais que devia comer ficam no supermercado, bebe um chá que a fome passa, a dor vai-se. É que a Dona Anália não pensa só nela, não é egoísta e muito menos invejosa, sabe que um país sem ricos dos mais ricos que pode haver, apaparicados pelo Estado de forma a criarem empregos e pagarem salários, por mínimos que sejam, é um país condenado à fome e a malfeitorias comunistas, um dos horrores deste mundo de Cristo. A Dona Anália detesta o Costa, não é dele que gosta mas do Coelho, esse bom homem, bonito como uma estátua de Miguel Ângelo, a voz de Coelho fá-la vibrar por dentro e suar por fora. O doutor Coelho, que tanto se esforçou por pôr as contas do país na ordem, para virem agora os socialistas, mais uma vez, estragar tudo. Mais e melhor Educação? E o dinheiro? Mais e melhor Saúde? E o dinheiro? Menos impostos para os mais desfavorecidos? Aumento de pensões? Tomara ela, mas onde está o dinheiro? Do que o país precisa é de empreendedores que ofereçam estágios a esta juventude sem tino nem rumo, que ponham rapazes e raparigas - meu Deus, que a gente já não distingue uns das outras! - a trabuquir por uma bucha, que a Dona Anália toda a vida comeu o pão que o diabo amassou e esta gentalha está mal habituada, desordeiros que só na rua é que estão bem, ora se drogam na via pública ora se manifestam avenida fora, querem pão sem ter razão, querem este mundo e o outro, o cu e três vinténs, cavar na vinha e no bacelo. 

Se Salazar ressuscitasse e Coelho governasse é que era o bom e o benito. Um deleite para a Anália. Que é, dizem-me, boa pessoa.

19/02/16

propaganda gratuita

O Coelho comporta-se como um cão raivoso. Atira-se ao Costa e à esquerda de Costa como toiro tresmalhado, diz o que lhe vem à cabeça, totalmente desfasado da verdade e da realidade, diz as mentiras do costume mas agora com desusada veemência. É dor de corno. São as ganas de continuar a ir ao pote. As suas clientelas não ficaram satisfeitas, querem mais. Coelho faz o seu papel, de direitinha desvairado, já não me espanta nem me consegue irritar. O que me indigna é a subserviência da comunicação social, que lhe bebe as palavras e as vem despejar em cima de nós, em cada bloco noticioso, de meia em meia hora. É que já nem faço zapping. Desligo. Não consumo. Não me consumo com os dislates de um ser menor. Passos que lhes pague o tempo de antena. Eu deixei de lhes contribuir nas audiências e na receita publicitária.

18/02/16

os camelos e o papa

Têm-me enojado - é a palavra, não há outra -, aqueles que, abominando o pensamento e a palavra do Papa Francisco, mesmo assim se apressam a declarar-lhe a sua devoção. Pura hipocrisia agora desmascarada. De visita ao México, o Papa irritou-se com uma criatura que o ia fazendo cair. Foi o bastante para que os devotos de ontem se tornassem os detractores de hoje. Caiu-lhe a máscara, gritam ufanos profanando as suas próprias declarações de admiração pelo homem que ocupa e bem, talvez pela primeira vez na História da Igreja, o cadeirão papal. Quer-me cá parecer que, a quem caiu a máscara, foi a esses nefastos pecadores. Os mesmos que, por cá, elogiam Passos, esse sim um santo. Os mesmos que apupam Costa, o demónio em forma de gente. Os mesmos que, a existir Deus e castigo divino, não terão cabidela a Seu lado. Mais facilmente subirão camelos ao reino dos céus.


15/02/16

dos porcos não reza a história

Cerca de oitenta. Dizem as notícias. Foram manifestar-se para o Martim Moniz. Contra a invasão islâmica. Contra os políticos traidores. Acrescento eu: por uma pátria de branquelas, sem negróides nem outras raças inferiores, de monhés à mourama. A vitória é difícil. E nunca será deles. Os oitenta, unidos, serão sempre vencidos. Nunca chegarão a bom porco. Derrota ou morte. Mais vale do que tal sorte.

Fotografia: http://24.sapo.pt/



e eu sou o bonaparte, juro!

E eis que António Costa, aquele que ficará para a História com o cognome de O Usurpador, conseguiu, em poucas semanas de governação, arruinar um banco inteirinho, mandá-lo para o galheiro, escafedê-lo para não dizer pior. Isto não se faz ao Pedro. Ele que, como Cavaco, fez tudo, tudo, tudo bem. Ele que, como Cavaco, não tem telhados de vidro. Ele que, nem Cavaco, mente tão bem, tão completamente, que a gente nem o desmente porque já não vale a pena o frete. É um caso irremediável. Patológico. Perdido.


14/02/16

e se alugassem antes as mãezinhas?

Madame Bijou, fotografia de Brassai
Foi por obra e graça de Ricardo Araújo Pereira que tropecei na trampa. Não que RAP tenha culpa, antes lhe agradeço ter-me dado conhecimento de mais este passo acelerado para a degradação das condições laborais das novas gerações: existe uma firma que aluga estagiários a empresas interessadas em mão-de-obra barata, mas só se for mesmo muito barata. A coisa funciona assim: a Work 4 U (http://www.work4u.org/) angaria recém-licenciados à procura do primeiro emprego. As empresas que recrutem jovens por esta via pagam à W4U um determinado montante (95 euros mensais por cada cabeça "contratada") e, aos estagiários, ao critério do "empregador", uma "atençãozinha" para "ajudinha" nos transportes e alimentação. Acresce ao lucro da W4U, e passo a citar, "uma taxa paga pela pessoa que quer fazer parte da nossa bolsa de candidatos a estágio."

Como costuma dizer uma muito querida amiga minha, "o negócio faz-se até com cascas de alho". Ou com a exploração desmedida dos infortúnios de cada um, graças às práticas neoliberais e à consequente desvalorização do mercado laboral levada a cabo por Coelho e pelos seus parceiros internacionais do FMI e da Europa que já foi humanista e que, agora, quer sustentar os povos a alpista, que pão e laranja são luxos insuportáveis.

Os lídimos representantes do empreendedorismo pátrio, tão ao gosto de Coelho, que formaram a W4U e  que se deviam antes dedicar ao comércio a retalho de outro tipo de carnes, tentam justificar no seu site a sua excelsa actividade. Queixam-se dos ataques de que têm sido alvo. Não acreditam que colocar jovens desesperados a trabalhar à borla, e obtendo lucros com isso, possa ou deva ser condenado seja por quem for. Eles dedicam-se, com uma virgindade verdadeiramente angelical, à prática do bem sem olhar a quem.

Mas, o melhor, será ler o excelente artigo de RAP, publicado na última Visão. O humor é uma arma. E RAP um atirador certeiro.